Peter é um cozinheiro austríaco. "Herdei-o" do meu antecessor, João Lima Pimentel, quando vim para Viena, em 2002.
Era uma figura curiosa, avantajada, com forte bigodaça, fumador compulsivo, homem bastante nervoso e agitado. Mas uma jóia de pessoa. Falava uma mescla de inglês macarrónico misturado com espanhol, aprendido com as duas peruanas que a embaixada tinha ao seu serviço.
Tinha tido um restaurante, mas a sua vida dera algumas voltas inesperadas e menos felizes. Um dia, num jornal, através de um anúncio, veio parar à residência portuguesa, recrutado pelo meu predecessor. Ficou por lá 15 anos, até se aposentar.
Era um profissional de primeira água. Tinha mais de um milhar de menus diferentes e era preciso pedir-lhe a repetição de um prato, caso contrário inventava sempre algo de novo. Uma sua especialidade eram os doces, para mal eterno da minha glicose.
No meu último dia de serviço em Viena, há quase 12 anos, eu havia dito à minha mulher que gostava de ir jantar fora. Estava cansado da trabalheira que sempre é "fechar" um posto e queria espairecer um pouco. O Peter moveu montanhas para me dissuadir. Disse que tinha preparado algo especial para a nossa derradeira refeição. Pronto, lá teria que ser!
À hora de jantar, notámos que a mesa parecia posta para um banquete. Isso contrastava um tanto comigo, à vontade e de jeans, bem como com o ambiente do resto da casa, toda num reboliço de malas e empacotamento.
Começávamos a refeição quando ouvimos uns ruídos na zona da entrada. Foi-nos dada uma explicação qualquer e o jantar prosseguiu com normalidade. Até ao momento em que, da sala ao lado, saiu um som musical. De violino. E não era um, eram cinco violinos, um grupo que o Peter tinha recrutado numa escola de música, uma oferta sua para acompanhar o último jantar que nos preparava.
E foi então que ele próprio entrou na sala, fardado a rigor, com os olhos cheios de lágrimas, naquela língua de Babel, explicando, num discurso embargado, que tinha sido seu desejo despedir-se de nós com aquilo que a cultura do seu país tinha de melhor: a música. Todos nos comovemos.
Eram esses os princípios do Peter, um amigo austríaco que ganhámos.
