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segunda-feira, outubro 31, 2016

UP


A revista UP, que a TAP oferece aos seus viajantes, convida todos os meses uma personalidade diferente a escrever o seu editorial. A ideia é elaborar uma curta mensagem personalizada, em português e inglês, que estimule quem nos visita a conhecer algo mais sobre o país.

Tive o prazer de ser convidado a ser o "anfitrião" da UP do mês de novembro, que estará em distribuição a partir de amanhã. Tenho assim o privilégio de juntar-me a figuras como Miguel Sousa Tavares, Gonçalo M. Tavares, Clara Ferreira Alves, Lídia Jorge, João Lobo Antunes e muitos outros.

No meu texto, optei por estimular os visitantes para olharem para Portugal para além dos "clichés" dos guias turísticos e, muito em particular, a chamar a atenção para Trás-os-Montes, uma zona do país que a maioria estrangeiros, mas também muitos portugueses, ainda desconhecem - e não sabem o que perdem!

Mas é melhor lerem:

Uma vida passada em grande parte fora de Portugal fez de mim um quase obsessivo turista no meu próprio país. Por décadas, parte importante das minhas férias era passada a recuperar o que perdia no resto do ano. E essa viagem nunca mais parou.

Nessas visitas, fui criando uma espécie de mapa, humano e cultural, do meu Portugal afetivo. Frequentemente, dei por mim a testar, junto de amigos e conhecidos estrangeiros que nos visitavam, esse meu íntimo guia sentimental. Para tal, era importante transmitir-lhes alguns instrumentos para a compreensão do país. E nada melhor, para isso, do que revelar o modo como eu próprio me comportava no meu eterno regresso a Portugal.

São coisas bastante simples, como o atentar no movimento num largo principal de uma aldeia recôndita, na alegria de uma festa popular numa vilória, no silêncio de uma paisagem, de um miradouro improvisado. Mas, igualmente, o gosto de nos sentarmos no «café central» das cidades de província, olhando a coreografia social, o prazer em descobrir restaurantes e tascas em locais recônditos, onde nos servem vinhos que não conhecemos, doces que por ali se conservam por tradição. E também aquilo que se aprende ao entrar em pequenas lojas, fora dos grandes circuitos de comércio, onde se encontram coisas insólitas, entrecruzadas com conversas e amena simpatia.

É que, longe dos locais turísticos que os guias apontam ao visitante minucioso, existe um Portugal sereno que, sem se impor, se oferece discretamente a quem o visita. E em que vale a pena um visitante perder-se.

Desse Portugal, que não sendo imenso é, ainda assim, muito diverso, o que é que eu selecionaria para apontar, como um destino seguro, a um visitante estrangeiro disposto seguir o meu conselho? Um país feito de dureza de vida, de beleza única, de gentes fortes e de caráter: Trás-os-Montes.

Trás-os-Montes é a natureza mais bravia que Portugal tem para oferecer. Situado, como o nome indica, por detrás das grandes serras nortenhas, é um mundo de paisagens deslumbrantes, de uma culinária preciosa, de cidades cheias de história. Miguel Torga, o poeta que por lá nasceu, chamou-lhe, imodestamente, “o reino maravilhoso”. E talvez não tenha exagerado. Para lhe dar razão, basta atentar no rio Douro, que desenha a fronteira sul da região, obra ímpar da natureza e do homem, no colorido das vinhas que são a sua riqueza, na majestade dos seus vales profundos.

Vá a Trás-os-Montes! Arrisque perder-se naquilo que Portugal tem de mais autêntico, genuíno e belo. E, depois, diga-me se eu não estava certo.

É a vida!

Pode ser que seja apenas "wishful thinking", mas fiquei ontem com a sensação de que André Ventura já se está a ver, daqui a semana...