Há muitos anos, na Pompeia, em Vila Real, no tempo em que não havia telemóveis e, nos cafés, os clientes eram chamados em voz alta, quando surgia uma chamada telefónica para eles, havia um "caramelo" com ar pomposo, alto e de poupa, que era useiro e vezeiro na utilização desse tipo de serviço. Andava na Escola do Magistério Primário, mas, ao que se sabia, estava ainda bem longe de ter concluído o curso que lhe daria direito ao título de professor. Não obstante, era frequente ouvir-se "Chamam ao telefone o professor Coutinho". O nosso homem, estrategicamente colocado do outro lado do café, levantava-se pausadamente e, solene, atravessava a sala em direção ao aparelho preto, pousado sobre a lista telefónica, que o meu amigo Neves facultava ao uso dos clientes. E por ali ficava, uns minutos, enrolado sobre si próprio, emitindo sons ininteligíveis.
A frequência regular das chamadas, naquela hora de enchente depois de almoço, levou à desconfiança: aquilo era "montado" para consagrar, por usucapião auditivo, o título antecipado do grau académico do Coutinho.
Um dia, depois de uma taina no Choco, o Pinto, colega do Coutinho no "Magistério" (os homens, por lá, contavam-se pelos dedos de menos de duas mãos), descaiu-se e confirmou que sabia do caráter deliberado das chamadas para homem, para "armar", como então se dizia. Eram feitas à sucapa por uma criada da casa onde o Coutinho se hospedava, perto da Cardoa, com a qual ele mantinha uma "amitié particulière". A partir desse dia, a história correu em mesas da Pompeia e, sempre que o Coutinho era chamado ao telefone, havia quem organizasse uma caçoada algo barulhenta. Mas a coincidência desse ruído com o "perpwalk" pós-pandrial do Coutinho parece ter tido sucesso: as chamadas desapareceram!
Que será feito do professor Coutinho?