domingo, julho 04, 2010

"Tour de France"

Hoje, acabada que foi (e em que bizarras condições!) a primeira etapa do "Tour de France", a maior prova ciclística do mundo, aparece-me recordar uma histórica figura desta competição, uma pessoa felizmente ainda viva: Raymond Poulidor.

Confesso o meu fascínio por alguém que acabou sempre por ser derrotado na luta pela vitória final no "Tour", não tendo nunca sequer vestido a "camisola amarela", embora sendo vencedor de várias etapas. No que me toca, recordo-me de ter sido sempre um "poulidorien" ferrenho, em toda a minha juventude. Aqui em França, não deve haver nenhum seu compatriota da sua geração que o não conheça, muitas vezes pelo carinhoso "petit nom" de "Poupou".

Poulidor teve uma longa e brilhante carreira, vencendo diversas provas, entre as quais uma "Vuelta a España". No "Tour", partilhou o pelotão com figuras da estirpe de Louison Bobet, Jacques Anquetil, Eddy Merckx e Bernard Hinaut. Foi com Anquetil que a sua disputa foi mais dura, embora também nos tempos do belga Merckx tivesse estado muito próximo da vitória. Esteve oito vezes no pódio final - três vezes como 2º e cinco vezes como 3º classificado.

Vale a pena também recordar que o "nosso" Joaquim Agostinho foi 3º classificado nas edições de 1978 e 1979 do "Tour", correndo com Poulidor entre 1969 e 1976, ano em que este último disputou a prova pela derradeira vez.

Em Portugal, também tivemos uma espécie de "Poulidor": foi Jorge Corvo, um ciclista do Ginásio de Tavira, que obteve três 2ºs lugares e em 3º lugar na Volta a Portugal. Mas, deste, muito poucos se lembrarão. 

sexta-feira, julho 02, 2010

Nicole Fontaine

Nicole Fontaine é uma mulher política francesa, com grande experiência nas lides europeias. Foi ministra da Indústria, no governo Raffarin. Em 1999, protagonizou uma acesa competição com Mário Soares, ganhando-lhe na disputa pela presidência do Parlamento Europeu. O modo atípico como as coisas então se passaram prenunciava um futuro complexo para o seu relacionamento com Portugal. Recordo-me de a ter visitado, no seu gabinete de Estrasburgo, poucos dias depois da sua entrada em funções. Portugal seria o primeiro país a ser visitado por Nicole Fontaine. O seu entendimento conosco foi sempre impecável.

Na passada sexta-feira, fui um dos seus convidados pessoais na cerimónia em que a ministra da Economia, Christine Lagarde, lhe fez entrega de uma alta condecoração francesa. Fiquei satisfeito ao ouvi-la testemunhar o grande apreço que mantém pelo nosso país.

LusoJornal

Há dias tristes. Este é um deles. O LusoJornal, uma aventura de comunicação social independente, titulada pelo jornalista Carlos Pereira, acaba de chegar ao seu fim, por decisão judicial.

O LusoJornal fazia já parte do panorama dos locais portugueses em França, onde era distribuído gratuitamente. Com uma expansão nacional bastante forte, que garantia a sua auto-sustentação, acabou por sofrer o impacto indireto de outro tipo de problemas que afetaram a empresa sua proprietária.

Com o fim do LusoJornal perde-se um importante espaço de apresentação da vida associativa e cultural portuguesa em França. Não tenho a menor dúvida em afirmar que a comunidade portuguesa e luso-descendente fica mais pobre sem o LusoJornal.

Neste dia triste, aqui deixo um abraço de solidariedade ao Carlos Pereira.

Os diplomatas

Não diria que somos uma profissão de mal-amados, mas vivemos frequentemente presos a uma caricatura difícil de descolar da nossa pele. Nós, os diplomatas, estamos muito habituados a que nos tracem um rosto de vacuidade, a que colem a nossa existência a um dia-a-dia fútil, a que alguns se interroguem em público sobre a real valia dos gastos do erário que sustentam a nossa ação. No que me toca, e com o tempo, passei a preocupar-me muito pouco com isso e a cuidar muito mais em estar de bem comigo mesmo, em termos da contribuição que dou ao serviço público que escolhi como destino de vida.

Não deixa, contudo, de ser gratificante quando observamos que alguém reflete, de forma positiva, sobre esta profissão que escolhemos e que nos escolheu para ocupar alguns lugares em que representamos Portugal, quando vemos o nosso trabalho e as dificuldades em que por vezes ele se processa destacados por uma jornalista que tem andado por esse mundo a olhar o que fazemos.

Foi esse o caso, ontem, de Maria João Avillez, na sua coluna "Dia sim, dia não", na revista ´"Sábado". Obrigado, Maria João.

quinta-feira, julho 01, 2010

Vivo

Um dia, quando for contada a história da presença portuguesa na economia brasileira, o caso da Portugal Telecom (PT), e da sua parceria com a Telefónica de Espanha, na empresa Vivo, líder do mercado de telefones portáteis, fará parte de um capítulo principal. É uma história complexa, como o são todas as sagas em que o dinheiro está no posto de comando das decisões. É uma história de ambições, de rivalidades e de estratégias cruzadas. É também uma história através da qual o Brasil talvez venha a perceber, finalmente, que perdeu a hipótese de se colocar, com a PT, na liderança de um grande projeto no quadro da lusofonia, com a África incluída. Uma história que, repito, há-de ser bem contada. Um dia.

Da pequena história dessa história faz parte a Assembleia Geral da PT, ontem, onde o Estado português, através da sua "golden share", rejeitou a proposta de compra da parte que a PT tem dentro da Vivo, numa demonstração de grande coerência com a linha que sempre seguiu, no sentido de manter a PT como um instrumento de afirmação empresarial estratégica à escala global. O voto do restante capital dito nacional foi também imensamente coerente: com o lucro. 

Espanha europeia

Terminou ontem a presidência espanhola da União Europeia, no primeiro semestre de 2010. Tratou-se de um exercício da maior complexidade, porque teve lugar num dos períodos mais turbulentos da vida comunitária. Não cabe aqui fazer o balanço desta presidência, mas é importante referi-la como de grande empenhamento e dedicação à causa europeia.

Esta presidência coincidiu com a entrada em vigor do Tratado de Lisboa, o mesmo é dizer, com a afirmação pública das novas figuras que, por virtude desse tratado, ingressaram no firmamento europeu: o presidente fixo do Conselho Europeu e a Alta-Representante para a acção externa. Acomodar o papel da presidência rotativa com essas novas titularidades não deve ter sido tarefa fácil. Como não foi fácil deixar estabelecidas, com os equilíbrios possíveis, as bases do futuro Serviço Europeu de Ação Externa.

Para além destas mudanças institucionais, importa notar que, no período da presidência espanhola, ocorreu a maior crise de que há memória nas finanças europeias, com alguns países da UE (entre os quais a própria Espanha) a sofrerem uma pressão inusitado dos mercados mundiais. A tendência registada para uma gestão intergovernamental desta crise não deixou de afetar a própria imagem da União Europeia, enquando sede de decisões tomadas na observância de certas regras.   

Por estas e por outras razões, a muitas das quais foi alheia, a Espanha não pôde levar à prática todo o seu excelente programa de trabalho e, em muitos casos, foi obrigada a jogar com a conjuntura e a adaptar-se a ela. Fê-lo com a qualidade a que sempre, no passado, a excelente diplomacia espanhola nos habituou na Europa. Nesta hora da despedida da sua presidência, creio que é de elementar justiça deixar uma menção de grande simpatia à Espanha pelo modo como, sob ventos e marés, conseguiu desenvolver estes seus muito difíceis meses de trabalho europeu. Foi patente o modo como Madrid tentou ser fiel a alguns princípios essenciais, sem os quais o próprio projecto europeu, a que, com Portugal, aderiu precisamente há um quarto de século, deixa de ter algum sentido.

Claques

Ontem à noite, o entusiasmo quase excessivo de alguns espectadores num teatro parisiense trouxe-me à memória os tempos (que julgo terão terminado) dos "bilhetes de claque". Foi por meados dos anos 60, em Lisboa, que fui confrontado, pela primeira vez, com a possibilidade de adquirir bilhetes para algumas peças de teatro a preços muito reduzidos, apenas com a obrigação de bater palmas em determinados momentos do espetáculo. A bolsa de um estudante era o que era e, por essa razão, havia que recorrer a tais expedientes.

Recordo-me bem de um personagem rotundo, de cabelo oleado, que parava no hall da estação do Rossio e junto de quem, ao final da tarde, se ia inquirir se havia "bilhetes de claque" disponíveis. A conversa era sempre um curioso equilíbro de oferta-e-procura, dependendo do êxito relativo das peças: "Para a primeira sessão do Maria Vitória, isto hoje está mau. Posso arranjar um bilhete, mas sai caro. Mais em conta, tenho para a segunda sessão. Já para o Capitólio e para o Variedades, a coisa é mais fácil...". Estou "a ver" a cena: o tal cavalheiro trazia os escassos e requestados bilhetes enrolados de forma ondulada entre os dedos da mão esquerda, "folheando" discretamente os lugares disponíveis com a mão direita. Os preços eram altamente discricionários e, julgo eu, definidos à medida da nossa presumida disponibilidade financeira.

No teatro, encostado a uma das paredes laterais da plateia, ficava o "claqueiro", personagem que arrancava com "surtos" de palmas que os possuidores de "bilhetes de claque" (4 ou 5 por sessão), estrategicamente espalhados pela sala, muitas vezes em ótimos lugares, eram obrigados a seguir. No intervalo, se acaso o "claqueiro" não estivesse contente com o "entusiasmo" demonstrado pelos possuidores desses bilhetes, vinha "tirar satisfações", implicitamente ameaçando com uma saída da sala.

Uma noite, no Villaret (olá Raul!), com a casa desoladamente quase deserta, recordo-me da cena patética que fiz, com outros anónimos possuidores de "bilhetes de claque", "puxando" por uma peça que era um flagrante fracasso de audiências. Quando o nosso simultâneo "entusiasmo" ressoava pela sala, os restantes espetadores olhavam para nós, entre o espantado e o divertido - porque alguns deviam suspeitar da origem das nossas entradas. Julgo que terá sido nessa noite que decidi não comprar mais "bilhetes de claque". Hoje em dia, só faço essas figuras em peças de amigos... 

quarta-feira, junho 30, 2010

Rohmer e Godard

Clermont-Ferrand é uma terra que já me trazia à memória a "nouvelle vague" do cinema francês, porque foi a cidade onde Eric Rohmer filmou o mítico "Ma nuit chez Maud". Agora, ao ter sido recebido pelo "maire" se chama Godard (embora Serge e não Jean-Luc), esta memória adensa-se.

No passado sábado, estive em Clermont-Ferrand para inaugurar a nova sede de uma associação portuguesa, que este ano comemora impressionantes três décadas de existência. Um fantástica festa de S. João, com milhares de visitantes, provou bem a vitalidade e a integração dos muitos portugueses que vivem na terra de Pascal e capital da Michelin.

terça-feira, junho 29, 2010

Paulo Jorge (1929-2010)

Com a morte de Paulo Jorge, antigo ministro das Relações Exteriores de Angola, morre também um certo MPLA.

Uma noite, numa conversa em Luanda, nos anos 80, em casa do Fernando Valpaços, Paulo Jorge contou-me uma história que nunca mais esqueci, porque tem um significado interessante.

Eram passadas poucas semanas após o 25 de abril de 1974 e uma delegação do MPLA, chefiada pelo próprio Paulo Jorge, chegou a um certo país do norte de África, para uma visita oficial. A delegação desceu do avião e, para grande surpresa dos seus integrantes, ninguém parecia aguardá-los. Dirigiram-se para a sala de desembarque e aí esperaram. Alguns minutos depois, foram hesitantemente aproximados por umas pessoas que inquiriram se aquele grupo não seria, por caso, a delegação angolana. Paulo Jorge e os seus companheiros confirmaram que sim, para evidente alívio daqueles que eram, afinal, os seus anfitriões. Na realidade, eram as mesmas pessoas que eles já haviam visto ao fundo da escada, à saída do avião, mas que, nesse momento, não tinham feito qualquer gesto de aproximação. Os anfitriões explicaram, um pouco embaraçados: é que não estavam à espera que a delegação do MPLA fosse constituída só por brancos...

Outros tempos. 

Espiões

"Old habits die hard". A notícia de que 10 alegados espiões russos foram detidos nos Estados Unidos, onde estariam a ser infiltrados, pode levar alguns a imaginar um retorno aos tempos da Guerra Fria, um mundo que pensavam já terminado. O mais curioso é que isto se passa quase simultaneamente com o dia em que os presidentes Obama e Medvedev trocaram abraços de cumplicidade e reiteraram o aprofundamento da amizade russo-americana.

A verdade é que o tempo dos serviços de "intelligence" está longe de ter acabado. Eles andam por aí travestidos em outros modelos, mesmo entre países mais ou menos amigos, mas com uma ação agora mais vocacionada para as temáticas económicas e tecnológicas. Este é um jogo eterno de sombras que sempre existiu e há-de continuar a existir, porque é da natureza dos Estados tentar saber um pouco mais para além do que é público, por forma a dar o melhor alimento informativo para suporte das decisões oficiais e mesmo privadas, desde que consideradas de importância estratrégica para a preservação ou promoção dos seus interesses.

Às vezes, continua a ser feita alguma confusão entre o trabalho diplomático e o dos serviços de informações, em especial quando se atua em países não democráticos, em que o acesso à informação é mais complexo. Não nego que, nessas circunstâncias, pode surgir uma "zona cinzenta" entre esses dois mundos, mas é de elementar prudência que os profissionais da diplomacia sejam habilitados com um código claro de instruções que lhe evite o risco de passarem a perigosa "red line" entre o modo legítimo de coletar informação e a tentação de a obterem por meios menos curiais.

Espanha-Portugal

Segundo a TF1, num comentário, prevendo o jogo de hoje: "Des cousins qui ne se font pas de cadeaux"...

segunda-feira, junho 28, 2010

Emigrar para Portugal

"E o seu filho, não quer emigrar para Portugal?". A pergunta do antigo presidente Jorge Sampaio deixou sem resposta o senhor Fartaria, que olhou de soslaio o seu filho Isidore, naquela noite em Clermont-Ferrand, aqui há uns anos. A conversa acabou por ter um desfecho feliz.

Isidore Fartaria não "emigrou" para Portugal, mas a sugestão do antigo chefe de Estado acabou por suscitar o seu interesse e levou-o a procurar oportunidades de negócio no seu país de nascimento, de onde saíra com 16 anos, que pudessem dar sequência às inúmeras atividades empresariais em que, entretanto, a família já se envolvera, com sucesso, em França. Como resultado dessa visita e do entusiasmo suscitado para investir no país onde nasceu, o antigo canalizador Isidore Fartaria viria a construiu uma unidade fabril na Marinha Grande, a exemplo das que hoje mantém em Espanha e na ilha da Reunião, complementando assim, desse modo, a sua já diversificada presença empresarial em França.

Há semanas, o presidente da República portuguesa, Aníbal Cavaco Silva, atribuiu a Isidore Fartaria o prémio COTEC Portugal - Associação Empresarial para a Inovação. No passado sábado, tive o gosto de o conhecer pessoalmente em Clermont-Ferrand, onde hoje é uma figura proeminente e muito prestigiada da comunidade de origem portuguesa.

domingo, junho 27, 2010

Pierre Grosser

Pierre Grosser é, nos dias de hoje, uma personalidade muito respeitada no mundo da investigação histórica francesa sobre temas de política internacional, área em que a França, quase sempre muito "auto-centrada" na sua própria história, não tem muitos especialistas. Grosser é um deles e, na passada quinta-feira, tive um grande gosto em conhecê-lo pessoalmente, na sede da UNESCO, no dia em que recebeu o Prix des Ambassadeurs. A obra que valeu este prémio já foi destacada neste blogue - "1989 - l'année où le monde a basculé" - e é dedicada a esse ano-charneira em que a queda do Muro de Berlim correspondeu à queda de muitas ilusões e ao nascimento de outras tantas.

O Prix des Ambassadeurs é um galardão anual atribuído a uma obra de história política,  escolhida por um júri, constituído por  um grupo de vinte embaixadores, selecionados sob a égide da Académie Française, para o qual tive o gosto de ser convidado após a minha chegada e de que tenho grande honra de fazer parte. Foi criado em 1948 e já distinguiu obras de figuras da craveira de Saint-Exupéry, Simone Weil, Raymond Aron, André Maurois e Henry Troyat, entre muito outros.

Foi curioso ouvir Pierre Grosser, com um papel determinante na Escola Diplomática do "Quai d'Orsay", sublinhar a sua fidelidade ao trabalho de uma grande figura do pensamento conservador, como é o caso de Raymond Aron - a quem os acontecimentos de 1989 seguramente muito diriam, se acaso não tivesse desaparecido em 1983. Igualmente notei que Grosser increve afirmadamente o seu nome numa linhagem de estudos de história onde estão nomes como Jean-Baptiste Duroselle ou Pierre Milza, que muito ajudaram a minha geração diplomática a melhor compreender o mundo.

Não escondo que me agrada muito ficar ligado, nesta minha passagem por Paris, a uma iniciativa de destaque sobre uma dimensão relevante da vida intelectual francesa. 

sábado, junho 26, 2010

Brasil - Portugal

O título deste post não tem nada a ver com o jogo disputado na sexta-feira entre Portugal e o Brasil. Refere-se apenas ao modo como as relações bilaterais são tratadas nas memórias do meu amigo Luiz Filipe Lampreia, antigo embaixador do Brasil em Lisboa e ministro das Relações Exteriores do seu país.

No "O Brasil e os Ventos do Mundo", livro que acaba de sair e que já estou a acabar de ler, aprende-se muito sobre o modo como a potência da América Latina olha as relações internacionais e, em especial, aquelas que são mais relevantes para o seu bem merecido processo de afirmação à escala global. Nesse olhar, há um espaço para a relação com Portugal, que deve ser lido na exata medida da importância que esta tem para a política externa brasileira. 

Anoto duas referências.

Na primeira, Lampreia lembra a crise dos dentistas - uma temática sensível. que deixou algumas feridas na memória pública brasileira. A perspetiva do então embaixador brasileiro em Portugal não valoriza suficientemente, a meu ver, um conjunto de fatores importantes na ordem interna portuguesa que condicionaram então a nossa atitude. Tenho esperanças que, da nossa parte, venha a aparecer ainda a público uma leitura deste caso, que possa "dialogar" eficazmente com a visão de Luiz Filipe Lampreia.

A segunda referência, no contexto da densificação das relações político-económicas bilaterais nos anos 90, prende-se com a CPLP. Registo o que diz: "Essa instituição vem prestando bons serviços à aproximação entre os países que partilham a língua portuguesa, ainda que seu escopo seja limitado e que no Brasil não exista nenhum entusiasmo com a instituição. Na alfândega em Lisboa, por exemplo, existe uma fila especial para os portadores de passaporte da CPLP".

O memorialismo diplomático brasileiro, ao contrário dos escassos trabalhos entre nós publicados, é imenso e tem uma grande importância para a fixação da história contemporânea das relações externas do Brasil.

sexta-feira, junho 25, 2010

"Notas Verbais"

A "nota verbal" é a forma de comunicação mais corrente entre os serviços diplomáticos. Tem esse nome porque, no passado, a entrega de um texto consagrava aquilo que fora dito num contacto pessoal.

Fez ontem precisamente sete anos, surgiu, na blogosfera portuguesa, o "Notas Verbais", um blogue dedicado à política externa e à diplomacia. O nome logo despertou  imensa curiosidade nos corredores das Necessidades, bem como nas suas antenas exteriores. O blogue trazia comentários e notícias sobre a atividade do Ministério dos Negócios Estrangeiros, muitas vezes incisivos, outras vezes neutrais ou meramente informativos.

Ao final de uns tempos de dúvida, o seu autor revelou-se: era Carlos Albino, um jornalista que (creio) iniciou a sua carreira no "República" e que viria, mais tarde, a ser responsável por uma secção de acompanhamento da vida diplomática no "Diário de Notícias". Como dado pessoal curioso, lembro que Carlos Albino teve um relevante papel no processo de transmissão da "senha" radiofónica que lançou o 25 de Abril.

Esta minha nota - que é escrita e não "verbal" - destina-se a destacar que, com intermitências (algumas bem longas), Carlos Albino mantém, com determinação, aquele que é talvez um dos mais antigos blogues portugueses. E que é um espaço opinativo que muito de nós, profisionais da diplomacia, visitamos, com maior ou menor regularidade.

Como é da natureza destas coisas, e que também diz bem da independência do autor, não foram (nem são) raras as vezes em que a minha leitura de algumas das questões que o blogue aborda diferiu, às vezes de forma muito contrastante, com a que era sustentada por Carlos Albino. Em alguns desses casos, porque estavam em causa pessoas que muito respeito ou posições com que eu discordava abertamente, entendi ser minha obrigação dizer-lho por escrito, com toda a frontalidade. Carlos Albino sempre teve a simpatia de acolher, sem acrimónia, essas minhas críticas ou divergências - e, como ele bem sabe. algumas mantêm-se ainda hoje...

Souto Moura

Os franceses ficam sempre encantados quando ouvem uma certa geração portuguesa expressar-se bem na sua língua. Embora lamentando muito, costumo acabar-lhes cedo com as ilusões, informando-os que, com algumas exceções, somos, em Portugal, uma "raça em extinção".

Ontem, ao ouvir Eduardo Souto Moura ler um belo texto num excelente francês - no qual assumiu a inspiração da sua obra na de Mies van der Rohe -, foi muito curioso ver o público presente na sessão anual da Académie de l'Architecture, aqui em Paris, prolongar essa ilusão de que Portugal permanece como sólido pilar do proselitismo linguístico da língua francesa. Não é verdade, infelizmente.

Souto Moura esteve em França para receber um prémio pela sua obra, dado pelos seus pares franceses, consagrando assim um reconhecimento internacional da arquitetura portuguesa que a todos nos honra.

quinta-feira, junho 24, 2010

Carta ao Mathis

Olá, Mathis

Soube há pouco, por um jornal, que não te deixaram entrar na escola, aqui em França, porque levavas vestida a camisola da seleção portuguesa. Os teus pais, ao que parece, ficaram aborrecidos com isso.

Queria dizer-te que não deves ficar preocupado com o que aconteceu. Pelos vistos, o objetivo da direção da tua escola foi evitar a possibilidade de outros meninos, de várias nacionalidades - a começar pelos franceses -, poderem meter-se contigo e criar alguma confusão. Se calhar, na tua escola, há meninos da Coreia do Norte...

É muito bom que tenhas sentido orgulho em usar a nossa camisola. A França é o país onde vives mas, como se viu, Portugal é o país que trazes no teu coração. É aqui que, provavelmente, irás fazer a tua vida, no futuro, mas isso não te torna menos português. A França é uma terra onde há muita gente que veio de outros países, como de Portugal, à procura de oportunidades para trabalhar. A França deu-lhes essa possibilidade e os portugueses retribuíram com o seu esforço, com a sua seriedade e a sua honestidade, para a riqueza da sociedade francesa. E aqui estão, também em sua casa. Ninguém deve nada a ninguém. E tu és a melhor prova do sucesso da integração dos portugueses em França, com a tua mãe francesa e o teu pai luso-descendente.

Os portugueses que aqui vivem devem ser sempre leais para com a França que os acolhe, da mesma maneira que a França tem de aceitar que tu, tal como os outros meninos que se sintam ligados a Portugal, possam mostrar isso, nas ruas ou nas camisolas. Pode discutir-se se a escola é o lugar mais indicado para andar com as camisolas da nossa seleção, mas, aos teus amigos de cá, deves lembrar que foi a Revolução Francesa, aquela que está na bela "La Marseillaise", que ensinou o mundo a lutar pela liberdade, a defender a igualdade entre todos e a demonstrar a nossa fraternidade perante os outros.

Para ti, caro Mathis, quero deixar-te um abraço bem lusitano e um convite para, um destes dias, vires, com os teus pais, visitar a Embaixada. E também espero que, qualquer que seja o resultado que a seleção portuguesa venha a ter no Mundial, tragas vestida a camisola das quinas. É que nós, os portugueses, temos por tradição ser muito orgulhosos do nosso país, tanto nos bons como nos maus momentos.

Francisco Seixas da Costa

Em tempo: leiam também o que o Tintin no Tibete escreveu. E vejam e ouçam a história, contada com fluência pelo próprio Mathis, aqui.

"Trivia"

Este post é dedicado a um amigo, que às vezes julgo que aparece anonimamente pelos comentários deste blogue, o qual, tal como eu, é dado ao domínio do misterioso significado de algumas palavras e expressões, comigo trocando livros, de há muito, sobre esse fascinante tema. 

Há umas semanas, uma importante personalidade política portuguesa, que viajava ao meu lado num automóvel, pelas margens do Sena, perguntou-me: "De onde é que vem o nome dos 'bateaux-mouches'?

Apanhado de surpresa - mas com a obrigação inerente a um diplomata em posto, que deve ter resposta pronta para tudo - respondi, com a imparável segurança dos que têm inconfessáveis dúvidas, que me parecia que a designação dada aos barcos que andam pelo Sena, cheios de turistas, derivava da suas grandes janelas de vidro, que se assemelhavam aos grandes olhos das moscas. Não fazia ideia de onde me tinha vindo essa súbita "sapiência", mas tinha-a na cabeça e preferi-a à versão, que ouvira ainda há pouco tempo, de que o nome derivava das vagas de moscas que, no Verão, pululavam pelo rio, atormentando os passageiros desses barcos.

Ontem à noite, estava a jantar numa "péniche", uma dessas embarações que estão ancoradas aos cais nas margens do Sena, onde vive um amigo meu de bom gosto e, ao ver passar um "bateau-mouche", suscitei a minha dúvida. E logo um conviva, mais sábio, me explicou: o nome é já do século XIX e deriva da antiga zona de la Mouche, em Gerland, a sul de Lyon, onde se situava um estaleiro em que os primeiros barcos (que viriam a ser utilizados para transporte de carga e passageiros no Sena) foram construídos.

"Voilà"! Às vezes, as coisas são bem mais simples do que pensamos.

quarta-feira, junho 23, 2010

"Bleus"

A propósito da episódica greve ao treino (e da mais prolongada "greve" aos bons resultados) da seleção de futebol de França, um amigo conservador deu-me ontem uma interpretação bem-humorada: "A França é conhecida, em todo o mundo, por ser um país de grevistas. Para estar à altura dessa tradição, só faltava sermos capazes de organizar uma greve de milionários. Agora já conseguimos!"

Viva Cabo Verde, pués!