quinta-feira, fevereiro 23, 2017

José Afonso


Há 30 anos, morreu José Afonso, que o tempo tinha entretanto transformado num mais íntimo Zeca Afonso. Sou mesmo do período em que na capa dos seus discos figurava ainda "Dr. José Afonso". 

Não me recordo quando o ouvi pela primeira vez, mas tenho a perfeita noção - e digo-o aqui com total abertura - que reagi negativamente a algumas das suas primeiras canções apenas e só porque eram cantadas num estilo muito próximo da canção ou fado coimbrão, que é uma música que nunca me disse rigorosamente nada, e que, à época, associava negativamente a uma espécie de elitismo social fardado de preto, ao traje de capa-e-batina que sempre detestei - e que ainda hoje considero algo ridículo. Esse foi o meu primeiro José Afonso. 

Depois, com os anos, fui apreciando a coragem cívica de José Afonso, a sua denúncia do colonialismo e da ditadura, a subtileza inteligente da sua poesia, uma assunção de risco na intervenção pública que sempre me tocou. Lembro-me, creio que em 1970 ou 1971, de o ter ouvido na Associação de Estudantes de Direito e de ter vaiado, no Coliseu de Lisboa, no dia 29 de março de 1974, o boicote que a última censura do regime, que dali a dias cairia, então lhe fez. 

Naturalmente que me não foi indiferente a elevada utilidade política da sua mensagem, mas devo confessar que, embora reconhecendo a genialidade de muitas das suas composições, nunca fui um fã incondicional da sua música e, em especial, da sua (por muitos tão apreciada) voz. Vou dizer mesmo o que alguns considerarão talvez uma barbaridade: sempre ouvi, e continuo a ouvir, com muito mais agrado Sérgio Godinho, Fausto e até Jorge Palma do que José Afonso. 

Dito isto, José Afonso - de quem possuo toda a obra, note-se - permanecerá para mim como o cantautor mais importante de todo o período da transição da ditadura para a democracia. E o seu "Venham mais cinco" e a "Grândola" ficarão eternamente ligados ao meu 25 de abril. Só por isso - e há muito mais - junto-me à saudade dos que hoje assinalam que o perderam há 30 anos. 

12 comentários:

  1. Anónimo09:36

    ...e aqui ficou um redondo vocábulo.

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  2. Anónimo15:10

    Nem todos podem gostar de tudo...Mas ele é único no seu estilo! Há parecidos, lá isso há!...

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  3. https://www.youtube.com/watch?v=Vp3_q7WBves, gosto da canção de embalar nesta versão dos diva

    Também me fascina a poesia de intervenção de Zeca Afonso.
    Também gosto da voz,principalmente nos vampiros e nas canções que mencionou.

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  4. Anónimo18:45

    Prefiro Rui Reininho.

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  5. Anónimo20:40

    Sr. Embaixador:
    Sou antigo estudante de Coimbra aonde não regreso há mais de 50 anos. Tenho pena da sua afirmação de que a canção/fado de Coimbra "nunca me disse rigorosamente nada" e que a tradicional capa e batina, sempre detestada por si e que ainda hoje considera "ridículoo".
    Muito surpreendido..
    . No entanto opiniões são de respeitar.
    António da Silva
    New Jersey, USA

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  6. Anónimo21:10

    Senhor Embaixador

    Gostos não se discutem. Direi apenas que não compartilho os seus.

    Lembro-me de José Afonso em Faro, nos alvores dos anos sessenta e de, jovem aluno do liceu, o ouvir cantar nas noites de verão, junto ao monumento ao infante D. Henrique.

    Para mim, para além da verticalidade do homem e da excelência da sua voz, José Afonso foi um poeta de primeira água, qualidade que se vê muito pouco referida.

    José Neto

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  7. Sr Embaixador. Sobre a "barbaridade".Goste-se mais ou menos ,pelo menos 3 albums são memoráveis : Contos velhos Rumos novos, Cantigas do Maio e Venham mais 5 (curiosamente estes dois últimos com a batuta mágica do nessa altura miúdo José Mário Branco, que consegue criar ambientes musicais lindisimos ( sublinho entre muitos outros o maio maduro maio, que ninguém hoje o consegue imaginar sem aquela sonoridade soberba com que o José Mario envolve a voz do Zeca e a simplicidade luminosa das 4 quadras! e já agora na obra toda do zeca que tem aí à mão descobrirá, pelo menos duas dúzias de pérolas!

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  8. dor em baixa02:37

    José Afonso:
    - canções de denúncia e de combate
    - canções de intervenção
    - canções de animação aos que desenvolviam ações
    - canções extraídas do reportório tradicional
    - fados de Coimbra
    - canções infantis e de embalar
    - canções a dar asas a poemas de outros
    - canções sobre poemas surrealistas
    Tudo em Português e com uma voz de magnífica originalidade.
    Que remédio tenho senão considerá-lo um génio.
    Confesso que temia que a sua memória se fosse apagando, mas é o contrário que está a acontecer.

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  9. Anónimo07:20

    Li algures anteontem que o Zeca Afonso "nunca quis ser comunista". Eram palavras de alguém que pretendia tê-lo conhecido bem. Ora aí está uma coisa que merecia ser investigada. É que o PCP apoderou-se da obra do homem a tal ponto que, hoje, é praticamente impossível separar um do outro. E quem perde com isso é a música...

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  10. Permita-me sr. Embaixador e obrigada por nos sugerir lembrar este Grande Senhor maior que os homens, também para referir que me identifico com os comentadores integralmente com josé Neto e Joana Gouveia

    Cantigas de Maio
    (letra do refrão: popular)


    Eu fui ver a minha amada
    Lá p'rós baixos dum jardim
    Dei-lhe uma rosa encarnada
    Para se lembrar de mim

    Eu fui ver o meu benzinho
    Lá p'rós lados dum passal
    Dei-lhe o meu lenço de linho
    Que é do mais fino bragal

    Eu fui ver uma donzela
    Numa barquinha a dormir
    Dei-lhe uma colcha de seda
    Para nela se cobrir

    Eu fui ver uma solteira
    Numa salinha a fiar
    Dei-lhe uma rosa vermelha
    Para de mim se escantar

    Eu fui ver a minha amada
    Lá nos campos eu fui ver
    Dei-lhe uma rosa encarnada
    Para de mim se prender

    Verdes prados, verdes campos
    Onde está minha paixão
    As andorinhas não param
    Umas voltam outras não


    Refrão:
    Minha mãe quando eu morrer
    Ai chore por quem muito amargou
    Para então dizer ao mundo
    Ai Deus mo deu Ai Deus mo levou

    Ainda hoje canto esta canção com o prazer enorme da saudade

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  11. Anónimo12:20

    Recordei a morte de Jose Afonso (30 anos) no dia em que o meu filho mais velho fez 47 anos de nascimento. Enviei-lhe um mail com algumas efemerides do dia 23/02 e dou aqui deixo algumas:

    1861 - Abraham Lincoln chega disfarcado a Washington para assumir a Pesidencia apos
    tentativa e assassinato em Baltimore.
    1903 - Cuba arrenda Baia de Guantanamo aos EUA
    1911 - Bispos portugueses contestam medidas anticlericais da Primeira Republica
    1917 - Segundo contingente do Corpo Expedicionario Portugues parte para Franca
    1919 - Formacao do partido fascista italiano por B. Mussulini
    1924 - Nascimento de Claude Sautet, realizador de cinema frances
    1944 - Criacao do SNI
    1945 - Batalha de Iwo Jima. Joe Rosenthal tira a famosa foto do fusileiro Americano
    colocando a bandeira no Monte Suribachi.
    1961 - O conselho de Seguranca da ONU emite a primeira resolucao condenatoria da
    politica colonialista de Salazar.
    1981 - Tentativa de golpe military em Espanha.
    1992 - Antonio Guterres e eleito Secretario Geral do Partido Socialista

    Recebi mais tarde do meu filho uma resposta com uma lista maior que a minha...

    Anteontem senti alegria pelo aniversario do meu filho e recordei morte de Zeca Afonso. Ouvi algumas cancoes/baladas do Zeca e relecti que 23 de Fevereiro era o DIA DA PAZ E COMPREENSAO MUNDIAL.

    OXALA!

    Bom fim de semana

    F. Crabtree

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  12. Anónimo00:27

    Ó anónimo das 7:20, tenha santa paciência! Tenha sido Zeca do Partido x, y ou z, ou tenha o partido z, y ou x, dizer ter sido ele seu militante, o que tem isso a ver com a sua arte, com a sua música? A Música nada perdeu (ou perde). Ao contrário, ganhou e ganhou muito com a composição e interpretação (únicas no género) de Zeca. Deixe-se lá de picuinhas políticas que 30 anos são corridos. Aquelas querelas politiqueiras de seu tempo passaram, Zeca, seu caráter, seu talento, suas canções ainda aqui estão e estarão como exemplos maravilhosos a serem seguidos.

    Zeca Afonso, "filho da madrugada", saudade tanta ...

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