terça-feira, 14 de julho de 2009

Palma Inácio (1922-2009)

Há menos de uma semana, aqui em Paris, falei longamente sobre Palma Inácio com Mário Soares. Comentámos que a sua vida daria um belo filme. Acabo de saber que morreu hoje, na data mais revolucionária da França. O dia da Tomada da Bastilha é um dia bonito para Palma Inácio morrer.

Confesso que sempre tive uma grande admiração por Hermínio da Palma Inácio, como uma das grandes figuras da resistência ao salazarismo. Tive o feliz ensejo de lho dizer, há já bastantes anos, dele recebendo um agradecimento de grande modéstia. Desde jovem, lutou intensamente pela liberdade, tendo estado envolvido em imensas tentativas de sublevação. Foi preso e violentamente torturado pela PIDE, com um comportamento de grande dignidade na cadeia. A foto que ilustra este post recorda a sua saída de Caxias - a saída dos presos políticos, a seguir ao 25 de Abril, que foi atrasada precisamente porque o general Spínola não queria Palma Inácio em liberdade. E porque os outros presos não queriam sair sem ele.

Mário Soares contou, nessa bela noite de memórias em casa de amigos comuns, algumas histórias curiosíssimas sobre as suas relações com Palma Inácio. Entre as quais, o dia em que teve de escondê-lo em casa de José Fernandes Fafe, na linha do Estoril, depois de uma das suas épicas e legendárias fugas da prisão.

Durante muito tempo, o facto de Palma Inácio ter sido o chefe do grupo que assaltou a filial do Banco de Portugal, na Figueira da Foz, fez convergir na sua pessoa uma ignominiosa imagem de alguém que se havia apropriado, para finalidades pessoais, do dinheiro então obtido. Esse era o objectivo insultuoso que o regime ditatorial dele quis dar à opinião pública. Porém, quem conhece a história da oposição ao Estado Novo sabe bem que Palma Inácio foi um homem sério, que nunca utilizou essas verbas em seu proveito e que viveu sempre com grandes dificuldades, devotado às causas políticas em que acreditou. Mas terá sido essa miserável "fama" a razão que atrasou a atribuição de uma merecida Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, com que o presidente Jorge Sampaio o agraciou em 2000.

Leia mais sobre Palma Inácio aqui e aqui.

14 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador, Palma Inácio nas funções que teve na Tap não ganhava propriamente mal!
Faz cada vez mais falta à memória de todos nós portugueses conhecermos a vida daqueles que apelidamos de heróis. E, quando digo "conhecer", falo em objectividade. De um lado e do outro. Daqueles que louvam e daqueles que criticam. Porque a verdade nunca é só uma.
Para que não exaltemos só um dos lados dos combatentes pela liberdade - eu estava no Banco de Portugal à época dos acontecimentos citados - há que saber que esta palavra pode ser usada em multiplas versões. A história é pródiga do que afirmo.
Se me permite,compreendo perfeitamente a coragem do seu louvor. Espero que na sua indiscutível sensibilidade, compreenda a posição de quem viveu por dentro, aquilo que outros passaram em consequência do golpe da da Figueira e já cá não estão para se defenderem.

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador espero que me não tome por uma desfazedora de orbituários.

João Antelmo disse...

Há pouco, um amigo cineasta que privou com "o Palma" dizia-me que ele podia ter sido um excelente autor. Podia, acrescentarei eu, ser o actor do papel-título de um filme chamado "As aventuras de Palma Inácio". E que aventuras!
Em 75 ou 76 contou-me uma estória deliciosa: Estava preso na Santé, depois de ter desertado, julgo que por estar ilegal em Paris.
Ora, na prisão havia uma espécie de mafia chinesa ou vitnamita que "controlava" o monopólio de um negócio que consistia em pregar botões em camisas que para ali eram enviadas por uma firma de roupa. Acontece que o pagamento desta actividade era paga ao botão.
Palma Inácio, excelente mecânico que era, deu tratos à sua veia de inventor e, com uma pequena placa de madeira e quatro preguinhos situados de forma a coincidir com os buracos dos botões, improvisou uma "máquina de pregar botões". Um grupo de presos portugueses entrou rapidamente em concorrência com os asiáticos e...deu-lhes cabo do negócio.
O pior estava reservado para o Palma, a quem só o físico imponente e o seu grupu constituído em corpo de guarda-costa pouparam o espancamento ou mesmo, segundo ele, o esfaqueamento.

Francisco Seixas da Costa disse...

Dra. Helena Sacadura Cabral:

O assalto ao Banco de Portugal, que eu saiba, não foi um ataque contra alguém dentro do Banco de Portugal. Sei que houve gente no Banco que sofreu pelas consequências do evento, mas isso não tem rigorosamente nada a ver com Hermínio da Palma Inácio. Ou tem ?

Helena Sacadura Cabral disse...

No entanto, foi considerado por alguns como responsabilidade de quem não o evitou.
Quanto ao resto, claro que não foi contra ninguém do Banco. Sempre lhe confesso que teria preferido que tivesse sido um banco privado o visado.
Mas, se por azar da vida, lhe assaltassem a Embaixada, por muito louváveis que pudessem ser as razões, não gostaria que o defendessem?
Eu defenderia, com certeza!

JSilva disse...

Muito gostam de fazer crer os grandes heróis deste país como senhores supremos,para vós L.U.A.R. não vos diz nada? É menos um terrorista que vivia à conta de muitos que ainda estão na politica desde o atabalhoado 25 de Abril de 74,não sou saudosista muito menos palerma para fazer crer que tudo vai bem,isto só lá vai com uma surpresa quando esta republica tiver completado os 100 anos de casa,depois falamos...

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador não quero monopolizar este espaço. Mas todas as vezes que o visito não deixo de me surpreender. E, confesso-lho, cada vez o respeito mais.

Bento Freire disse...

Palma Inácio - que já não está cá para se defender - foi um combatente, um romântico e um Homem de coragem.
Era "bigger than life", sempre o foi, no caso da Figueira como no desvio do avião da TAP, na LUAR e no PS.
Claro que houve pessoas que foram prejudicadas e sofreram incómodos em razão das suas acções. Mas as revoluções e a luta contra as ditaduras não costmam ser jantares de gala.
Honra à sua memória.

João Antelmo disse...

Depois do assalto ao BP, o grupo liderado por Palma Inácio dirigiu-se ao aérodromo de Cernache onde estava o avião em que fugiu.
No aérodromo estava apenas um guarda, acompanhado pela mulher e por uma filha ainda bébé.
Palma era, obviamente, um cavalheiro e um homem de sensibilidade, preocupado com as pessoas afectadas pelas suas decisões.
À chegada, por motivos evidentes de segurança, preparou-se para imobilizar o guarda e a mulher, ganhando assim o tempo necessário para se pôr em fuga.
Começou, está claro, pelo homem mas, entretanto, a criança chorava. A mãe, prestes a ser amarrada a uma cadeira como o marido já estava, esclareceu que a criança chorava por ter fome e ser a hora da mamada.
O feroz assaltante de bancos, embora àquela hora já todo o aparelho policial (incluindo a PIDE) já estivesse mobilizada e em polvorosa, esperou pacientemente o tempo necessário, que lhe deve ter parecido uma eternidade, para que a criança acabasse de mamar, porventura assistiu ao arroto de satiafação da infante sentada ao colo da mãe devidamente presa à cadeira, e só então, já com os sacos das notas dentro da avionete, levantou vôo.
"Bigger than life, indeed".

Anónimo disse...

O Palma Inácio foi um opositor ao “regime bafiento” de características bem diferentes. Um aventureiro romântico que admirei. O homem tinha coragem e era, como aqui deixam transparecer João Anselmo e Bento Freire, um cavalheiro. Combateu um regime que não só era autocrático, como grotesco. Prender alguém por ser diferente politicamente já é condenável, prender por razões dúbias, imbecis torna-o grotesco. Quando era miúdo, em meados de 60, vivendo Porto, meu pai “desapareceu-nos”, em duas ocasiões, levado pela Pide, a mesma que sustentava o regime do caquéctico oligarca e perseguia o Palma. Tinha uma fábrica metalúrgica, no Carvalhido, onde empregava, na altura, uns 200 operários. E como lhes “dava por baixo da burra” mais uns “cobres” a “título de assistência social particular”, a Pide, que tinha por lá gente infiltrada, prendeu-o por causa disso! E por lá ficou umas 2 noites, sem autorização para nos contactar. Lá apareceu em casa depois desses dias, com a barba por fazer, etc. Um par de anos depois, voltou à “prisa” pela mão da mesma Pide, agora porque, tendo-se registado uma greve (que se estendera a quase toda a Metalúrgica no país), não a denunciara ás “autoridades competentes” (vulgo Pide) e não chamara a polícia (de choque). Como também se recusou a dar nomes de “líderes” da greve, lá foi de novo para os calabouços da Pide do Porto, por “aparente conluio, ou tentativa de encobrimento de um acto subversivo”. Por uns dias e noites. Lá nos voltou a aparecer numa lástima. Cada vez que me lembro disto e juntando aquilo que o regime do homem de Santa Comba representava e no estado de atraso e isolamento em que nos deixou, só podia regozijar-me com homens como Palma Inácio. Um tio-avô meu, tio João, irmão do meu avô do Douro, comentava, anos depois, sobre o assunto, com esta “tirada”: “pena que o Palma não tivesse apanhado o biltre a deitar milho ás galinhas no seu quintal de S.Bento e o tivesse depois lançado ao Tejo!”. Nem mais.
P.Rufino

nuno disse...

Este post das poucas referências que li em blogues a um dos lutadores contra a o regime dictatorial que mais admiro.

Em vez de fazer reuniões a discutir teses de Moscovo ou a justificar a invasão das Checoslováquia, Palma Inácio efectivamente combateu o regime com golpes bem fundos.

O facto de não ter apego ao poder nem se ter queixado pela forma como foi tratado pelo regime democrático, faz com que ainda lhe tenha mais admiração.

Paz à sua alma e os meus sentimentos aos que lhe são próximos.

Anónimo disse...

Oh Diabo, temos aqui um patusco. Bom, LUAR, mesmo com pontinhos faz-me lembrar uma noite de Lua cheia. Designar Palma Inácio por “terrorista” é uma ofensa ao cavalheiro, que ainda por cima não se pode defender. Terroristas (sem aspas) eram aqueles homúnculos da Pide que prendiam e torturavam gente, a mando do Velho Reaccionário, só porque discordavam politicamente dele, por exemplo, como atrás referi. Palma Inácio nunca matou, feriu ou roubou ninguém. E morreu pobre. O dinheiro do tal assalto ao BP não lhe foi cair nos bolsos. É certo que o Malholas de Santa Comba fez crer o contrário com a máquina propagandística que tinha ao seu dispor. É normal os ditadores manipularem a verdade e assim sucedeu neste caso. Quanto ao 25 de Abril ter sido “atabalhoado” prefiro tomar a designação como não ofensiva à data ilustre, pois, a História tem-nos ensinado que nisto de revoluções ás vezes há algumas confusões. Acontece, mas cá para mim, o saldo foi positivo. Quanto ao hoje, há várias opções no “cardápio” político para cada um escolher como lhe aprouver (e há de tudo, grandes, médios, pequenos e minúsculos Partidos. E muitos). E quem não quiser, também pode ficar em casa, riscar o voto, deixar em branco, que não vai preso. Já “no outro tempo”, até os mortos votavam. Um velho tio-avô meu, Tio Domingos, “votou” já depois de ter falecido (para espanto total da nossa família! Até parecia Milagre, ou não fosse aquele parente um agnóstico!). Assim o decidiu um qualquer pateta por ele. Era assim aquele Regime, que se não fosse condenável, era caricato. Mas, prefiro, “by far”, este, herdeiro do tal “atabalhoado 25”, do que “aqueloutro” a cheirar a incenso e mortificador das nossas liberdades, durante 40 anos que teve a ousadia de ter durado. Bem sei que JSilva não é saudosista, como o diz. Ora temos pois algo em comum. Agora fiquei, confesso, foi deveras “assustado”, mas simultaneamente “curioso” com a “profecia” que deixou para quando se vier a comemorar os 100 anos da “Res Publica”. Que se irá passar? Será que o Belenenses se sagrará Campeão Nacional? Ou o quê?
P.Rufino

Anónimo disse...

Palma Inácio teria de nos deixar um dia destes. Era inevitável. Mas quis fazê-lo num dia muito especial, 14 de Julho, aniversário da tomada da Bastilha pelo povo de Paris. Mais uma surpresa do Palma! Ele era assim!...
Gosto do Palma Inácio e admiro-o por muitas razões. Ele ousou lutar. Ele ousou vencer. Não se ficou pela mediocridade dos "manga de alpaca".Ele, Palma Inácio, os capitães de Abril e outros poucos que ainda estão aqui, entre nós, e que abriram o caminho ao sonho e quase viabilizaram a esperança. São esses aqueles em quem poder não terá a morte.
Alípio de Freitas

Pedro Cabrita disse...

De volta de um trabalho que espero em breve publicar em livro, vim aqui parar.
Não tenho a intenção de participar neste interessante debate.
Contudo, como tenho comigo um dos correlegionários de Palma Inácio que participou com ele em algumas das "aventuras" que se conhecem, entre elas a Vagô, e após ter lido a intervenção da Drª Helena Sacadura Cabral, um tanto incomodada ainda com a escolha de Palma Inácio da sucursal da Figueira da Foz do Banco de Portugal como alvo, exprimindo que teria preferido uma outra escolha, p.e. um banco privado, trago-lhe uma breve explicação da escolha, contada "quase" na 1ª pessoa:
" O Estado, tomado de assalto por Salazar, tem de algum modo que contribuir para a libertação do seu povo." P.I.

P Cabrita