Há uns anos, referi-me por aqui a um dos "pecadilhos" tradicionais de alguns diplomatas: ficarem convencidos com os argumentos dos países onde estão acreditados e tenderem a explicar ao seu próprio governo as razões dos seus anfitriões. Chama-se a isso, na gíria diplomática, "to go native". Quando um diplomata se deixa cair nesta atitude, a melhor solução é retirá-lo de imediato do posto. Não se paga a ninguém para representar os interesses dos outros, porque a regra primeira da diplomacia é "my country, right ou wrong". Ao longo da minha carreira foi-me sempre perfeitamente indiferente se o país que me acolhia tinha ou não razão numa questão bilateral connosco. Eu estava lá para defender a nossa posição, por mais absurda que ela fosse. Quem não perceber isto e assim não pensar é melhor escolher outra profissão.
Lembrei-me disto hoje, ao almoço, ao ouvir o embaixador americano em Lisboa, Robert Sherman, que tive o gosto de ter como meu convidado para uma tertúlia de amigos. Contava ele que o antigo "Secretary of State" (designação dada ao ministro dos Negócios Estrangeiros, nos EUA), George Shultz, tinha no seu gabinete um grande globo, com o desenho de todos os países do mundo. Quando recebia alguém que havia sido nomeado embaixador dos Estados Unidos da América para um determinado posto, costumava pôr o globo a rodar e, quando ele parava, perguntava ao recém-designado chefe de missão: "Aponte aí o seu país". O homem (ou a mulher), que havia estudado bem a sua lição, até para poder passar no exigente escrutínio pelo Congresso, logo descortinava e designava no globo o Estado em cuja capital iria servir nos próximos tempos. Shultz corrigia-o de imediato: "Está enganado! O seu país chama-se Estados Unidos da América!".
Uma bela lição!
