segunda-feira, maio 30, 2011

Corrupção

Ontem, durante a campanha eleitoral, alguém estranhou que, de entre as medidas constantes do protocolo assinado com a "troika", não houvesse uma palavra sobre medidas de combate à corrupção, tal como existem relativamente à máquina da justiça e diversas outras áreas de atuação do Estado.

É sabido que as economias marcadas pelo tráfico de influências reduzem a confiança dos investidores e minam as condições para o crescimento, pela desregulação que introduzem no funcionamento dos mercados. Por essa razão, pode estranhar-se que, ao promover um empréstimo de elevado montante a Portugal, com contrapartidas que incluem uma imensidão de condicionalidades, instituições com a experiência e a prudência do FMI, da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu não tenham aproveitado para exigir um forte pacote de medidas legislativas para reforço de combate à corrupção, a serem decididas pelo novo parlamento.

Sá há uma - única e insofismável - explicação para esta omissão: as instituições internacionais responsáveis (e aqui não falamos de ONG's, com discutíveis critérios de avaliação) entendem que a moldura legislativa que, em Portugal, enquadra esse tipo de criminalidade é hoje suficiente e adequada.

Com isto, não estou a afirmar que a corrupção não exista, em Portugal, e que não seja importante encontrar fórmulas mais eficazes para lhe fazer frente, nomeadamente no campo da aplicação da justiça. Estou apenas a dizer que, por via indireta, a comunidade internacional atesta que o nosso país dispõe já do arsenal legislativo adequado para a combater. E isto é uma excelente notícia.

domingo, maio 29, 2011

Grande Porto



Lembrei-me muito do meu tio Óscar, neste fim de semana. Durante a minha infância, o Porto, para mim, identificava-se muito com ele.

Oficial do Exército na reserva, ia, aos domingos, almoçar à messe, na Batalha e, durante a semana, parava as tardes num grupo de amigos, no Rialto, onde aguardava a chegada do "Diário do Norte". Sendo ele portuense, não me recordo se era portista, sequer se se interessava pelo futebol.  Coleccionava "O Tripeiro", que tinha encadernado na estante, e foi pela mão dele que conheci a "Vida Mundial", quando a publicação consistia  apenas numa recolha de artigos traduzidos da imprensa estrangeira e  ainda era editada no Montijo.

Vivia na Ramada Alta, num andar com um cheiro confortável e indefinível, que nunca esqueci, com uma varanda envidraçada, onde se tomava chá e se via a estátua da rotunda da Boavista. Em noites em que as luzes convertiam o Porto num distante sonho cosmopolita para o jovem que, como eu, visitava a cidade, com o deslumbramento dos que viviam para lá do Marão, daquela varanda via-se passar, ao fundo, um comboio. O tio Óscar, que, com carinho, me mostrou e fez para sempre gostar da sua cidade, nunca teve ocasião de cumprir a promessa que me havia feito de me levar um dia nessa linha, até à Póvoa.

Neste sábado, ao sair do aeroporto do Porto, comprei um "Andante"*, o nome irónico dado ao bilhete do Metro de superfície, que também comporta a tal linha férrea que eu via da casa do meu tio Óscar. É uma viagem calma, por vezes com a triste paisagem de traseiras suburbanas que os comboios proporcionam, outras com vista para aquelas moradias de portas altas com uma imensa numeração, bem típicas de certas ruas do Porto. A certo passo, o Metro emerge de um túnel e ouve-se a voz oficiosa: "Verdes". Aparece uma estação a justificar o nome, no meio de vegetação, de que eu nunca ouvira falar. Recordando o tio Óscar, lá fui, por aí adiante, até ao meu destino, a Trindade.

Nessa noite, ao dizer a um amigo, que encontrei num jantar na Alfândega, que estava instalado pelas bandas da Trindade, num novo hotel, ele retorquiu-me, lembrando quando por aí andávamos, há muitos anos: "Vais dormir perto da Alferes Malheiro? Ó diabo! Ainda acabas a noite na "Candeia"..." Esclareci que, a "Candeia", além de ter já fechado há uns tempos, há meio século que não fazia parte dos meus roteiros do Porto. "Então podes ir a um pomar, muito próximo do teu hotel". Porque conheço muito bem a zona, estranhei que por ali houvesse algum pomar. Ele precisou: "É na Gonçalo Cristóvão, tem excelente fruta". Não percebi nada, mas creio que a graça tem alguma coisa a ver com futebol...

Em tempo: correção feita. O "Andante" é o nome do bilhete e não do metro, como eu pensava. Desatenções...

Barcelona

A frase do treinador do Manchester United, Alex Ferguson, ao considerar este Barcelona a melhor equipa com que se confrontrara na sua longa carreira futebolística, diz muito sobre a qualidade, verdadeiramente rara, deste grupo. Há por ali um estilo de jogo, apoiado num conjunto com grande homogeneidade técnica, que, inevitavelmente, traz à memória a "laranja mecânica" holandesa dos anos 70. Eu diria mesmo: para melhor.

É com espetáculos desta qualidade que o futebol se promove. 

sábado, maio 28, 2011

A religião e a comunidade portuguesa

Há dias, reunimos num almoço na embaixada cerca de duas dezenas de sacerdotes católicos, de várias nacionalidades, que prestam assistência religiosa e, muitas vezes, coordenam o apoio social a setores da comunidade portuguesa na região de Paris. A agenda deste que foi o terceiro encontro deste género foi bastante alargada, suscitando a troca da diversidade das experiências que conduzem em cada comunidade.

No que me toca, foi muito importante ouvir pessoas dedicadas à ação social junto da comunidade portuguesa falarem do modo como avaliam o comportamento das várias gerações de origem portuguesa em França, do uso da língua portuguesa à sua relação com outras comunidades culturalmente muito diferentes, os problemas que afetam os mais idosos, a chegada recente de pessoas vindas de Portugal, em busca de ocupação, bem como a forma como a gerações de origem portuguesa mais jovens olham para o nosso país. As questões que se prendem com a atual situação económica em Portugal, com as preocupações que isso repercute na nossa comunidade, estiveram também presentes neste agradável encontro.  

Chandeigne

As edições Chandeigne, como outras vezes aqui foi assinalado, prestam uma contribuição inestimável para a divulgação da língua e cultura portuguesas em França, com uma atenção cada vez mais alargada aos países cujas culturas se exprimem no nosso idioma.

Recomenda-se uma visita virtual ao excelente catálogo da Chandeigne ou, podendo, vale a pena perdermo-nos nas instalações desta "Librairie Portugaise et Brésilienne", no nº 10 da rue Tournefort, a dois passos do Panthéon (tlf.: 01 43 36 34 37).

Este ano, o trabalho de Michel Chandeigne e da sua equipa comemora os seus 25 anos de existência. No segundo semestre de 2011, a Embaixada de Portugal em França vai participar nesta comemoração e no agradecimento que todos devemos a quem tem feito um notável esforço pela promoção da lusofonia cultural em França.

Neste final de semana, porque nos aproximamos do "Dia de Camões", sugere-se uma saltada ao stand 505 do Marché de la Poesie, na place Saint-Sulpice, onde a Chandeigne apresenta uma cuidada edição bilingue dos Sonetos de Luís de Camões.

sexta-feira, maio 27, 2011

Van der Saar e o Azevedo

Por compromissos da vida, não vou poder ver em direto a final da "Champions League", hoje à noite. E assim vou perder a despedida de Van der Saar, do Manchester United, que considero um dos melhores guarda-redes de sempre.

O futebol vive muito concentrado em quem pode fazer golos e menos em quem os pode evitar. É claro que um guarda-redes, por regra, não ganha os jogos, mas pode fazer a equipa perdê-los. Que o diga o Benfica de 2010/2011...

O lugar do guarda-redes é o mais ingrato de toda a equipa. Já alguma vez se colocaram na linha de golo, dentro de uma baliza? São 7 metros e 32 de poste a poste, com a trave que as liga a 2 metros e 44 do chão. À frente, a marca dos penaltis é a 11 metros. Parece longe, mas, vista da baliza, é logo ali, podem crer. Repito: se nunca experimentaram, coloquem-se um dia numa baliza, para poderem melhor apreciar a dificuldade do mais ingrato lugar do futebol.

Van der Saar deu-me sempre a ideia de ser o guarda-redes ideal para gerar confiança a uma equipa. Com o ar falsamente "boyish" dado pelos cabelos espetados, de fácies algo angustiado, denotando extrema concentração, vi-o fazer maravilhas perante situações impossíveis. A seleção holandesa e o United devem-lhe muitas horas felizes. 

Mas é claro que Van der Saar não é "o" Azevedo... 

Para quem o não saiba, convém explicar que o Azevedo é algo que faz parte da mitologia do Sporting. Trata-se de um guarda-redes que ganhou foros de lenda, nos tempos em que o clube era vitorioso em campeonatos nacionais, quase com a mesma facilidade com que o Porto agora o faz. Apenas algumas fotografias nos restam do Azevedo (aqui está uma), o qual, um dia, terá mesmo terminado um jogo de braço ao peito! 

Recordo-me que o meu pai, leão sofredor (o tempo tem consagrado a expressão como pleonasmo), durante décadas, quando se falava da qualidade de um qualquer grande guarda-redes do Sporting, de Carlos Gomes a Damas, relatizava sempre: "mas está muito longe de ser o Azevedo...". Eu não tinha argumentos para contrariar, nunca vi jogar o Azevedo, até pela simples razão de que ele terminou a sua carreira um ano antes de eu nascer! Mas, aqui entre nós, acho que o Van der Saar não lhe deve ficar longe. É a melhor homenagem que um sportinguista lhe pode prestar.

Jóias

É uma atividade económica muito particular, onde a indústria de confunde com a arte. Ontem, apresentámos na Embaixada, para jornalistas, profissionais e alguns convidados, um conjunto de jóias produzidas em Portugal, no norte, pela Rosior. Pelas reações ouvidas, a exposição dessas peças únicas surpreendeu pela positiva.  

A imagem de Portugal, num mercado tão exigente como Paris, também se faz destas mostras daquilo que o país produz, com grande qualidade e rigor na promoção comercial.

quinta-feira, maio 26, 2011

A política e o ridículo

Tendo em atenção o facto das canções em flamengo não constituirem uma base musical que possa comparar-se à produção existente em língua francesa, nomeadamente em termos de popularidade, o metro de Bruxelas tomou a sábia decisão de passar a colocar no ar, como música ambiente, apenas canções em inglês. O objetivo é preservar o equilíbrio a que o estrito biliguismo franco-flamengo (duvido mesmo que seja legal usar este termo) obriga.

Quase que dá vontade de pedir uma "chance" para o esperanto. Mas "chance" é francês, cuidado.

Jornal da tarde

Senti que havia qualquer coisa de Lisboa, anos 70, no Paris de hoje. 

Num restaurante da "rive gauche", a animação da chegada do vendedor do "Le Monde", à hora do café, no fim do almoço, que João Gomes Cravinho e eu pudémos testemunhar, fazia lembrar (a mim, porque ele não tem idade para isso) o surgimento dos ardinas, na tarde lisboeta, a anunciar o "Diário de Lisboa" e os restantes vespertinos. Mesmo a impublicável graça com que o "Monde" foi anunciado.

Será também por isso que Paris "diz" tanto a uma certa geração portuguesa.

"Kill the messenger"?

Há uns tempos, quando uma aluna agrediu uma professora que lhe retirara o telemóvel numa aula, recordo que o primeiro cuidado foi procurar saber quem filmara a cena e a colocara no YouTube, para a respetiva responsabilização criminal. 

Agora, perante a difusão, pela internet, de  brutal agressão de que uma adolescente foi objeto por parte de duas colegas, a televisão portuguesa entrevistou "sumidades" sobre a gravidade... da filmagem e difusão da cena. Com a descoberta de que o "realizador" tem antecedentes criminais, as consciências acalmaram-se. 

A divulgação de ambas as cenas, independentemente da motivação de quem o fez, acaba por ter um efeito pedagógico. Eu diria mais: acaba por permitir que alguém trate dos factos ocorridos, o que provavelmente não aconteceria se o YouTube não tivesse intervindo.

quarta-feira, maio 25, 2011

Dobragem

Nunca, em toda a minha vida, vi um filme ou um episódio completo de uma série televisiva que fosse objeto de dobragem. É uma opção pessoal, de que nunca me afastei. Tendo vivido em alguns países em que a dobragem das séries estrangeiras era a regra, há muita coisa que não vi e outra que tive de comprar em DVD. 

A primeira vez que recordo de me ver confrontado com uma dobragem terá sido em Verin, em Espanha, nos anos 60. Na sala de estar do único hotel daquela vila, desatei às gargalhadas, para espanto dos restantes clientes, ao ouvir, na série televisiva "Bonanza" (quem se recorda?), passada no Texas americano, as exclamações ingénuas de Hoss, ditas em castelhano. Há pouco tempo, noutra cidade espanhola, apareceu-me, na televisão do quarto de hotel, o "Casablanca" dobrado. Foi como assistir a uma comédia, particularmente para quem, como eu, conhece, de cor, diálogos de certas cenas. Para bem se entenderem os malefícios da dobragem, basta que se imagine em que "estado" ficariam os ditos lisboetas de Vasco Santana ou de António Silva se "O Pátio das Cantigas" fosse dobrado em espanhol...

Hoje, assisti, por minutos, à cena mais ridícula a que dobragem pode conduzir. Tratava-se de um diálogo entre uma escocesa e um inglês. A totalidade da graça subjacente ao texto tinha a ver, não apenas com a fonética e as diferenças no sotaque, mas igualmente com alguns trocadilhos, que só seriam possíveis de entender em língua inglesa. Pressentia-se essa graça "ao longe", por detrás da dobragem, mas apenas para quem conseguisse presumir o texto original. Um puro absurdo. Em francês.

A indústria da dobragem é uma "mina" para os atores, pelo que é imensamente protegida por esse lóbi e por um comodismo da habituação no público, que acaba por funcionar em detrimento de um melhor conhecimento das línguas estrangeiras. Em alguns países ainda tem, como justificação com fundamento "democrático", a existência de analfabetismo e a necessidade de facilitar a essas pessoas o acesso ao conteúdo dos filmes. Só que esse argumento não colhe, aqui em França.

Em tempo: reconheço que a dobragem de filmes infantis é um caso bem diferente

Lobo Antunes

Há um notório fascínio, em França, pela escrita de António Lobo Antunes. Com exceção de dois dos seus livros, toda a obra do escritor português está já traduzida em francês. Ontem, no centro cultural da Gulbenkian - que estás prestes a mudar de endereço, aqui em Paris - Lobo Antunes falou, para umas largas dezenas de atentos ouvintes, sobre o modo como um livro nasce.

Na sua exposição solta, de mais de uma hora, deu exemplos curiosos sobre a experiência de alguns autores e, com grande franqueza, não se eximiu a expor a sua (às vezes chocante) hierarquia de preferências literárias, dando também notas sobre o modo como avalia o estado atual da literatura em diversos países. Na resposta a uma pergunta, referiu que talvez nunca viesse a escrever "o" livro, considerando que a consumação de uma obra, para um escritor, seria o "encadernar da vida". E, citando John dos Passos, concluiu que escrever é, no fundo, "passear pela rua".

A contrastar com a cruel ironia que marcou muito da sua palestra, pude observar, horas depois, toda a frágil sensibilidade do escritor exposta na emoção com que evocou, num pequeno grupo, a saudade do seu íntimo amigo Ernesto Melo Antunes.  

terça-feira, maio 24, 2011

Ainda Strauss-Kahn

Pode parecer excessiva a insistência sobre o caso de Dominique Strauss-Kahn. A verdade, porém, é que isso mais não corresponde do que à importância que o assunto assume aqui em França, onde é objeto de comentários por parte de qualquer cidadão, no exercício daquilo a que Jean-Luc Godard chamava o "direito à impressão". Dando também razão à ironia clássica de Oscar Wilde segundo a qual "só as pessoas superficiais é que não julgam pelas aparências".

Hoje deixo duas notas, muito diferentes, sobre Strauss-Kahn.

A primeira sobre o seu trabalho à frente do FMI. Relembro apenas o subtítulo do editorial do último "The Economist": "Whatever the man did, do not forsake his ideas: they are more important". Quero com isto dizer que é da maior relevância conseguir preservar, na liderança que lhe irá suceder, o espírito novo que Dominique Strauss-Kahn soube transmitir ao FMI, o modo como conseguiu modular a rigidez e a cegueira dos números, a insensibilidade social que marcou muitos dos "ajustamentos estruturais" liderados e impostos, no passado, por esta instituição de Bretton Woods. Os "developing countries" podem ter muitas reticências sobre a personalidade de Strauss-Kahn, mas é hoje uma evidência que não irão esquecer o modo como ele soube adaptar positivamente a filosofia de atuação da organização. Além disso, vale a pena também ter presente a forma como Strauss-Kahn soube impor o FMI no quadro do G20, como conseguiu reforçar substancialmente os meios financeiros ao seu dispor, contribuindo também para um mais justo posicionamento relativo dos países emergentes no processo decisório dentro do Fundo. O mandato de Strauss-Kahn dentro do FMI foi um imenso sucesso, agora contrastantemente sublinhado pela tragédia pessoal em que está envolvido.

Apenas uma vez, e por breves minutos, me recordo de ter falado com Strauss-Kahn, nos momentos que antecederam um almoço oferecido por Lionel Jospin a António Guterres, em Matignon, creio que em 1999. Nem faço ideia do que falámos. Durante esse almoço, teve lugar uma cena algo caricata. 

A certo momento do repasto (aliás, recordo, com excelentes vinhos), achei que deveria transmitir ao primeiro-ministro português uma informação, que me parecia poder ser-lhe útil na sequência da conversa. Eu estava à esquerda de Jospin, que tinha em frente António Guterres, o qual, por sua vez,  dava a direita a Dominique Strauss-Kahn. Gatafunhei umas notas nas costas de um menu, em que devo ter escrito qualquer coisa do estilo: "Seria importante lembrar a Jospin que..." ou "A França não pode esquecer que..." ou outros comentários do género. Era uma nota para ser lida apenas por António Guterres, porque, lembro-me, tinha elementos algo sensíveis na forma como estavam apresentados. Dobrei o menu e, a um empregado de mesa que passava, pedi que o entregasse ao primeiro-ministro português, do outro lado da mesa. O homem terá entendido menos bem o que eu disse, deu a volta à mesa e passou a minha nota a... Dominique Strauss-Kahn, que estava precisamente à minha frente. 

A conversa entre Jospin e Guterres ia animada e eu não tinha a menor possibilidade de a interromper, para dizer ao ministro da Economia e Finanças francês que a nota não lhe era dirigida, mas sim ao seu parceiro do lado. Embaraçado, gesticulei discretamente para chamar a atenção de Strauss-Kahn, o qual, no entanto, se dedicava a ler, com toda a atenção, aquilo que eu tinha escrito, em letras maiúsculas, desejavelmente "for the eyes only" do meu primeiro-ministro. O governante francês deve ter percebido o essencial do texto. Quando acabou a leitura, olhou para mim, esboçou um sorriso e passou o papel a António Guterres. Enfim, imprudências que se cometem...   

Saudades de Woody Allen

Durante anos, fui um consumidor compulsivo da obra de Woody Allen. Não vi todos os seus filmes, mas creio ter visto os principais. Como é óbvio, de alguns gosto mais do que de outros, sendo que coloco certos trabalhos seus no registo das obras-primas de estimação. Allen é uma personalidade genial, como raras que aparecem na história do cinema.

Há dias, fui ver "Midnight in Paris", o seu último trabalho. É um filme "certinho", para consumo fácil, uma caricatura quase "turística" de Paris, recheada de clichés. Trata-se de uma imagem da capital francesa e da história mitificada da sua vida intelectual, desenhada por um americano culto que retrata alguns que o são menos, o qual tem a (superior) qualidade de, uma vez mais, utilizar atrizes (ou quase) bastante bonitas. Enfim, Allen converteu-se hoje num eficaz autor comercial, tecnicamente muito competente, mas um mero criador de produtos de que facilmente nos esquecemos, minutos depois de saírmos da sala de cinema.

Que saudades de "Annie Hall", "Hannah and her sisters", "Crime and Misdemeanors" ou "Zelig" !

segunda-feira, maio 23, 2011

Notícias da lavoura

No auge dos tempos revolucionários de 1975, o Alentejo vivia sob as movimentações da Reforma Agrária, com a ocupação das propriedades rurais e o ataque aos respetivos detentores - os "grandes agrários", tidos como historicamente responsáveis por graves injustiças sociais e económicas, autorizadas e protegidas pela lei e pela repressão policial, durante a recém-abolida ditadura. "A terra a quem a trabalha" era o lema que dava corpo a um movimento tendente a forçar uma reversão de poder, onde o Partido Comunista Português teve grande influência, nele se destacando a criação das UCP's (Unidades Coletivas de Produção), estruturas emblemáticas no novo modelo produtivo em expansão nas grandes propriedades. A realidade agrária alentejana iria ter impactos muito fortes nos equilíbrios da governação do país, podendo considerar-se que, durante vários anos, marcou fortemente a evolução da política interna portuguesa, muito embora o saldo final de toda essa turbulência tenha ficado muito longe dos objetivos revolucionários originais.

Com a Reforma Agrária a marcar então, quase quotidianamente, a agenda política nacional, passava-se, na televisão portuguesa, um fenómeno bizarro, quase marginal mas que, visto à distância, não deixa de ter alguma curiosidade. Sobrevindo do tempo anterior ao 25 de abril, mantinha-se na grelha de emissão da RTP o programa "TV Rural", dirigido pelo engº Sousa Veloso, uma figura sorridente e cordial, que anos de presença regular no écran haviam transformado num visitante virtual da casa de todos os portugueses. E de que falavam os programas de Veloso? Da "outra" vida rural, da "lavoura", de experiências agrícolas e de práticas de produção tidas por exemplares. Enquanto no Alentejo arrancavam as campanhas mobilizadoras para a viabilização produtiva das UCP's ou das novas cooperativas, Sousa Veloso mostrava-nos, impávido aos ventos da Revolução, a glória da pêra-rocha do oeste, a safra desse ano dos melões de Almeirim, os resultados do combate ao míldio nas uvas do Dão ou as novas técnicas usadas no azeite da terra quente transmontana. Nem uma palavra sobre o Alentejo!

O blogue de um embaixador de Portugal, neste "verão quente" da política portuguesa, pode, por razões que a obviedade explica, ser comparado ao "TV Rural" de Sousa Veloso. Digo isto para que não estranhem que, nestes tempos mais próximos, eu me continue aqui a ocupar apenas da minha "lavoura".

Narrativa

Começou em Portugal há poucos anos, insinuou-se em alguns discursos - primeiro nos académicos, depois nos mais vulgares -, foi retomada, como nota de procurada erudição, pela imprensa escrita (neste sábado, contei-a um monte de vezes em vários textos no "Expresso") e agora persegue-nos por todo o lado, dos blogues à conversa: é o uso intensivo da palavra "narrativa". 

Estejam atentos! É um dos vocábulos da moda. Dele não vem mal nenhum ao mundo, mas a mim irrita-me, por ser hoje produto de uma espécie de mimetismo. Neste blogue, garanto, não haverá nunca "narrativas"...

domingo, maio 22, 2011

DSK e as siglas

O destino do antigo diretor-geral do FMI e putativo candidato socialista à presidência francesa, Dominique Strauss-Kahn, continua a dominar o mundo mediático local. As televisões despacharam correspondentes para Nova Iorque, que dizem mais ou menos aquilo que opinam os nossos esforçados enviados, mas, nem por isso, os telejornais têm um minuto que seja a mais, para além dos 30 habituais. Em Portugal, bem deveria aprender-se com este exemplo.

Strauss-Kahn é aqui vulgarmente referido na imprensa escrita pela sua sigla do seu nome - DSK. Ontem, dei comigo a tentar lembrar-me a quem esta simplificação nominal também se aplicou ou aplica aqui em França. Pode ser que haja outros, mas, de memória, só vejo os seguintes: o desaparecido jornalista e político Jean-Jacques Servan-Schreiber (JJSS), a atriz Brigitte Bardot (BB), o jornalista televisivo PPDA (Patrick Poivre d'Arvor), a antiga ministra Michèle-Alliot Marie (MAM), o filósofo Bernard-Henri Lévy (BHL) e a ministra do Ambiente, Nathalie Kosciusko-Morizet (NKM). 

Não é fácil uma justificação para a ocorrência destes diferentes casos e, em especial, para não haver muitos outros. A única destas siglas que representa um acrónimo (isto é, que se lê como uma palavra) é "MAM" e há quem diga que o estilo pessoal "régalien" da antiga ministra pode também ter ajudado a fixá-lo. No caso de JJSS, a sua frustrada tentativa de reproduzir na Europa um estereótipo americano, na senda de Kennedy (JFK), terá contribuído para a criação da sigla. Nas restantes siglas, a sonoridade fácil de BB e PPDA e a complexidade dos dois outros nomes (com as consoantes H e K a reforçarem a "estranheza" fonética) igualmente podem ser uma justificação. Mas não sei se estarei certo. Verdade seja que ser identificado mediaticamente por uma sigla acaba por ser um fator distintivo bastante prestigiante, porque traduz um duplo reconhecimento público (o nome e a sigla que o simplifica). Tenho a sensação que nenhum político desdenharia essa possibilidade. Diria mesmo mais: todos lutariam para a obter.

Não conheço bem a situação noutros países. Nos Estados Unidos, surgem-me à ideia Franklin Delano Roosevelt (FDR) e John Fitzgerald Kennedy (JFK), ajudados, no presente, pelo facto de, no primeiro caso, dar o nome a uma importante artéria de Nova Iorque (FDR Drive) e, no segundo, a um aeroporto da mesma cidade (JKF Airport). Com um grau diferente de popularidade, aparece LBJ (Lyndon Baines Johnson), vice-presidente e sucessor de Kennedy, que se presume tenha começado a ser designado por uma sigla na senda da daquele. No Brasil, julgo que há apenas três nomes que a imprensa consagrou como siglas: os antigos presidentes Juscelino Kubitchek (JK) e Fernando Henrique Cardoso (FHC), bem como desaparecido político baiano António Carlos de Magalhães (ACM).

Desconheço o que passa noutros países, mas noto que, por exemplo, no Reino Unido não há esse costume, muito embora a importância da sua imprensa tablóide, com títulos garrafais a incitar à simplificação, pudesse ajudar a isso.

E em Portugal? Não me recordo de algum político ou figura pública* objeto de designação simplificada por uma sigla. Salvo um velho jogador do Vitória de Setúbal, Jacinto João, que a imprensa sempre designava por JJ. Sigla idêntica à que, nos anos 60 e 70, utilizávamos informalmente para um professor universitário, que o destino viria a trazer para as páginas dos jornais. Também por razões de justiça.

* Em tempo: os comentários começam a corrigir este post 

Falhas detetadas no texto
Em França: VGE (Valéry Giscard d'Estaing)
Em Portugal: MEC (Miguel Esteves Cardoso), BB (Baptista Bastos), PQP (Pedro Queiroz Pereira), EPC (Eduardo Prado Coelho) e APV (António-Pedro de Vasconcelos)

sábado, maio 21, 2011

Campanha eleitoral

Imagino que alguns possam entender que não fica bem a um embaixador de Portugal confessar isto, mas devo dizer que tive uma imensa (e, até agora, íntima) surpresa ao constatar que, oficialmente, a campanha eleitoral, em Portugal, só hoje é que vai começar...

Mas, muito a sério, vote!

Fim do mundo

Hoje, segundo alguns setores religiosos nos Estados Unidos, é o dia em que o mundo vai acabar. Não sabemos a hora, mas convém aproveitar o que ganhamos com a diferença dos fusos. Até amanhã.

sexta-feira, maio 20, 2011

Schengen

E volto a lembrar o Luxemburgo, onde fica a pequena localidade de Schengen, que deu o nome ao acordo de que tanto se fala.

O acordo de Schengen, que prevê a livre circulação de pessoas num muito alargado espaço dentro da União Europeia, foi uma das mais emblemáticas conquistas do processo integrador do continente. Portugal revelou-se um dos países mais impulsionadores do início do projeto, através de Vitor Martins, o secretário de Estado dos Assuntos Europeus que me antecedeu, como sempre fiz questão de sublinhar. E a ele nos temos mantido fiéis, a partir de então.

Todos os países aderentes a Schengen tiveram, desde sempre, a consciência de que haveria alguns riscos associados à fixação desta zona de liberdade de movimentos. Muitas dessas preocupações, à época, ligavam-se à criminalidade interna. Recordo-me que, um dia, em Bruxelas, nos anos 90, quando alguém louvou publicamente, numa reunião, a maravilha que iriam ser as facilidades de deslocação de turistas da Bélgica para as belas cidades italianas, alguém ter comentado: "... e dos mafiosos da Sicília para cá!". Mas as grandes discussões iniciais em Schengen estavam centradas na questão do reforço das fronteiras externas, em especial dos aeroportos, pela consciência que se tinha de que a fragilidade revelada por qualquer dos países integrantes acabaria por se repercutir sobre a generalidade dos parceiros. E, diga-se, a peculiaridade da situação geográfica italiana, que hoje domina o debate, era, já então, o centro das atenções.

Durante seis meses, em 1997, Portugal presidiu ao acordo de Schengen. Organizámos então uma importante reunião de ministros em Lisboa, na qual, devo hoje confessar pela primeira vez, como alguns especialistas portugueses então lá presentes poderão testemunhar, só consegui fazer vingar um compromisso final... pela fome! Prolonguei a reunião por horas, com sucessivos "drafts", até conseguir o que pretendíamos. O almoço oferecido aos delegados, no CCB, só começou quase às 4 horas da tarde, com alguns a perderem aviões.. Nessa reunião foi longamente debatida a questão da calendarização do processo de adesão da Itália. O ministro italiano do Interior tão contente ficou com a fórmula que adoptámos que, no final, me pregou dois repenicados beijos na cara. Chama-se Giorgio Napolitano e é hoje presidente da República do seu país. Durante a presidência portuguesa da UE, em 2000, acabaria por ser graças a ele, como presidente da comissão institucional do Parlamento Europeu, que conseguimos o "avis" que permitiu o lançamento da negociação da Conferência Intergovernamental. A Europa faz-se também destas retribuições.

O compromisso de Lisboa consagrou também, entre outras conclusões, aspetos importantes da ligação de Schengen à zona nórdica de livre circulação, que inclui países não membros da União Europeia, como a Noruega e a Islândia, num período que era ainda distante do que viria a ser o grande alargamento da UE - que acabou por acarretar novas questões para o acordo. E fomos também nós quem lançou as bases para o lançamento do importante sistema de informações pessoais, sem o qual Schengen não poderia funcionar. Curiosamente, anos mais tarde, em 2007, voltaria a ser Portugal a estar no centro da melhoria desse mesmo sistema, durante a presidência portuguesa da UE, em 2007.

Hoje, o funcionamento de Schengen, um acordo agora plenamente integrado na UE (coisa que não era em 1997), é objeto de algumas fortes críticas, sob pressão dos novos problemas criados pelos fluxos migratórios externos e pela emergência de dificuldades sentidas em alguns países, onde mobiliza as agendas políticas internas, em temáticas ligadas à imigração e à criminalidade. Algumas salvaguardas, cumulativas às que já existem, podem, assim, vir a ser necessárias, numa eventual revisão do acordo. Tenho esperança, contudo, que elas não venham a colocar em causa o essencial do sistema. Porque Schengen, na sua essência, constitui uma das faces mais significativas da integração europeia.

Um livro e uma mesa (21)

O livro de hoje é o volume III — " O Futuro para além do Apocalipse " das " Memórias em Tempo de Amnésia ", de Álvaro de...