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quinta-feira, outubro 20, 2016

O que mudou?


Gosto dos regressos pontuais aos locais que vivi noutras "encarnações". Ontem, sentei-me no mesmo lugar em que, há mais de 14 anos, dirigi a minha primeira reunião como presidente do Conselho Permanente da OSCE, em Viena. 

Voltar ali, agora na qualidade de orador convidado, para falar sobre questões de segurança e controlo de armamentos na Europa, foi uma experiência muito curiosa e interessante. A minha linguagem foi deliberadamente bem mais "solta" do que a que usava quando tinha responsabilidades oficiais. Não ter os constrangimentos de estar a falar em nome do país dá-nos uma cómoda liberdade, a qual, contudo, nos não isenta de, ao ouvirem-nos, saberem bem de onde vimos. E, por isso, não ser indiferente o que dizemos.

Os diplomatas mudam muito, pelo que, à volta da mesas, só encontrei meia dúzia de caras conhecidas, na maioria cruzadas noutros postos. O secretariado da organização, contudo, tem mais estabilidade, pelo que alguns contínuos, técnicos e funcionárias dos serviços de apoio me fizeram "uma festa". Estamos todos mais velhos, mas a simpatia desses velhos tempos renasceu hoje, nessas escassas horas no palácio Hofburg.

Mudou alguma coisa desde esses tempos? No essencial, não. As tensões no seio da OSCE persistem e a situação ucraniana é hoje uma pesada núvem acrescida sobre o quotidiano da organização. A minha intervenção, bem como o debate que se seguiu, versou precisamente sobre o "estado da arte" da instituição, criada para "pilotar" o fim da Guerra Fria e que agora vive atravessada por uma tensão de novo tipo. Fui "provocatório" qb, o que, creio, terá ajudado a estimular o debate. No final, o secretário-geral da OSCE, que conheço dos tempos passados notou, com agrado, que eu tinha falado, a certo ponto, da "nossa organização". "You are still one of us", gostei de o ouvir dizer.

Mas, ao olhar agora para a mesa, dei-me conta de uma diferença: passei de "chairman" que então era para "chairperson", para atender às preocupações de igualdade de género. Isto é importante? Há quem pense que sim. E a primeira pessoa a pensar assim (estou certo, mas não lhe perguntei) é a embaixadora portuguesa junto da OSCE, Graça Mira Gomes.

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