segunda-feira, 23 de maio de 2011

Notícias da lavoura

No auge dos tempos revolucionários de 1975, o Alentejo vivia sob as movimentações da Reforma Agrária, com a ocupação das propriedades rurais e o ataque aos respetivos detentores - os "grandes agrários", tidos como historicamente responsáveis por graves injustiças sociais e económicas, autorizadas e protegidas pela lei e pela repressão policial, durante a recém-abolida ditadura. "A terra a quem a trabalha" era o lema que dava corpo a um movimento tendente a forçar uma reversão de poder, onde o Partido Comunista Português teve grande influência, nele se destacando a criação das UCP's (Unidades Coletivas de Produção), estruturas emblemáticas no novo modelo produtivo em expansão nas grandes propriedades. A realidade agrária alentejana iria ter impactos muito fortes nos equilíbrios da governação do país, podendo considerar-se que, durante vários anos, marcou fortemente a evolução da política interna portuguesa, muito embora o saldo final de toda essa turbulência tenha ficado muito longe dos objetivos revolucionários originais.

Com a Reforma Agrária a marcar então, quase quotidianamente, a agenda política nacional, passava-se, na televisão portuguesa, um fenómeno bizarro, quase marginal mas que, visto à distância, não deixa de ter alguma curiosidade. Sobrevindo do tempo anterior ao 25 de abril, mantinha-se na grelha de emissão da RTP o programa "TV Rural", dirigido pelo engº Sousa Veloso, uma figura sorridente e cordial, que anos de presença regular no écran haviam transformado num visitante virtual da casa de todos os portugueses. E de que falavam os programas de Veloso? Da "outra" vida rural, da "lavoura", de experiências agrícolas e de práticas de produção tidas por exemplares. Enquanto no Alentejo arrancavam as campanhas mobilizadoras para a viabilização produtiva das UCP's ou das novas cooperativas, Sousa Veloso mostrava-nos, impávido aos ventos da Revolução, a glória da pêra-rocha do oeste, a safra desse ano dos melões de Almeirim, os resultados do combate ao míldio nas uvas do Dão ou as novas técnicas usadas no azeite da terra quente transmontana. Nem uma palavra sobre o Alentejo!

O blogue de um embaixador de Portugal, neste "verão quente" da política portuguesa, pode, por razões que a obviedade explica, ser comparado ao "TV Rural" de Sousa Veloso. Digo isto para que não estranhem que, nestes tempos mais próximos, eu me continue aqui a ocupar apenas da minha "lavoura".

14 comentários:

Anónimo disse...

E está a ocupar-se bem!

Anónimo disse...

Magnífico texto, caro Embaixador

CSC

Rui Franco disse...

Grande falha, Embaixador: esqueceu-se de se "despedir com amizade, até ao próximo post". :)

R.Marques disse...

E que magnífica lavoura,meu Caro Francisco!

Anónimo disse...

O que será feito do "tio" (dada a sua "presença" regular nas nossas casas durante décadas) Sousa Veloso?

António Mascarenhas

José Barros disse...

Era o que mais faltava termos aqui, também, aquelas posições partidárias que neste clima atual as torna ainda mais “inflamáveis”! Eu vou mas é tomar contacto co’a terra, regar a minha relva!

Teófilo M. disse...

E eu acho muito bem, pois aqui venho de vez em quando descansar e seria uma pena perder este sossego.

Helena Oneto disse...

Delicioso post:)!

Anónimo disse...

..não está nada mal comparado, não senhor...ainda que eu, ultimamente, tenha visto o '2 ou 3' mais para o tipo 'orquesta do Titanic'...

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 18.57: diga lá qual é o seu barco... Tem bandeira de conveniência?

Anónimo disse...

"Caro Anónimo das 18.57: diga lá qual é o seu barco... Tem bandeira de conveniência?"

Delicioso, meu caro Embaixador! Simplesmente delicioso!

ARPires disse...

Como resultado de uma boa lavra, só poderá haver mesmo uma boa colheita, a não ser que alguma tempestade leve tudo a perder.
Espero sinceramente que os deuses não sejam cruéis connosco!

Fernando B. disse...

Analogia perfeita... Esperemos então pelo final, do jogo FCNabos-FCPepinos, para não sair da terminologia...

Anónimo disse...

Anónimo das 18.57, esclarece o prezado Sr. Embaixador:
Sendo que sou marinheiro de muitas viagens de vai-e-vem, não navego em barcos da 'umbrella', que fazem os Panamás da vida.
Acredite: se tiver que ser, sou, mais bandeira de navio-pirata, sempre!

Aceite as minhas cordiais saudações.