segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Jardim


Está a chegar ao fim a era madeirense de Alberto João Jardim. Para alguns com alívio, para outros com nostalgia.

O Portugal democrático teve de conviver com este notório fenómeno político, sempre imprevisível e incontrolável, gestor eficaz de uma permanente chantagem face ao poder lisboeta, que "toureou" (a palavra é a que acho mais adequada) com maestria, mesmo que ele fosse da sua própria cor política, num jogo ultra-autonomista que flirtou q.b. com o separatismo, sempre que achou adequado manejar esse fantasma. Jardim construiu na Madeira um modelo de governo com traços sul-americanos: keynesiano na fórmula, autoritário no procedimento, com o serviço público nas mãos da política, frequente desrespeito pelos direitos democráticos dos adversários, muitas vezes no limiar do estrito cumprimento dos cânones jurídicos mínimos. Lisboa acobardou-se sempre perante a Madeira, como que considerando o seu bizarro regime como politicamente inimputável. Tendo como finalidade absolvidora a obra que ia fazendo, deu espaço para que prosperassem à sua volta, com laivos de ascensão nepotista, "to say the least", figuras de baixo jaez, seus fiéis escudeiros e executores. Sejamos claros: não foi politicamente saudável aquilo que se passou na Madeira nas últimas quatro décadas.

A Madeira de hoje, depois de Jardim, não se compara à que ele herdou? Claro que não, mas este tipo de juízo é sempre ilusório, porque nunca poderemos medir o que teria acontecido se outro tivesse sido o modelo de governo da ilha, se a Madeira tivesse sido servida por um líder de diferente natureza, por exemplo, similar àqueles que dirigiram, também com eficácia e menos conflitualidade, os Açores.

Agora que a minha experiência política e diplomática faz já parte do passado, posso revelar que, no plano pessoal, estabeleci, de há muito, uma relação de grande cordialidade com Alberto João Jardim. Esse entendimento foi iniciado nos tempos europeus, nomeadamente na nossa "guerra" comum em defesa dos direitos particulares das "regiões ultraperiféricas", um dossiê a que me dediquei com grande afinco, durante alguns anos. O facto de Portugal ter sido o principal e reconhecido responsável, em 1997, na negociação do Tratado de Amesterdão, pela criação da primeira base jurídica em tratados europeus que viria a permitir a mobilização orçamental para aquele tipo de territórios valeu-me fortes louvores pessoais de Jardim, que também contou com o nosso forte empenhamento nos esforços necessários para obter as verbas necessárias à extensão do aeroporto da Madeira. Ao longo dos anos, da parte de Alberto João Jardim, só recebi atenções e manifestações de simpatia, o que não me coibiu nunca de manter uma visão muito crítica sobre o modo como politicamente dirigiu a Madeira.

Um simples episódio pode ajudar a compreender a nossa relação. Um dia, eu combinara com Alberto João Jardim juntar, num almoço em Bruxelas, os membros portugueses ao Comité das Regiões que, por uma qualquer razão, ele à época coordenava. A data foi fixada com grande antecedência, mas eu tivera de me deslocar à Irlanda na véspera, onde fora obrigado a pernoitar. Assim, saí de Dublin bem cedo e, via Londres, consegui chegar a Bruxelas ao final da manhã. Entrei no restaurante combinado (creio que era o "Au Vieux Saint Martin", no Petit Sablon), com mais de meia hora de atraso face à chegada dos meus convidados. Alberto João Jardim permitiu-se deixar cair uma nota irónica sobre esse meu atraso. Encaixei e, com o decorrer do almoço, fiz menção ao percurso que fizera nessa manhã. Notei que, num instante, ele se apercebeu do esforço que eu tivera de fazer para cumprir aquilo a que com ele me comprometera e me disse, sinceramente penitenciado: "Peço-lhe imensa desculpa, não tinha entendido o trabalho que teve para poder estar aqui agora" E mais surpreendido ficou ainda quando lhe revelei que, logo que acabado o almoço, estaria um automóvel à minha espera que me iria levar à Alemanha, a Petersberg, onde nessa noite eu acompanharia António Guterres a uma reunião europeia que se anunciava decisiva. Jardim "acordou" para o que ouvia: "Mas, então, veio a Bruxelas apenas para estar neste almoço de trabalho connosco?" Ao confirmar-lhe que sim, o presidente do governo regional da Madeira terá finalmente entendido que o "sinistro" governo socialista do "continente" tinha, afinal, um sentido de Estado bem maior do que ele pudera supor.

Não sei o que Alberto João Jardim vai fazer da sua vida, depois de sair da Quinta Vigia. Com a maior sinceridade, desejo-lhe todas as felicidades pessoais e que goze uma boa reforma, muito embora esse conceito jogue menos bem com um homem como ele.

17 comentários:

Anónimo disse...

Gostei muito do seu post. Só não achei bem comparar o Dr. Alberto João Jardim com o Dr. Mota Amaral.
Enquando o governante da Madeira fez TUDO o que podia pela Madeira (mal ou bem, depende da opinião de cada qual), o dos Açores não fez quase nada, até houve estagnação. Basta vizitar a Madeira e os Açores e ver a diferença.
Acho que o Dr. Jardim deveria ter tido uma postura mais discreta.
VW

Reaça disse...

Alberto Jardim foi, a par de outros o exemplo máximo de como se destroi um país.

Fazer túneis que nem para lagartixas têm utilidade.

Com certas auto estradas sucede o mesmo no rectângulo.

Quando se endivida à tôa para encher o cu a dois ou três deputados empreiteiros, e diz que alguèm pagará, até admira como apenas Sócrates está em Évora.

Quando faz inaugurações de 20 metros de asfalto com prazos eleitoralistas e grandes festas (prazo:para ontem)e que encarecem 10 vezes e o dinheiro vai para o Jaime Ramos, Agrela e ainda faz discursos alcoolizado, é fazer do povo, burro com orelhas enormes.

Câmaras que nem freguesias deveriam ser, tornam a Madeira a zona do Mundo com mais funcionários do Estado por cada Metro quadrado.

Alberto Jardim é imoral, e foi por vingança que sempre insultou os "cubanos".

A vingança principal foi porque os cubanos quando vão aos bordados só querem saber e abusam das bordadeiras.

Mal por mal disse...

Meninas à sala, cagaço que grande chumaço o do Ronaldo!

Anónimo disse...

Nos Postos onde me apareceu, trouxe consigo e ofereceu-me um excelente Vinho Velho da Madeira!
Embora possa subscrever o que aqui escreveu, pessoalmente Alberto João era um tipo bem disposto e educado.

Anónimo disse...

Difícil mesmo é poderem compreender o que os madeirenses sentem que devem ao Presidente Alberto João. Eu nunca seria do PSD, nem nunca felizmente votei na minha terra. Mas percebo, que quem viveu uns anos largos na Madeira antes do 25 de Abril entende o modo como o Alberto João pedia os votos ao povo. Lembrava-lhes sempre o "antes", e o "depois". É um homem esperto, que esteve no terreno Terra/Mar aonde as comunidades emigrantes tinham peso na economia familiar dos que ficavam na ilha.
Ficou tempo demais... isso foi um dos males. Foi o político português que melhor aproveitou a adesão à CEE. Quando recebe o corpo diplomático, os convidados no fim do ano, ou agradece alguma coisa é um grande Senhor. Aliás, o povo madeirense, não é tão culto como o dos Açores, mas é cosmopolita e hospitaleiro. Pena que os deputados na AR, tenham tido direito uma vez por ano a viagens às Regiões Autónomas, e nem tenham posto lá os pés antes de o criticarem e ao "povo burro" que o reelegeu anos a fio. Há muito mais que explicaria o fenómeno Alberto João. A própria configuração rochosa da ilha, aonde de quando em vez lá aparece uma Fajã... da Areia, do Mar... sempre com pouca terra chã, e muito mar. Obrigada Alberto João!!!

patricio branco disse...

não é homem para estar inactivo e alheio à politica. não deve sabe fazer mais nada. poderá talvez querer ocupar um lugar na ar, poderia mesmo quem sabe pensar candidatar-se à presidência, tudo é possível com ele.
sai no dia 12 de janeiro, terminam 37 anos de jardinismo, e vai ter o desgosto e sofrer a derrota de ver miguel albuquerque na presidencia do psd madeira (tudo indica que será ele).
fica no entanto um território muito desenvolvido, moderno, cheio de infraestruturas de toda a ordem, necessárias e que não tinha, uma terra onde já não se transportam os doentes e os mortos às costas pelas montanhas abaixo ou acima por não haver estradas a chegarem à maioria das povoações e casas difíceis de alcançar, onde já não se demoram 8 horas para ir do interior ou da costa norte até ao funchal, uma madeira onde se respira um ar europeu e cosmopolita, uma excelente zona turística.
ajj já devia ter saído há uns 4 ou 5 anos, não ter concorrido às ultimas eleições, não pelos resultados, que conseguiu ainda maioria absoluta, mas para dar o lugar a outro companheiro e porque praticava já um jardinismo forçado, triste, arrastado, cansado.
de sublinhar ainda a sua independência em relação aos diversos governos centrais ps ou psd, ao psd nacional, tambem em relação ao actual pr, etc
ficará na historia da madeira, sem duvida, e mais pelas boas razões e coisas uteis que fez que pelas más.
enfim, um homem que passou grande parte dos seus mandatos a conviver directamente com a população, conversando, ouvindo, dizendo graças, tomando copos e petiscando, também brigando por vezes, mas nada do politico distante e altaneiro, protegido por guarda-costas. e que visitava anualmente até há poucos anos as comunidades madeirenses no estrangeiro, venezuela, australia, africa do sul, convivendo com eles e convencendo-os a investirem na madeira.
curiosidade em ver o novo ciclo que vai começar...
a sua ultima ida à assembleia regional para o debate do orçamento ficou manchada inutilmente ao chamar rafeiros aos deputados da oposição, os srs são é uns rafeiros. podia ter aproveitado para fazer uma correcta despedida. foi feio.
um homem polémico, claro, mas dedicado à terra e gente que administrou e governou

Anónimo disse...

= Alberto João sempre foi um grande jogador de King e Xadrez.

Silva.

Reaça disse...

Quem não consegue explicar onde foi gasta a massa é porque roubou, ou é irresponsável com os impostos do povo, ou é incompetente para governar, ou o povo que o elege vendeu-lhe o voto.

Jardim é o exemplo que jamais vai permitir que os portugueses alguma vez aceitem a regionalização no Continente.

Os regionalistas não exitariam de fazer o que Jardim fez: comprou os votos do povo com tachos , tachinhos e tachões todos estes anos.

E agora a dívida? como é? Toca a emigrar como há 500 anos.

Anónimo disse...

O que fez Jardim: Com o dinheiro que ia do "Contenente" alguma coisa...e governando muita gente.
O que vai fazer quando reformado: Bailar o "bailhinho" da Madeira.
Quando há naufrágio, os ratos são os primeiros a abandonar o navio...

Anónimo disse...

Cala-se a voz rouca de Joe Cocker: astro do rock morreu aos 70 anos.

EGR disse...

Senhor Embaixador: pela minha parte só lamento que o Dr. Jardim não tenha enveredado pelo separatismo e tornado a Madeira independente.
Teria poupado a mim, e a todos os portugueses, os milhões- de contos e de euros- com que durante essas tais decadas se permitiu fazer o que todos sabemos; além disso, caso fosse responsavel de um governo estrangeiro, não me teria certamente brindado com todos os insultos em que a sua linguagem política era farta.
Também não teria, pela certa,chantageado os governos do meu país, nem teria feito gala dos seus desfiles carnavalescos, ou daquelas festas que o seu partido organizava anualmente.
Do mesmo modo ser-me-ia relativamente indiferente o seu desprezo pela Assembleia Legislativa da Região, e não teria jamais sido membro do Conselho de Estado do meu país.
Enfim, para mim só teriam havido vantagens na independencia do "reino" do Dr. Jardim.

Anónimo disse...

Gosto do " Vieux Saint-Martin", do seu "pied de porc à la bruxelloise" ou da "omelette aux crevettes grises" antecedidos de um "bol de caricoles" ou de uns "crocquettes de crevettes". O Stilton é bom. A Jupiler não é má mas os vinhos poderiam ser melhores e mais baratos. Já o disse ao dono, o Sr. Niels.
JPGarcia

Bordadeiras à sala disse...

As meninas enlouqueceram com o Chumaço do Ronaldo

ARPires disse...

Não sendo eu do PSD, bem pelo contrário, tenho que fazer justiça ao Dr. Alberto João Jardim.
Quando fui à Madeira pela primeira vez, ainda se demorava 1 hora e tal do aeroporto ao Funchal, hoje a mesma distância faz-se em 15 minutos.
Só isto para ilustrar o quanto este homem fez pelas suas gentes.
Quem dera que alguém do mesmo calibre e coragem tivesse feito algo de parecido por Trás os Montes e Alto Douro e então quem sabe não estaria a escrever este comentário a partir de Oeiras.
Se esteve tempo de mais no poder, claro que sim, pois já devia ter deixado a presidência do governo regional há muito tempo.
Agora que está de saída, vai deixar o poder entregue a alguém que o mesmo entende e vê, como "inimigo" o que não vai deixar de ser visto como a grande "estocada" no jardinismo. Sobre Miguel Albuquerque só tenho que lhe desejar o melhor, pois dele tenho uma agradável experiência que jamais esquecerei.
Um dia de visita à Madeira e em plena cidade do Funchal, da qual era nessa altura presidente da Câmara, este senhor com uma grande humildade se nos dirigiu e perguntou se queríamos que nos tirasse uma foto! Agradecemos e ali ficamos por momentos em amena cavaqueira a trocar umas breves impressões sobre a politica local, regional e nacional.
Chegou a fazer uma oferta para uma visita ao jardim botânico, que por razões atendíveis não aceitamos mas que fomos visitar da mesma forma pagando as respectivas entradas.
Para nós o gesto foi tudo e ainda hoje recordamos e não esqueceremos nunca. Em pouco se vê muito e nas pequenas atitudes se pode avaliar o carácter dos homens.
Para mal da oposição nomeadamente do PS, acho que a Madeira ficará bem entregue no pós jardinismo, se for Miguel Albuquerque a tomar conta do governo regional, o que tudo indica que sim que vai ser ele.
Por uma questão de justiça, tinha que deixar aqui expresso este comentário em abono de alguém por quem tenho grande consideração e uma maior estima.

Reaça disse...

Os custos derrapados e nunca explicados que são «incalculáveis» para o próprio Jardim, é que fazem deste português um político da pior espécie igual a muitos que a cultura abrilista criou.

Quem dera que políticos que fizeram os túneis da Madeira, a Expô de Sacavem e os Campos de Futebol nunca tivessem nascido.

No caso dos túneis além de nunca se saber os custos «derrapados» criaram problemas ecológicos tais como as últimas inundações de ribeiras que derrubaram casas e mataram gente.

Além de que a maioria dos túneis não serve nem o turismo nem as bananas nem as lagartixas.

Mas para quem nunca teve nada, ter uma piscina no quintal em pleno inverno é status, paciêrncia!

Mal por mal disse...

As bananas da Madeira já tèm a sua estátua.

Falta uma estátua para o Jaqué e outra para Ronaldo.

patricio branco disse...

Foi sem duvida um perito em aproveitar os fundos comunitarios que couberam à ram, um bom administrador do que lhe era atribuido.
verdade, como diz um comentador, que ir do aerioporto ao funchal era uma desagradavel e incómoda odisseia, curvinhas e subir e descer numa estrada estreita,ainda há uns 15 anos atrás. hoje tudo isso é história. o mesmo para a odisseia de ir do funchal a s. vicente na costa norte, passando por ribeira brava, um horror; hoje, um prazer facil.
os tuneis e as estradas foram totalmente necessarios numa ilha altamente montanhosa