quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Os Açores e a Ucrânia

Algumas almas piedosas ficarão chocadas com a similitude que vou fazer: há qualquer coisa que aproxima os Açores da Ucrânia. É simples: ambos são vítimas da dimensão política da sua geografia.
A NATO nasceu com os americanos já nos Açores. Salazar foi obrigado a aceitar, com Londres à mistura, esta imposição da grande potência do outro lado do Atlântico. Ironicamente, as Lajes acabariam por fazer parte do seguro político de vida do ditador no pós-guerra, quando os ocidentais dela vencedores, já mergulhados na Guerra Fria com os soviéticos, decidiram não correr os riscos que uma abertura democrática na península ibérica poderia acarretar. A partir daí, as Lajes foram um barómetro interessante do estado das relações entre Lisboa e Washington. Porém, salvo algumas "marchandages" de oportunidade, que os cheques em dólares consagraram, Lisboa nunca conseguiu que a base se transformasse num instrumento ativo da sua política externa. A humilhação imposta pelos EUA a Marcello Caetano, em 1973, por ocasião da guerra do Yon Kippur, deixou bem clara a (ausência de) margem de manobra portuguesa na matéria. Todo o discurso sobre o assunto nas últimas quatro décadas, embrulhado pelos nossos esforçados atlantistas, não passou disso mesmo: de um discurso, que nunca atravessou o Attlântico. As Lajes são portuguesas mas o destino geopolítico em que elas se inserem, sendo embora por nós partilhado, não está sob o nosso controlo. Quem não perceber isto ou é ingénuo (e, por isso, perigoso) ou está de má-fé.
A que propósito é a Ucrânia aqui chamada? Porque a Ucrânia é também, a seu modo, uma "casualty" geopolítica. A Ucrânia é um espaço político que uma certa acrimónia face a Moscovo, que nos últimos anos raptou o discurso dentro da UE e da NATO, acabou por erigir num bizarro santuário da intocabilidade. A Rússia, que como entidade política está muito longe de ser "flor que se cheire", acabou por demonstrar na Crimeia (como já tinha feito na Geórgia) que não está disponível para deixar afetar os seus interesses estratégicos e que não permitirá que Kiev se transforme numa guarda avançada de quem ameaça o que considera ser o essencial da sua segurança. E que teme que a atual NATO seja isso mesmo. O Ocidente pensou que tinha ganho a Guerra Fria, depois de moldar quase toda a Europa central e de Leste ao seu "template", por via da UE e da NATO. E, depois, "explorando o sucesso", como gostam de dizer os militares, pensou que podia "ir por ali adiante" na sua cruzada democratizadora e homogenizadora. Só que o mundo real não funciona assim. Por muito que se alguns aceitem que os "bons" estão do lado de cá e os "maus" do lado de lá (nos meus tempos da OSCE, os russos diziam "a Leste de Viena"), a história da paz global ensina-nos que temos que viver lado-a-lado com os "maus". E estes, os "maus", também têm medos, inseguranças e perceções geopolíticas que - goste-se ou não! - têm de ser tidos em conta no quadro global, por muito pouco respeitáveis que possam ser considerados. A história mostrou já, à saciedade, que a Ucrânia é uma fronteira por onde passa hoje a divisão entre dois mundos que, uma vez mais, entraram num ciclo histórico de distanciação. Toda a fronteira têm dois lados e, por isso, a Ucrânia vai sempre ter dois lados.
Cada um a seu modo, os Açores e a Ucrânia são a prova provada, se acaso ela fosse necessária, de que a geografia tem muita força. Não se pode lutar contra ela, ou melhor, poder pode, só que depois saem caras as consequências dessa luta inútil. E irresponsável.

11 comentários:

Antonio Cristovao disse...

Esperemos que os nossos analistas(de coisa nenhuma) leiam este post e percebem que a UE manda naquilo que os EUA+Inglaterra deixam.

Abraham Chevrollet disse...

Durante quantos séculos a Ucrânia foi parte integrante da Rússia? Muitos mais que desde a descoberta dos Açores... ou não?

Anónimo disse...

ui chefe do estado maior durante dois anos no comando da ZMA........e concordo plenamente com o articulista no que respeita à geopolítica adoptada pelos USA no que respeita ao arquipélago dos Açores.... pelos factos que pude observar.
O mesmo não sucede sobre o que se passa na Ucrânia relativamente ao pretenso modelo geográfico da Rússia ......o modelo geográfico é feito no interesse da potência terrestre.....e essa é a Alemanha....a França e o BENELUX......são eles que comandam a geoestratégia consequente.......logo a Rússia apenas assegura os interesses dessa entidade política......que receia que a potência marítima a possa vir a cercar mais proximamente......é isso que se passa nessa zona.....a Alemanha até vendeu armamento aos separatistas.....ela, desde a Tchechénia é que tem financiado a luta que se tem travado na fronteira de interesses da potência marítima......que vem desdo o oceano Índico até ao mar Báltico.......compreendendo o Afeganistão -o Mar Cáspio...a Tchechénia..o Mar Negro....os pequenos Balcãs... passando por uma vendável Polónia até ao Báltico.......estas coisas da geopolíticas e consequentes geoestratégias....não são facilmente desvendáveis....

José Paulo Wilson disse...

Abraham, o Leste da Ucrânia (a 1ª parte a ser integrada na Rússia), apenas o foi no séc. XVII mais de 200 anos após a ocupação portuguesa dos Açores.

Mas há razões históricas muito + antigas q unem (e dividem)as 2 nações. O próprio nome da Rússia, deriva do povo Rus (ou Ros) q se julga ter tido origem na miscigenação entre eslavos e vikings (q desciam o Dniepre na sua rota para o Mar Negro)e q originaram o principado de Kiev (c. 800-1100, 1ª grande entidade política eslava conhecida).

Sr. embaixador,só me pergunto q moral terão os EUA e a GB q, conjuntamente com a Rússia, são os garantes da integridade territorial da Ucrânia desde q esta acedeu a abdicar do seu arsenal nuclear.

É certo q ñ há moral em diplomacia (mas deve haver 1 certa necessidade de aparência, ñ?), q a Ucrânia, mt provavelmente, só abdicou das armas nucleares pq ñ teria capacidade para as manter e q se transformou n1 Estado (quase) falhado. Para além das dissidências internas entre o Leste russófilo (e russófono) e o oeste genuinamente ucraniano mas, este quadro político faz-me lembrar a situação anterior à IIGM.

Anónimo disse...

Muitas destas situações na Europa têm a sua origem na I Guerra Mundial e na lamentável dissolução do Império Austro-húngaro. Acicataram-se nacionalismos que causaram e causam sofrimento e desgraça.
A Ucrânia é mais uma dessas invenções. A Rússia contudo não pode continuar a invadir a Ucrânia como está a fazer.
É triste que a União Européia não tenha qualquer capacidade para forçar a Rússia a parar a sua agressão. E com esta atitude do Governo grego, que deve continuar a achar que a Rússia ainda é o país dos amanhãs que cantam a posição da UÉ ainda corre o risco de ficar mais enfraquecida.
Assim sendo a Rússia tudo continuará a fazer para minar o Governo de Kiev impondo a sua opressão.

Joaquim de Freitas disse...

Excelente Senhor Embaixador. Mas qual é a origem da crise? A vontade de dominação estado-unidense. Esta vontade podemos vê-la por toda a parte neste vasto mundo em todas as acções do Império.
Na América do Sul, desde a aplicação da politica de Monroe : A América para os americanos. Quantos golpes de Estado fomentados pela CIA, quantos milhares de mortos para proteger e defender os interesses dos USA, da United Fruit e todo o resto.
No Médio e Próximo Oriente, na África, na Ásia, na Europa através do seu pilar da UE, a NATO, os EUA lançaram 200 dos 248 conflitos armados desde o fim da 2a. guerra mundial, entre os quais, o Afeganistão e o Iraque.
As despesas militares americanas eclipsam todos os outros países: 41 %. Os seguintes são a China 8,6%, a Rússia 4,1%, a frança e o RU com 3,5%.
550 000 instalações militares em mais de 5 000 sites, 700 a 1 000 bases militares em mais de 100 países no mundo.
Para um país que tem a facilidade de criar a moeda a partir de nada, compreende-se, até quando a vigarice do petro dólar continuar.
Fala-se muito da Pax Americana para denominar a ordem resultante da hegemonia dos EUA. Esta posição não é uma garantia de equilíbrio e de paz à escala mundial. Os neo-conservadores impregnados dum elitismo nietzschiano e dum messianismo expansionista fazem da força uma virtude e da guerra uma demonstração.
Nos fundamentos da política estrangeira americana encontra-se o conceito de " destino manifesto", com relentos religiosos indesmentíveis, como um certo aliado. Só existe um destino possível para a humanidade e este é evidentemente aos EUA de o manifestar. Depois de se ter estendido par o oeste, o modelo americano deve estender-se para leste e para o sul. Esta é a via evidente da nação americana, inspirada de Deus, agora trata-se de se estender e conquistar o conjunto, primeiro continental e depois do mundo.
E que importa se o mundo corre o risco de explodir. A Ucrânia? Que vimos? A uma região que pedia um simples referendo porque se sentia traída por um golpe de Estado nazi na praça Maiden, a UE achou legítimo que este Estado bombardeie a população civil. Ora a UE podia ter-se oposto a esta acção. Na realidade a UE através deste caso ucraniano transformou-se num monstro.
Os dirigentes ocidentais demonstraram que , na verdade, para eles, a guerra fria nunca tinha acabado.
O que vai ficar de tudo isso? Esta guerra não serve para nada. Par nada todos estes mortos, todas estas ruínas. Para nada ou antes para pior.
O conflito armado recomeçará sem dúvida após os acordos de paz, o ódio será demasiado forte dos dois lados, e levará anos a extinguir-se definitivamente. Em Espanha, de vez em quando, a guerra civil vem à superfície !
Esta é a melhor hipótese, aquela em que a Rússia resiste a todas as provocações de Kiev, a todos os apelos à guerra, a todas as mentiras da NATO e a todos os ataques económicos da UE, e não entra abertamente no conflito apesar de todos os esforços neste sentido dos Americanos, das suas manipulações e das suas mentiras. Será impossível para estas populações de viver com Kiev. Dentro de algumas semanas Porochenko terá definitivamente desintegrado o país. Restará um desastre humanitário, e o odio para longos anos.

Joaquim de Freitas disse...

Ah, Caro anónimo, das 01:O1 , seria bom de reler o que se passou na Jugoslávia aquando da explosão deste país orquestrada pela UE.

Recorda-se da famosa discussão ao telefone entre o Embaixador Americano em Kiev e a secretária de Estado adjunta, Victoria Nuland _ Madame Fuck-the-EU ?

Qual Estado europeu chamou os seus embaixadores a casa, após este insulto , Nenhum ! Isto porque a cobardia mais a negação da realidade dos dirigentes europeus é que estão prontos a baixar as calças se os patrões americanos lhes sugerem de fazer.

Podemos concluir que a Ucrânia como a Jugoslávia, são piões, e que os nossos libertadores de 1945 consideram o conjunto do Velho Continente como um vulgar tabuleiro de jogo, onde não só se joga mas também se manipulam as regras do jogo.

Claro que continuará a haver quem pretenda, sem pestanejar , que o golpe de Estado de Kiev , com a ajuda de malícias nazis, não foi nada mais que uma revolta popular espontânea que a UE e os EUA terão "só" acompanhado com uma legítima compaixão, mas nada suscitada e ainda menos dirigida.

Vimos desfilar desde há anos uma galeria de potentados, cada um mais obsequioso para o Ocidente que o precedente, cada um mais incompetente e cada um mais inepto.

Sabemos que os Ocidentais têm por sistema de apoiar e de elevar aos píncaros pessoas que meteriam na prisão nos seus próprios países. Vimos isso no Afeganistão, no Iraque, no Chile , na Argentina, na Líbia, no Panamá, etc.

Que importam os Pinochet se se forem bons para o "business" ?

Correia da Silva disse...


O Sr. GENERAL ANÓNIMO das 22:19 , não assina o comentário ?
E já agora, poderia esclarecer, em que Zona Militar serviu.

Anónimo disse...

"During the meeting Andrei Maslof handed to the new Greek Prime Minister a congratulatory letter on behalf of Russian President Vladimir Putin"

Abraham Chevrollet disse...

Desde o principado de Kiev e da comunidade polaco-lituana (1300-1600) se considera a Ucrânia como parte integrante da Rússia.

Francisco disse...

Ninguém daqui conhece realmente as Lajes e o que lá se passa e o que se passou.