Com a idade, fico mais inseguro. Estava hoje numa reunião, a tratar da construção de estradas e de pontes noutras partes do mundo, quando alguém me sussurrou: "o prémio Nobel da Literatura é para Bob Dylan". Fiquei com aquele ar que o general Pedro Cardoso, nos meus tempos das "secretas" militares, me aconselhou a ter sempre perante novidades: impávido e não surpreendido.
É que eu não tive a imediata certeza de que estivéssemos a falar "do" Bob Dylan mais óbvio, do cantautor que eu ouvira em Oslo, em Londres e em Viena - em três espetáculos que (aqui entre nós) não me entusiasmaram por aí além. De quem tenho um monte de CDs.
Sou um assumido ignorante (relativo, claro) em matéria de literatura. Nunca li algumas obras tidas por "incontornáveis", não sigo as novidades que se publicam e, mais importante do que tudo, tenho ano após ano sido confrontado com vencedores do Nobel da literatura de quem nunca tinha ouvido falar. E já perdi a vergonha de o confessar.
Por isso, quem me podia assegurar que esse tal de Bob Dylan não era um poeta qualquer do Burkina Faso ou um romancista do Sudão do Sul? Desde que por essa África antes chamada de "negra" (com o politicamente correto atual já não sei como dizer) surgiram líderes políticos com nomes de estrelas de rock, como John Garang ou Jerry Rawlings, tudo é possível!
Mas não! Era mesmo o Bob Dylan. Agora, vai ser por aí uma polémica desatada. Eu acho que se devia começar por entrevistar o Godinho, o Palma e o Fausto - afinal, pares lusos da mesma bela literatura em que Dylan se distinguiu.
