"Não somos a Grécia!", foi a "punch line" subliminar do Portugal oficial de turno, ao longo dos últimos anos, procurando destacar que o rigor no esforço de ajustamento macroeconómico levado a cabo pelo nosso país não tinha comparação com o modo, mais desordenado e mais caótico, como Atenas conduziu o seu próprio processo. Era verdade: e os gregos também se comportavam de maneira diferente, partiam mais vidros, usavam mais "cocktails molotov", berravam mais alto nas tardes agitadas do Syntagma. E o seu sistema político-administrativo é mais corrupto, o seu modelo fiscal muito mais ineficiente, em suma, é um país em que o mundo, ao que parece, confia um pouco menos do que em Portugal.
Os gregos são diferentes de nós, claro. Como são os italianos que elegeram vezes sem conta um senhor chamado Berlusconi, como o são os franceses que hoje colocam Marine Le Pen nos píncaros, como o são os espanhóis cujo governo acaba de introduzir a prisão perpétua. Somos diferentes dos gregos, pois somos! Como somos diferentes dos irlandeses que não aceitam com naturalidade essa coisa simples que é o aborto assistido, como o somos dos finlandeses que têm da solidariedade intraeuropeia uma visão tão calorosa como um glaciar. Diferentes dos gregos! Como o somos dos austríacos cuja xenofobia pinga de qualquer fatia de Sachertorte, como o somos dos letões que deixam apátridas as minorias russas, como o somos dos húngaros que votam um líder autocrático que está a corroer a democracia. Não somos gregos! Nem somos checos, que dividem aldeias com muros para se separarem dos ciganos, nem luxemburgueses que criam empresas fastasmas ajudar à fuga aos impostos, nem temos o cinismo britânico de querer privar os imigrantes dos direitos sociais, mas que lhes dão jeito como mão-de-obra barata. E por aí adiante.
Nós não somos a Grécia! No entanto, se tudo isto, aqui por esta Europa, acabar por correr mal, de uma coisa podemos estar seguros: ver-nos-emos gregos! É que a única certeza que temos, que temos direito a ter, para o bem e para o mal, é que não somos alemães!
