domingo, 13 de março de 2011

Opções

De há uns anos para cá, à medida que me dei conta da real complexidade de algumas questões, fui deixando de ter uma opinião firme, "de café", sobre certas temáticas que dividem o país.

Por exemplo, não faço a mais leve ideia se Lisboa precisa ou não de um novo aeroporto e, em caso positivo, se ele deve ir para a Ota ou para Alcochete. Também não tenho opinião sobre a necessidade de uma nova ponte sobre o Tejo, como também a não tenho sobre o TGV, dado que já vi argumentos definitivamente convincentes sobre teses diametralmente opostas, quer em relação à iniciativa em si, quer quanto aos cenários de construção possíveis. E eu sei lá se, em matéria de policiamento, deve haver super-esquadras ou unidades de proximidade! E será que os centros de saúde devem fechar à noite ou não?

Alguns conhecidos, ao verem-me "fugir" deste debates polarizados, devem achar que estou a fazer um "número" e que, lá no fundo, o que eu quero é reservar a minha opinião, na busca de me manter consensual e não polémico. Enganam-se redondamente e só provam que não me conhecem bem.

Com toda a sinceridade, devo dizer que ganhei este estado de progressivo "agnosticismo", sobre um número cada vez maior de temáticas "fraturantes", quando passei pelo governo do país e aí percebi que as grandes questões, sobre as quais todos somos chamados diariamente a ter uma opinião "impressionista", têm, na realidade, uma elevada complexidade, muito superior àquela que o simples tratamento mediático permite acompanhar. Foi isso, e nada mais, que me foi conduzindo a uma cada vez maior humildade opinativa. Mas que fique bem claro que não pretendo que esta minha atitude seja a correta. Cada um que pense por si.

Porém, devo dizer que muito me surpreendo que haja alguns "génios" que, nas colunas ou nos écrans, falam de tudo com ar de cátedra, do trânsito ao futebol, do défice à literatura, do ambiente à fiscalidade. Feliz pátria que tais filhos tem! E crédulo país que ainda os ouve.

Vem isto hoje a propósito do Japão, do maremoto e, por via dele, da energia nuclear. A chamada opção nuclear é já um tema vetusto em Portugal. Há anos que se discute se devemos, ou não, construir centrais nucleares. O debate já teve dimensões de radicalidade político-ecológica que o tornaram quase tabu, para, depois de isso, e por "luas" de opinião, voltar a reaparecer, com maior serenidade. Já ouvi a voz ponderada de um técnico competentíssimo, como Nuno Ribeiro da Silva, explicar que a relação custo/benefício dessa opção, para um país como o nosso, é profundamente errada. Há semanas, jantei em Paris com o empresário de sucesso Patrick Monteiro de Barros, que, com números e argumentos fortes, garante exatamente o contrário. 

Em que ficamos? Melhor, onde fico eu? Em nenhuma parte, devo confessar. Se a tragédia conjuntural do Japão me leva a aumentar as dúvidas sobre a opção nuclear em Portugal, país de onde não estão afastados riscos muito sérios em matéria sísmica, bem como a total ausência de respostas credíveis para o futuro dos dejetos, a verdade é que nós já temos uma forte ameaça nuclear, com as centrais espanholas aqui ao lado, com as eventuais radiações num desastre a não respeitarem fronteiras. E se o petróleo for por aí acima em matéria de custos? E se as energias renováveis se confirmarem limitadas na sua produção? E se o custo de exploração delas (eólica, fotovoltáica, maremotriz) se provar economicamente irracional? Se os riscos já existem aqui ao lado, e não podem ser evitados, porque não optar por ter essa energia? Mas, por outro lado, não há um limite claro na contribuição possível da produção nuclear para o nosso consumo total, que, aliás, tem custos de investimento muito elevados? E como superar o debate que iria levantar-se sobre a localização das centrais, ao lado do qual o caso da co-incineração iria parecer uma brincadeira de crianças? É que, num país com a nossa dimensão, o chamado efeito NIMBY ("not in my backyard") tem um peso ainda mais importante.

Mas, afinal, sou ou não a favor do nuclear em Portugal? Sei lá! Uma vez mais, não tenho opção.

Não deixa de ser angustiante, mas ao mesmo tempo dá-me um grande sossego, pensar que, cada vez mais, só falo daquilo de que julgo saber alguma coisa. O resto, deixo para os sábios figurantes do "Prós e Contras".

16 comentários:

jj.amarante disse...

Na história recente tenho constatado que quando se começa a falar mais em montar uma central nuclear em Portugal ( como nos anos 70 do séc.XX) ou (com menos insistência) no princípio da primeira década do século XXI, entramos em crise financeira grave e constatamos que não temos dinheiro.

Helena Oneto disse...

Vous êtes un sage, Monsieur!

juliomoreno@sapo.pt disse...

Gostaria de poder dar-lhe, com um pouco de mais ênfase e de tempero estilístico, o meu total acordo com o que aqui escreve e descreve.
Porém, como não sei, limito-me a dizer: - Duzentos por cento consigo, Senhor Embaixador!

Anónimo disse...

O mais espantoso é supor que todas essas questões tenham alguma a ver com outra coisa que não seja o interesse (o lucro ou a falta dele)de quem as defende ou combate.
Mas há hoje alguma coisa em Portugal que se decida pela sua racionalidade? E será só em Portugal? Santa ingenuidade...

Anónimo disse...

Se algum dia cair um avião em Lisboa, quem defende o actual aeroporto "morre" também... (cairam no passado alguns perto de Paris, felizmente que o aeroporto era longe da cidade).
Sobre as centrais nucleares, se o poder as defende que as construa bonitas e de arquitectura arrojada em Belém, junto à presidencia, tem àgua com fartura para funcionar e o sinal seria inequivoco sobre a ausência de riscos...

Guilherme Sanches disse...

Caramba! Se a minha opinião tivesse algum valor decisório (nos casos citados, anote-se) eu seria exatamente da mesma opinião e da opinião contrária.
Um abraço

patricio branco disse...

Uma central nuclear na zona de belem, essa está boa!
A queda dum avião ao aterrar ou levantar num aeroporto como o de lisboa, tambem é um bom tema de reflexão. Quando passo na 2a circular, a barriga deles quase roça o carro.
Mas há outros perigos, com outras formas de energia. Na frança e na suiça ouve na década de 50 dois terriveis acidentes com grandes barragens que rebentaram.
Franco, que era ditador e caudillo mas que nalgumas coisas de desenvolvimento tinha visão, construiu centrais nucleares em espanha, nos anos 60.
Um divertido livro sobre isso é el alquimista impaciente do espanhol lorenzo silva.
Enfim, existe algo de seguro 100% neste mundo?
Ter opiniões firmes e definitivas é só para os comentadores de televisão que não têm responsabilidades práticas de administração e ganham bem para irem lá falar. Concordo com FSC quando diz "sei lá!"
Eu, só sobre o tgv, já mudei 3 vezes de opinião e agora tenho uma que não está contemplada em nenhum dos projectos!

Anónimo disse...

A sabedoria... a sabedoria, meu caro Embaixador!

cdlt

C.Falcao

Duarte disse...

Caro conterrâneo (permita que o trate assim):

Estou de acordo com o genérico do seu comentário.
Há um ponto, no entanto, está um pouco deslocado.
Explico melhor: os centros de saúde abertos ou fechados à noite.

Não é a mesma coisa um centro de saúde com 40 médicos e outro com 3 médicos!

Um exemplo: o Centro de Saúde de Santa Marta de Penaguião deve ficar fechado. Porquê? Porque aberto teria de ter um médico, um enfermeiro, um administrativo e um auxiliar, para observarem, em média, um doente por noite e depois enviá-lo para Vila Real. Fica mais barato uma ambulância levá-lo directamente ao Serviço de Urgência Hospitalar de Vila Real e, principalmente, o doente é muito melhor assistido, com (quase) todos os meios necessários.
Obviamente que que um centro de saúde grande, assistindo uma população significativa e longe do centro hospitalar deve ficar aberto.
Há estudos que definem claramente estas situações.
Pensando sempre no benefício dos doentes.

Porque falei disto?
Lá está, como sintetiza, porque só gosto de debitar opiniões daquilo que sei ou, pelo menos, julgo saber.

Quanto ao nuclear acompanho as suas incertezas e dúvidas, mas é certo que vivo com a central nuclear de Almaraz, mesmo aqui ao lado!
Se "rebentar" estou "depenado".

Para terminar, o seu blogue é um tratado de sabedoria!

Anónimo disse...

O Sr. Embaixador acaba por focar um ponto importante desta deriva que assola o nosso País. Estamos CHEIOS de génios que de tudo falam e de tudo sabem!, com a proeza de defenderem hoje uma posição e amanhã o seu oposto.
Temos em Portugal génios com duas bocas e uma orelha eu gostava de ter génios normais, com uma boca e duas orelhas.

Eduardo Antunes

patricio branco disse...

houve

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador como eu o compreendo, pertencendo como pertenço, a uma família de iluminados, onde todos sabem tudo o que eu não sei...
E o problema é que desde o Pai aos Filhos todos sabem muito há muito tempo.
Quanto aos Prós e Contras, felizmente só um deles é que lá vai. E eu, por sanidade mental, nunca vejo o programa. É que dá pele de galinha!
Mal por mal vejo a telenovela brasileira...e, confesso, descansa-me mais!

Anónimo disse...

Corroboro na íntegra o post.

Quem sou eu para opinar quando temos tantos "fazedores de opinião" na comunicação social, assim como os bem designados "sábios figurantes do "Prós e Contras"".

Apenas sou uma fervorosa defensora do actual aeroporto porque vivo a 7 € de distância (bagagem incluída), mas escusado será contar a doçura dos taxistas das chegadas quando digo o destino... E não me "safo" melhor nas partidas :)

Isabel BP

EGR disse...

Senhor Embaixador: permita-me que me junte ao grupo dos que ficam perplexos com o que se ouve e acabam sem opinião depois de tanta sabedoria derramada.
EGR

Anónimo disse...

claro...
Isabel seixas

jj.amarante disse...

Quando Patrick Monteiro de Barros se propôs fazer uma central nuclear em Portugal, alegando que não precisava de qualquer apoio dos cofres públicos, sugeri-lhe no seminário da FIL que fosse construir a sua central para Espanha, visto ser um tão bom negócio privado. Indirectamente beneficiaria o nosso país pois dada a forte interligação eléctrica entre os dois países a boa performance da sua central do outro lado da fronteira certamente se reflectiria em melhores preços no MIBEL (Mercado Ibérico de Electricidade), aproveitando também a infraestrutura legal e regulamentar já existente em Espanha. Agora que o crescimento do consumo na Ibéria continua algo anémico e visto que o Engº Pedro Sampaio Nunes insiste, com dúbio sentido de oportunidade, nas enormes vantagens e grande segurança das centrais nucleares mesmo em caso de terramoto, sugiro-lhe que redireccione os ímpetos de investimento do Sr. Patrick Monteiro de Barros para o Japão, país que ficou agora com falta de energia nuclear e onde as suas propostas serão certamente acolhidas com grande entusiasmo. Nós por cá, que já gastámos tanto dinheiro em obras públicas, certamente teremos imenso a ganhar em evitar estas obras alegadamente privadas.