José Silva Lopes, o economista que agora desapareceu, não era um homem tranquilo. Profundo conhecedor da realidade económica portuguesa, pouco dado a edulcorar os factos, notava-se que vivia inquieto com as fragilidades estruturais endémicas do país e que isso o angustiava. Se havia alguém no mundo económico cuja palavra eu gostasse de ouvir, mesmo que dele pontualmente discordasse, essa pessoa era Silva Lopes. E, em Portugal, se a independência tinha uma cara, essa cara era a sua.
Sendo uma figura pública marcante nos anos da Revolução, só vim a conhecer melhor José Silva Lopes ao tempo em que ambos coincidimos em Londres, nos anos 90, quando ele era representante português junto do BERD. Ouvi-o então com grande proveito, por várias vezes, na serena e fundamentada análise que sempre fazia das questões económicas.
Já em Portugal, tivemos mais contacto ao tempo em que ele chefiava o Conselho Económico e Social. Nesse domínio, desenvolveu um trabalho muito profundo sobre a integração europeia de Portugal, tendo eu tido o ensejo de nele colaborar, a seu convite, como membro do governo do setor. Era um privilégio escutar a sua perceção informada sobre o processo de adesão, tanto mais que Silva Lopes fizera parte dos precursores desse movimento.
Começa a ser um lugar-comum dizer das pessoas desaparecidas que fazem falta. Mas, sendo bem verdade, como o é para José Silva Lopes, trata-se apenas de uma constatação óbvia.
