quarta-feira, 1 de abril de 2015

Memorabilia diplomatica (XIX) - Das mentiras

O rapaz espreitou pela porta e o chefe de repartição lançou-lhe, do fundo da sala, num tom um tanto impaciente: "Entre! Entre! Ó Torquato!".

Voltando-se para o embaixador português na Mauritânia, sentado no sofá a seu lado, esclareceu: "O Torquato está cá há uns meses, é do último concurso de adidos". E olhou o adido: "O Torquato conhece o senhor embaixador Gameiro, que está em Nouakchott, não conhece?", com o Torquato a rumorar que sim.

O Torquato, embora simpático, era do género displicente e algo descuidado, gravata permanentemente descaída, um ar de quem anda ali por favor, a quem tanto se dá estar na carreira diplomática como viver à custa dos vastos rendimentos da família, cujo "social" lhe espreitava no nome e lhe permitia alguma subliminar cobertura de membros da hierarquia da casa. Entrara para a carreira quase por acaso, num bambúrrio do concurso. Era useiro e vezeiro em chegar tarde e a más horas ao serviço, passava o dia agarrado ao cigarro, a ler o jornal esticado num sofá, sendo de uma lentidão exasperante na execução das escassas tarefas de que era encarregado.

"Ó Torquato, você chegou a falar com o ministério dos Assuntos Sociais, sobre a questão do acordo sobre segurança social com a Mauritânia? Aqui o senhor embaixador Gameiro precisa de saber em que ponto o assunto está."

O adido, com um ar um tanto ausente, explicou que tinha telefonado duas vezes, que não tinha obtido qualquer informação sobre o estado do projeto de acordo, mas que ia ligar de novo.

"E com quem falou você lá?", inquiriu o chefe, já em tom levemente inquisitivo.

O Torquato embrulhou-se numas explicações menos convincentes, tão pouco plausíveis que delas quase se deduzia que, na realidade, não tinha mesmo tratado do assunto.

"Está bem, está bem! Vá lá ver isso já e diga-me alguma coisa à tarde. Sem falta!", com o rapaz a desaparecer, aliviado, pela porta.

O chefe explodiu: "Desculpa lá, pá! Este tipo é um mentiroso! Já não é a primeira vez que o apanho nestas patranhas", comentou, desalentado, o chefe. "Mandaram-mo aqui para a Repartição e agora não me consigo livrar dele."

O embaixador visitante tentou moderar a irritação do amigo: "Ó homem! Deixa lá! Também não tens a certeza se o rapaz mentiu. Até pode ter tentado telefonar..."

"Estás muito enganado! Este tipo é tão mentiroso que nem sequer se pode acreditar no contrário daquilo que ele diz..."

(Reedição de historietas da diplomacia por aqui já publicadas)

2 comentários:

Majo disse...

~
~ ~ «Ao mentiroso nada vale falar verdade»

~ ~ Adapta-se, perfeita e infelizmente, às atuais cúpulas de S. Bento.
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Bartolomeu disse...

Está-se mesmo a ver que a progressão na carreira, levou o Torquato a ser nomeado para o cargo de Embaixador de Portugal, em Portugal. Um cargo de mentira num país de mentira... mesmo talhado à medida para o diplomata.
Agora... está aqui um incomodativo insecto a atasanar-me ao ouvido: - Pergunta ao Senhor Seixas se lá no "berçário" das Necessidades o Torquato era o único... mentiroso.
;) ;) ;)
- Cala-te inseto... aches que ía colocar uma questão desse tipo ao Senhor? Nem pensar!