segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

As praxes e os militares

Há uns meses, o país indignou-se com a tragédia do Meco e, por umas semanas, discutiu as praxes. Depois, com a cobardia das autoridades universitárias, tudo voltou mais ou menos ao mesmo. Deparei, há uns tempos, com um grupo de energúmenos (significativamente da mesma universidade) a humilharem colegas no jardim do Campo Grande, em Lisboa. Dias depois, numa noite chuvosa e fria de Viana do Castelo, assisti a práticas idênticas. Porque a violência, mesmo "consentida", é crime, senti-me tentado a chamar a polícia. Desisti da ideia, pela certeza da inutilidade do gesto.

Há dias, a televisão trouxe-nos o caso de práticas violentas ocorridas nos Pupilos do Exército, bem documentadas e sem margem para quaisquer dúvidas. Trata-se do quarto caso, em duas semanas. Há décadas que estas denúncias ocorrem, sempre seguidas de "rigorosos inquéritos" de cujos resultados ninguém mais ouve falar. Há como que uma aceitação tácita deste tipo de agressões, protegidas por uma espécie de "omertà" que silencia as crianças e protege os agressores, com muitos pais cúmplices dessa atitude.

É pena que a imprensa não siga este caso com atenção, não deixando que ele caia no esquecimento. É triste que a hierarquia militar se cale, por um aparente corporativismo castrense que a não dignifica. E se a Associação 25 de Abril, cujos membros tanto se bateram pela democracia, se interessasse pelo assunto, provando que a liberdade não se perde ao atrevessar a porta de armas das instituições militares?

13 comentários:

patricio branco disse...

esplendida ideia, que a associação 25a se preocupe com isso das praxes nos estabelecimentos militares, cabe perfeitamente no seu papel, ou caberia...

José E. disse...

As praxes tem uma génese de submissão social e religiosa que não desaparecerá de um dia para o outro,vamos caminhando nesse destino.Entretanto, uns pares de estalos nessa canalha mais lôbrega e atrevida, sempre nos acalmava os humores.Estalos pedagógicos, para as almas sensíveis

Portugalredecouvertes disse...


é de lamentar que a proteção das pessoas deixe passar situações revoltantes,
ficam marcas graves nos jovens e nas famílias, e o descrédito das instituições e das tradições

Angela

domingos disse...

Nas instituições militares norte-americanas também se passam fenómenos semelhantes. É o caso dos famigerados "red codes". Dir-se-ia que há uma necessidade de cultivar certos tipos de violência para manter a eficácia da "máquina". Também o Estado Novo soube aproveitar-se muito bem da violência das "praxes" para criar o sentido da obdiência e do "respeitinho".

Anónimo disse...

A questão da violência consentida faz-me sempre pensar no sadomasoquismo. É proibido, também?

Joaquim de Freitas disse...

Domingos disse: " Nas instituições militares norte-americanas..... há uma necessidade de cultivar certos tipos de violência para manter a eficácia da "máquina". Claro !

Mas isso explica as torturas de Abu Grahib , no Iraque, e Guantanamo, onde mesmo as mulheres participaram "à festa" da tortura e explica também o assassinato semanal dum Negro, jovem de preferência, nos USA, por policias brancos, e a violência generalizada em muitos aspectos da vida americana.

Anónimo disse...

O comentário do Joaquim de Freitas só teve uma coisa boa: foi curto. Não consigo imaginar a tortura que teria sido se o disparate que ele escreveu se tivesse espraiado por cinquenta linhas.

Joaquim de Freitas disse...

Ao anonimo das 09:31 :

A mediocridade obriga ao anonimato .. a não ser que seja a insuficiência intelectual e a da coragem.

Anónimo disse...

Joaquim de Freitas,

Na ausência de argumentos inteligentes que sustentem o que escreveu, remete-se a fait divers ao nível da discussão de café. O nível mantém-se, portanto.

Joaquim de Freitas disse...

Respondo com prazer à sua falta de informação.

Nos EUA a violência está ligada à construção da nação americana e à sua cultura. Depois dos crimes do KKK , no sul, a violência urbana actual, crescente, exprime um desespero, uma alienação e toma a forma definitiva duma autodestruição que parece desafiar toda forma de controlo.

O tráfico da droga e a livre circulação das armas estão em aumento constante em territórios abandonados pela administração e o resto da sociedade.
Muitas pessoas vivem nestes enclaves, marcados e caracterizados pela existência no seio da população dum forte sentimento comunitário, e onde a democracia urbana está em queda livre.
A violência é assim o último modo de expressão, o ultimo recurso enviado por estes "affranchis" ao resto da América.

O contexto histórico, politico, económico dos EUA oferece uma explicação simples: a sede e a capacidade de enriquecimento individual sem precedente a partir dos anos 8O, o alargamento do abismo separando os abastados daqueles que estão privados do capital económico, social e cultural, a ausência de regulação e de proposições construtivas dum Estado endividado e conservador, o desaparecimento dos valores humanistas e integradores anunciam tempos sombrios com uma espiral de violência essencialmente urbana.

Durante a guerra do Iraque e Afeganistão, era nestes ghettos de miséria que os recrutadores do exército americano iam procurar a carne para canhão . Nas ruas de Detroit eram dezenas de sargentos encarregados do recrutamento , sobretudo de Negros e Latinos que, sem trabalho normal, aceitavam as propostas de "emprego" .

Os autores de muitos crimes de guerra sobre a população iraquiana saíram destes ghettos de miséria. Habituados à violência, treinados para exercer a violência, é impossível de pretender que as humilhações físicas e psicológicas , infligidas pelos GI's , a milhares de iraquianos foram danos colaterais! Aquela mulher GI, Lynndie England, puxando pela trela um homem completamente nu, no solo de Abhu Graïb , ou a imagem doutro pobre homem, a quem impuseram uma cueca feminina, em frente do seu filho, é a prova que dum país onde o humanismo desapareceu se pode esperar o pior.

"Mas era preciso amolecer o moral dos prisioneiros iraquianos para que o interrogatório seja mais fácil!" Era a palavra de ordem do exército americano. Mas sem dúvida que a esse preço, os prisioneiros vendiam o pai e a mãe!, segundo a vontade americana.

Talvez agora compreenda melhor o que significava o meu comentário precedente.

Joaquim de Freitas disse...

Na sequência do comentário precedente:


Coincidência : EUA elevam segurança na véspera de relatório sobre torturas cometidas pela CIA. Quando não se tem a consciência tranquila !

O Senado dos Estados Unidos deve divulgar nesta terça-feira (09/12) um polêmico relatório sobre o uso de tortura pela CIA em interrogatórios de pessoas suspeitas de ligação com a rede terrorista Al Qaeda, depois dos atentados de 11 de Setembro.
A provável publicação levou os Estados Unidos a elevar o nível de segurança em suas embaixadas ao redor do mundo, por temer que as revelações gerem uma onda de indignação e fúria, principalmente em países árabes.
A senadora responsável pela divulgação, Dianne Feinstein, é democrata, assim como o presidente Barack Obama. Segundo a Casa Branca, Obama é favorável à divulgação do relatório. Mesmo assim, o secretário de Estado, John Kerry, alertou na semana passada para o impacto que o documento poderá ter.

O relatório cobriria o tratamento dado a cerca de cem suspeitos, detidos em operações ocorridas entre os anos de 2001 e 2009, durante o governo do presidente George W. Bush. Os detentos teriam sido submetidos a torturas, tanto na prisão de Guantánamo, em Cuba, como em prisões secretas da CIA espalhadas pelo mundo.
A CIA usou estas técnicas de interrogatório várias vezes durante dias e durante semanas", afirmou o relatório.

Os detidos foram atirados contra paredes, despidos, colocados em água gelada e impedidos de dormir durante períodos de até 180 horas. De acordo com o documento, o detento Abu Zubeida, um alegado membro da Al Qaeda detido em finais de março de 2002 no Paquistão, após ter sido submetido a simulações de afogamento de forma repetida, "tinha espuma saindo da boca" e estava quase inconsciente.

Só não sabe quem não quer saber!

Joaquim de Freitas disse...

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse esta terça-feira que os países ocidentais correm o risco de perder a sua «autoridade moral» com o uso da tortura.

David Cameron fez o comentário a propósito da publicação de um relatório do Senado dos Estados Unidos sobre as técnicas de interrogatório utilizadas pela CIA aos detidos após os atentados de 11 de setembro de 2001.

«A tortura é um erro, é sempre um erro. Todos nós queremos ver um mundo mais seguro, queremos ver derrotado este extremismo, não triunfaremos se perdermos a nossa autoridade moral e aquilo que converte os nossos países num êxito», disse David Cameron, numa conferência de imprensa conjunta com o primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu, em Ancara.

Anónimo disse...

E, pronto, não nos safámos do inevitável testamento freitista.