quinta-feira, março 04, 2010

Tristeza

Uma análise de duas páginas que o "Libération" ontem trouxe sobre Portugal foi ilustrada pela fotografia de três jovens. Como o texto foca o problema  das condições de precariedade no nosso mercado de trabalho, é natural que as caras não se mostrem sorridentes e bem dispostas - ou melhor, que o jornal tenha optado por fotografias que não contrastassem com o sentido do texto.

Com todo o subjetivismo que esta minha análise possa ter, sou de opinião, porém, que o "Libération" se sentiu subliminarmente tentado a seguir uma ideia estereotipada, que, sobre os portugueses, subsiste no imaginário de muitos franceses: gente grave, de ar sério, um tanto formal e reservada, que às vezes parece "assustada" com o mundo. Como todas as caricaturas, esta minha leitura também vale o que vale.

Ficou-me desde sempre na memória a capa da 2ª edição (ver supra) do livro "Portugal", de Franz Villier, publicado na Petite Planète, a seguir ao 25 de Abril, que figura na imagem. O que nela se vê é revelador: uma jovem portuguesa de ar vagamente suburbano, já com alguns traços de modernidade na discreta maquilhagem, num fundo tradicional, marcada por uma quase endémica tristeza, que a luz ambiente como que sublinha. A graça - se é que isto tem alguma graça - é que a capa da 1ª edição do mesmo livro (ver infra), feita ainda ao tempo do Estado Novo (1957), era igualmente caricatural: uma mulher rural, xaile negro, olhar neutro e parado, com um pálido roxo pascal a atenuar o branco-e-preto original. A rue Scribe, que então controlava a "diplomacia pública" portuguesa em França, tinha feito o seu trabalho...

Comprazemo-nos, historicamente, a contrariar o "les portugais sont toujours gais", da opereta de Lecocq, que foi buscar a imagem a Alphonse Allais, ao espalharmos, como Mariza o canta tão bem
 
"sempre que se ouve um gemido, 
numa guitarra a cantar, 
ó gente da minha terra,                
agora é que eu percebi,
esta tristeza que trago,
foi de vós que a recebi.

Depois, não nos podemos queixar do "Libération"...  


Greve

Uma greve é um gesto coletivo de protesto que resulta do usufruto dos direitos que a democracia a todos concede. Quem a faz fá-lo por razões que considera importantes e, só por isso, essa sua atitude deve ser respeitada e ponderada.

Desde que cheguei a Paris, há mais de um ano, esta é a terceira vez em que a Embaixada quase se esvazia, pelo exercício do direito à greve do pessoal administrativo.

Esta nota não se prende com as razões invocadas, liga-se ao efeito sobre o quotidiano do serviço.

Para quem não tem razões para fazer greve, a Embaixada, nestes dias, muda completamente de perfil, nos seus corredores instala-se um silêncio ou um mero rumor, como que se os passos dos que ficam fossem dados sobre veludo.

quarta-feira, março 03, 2010

Rússia

Ao saudar, protocolarmente, o presidente russo Dmitri Medvedev, nos salões da Mairie de Paris, não pude ontem deixar de me interrogar sobre o que faz com que a França e a Rússia mantenham, desde há muito, uma espécie de fascínio mútuo, que sempre atravessou titulares muito diversos do poder político nos dois países.

Várias explicações de natureza estratégica podem ser avançadas, no quadro internacional de forças das últimas décadas, desde aquelas que têm os EUA na equação até quantas não esquecem o posicionamento relativo da Alemanha. Mas, pela certa, deve haver algo de mais permanente.

Em 2010, França e Rússia levarão a cabo uma imensidão de realizações culturais, para benefício dos respetivos públicos, para um melhor conhecimento das suas realidades e, de caminho, mostrando a grandeza dos seus patrimónios históricos. Pergunto-me se, há exatamente 110 anos, quando Alexandre III ofereceu a Paris a sua mais bela ponte (na imagem) não estaria a ter consciência de que, com esse ato, ajudaria a ligar ainda mais estes dois poderes europeus.

E volto a Medvedev. Os faustos dos Kremlin ou do Hermitage não estão muito distantes dos dourados e espelhos de Versailles e de outros palácios franceses. Por isso, e contrariamente a outros líderes que visitam Paris, pressenti Medvedev, de certo modo, "em casa", nos espaços do Hotel de Ville. Os franceses fizeram a Revolução, mas guardaram bem o património da monarquia e adaptaram a ele as liturgias da República. Os russos liquidaram o regime dos Czars, mas nem Lenine, Staline e os sucessores, tal como o novo poder russo, dispensaram o usufruto e o prestígio decorrente das amenidades imperiais. 

Clima

Claude Allègre é um cientista e político francês que não teme a polémica. Ministro da Educação no governo socialista de Lionel Jospin, saiu em conflito com o setor. Recentemente, foi dado  praticamente como certo que poderia integrar o governo do presidente Sarkozy, mas isso acabou por não ter lugar.

O carácter mais polémico de Claude Allègre advem, contudo, da sua posição altamente reticente em aceitar alguns dos pressupostos vulgarmente avançados sobre o tema do aquecimento global. Não sendo necessariamente um "negacionista", Allègre tem dúvidas sobre o bom fundamento das teorias de relação causa-efeito que estão em moda e, recentemente, expô-las num livro.

Hoje, no "Le Monde" (de amanhã...), sintetiza em cinco pontos o que pensa:

- o painel da ONU designado GIEC (grupo intergovernamental de peritos sobre as alterações climáticas) é culpado por "erros científicos graves" e o seu método de decisão por consenso, que silencia as opiniões minoritárias, é "incompatível com a ética da ciência".

- o planeta pode estar ameaçado de um aumento a 1 ou 2 graus centígrados de temperatura... mas dentro de um século. Mas pode, igualmente, estar ameaçado de uma baixa das temperaturas.

- o CO2 é uma ameaça quando "em excesso", porque acidifica os oceanos e também porque é de boa política economizar as energias fósseis. Mas é errado imputar-lhe todos os males.

- há uma "ideologia do aquecimento climático" promovida pelos ecologistas. É necessário reencontrar, neste tema, as leis elementares do debate científico - aberto, contraditório sem apriorismos.

- em Copenhague, a "rebelião" dos países emergentes ficou a dever-se à recusa de um "neocolonialismo rastejante, encostado a interesses financeiros de que um dos principais porta-vozes é Al Gore", representando um "ecobusiness" que também existe em França.

Este é um debate sobre o qual não tenho conhecimentos que me levem a dar a menor opinião, mas que sigo com interesse. Tenho, contudo, uma curiosidade: há quantos dias terá sido enviado este artigo para o "Le Monde"? Posso estar enganado, mas suspeito que terá sido antes das recentes cheias...

terça-feira, março 02, 2010

Mindlin

Recebi, há pouco, a notícia da morte, em S. Paulo, de José Mindlin. Tinha 95 anos e, desde há cerca de quatro, era membro da prestigiada Academia Brasileira de Letras (ABL). Era proprietário de uma fantástica biblioteca, a mais importante coleção privada do Brasil, recheada de preciosidades, as quais, por decisão do próprio e da família, estavam destinadas a ocupar um edifício próprio na Universidade de S. Paulo.

Em 18 de Março de 2006, fui com o professor Jorge Couto, diretor da nossa Biblioteca Nacional, e o meu colega Luis Barreira de Sousa, ao tempo cônsul-geral em S. Paulo, fazer uma visita à biblioteca de Mindlin, guiada pelo próprio. Era uma moradia no bairro residencial de Campo Belo, com uma área climatizada, dedicada aos seus cerca de 40 mil livros raros, manuscritos, provas tipográficas anotadas, gravuras, etc.

José Mindlin era um advogado e empresário, filho de um casal de russos emigrados para o  Brasil no século XIX, que teve a fortuna de sempre ter dinheiro no momento em que outros vendiam coisas importantes. Estava nas "mailing lists" permanentes dos grandes leilões internacionais e, como nos disse, "eles sabem aquilo de que eu ando à procura". Com uma memória vivíssima e sem falhas, ciceroneou-nos por imensas estantes recheadas de alguns documentos únicos, muitos dos quais ligados a personalidades ou tempos da história portuguesa, de que era um apaixonado. Lembro-me dos olhos "gulosos" de Jorge Couto, um dos nossos maiores especialistas em história luso-brasileira, ao avistar algumas raridades, comentando, com pena, a sua ausência no nosso acervo, em Lisboa: "De facto, este não temos lá!"

No fim da visita, de algumas horas, José Mindlin, acompanhado pela sua mulher Guita (que faleceria um ano depois) ofereceu-nos uma cachaça, com a recomendação: "Não deixem de beber cachaça! Enquanto a beberem é sinal que não morreram..."

À despedida, José Mindlin, que mais tarde passei a encontrar nas minhas frequentes visitas à ABL, teve ainda a simpatia de me oferecer, com uma generosa dedicatória, o livro "Destaques da Biblioteca InDisciplinada de Guita e José Mindlin, Vol I - Brasiliana" (haverá um volume II?), que inventaria o mundo maravilhoso dos seus livros e onde figura o ex-libris que usava, extraído de Montaigne: "Je ne fais rien sans gaité". Notava-se.

Aqui deixo a minha comovida homenagem a este homem que deu aos livros um lugar central na sua vida.

"Público"

O jornal "Público" faz 20 anos. Quando apareceu, o diário representou uma lufada de ar fresco no panorama jornalístico português, com uma importância quase similar àquela que o "Expresso" teve nos estertores da ditadura - e não será por acaso que o "Público" foi criado por gente saída do "Expresso". O "Público" passou a ser o nosso "Le Monde", o nosso "El País", o nosso "La Reppublica". Era, manifestamente, era um corte cultural com a prática de imprensa diária em que, até aí, Portugal tinha vivido.

Sempre tive no "Público" pessoas que mereceram a minha estima e amizade, ao longo destas duas décadas em que, com as limitações da distância, acompanho regularmente o jornal. Devo ao "Público" a simpática atenção que deu às diversas atividades que desenvolvi, em todo o tempo do seu percurso. Nele publiquei  vários artigos, por ele fui entrevistado algumas vezes. A todos os meus amigos do "Público"-  mesmo àqueles que dele se afastaram há muito, como é o caso do seu fundador e idealizador, Vicente Jorge Silva - deixo aqui um forte abraço coletivo de parabéns. Por muita água que tenha corrido sob as pontes, por muito que o "Público" tenha mudado, uma  realidade é indiscutível: há uma imprensa portuguesa antes do "Público" e outra depois da sua aparição.

Dos depoimentos que o jornal pediu a personalidades de grande relevo na vida portuguesa, e que tem vindo a divulgar no seu site, há um que quero destacar em particular, o do meu amigo e embaixador português junto da OCDE, Eduardo Ferro Rodrigues. Concordo, em absoluto, com tudo o que ele disse, a propósito destes 20 anos do "Público".

Imigrantes

Um grupo de ativistas pelos direitos dos imigrantes lançou em França um movimento sob o lema "24 horas sem nós: um dia sem imigrantes". A ideia era simples: organizar, no dia 1 de Março, uma greve de imigrantes neste país, com vista a dar uma imagem de quanto a economia do dia-a-dia francês deles depende.

Não tenho conhecimento do grau de sucesso da iniciativa e até duvido muito que ela se tenha concretizado de forma visível. Os imigrantes são, entre todos os assalariados, aqueles que, por regra, têm maior precariedade no seu vínculo laboral, vivem numa dependência económica que os torna presas fáceis do seu patronato e, finalmente, raramente têm uma consciência política capaz de os conduzir a ações reivindicativas desse género.

Esta iniciativa tem, pelo menos, o considerável mérito de nos levar a uma reflexão: o que seria das sociedades europeias contemporâneas sem o trabalho dos imigrantes?

segunda-feira, março 01, 2010

Telejornais

Impressiona-me imenso a incapacidade dos canais televisivos portugueses para limitar a extensão dos seus telejornais. Não sei o que se passa na generalidade dos países do mundo, mas, em todos quantos vivi, os períodos noticiosos das televisões de referência têm sempre uma duração bem limitada, raramente excedendo os 30 minutos.

A adoção rigorosa desse modelo ajuda a priorizar a importância das notícias, facilita a que o tratamento dos temas seja feito com sintetismo e limita aquelas palavrosas ligações "ao local", onde os repórteres apenas repetem o conteúdo das peças, alimentam os "manifestantes das oito" ou dão voz a transeuntes que pouco viram. 

O que mais impressiona nos telejornais portugueses é a total ausência do conceito de "tempo", o qual, aparentemente, é um bem muito escasso em televisão. Muitas vezes, num debate temático, os moderadores interrompem, com facilidade, uma exposição interessante, por falta de um minuto disponível. Porém, num telejornal, um acidente de estrada ou um incidente desportivo tem direito a longo tratamento, com pormenores e comentários cheios de inanidades perfeitamente dispensáveis. O que mais me preocupa é que, pelos vistos, toda a gente acha isto natural...

Este meu comentário vem a propósito do profissionalismo com que ontem vi tratada, ao longo do dia, na televisão francesa, a imensa tragédia provocada pela tempestade, que aqui causou largas dezenas de vítimas. Cada telejornal dos principais canais da televisão francesa, públicos e privados, não alterou o seu formato de meia-hora, tendo, no entanto, tratado o assunto com profundidade, em peças curtas, com notas humanas,  diretos breves e concisos, opiniões de especialistas e - muito importante! - com escassíssimas e muito curtas declarações de entidades oficiais. Tudo isto sem deixar de referir outros temas da actualidade francesa e mundial. E, repito, apenas em 30 minutos.

Tragédia

Depois da Madeira, também a França foi ontem alvo das intempéries, com um número de vítimas mortais a ascender a cerca de meia centena.

O que se torna impressionante é que, contrariamente ao caso da Madeira, esta tempestade estava prevista e as previsões acertaram nas regiões que seriam mais atingidas. A França é, além disso, um país altamente organizado e tinha montado um dispositivo de alerta nacional, normalmente bastante eficaz. Não obstante, a violência do clima ultrapassou tudo o que era possível esperar.

Ontem à tarde, na catedral de Notre-Dame de Paris, onde o cardeal André Vingt-Trois teve a simpatia de dedicar uma missa às vítimas da Madeira, num gesto para com a comunidade portuguesa que pessoalmente lhe agradeci, as palavras do celebrante e o pensamento das largas centenas de presentes alargaram-se naturalmente aos acontecimentos da própria França e, também, ao fatídico terramoto no Chile.

Uma semana para esquecer. Ou melhor, para lembrar.

domingo, fevereiro 28, 2010

Águas de Março

No início deste mês, em que esperamos que as águas abrandem a sua fúria, ouçamos estas  "Águas de Março" de Tom Jobim pela voz mágica de Elis Regina.

sábado, fevereiro 27, 2010

Títulos

Diverte-me analisar a construção dos títulos na imprensa. Os livros sobre jornalismo estão cheios de conselhos sobre a matéria, mas a realidade é que é a imaginação e a qualidade do tratamento do assunto que contam.

Alguma imprensa francesa, especialmente a menos convencional, procura explorar jogos de palavras e, muitas vezes, surpreende pelo brilhantismo. Outra, à revelia de belos tempos do passado, tem a "graça" de uma primeira página do "Novidades", de "A Voz", do "Diário da Manhã" ou do "Diário de Notícias" do tempo do (também) meu antecessor  neste posto, Augusto de Castro (para quem saiba o que esses jornais significavam).

Um bom título é um chamariz importante e já tenho visto crónicas, antecedidas de uma frase apelativa, na qual o autor começa por confessar que usou o título apenas para atrair o leitor, não tendo o texto nada a ver com ele...

Dizia-se que alguns jornalistas do semanário "O Independente", que marcou uma época na imprensa em Portugal, inventavam belos títulos e, depois, iam à procura de um assunto para encher a notícia.

Sendo que o rigor jornalístico parece hoje algo minoritário ou arqueológico, assistimos cada vez mais a verdadeiros atentados à deontologia. Um dos truques correntes consiste em transformar uma resposta de sim ou não, dada a uma pergunta inesperada e às vezes tonta e decontextualizada, num título, com uma frase que não foi, de facto, dita.

Querem um exemplo? Pergunte-se, por exemplo, ao presidente da TAP, se já voou numa companhia "low cost". Com toda a certeza, o engº Fernando Pinto  irá responder "não". Conheço pelo menos um certo jornal português que, sem a menor dúvida, iria puxar para título "Nunca viajei numa 'low cost'", com tudo o que isso tem de subliminarmente negativo. É isto sério? Não é, claro.

Mas há muitos outros "golpes". Um dia, em outras funções, dei uma longa entrevista a um jornal cuja seriedade era para muitos duvidosa. Apenas fui convencido por conhecer o jornalista, em cujo profissionalismo confiava. A entrevista correu bem e, se bem me lembro, o texto ficou irrepreensível. Mas nem tudo iria correr bem com essa entrevista. A certo passo, o jornalista perguntou-me se Portugal não pagava demasiado para o orçamento da União Europeia. Esclareci, num tom académico, que os países contribuíam de acordo com o seu PNB (produto nacional bruto), isto é, de acordo com a sua riqueza. Foi então que cometi um erro, ao ousar acrescentar uma ironia: até gostaríamos de pagar bem mais, porque isso significaria que éramos um país mais rico. O inevitável aconteceu: tive "direito" a primeira página, com grande fotografia, e a "citação": "Queremos pagar bem mais para a Europa!". Imagino a cara dos leitores...

Tours

Ontem, em Tours, onde fui ao lançamento de um "Portuguese Business Club" e encontrar um ativo setor da nossa comunidade, comentei com o "maire" da cidade, Jean Germain, um bom amigo de Portugal e dos portugueses, a beleza da sala da "Mairie" onde estávamos. 

Para minha imensa surpresa, disse-me ser aquele exatamente o local onde Léon Blum havia proferido o seu famoso "discurso de Tours", em 27 de Dezembro de 1920.

Num instante, confrontei-me com a memória daquele que é talvez o grande "separar de águas" entre socialistas e comunistas. O "discurso de Tours" é considerado uma das peças políticas mais relevantes do século XX, porque foi através dele que o chefe socialista marcou o seu afastamento face às ideias de Lenine e a sua rejeição em aderir à III Internacional (Internacional Comunista), o que conduziu à melhor definição de uma linha democrática dentro do socialismo francês, que acabou por ter consequências muito importantes em todo o mundo. Com o "discurso de Tours", Blum ajudou a abrir um caminho autónomo, em termos de prática política com efeitos na governação, a uma corrente de pensamento que viria a ser determinante a partir de então e que, em França, daria aos socialistas a autoridade para poderem lançar, com os comunistas, o "Front Populaire" e, muitos anos mais tarde, o "Programme Commun". 

Quem vive em França corre o sério "risco" de encontrar a História pelas esquinas do quotidiano.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Madeira

É um gesto de grande simpatia, para com Portugal e a nossa comunidade em França, aquele que foi anunciado pelo cardeal André Vingt-Trois, arcebispo de Paris, ao promover, na catedral de Notre-Dame, pelas 18.30 horas de domingo, dia 28 de Fevereiro, uma missa pelas vítimas da tragédia da Madeira.
 

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Marcello Mathias

A propósito de uma troca de comentários sobre os diplomatas e a escrita, suscitado pelo anterior post sobre Eça de Queirós, lembrei-me de anotar aqui hoje a figura de um meu predecessor neste posto, o embaixador Marcello Mathias (1903-1999).

Em 1973, surgiu nas livrarias de Lisboa um romance, editado pela Bertrand, com o título "Lusco Fusco", assinado por Pablo la Noche. A obra tinha uma real qualidade literária, apoiada numa escrita culta, um tanto nostálgica, mas com passagens de uma vivacidade inesperada. Foi bem acolhida pela crítica e viria a obter um prémio literário. Veio então a saber-se que o autor era, nem mais nem menos, o embaixador Marcello Mathias, o que suscitou grande curiosidade. Mais tarde, o romance veria a ser editado em França pela Robert Laffont, onde ganhou também um prémio literário, já com o nome verdadeiro do autor e tendo por título o pseudónimo utilizado na edição portuguesa: "Pablo la Nuit". Em Portugal, foi recentemente reeditado pela Quetzal.

Marcello Mathias é uma das grandes figuras da diplomacia do Estado Novo. Muito próximo de Salazar, seria por este convidado para o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, função que exerceu entre duas estadas como embaixador em Paris, cidade onde permaneceu mais de duas décadas. É do maior interesse para a história contemporânea o livro que publicou sob o título "Correspondência Marcello Mathias/Salazar (1947/1968)". Num registo de curiosidade, por ele se fica também a saber algo mais do propalado romance sentimental entre o ditador e a jornalista francesa Christine Garnier.

Deve muito à habilidade e inteligência diplomática de Marcello Mathias o resultado favorável da  complexa negociação que permitiu a ida para Portugal do valiosíssimo espólio artístico que Calouste Gulbenkian possuía em Paris, uma tarefa para a qual contribuiu a sua grande influência junto do poder político francês da época. O facto muito excepcional de, como embaixador, ter recebido das autoridades francesas a Grand-Croix de la Légion d'Honneur diz muito. 

Há já uns bons anos, num jantar algures no mundo, ao lado de um dos seus filhos, o também meu predecessor em Paris, embaixador Leonardo Mathias (outro filho, Marcello Duarte Mathias, é um consagrado escritor e também embaixador), Manuela Margarido, à época representante diplomática de S. Tomé e Príncipe em Bruxelas, contou uma história curiosa. Com várias peripécias interessantes, Manuela - uma personalidade  notável, infelizmente já falecida - revelou que fora graças a uma intervenção de Marcello Mathias que, um dia, conseguira evitar ser presa pela PIDE.

À conversa, estavam presentes dois jovens governantes da mesma geração política, um português e outro estrangeiro. Ambos partilharam uma forte e quase jocosa surpresa pelo facto de um dignitário do anterior regime se ter recusado a ser cúmplice de uma arbitrariedade. Talvez porque não percebessem que, sendo embora um fiel "da situação" - como se designavam os apoiantes do regime -, Marcello Mathias era um homem que havia já tido um papel importante na libertação de Alain Oulman, o compositor francês de Amália, das cadeias do regime.

Na troca de palavras que se seguiu, para além de terem provavelmente entendido que as voltas da vida não são tão lineares como as lógicas das ideologias, só posso dizer que os dois governantes aprenderam algumas coisas sobre a dignidade, coisa que o exercício episódico do poder nem sempre ensina.

Eça

Há mais de três décadas, uma editora oficial que oferecia os livros que publicava (é verdade, havia disso!), chamada "Terra Livre", deu à estampa as "Imagens do Portugal Queirosiano", de um (até então) para mim desconhecido A. Campos Matos. Vim a saber tratar-se de um arquiteto que se dedicava ao estudo de Eça de Queirós (um "queirosiano", como de diz em Portugal, ou um "ecista", como se diz no Brasil). A partir daí, adquiri tudo quanto Campos Matos publicou, incluindo as duas edições e o suplemento do magnífico "Dicionário de Eça de Queirós", que coordenou.

Surge agora, editado em Paris, da autoria de A. Campos Matos, pela mão das "Editions de la Différence", com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, o livro "Vie et Oeuvre d'Eça de Queiroz". Trata-se não apenas da primeira das (até agora) oito biografia existentes do escritor que surge em língua francesa mas, igualmente, da primeira cuja edição original é aqui publicada.

Os interessados em adquirir o livro devem ter alguma calma. É que, segundo a Amazon, ele só estará disponível no dia 4 de Março. Perdoarão, no entanto, que este "colega" mais novo do antigo cônsul português em Paris usufrua o privilégio de já dispor de um exemplar...

Na impossibilidade de mostrar uma imagem razoável da capa do livro, fica, pelo menos, a clássica fotografia que a ilustra, onde o nosso Eça figura no seu jardim em Neuilly.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Esquina

Ao passar, hoje à tarde, por um "bistrot" francês de esquina, cheio de movimento e barulho, veio-me à memória este fantástico quadro de Edward Hopper - "Nighthawks".

(Tal como uma amiga que hoje me escreveu, também eu fiquei um dia "pregado" ao chão, por largos minutos, no "The Art Institute of Chicago", ao ver este quadro).

Com Rothko e com o "nosso" Hogan, Hopper faz parte do trio dos pintores cujas obras me tentam à ruína.

Em tempo: ao passar por aqui, vejo que houve mais quem hoje lembrasse Hopper.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Espanha e Portugal

É reconfortante, embora seja apenas uma declaração de meridiana justiça, ouvir o presidente do governo espanhol, José Luis Zapatero, elogiar a cooperação portuguesa na luta contra o terrorismo que ainda assola a Espanha.

Ao longo de muitos anos, os sucessivos executivos portugueses têm revelado uma postura exemplar na sua atitude perante as ameaças colocadas pelo terrorismo à democracia espanhola. Portugal tem sempre manifestado um profundo respeito pelo esforço desenvolvido pelas autoridades espanholas no sentido de erradicarem os desafios que os grupos terroristas colocam à liberdade constitucional espanhola, independentemente dos partidos políticos que têm titulado o poder eleito em Madrid.

A Espanha é uma grande democracia que tem sabido compatibilizar a sua diversidade, nomeadamente expressa nas diversas autonomias, com a manutenção de um modelo político assente num escrupuloso respeito pelas variadas expressões ideológicas, num registo de acção que, sem excluir uma forte tensão ideológica, preserva e promove os valores essenciais do Estado de direito.

Com particular ênfase após a entrada comum para as instituições europeias, Portugal e a Espanha têm aculturado uma relação de entendimento que pode hoje considerar-se exemplar. Soubémos encontrar soluções mutuamente aceitáveis para problemas como o dos rios partilhados, para a temática da pesca em áreas de fronteira ou para o sensível tema dos comandos da NATO, entre muitos outros. Na Europa, continuamos a desenhar, dia após dia, um sereno terreno de conjugação de esforços, que se prolonga nas instituições multilaterais onde a nossa cooperação e complementaridade são evidentes.

O destino de Portugal e de Espanha, como nações diferentes que cultivam a sua identidade muito própria, joga-se no quotidiano. Temos uma intensa interação económica e empresarial, com vantagens mútuas, agora infelizmente afetada pela crise que ambos sofremos. Porque partilhamos os mesmos valores, porque nos revemos nos mesmos princípios, temos estado muito à vontade para trabalhar no combate a flagelos como o terrorismo ou a criminalidade organizada. A Espanha sabe que pode contar conosco, da mesma forma que nós temos a certeza de que a Espanha comunga as nossas preocupações na preservação do modo como as suas questões securitárias são tratadas, à luz do pleno respeito pelos Direitos Humanos e pela preservação de um quadro institucional respeitador da dignidade da pessoa humana, na observância estrita dos parâmetros constitucionais e da ordem jurídica própria de cada país.

A magnífica relação entre Portugal e a Espanha é uma grande conquista que ficamos a dever, simultaneamente, à democracia e à Europa. E, vale a pena sublinhá-lo, é consequência da consciência comum de que hoje alimentamos uma sã cultura de vizinhança, que é uma riqueza de que ambos os povos se devem orgulhar.

Parques

Há dias, num parque de estacionamento de Paris, reparei que o som ambiente eram passarinhos. Tempos mais tarde, noutro espaço idêntico, verifiquei que tinha sido aplicado um "spray" com agradável cheiro a flores. Noutro ainda, emprestavam aos clientes guarda-chuvas, cestos para compras e até bicicletas!

Aos preços exorbitantes que por aqui são praticados, um destes dias ainda vamos ter direito a uma refeição incluída...

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Línguas

O bom conhecimento de línguas estrangeiras era um requisito que, no passado, nos habituámos a esperar do pessoal de bordo, nos voos internacionais. Se bem me lembro, a TAP era nisso um bom exemplo. Verifico agora que tais hábitos se foram perdendo...

Numa deslocação a Portugal, no passado fim de semana, fui confrontado com uma intervenção em francês, através dos altifalantes do avião, que me deixou estupefacto, pela pobreza da pronúncia daquilo que estava a ser lido e pela inenarrável construção lexical das frases que penosamente eram improvisadas. Já não é a primeira vez que testemunho cenas idênticas, razão por que entendi dever referir o caso aqui.  

Não seria possível haver uma horas (mais) de formação em língua francesa do pessoal de bordo da TAP que presta serviço nos voos para este país? 

Havia um antigo ministro do Estado Novo que, para justificar a sua escassa apetência para as línguas estrangeiras afirmava que elas se deviam falar "patrioticamente mal"*. Alguns dos seus colegas no período democrático, que muitos conhecemos, seguiram com zelo as pisadas deste governante.

A TAP, contudo, é um negócio e é pena vê-lo "poluído" por deficiências de formação de recursos humanos, que se tornam ainda mais chocantes num mercado que a companhia pretende e deve seduzir.

* ver comentário

Madeira

Num corredor do aeroporto de Orly, ao final da tarde de ontem, caminhava lado a lado com um cavalheiro francês, de chapéu de palha com uma fita que dizia "Madeira". Não resisti e perguntei-lhe se vinha do Funchal. Assim era e acrescentou: "É um povo magnífico.  Vou lá há muitos anos. E volto para o ano!"

A Madeira merece e bem precisa da fidelidade de todos os seus amigos.

Por que não visita a Madeira nas suas próximas férias?

Feiras & vaidades

Há dois anos, quando publiquei “Antes que me Esqueça”, sugeriram-me que, na feira do livro seguinte, lá estivesse umas horas, num dia a defi...