terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

"Mademoiselle"

Saiu ontem a determinação oficial que, aqui por França, acaba com o qualificativo de "mademoiselle", em todos os documentos públicos. Aparentemente, trata-se do culminar de uma luta para pôr termo ao sexismo que obrigava a revelar o caráter celibatário das jovens (e outras não tanto quanto isso) senhoras. Agora, só resta o qualificativo de "madame", embora eu me interrogue como o receberão as adolescentes. Logo se verá.

Em português, julgo que nunca tivémos o "menina" na nossa documentação, mas noto sempre as senhoras deliciadas com o subliminar "rejuvenescimento", quando assim as apelidam. E, devo dizer, sempre achei que chamar "mademoiselle" a alguém tem um sentido bem simpático e nada discriminatório. 

Só espero que, daqui a uns tempos, o mesmo "politicamente correto" não obrige a mudar as "Demoiselles de Rochefort" para as "Dames de Rochefort" e outras coisas similarmente "corretas".

22 comentários:

Julia Macias-Valet disse...

E quando é que os franceses acabarão com o :

Épouse...

Ou quando é que começarão a incluir nos documentos :

Époux...

Quando em 1992 cheguei a França tive debates incandescentes com alguns (homens) franceses sobre o facto de os filhos nao terem o apelido das maes : (
Em 2005 alguns dos que fizeram faísca comigo acerca do assunto tiveram que baixar a crista : ))

Às vezes sao um bocadinho old fashion estes gauleses !

Teo Dias disse...

1. Demoiselle, creio eu, Senhor Embaixador, não foi abolido. Também penso que os franceses não irão impôr a reforma dos títulos dos filmes ou dos impressos antigos. "Madame" sempre foi empregue como termo respeitoso para uma "jeune-fille" adulta e "Mademoiselle" como insultuoso para uma velhota desconhecida - assim se passa na administração (nada tem a ver com a questão do casamento).

2. @ Julia Macias-Valet: o "époux", coisa e tal existe em França. é mesmo utilizado em determinados documentos oficiais para explicar os termos de parentesco entre as pessoas. (pelo menos no tempo em que eu lia o código civil). A questão do nome é uma questão de hábito no caso que relata. Nada impede, segundo a lei, o uso de dois nomes. Pessoalmente prefiro que as francesas continuem a ter o nome de nascimento acrescentado de épouse "untel" do que no hábito português em que uma mulher casada ainda tem que suportar o nome do marido (inconveniente: o espaço para a assinatura em determinados impressos). O código civil francês até é mais aberto, dá a possibilidade do marido acrescentar o nome da sua esposa ao seu e vice-versa. Também teríamos o caso do "nom d'usage" por vezes mesmo pedido após divórcio, mas ficará para outra ocasião.

3. Claro que seja de Rochefort ou de Cherbourg... Mademoiselle Deneuve será sempre uma grande actriz!

Gil disse...

O quadro de Picasso "Lês Deoiselles d'Avignon" começou por se chamar "Lê Bordel d'Avignon" .
A hipótese de alteração para o título do filme seria menos radical.

ARD disse...

Informo Teo Dias de que a Lei portuguesa foi pioneira na permissão de o marido adoptar o noe da mulher.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Concordo aprovo que Catherine Deneuve e Francoise Doleac nao passem a "madame". George Charkiris ficava espantado,Jacques Demy desapontado e eu ficava triste...

Continuacao de boas fitas onde quer que esteja.

Saudacoes de Londres

F.Crabtree

Anónimo disse...

"E nada discriminatório". É isso mesmo. Quem sabe, sabe ... e nunca esquece!
V

patricio branco disse...

a mulher não é obrigada (já antes de 1974) a adoptar o apelido do marido e o marido pode adoptar o apelido da mulher.
Pelo que percebo do post, é só nos documentos publicos que o mademoiselle deixa de ser incluido, não na rua, no tratamento entre pessoas.
Mademoiselle/demoiselle/senhorinha/menina.

Anónimo disse...

Nao e por acaso ( porque nada e por acaso) que esta medida e tomada no mesmo momento em que DSK tenta demonstrar que acreditava que as simpáticas amigas de Dodo la Saumure eram demoiselles.

a) Feliciano da Mata

Anónimo disse...

Nao e por acaso ( porque nada e por acaso) que esta medida e tomada no mesmo momento em que DSK tenta demonstrar que acreditava que as simpáticas amigas de Dodo la Saumure eram demoiselles.

a) Feliciano da Mata

Anónimo disse...

Nao e por acaso ( porque nada e por acaso) que esta medida e tomada no mesmo momento em que DSK tenta demonstrar que acreditava que as simpáticas amigas de Dodo la Saumure eram demoiselles.

a) Feliciano da Mata

Anónimo disse...

Está bem presente na memória dos antigos residentes de chez André de Gouveia a antiga secretária, Mlle Françoise, que insistia contra ventos e marés em ser tratada por aquele qualificativo...

Como as adolescentes receberão a mudança não sei, mas quer-me parecer que muitos pais de jeunes femmes não ficarão exultantes com esta evolução dos costumes.

DL

Anónimo disse...

Nem sempre uma lei faz jus. E depois haverá sempre aqueles (ou aquelas) que estarão dispostos a corrigir.
Como eu fui "corrigido" por uma senhora idosa, a quem tratei de "Madame", tinha eu chegado de Portugal havia pouco tempo e a minha cultura não me facilitava outro trato que "Madame" para aquela idade.
Pois bem, do alto dos seus aproximadamente setenta anos, e na altura eu com dezoito, aquela senhora fez questão em que a tratasse, em bom francês, de "Mademoiselle s'il vous plait" !
José Barros 

Julia Macias-Valet disse...

Caro Teo Dias,
Ninguém tem que suportar absolutamente nada...
Sobretudo o passar de um dia para o outro de Mademoiselle Julia Macias a Madame B.... Valet : ( de um dia para o outro deixasse de existir so porque se assinou um papel : ((

Por outro lado nao conheço nenhum Monsieur que tenha adoptado no BI o apelido da esposa : (

E como ja tera reparado eu tenho um "nom d'usage" : )

Cunha Ribeiro disse...

Lamento que as DEMOISELLES deixem de o ser.
Mas eu sempre vivi sem me tratarem por "Mongarçon"...

gherkin disse...

Como sempre, excelente e oportuno apontamento! Não se importe. Lembre-se que neste país shakespeareano, o termo Mrs. passou, embora não oficialmente, para Ms. aplicando-se, assim, na prática corrente, tanto a senhora casada como a jovem solteira!
habitual abraço do,
Gilberto Ferraz

Anónimo disse...

Era uma delicadeza com uma palavra bem bonita!

Isabel BP

Helena Sacadura Cabral disse...

Este Feliciano da Mata não perde pitada quando se trata de "petites histoires". O que admira, servindo quem serve...
O Senhor Alcipe, um homem tão fino, tem de cuidar do seu mordomo que anda pela blogosfera a fazer tremendas ressonâncias.
Ri-me de gosto com este post, O ridículo de tratar uma adolescente por madame...
Vê-se que se está em período eleitoral e é preciso diversão.

Teo Dias disse...

Tratamentos e "usages"

Não me apraz muito ter que voltar aqui com os meus comentários.

Na verdade, mais uma vez, usei demasiado da provocação. Agora tenho que a defender.

1. As Mademoiselles - há aquelas que admiro, como a Deneuve, e aquelas que ... enfim, digo que não pertencem ao meu mundo, como a Chanel; por questões óbvias, mas ambas marcaram a minha existência. Agora, a nossa dificuldade de querer traduzir situações pessoais é (era) menos evidente.

2. As Demoiselles continuarão a existir, não nos preocupemos muito. Talvez daqui a uns anos terão o mesmo lugar na língua comum dos Demoiseaux.

3. Duas historinhas, que talvez apareçam noutro sítio:

a. Durante anos morei no 186. Prédio burguês, centro da urbe, metro a duas pernadas da "porte cochère". A minha companheira era descendente de uma pessoa conhecida por todos os antigos habitantes. Acesso por uma das escadas de serviço (daquelas onde se encontra uma porta esconsa de dois em dois andares). Duas solteironas como vizinhas (tratamento a que me dá direito actualmente a minha idade) no primeiro andar vivia a Madame
C. - mulher dinâmica que preferia passar alguns dos meses do ano longe do seu domicílio. A outra, toda a gente a tratava de Mademoiselle L. muito digna,
encontrava-a quase no quotidiano a subir até ao seu "deux pièces" no quinto, ia à missa a Saint Roch e era voluntária Maltesa (não porque lesse o Hugo Pratt, mas porque visitava hospitais). Mesma situação, mas tratamentos diferentes.

b. Ficar com o nome. Durante anos, ao ler determinados documentos oficiais, aparecia o meu nome seguido pela menção "époux D." nunca me preocupei.
Era a maneira de me distinguir de outra eventual pessoa que tivesse o meu nome. Não estava escrito na minha testa, não aparecia nos meus documentos oficiais (aquelas chatas "Carte de séjour"), não me incomodava. Mas como os momentos da vida são efémeros assim como as ligações (por menos perigosas que
o possam ser), um dia apareceu a ruptura. Hélas! Antes de comparecermos diante do advogado, C tinha pedido para conservar o Dias, profissionalmente era conhecida assim. Claro que nada tive a opôr. Também tinha essa opção mas como eu nunca a utilizei, não usufrui posteriormente.


Cara Julia,

Durante anos e anos que vivi em França nunca pensei nessa hipótese. Também me casei sobre o tarde, e nessa altura não seria pelo facto de
usar o nome da minha esposa que modificaria a minha inserção (e não integração) na sociedade em que vivia.

Não prescindo de ter um olhar diferente, ainda hoje (agora aqui) apesar de todas as memórias, de todos os kilómetros percorridos, sou um homemque vive no seu espaço e no seu tempo, mas, de certeza absoluta, com uma vivência diferente de muitos daqueles que me conhecem.

p.s.: quem passa sob a chuva, fica molhado. Uns secam mais depressa o que outros, mas as cicatrizes da chuva nunca desaparecem.

:)!!!

ao fim e ao cabo sou "cidadão europeu" e vivo com isso.

Anónimo disse...

Sobre este assunto não percebo nada e muito menos de francesas!
Sinto-me mesmo à nora!
Ne pas de rien !!

OGman

Anónimo disse...

Um pequeno reparo se me permitem:
A França, depois da revolução, resolveu esta dificuldade com o termo "Citoyen" "Citoyenne" que se aplicava a todas as condições sociais e a todas as idades. Não sei porque é que depois complicaram de novo!
Em Portugal precisavamos também de uma revolução que viesse facilitar o trato. Ou então criar um doutoramento que "especializasse" as pessoas a corresponderem com a administração. 
Ainda hoje enfrentei esse problema para terminar uma carta que dirigia em resposta a um serviço cuja responsável assinava: "Tecnica Superior Marta qualquer coisa".
Ao fim de expôr o assunto senti necessidade de humanizar a correspondecia e não encontrava forma! Porque não sabia se estava a tratar com uma "senhora" ou com uma " menina" e o termo de Sra. Tecnica Superior ou Menina Tecnica Superior não me satisfazia. 
Pessoalmente sou de opinião a que se legisfere no sentido de obrigar todo o cidadão e toda a cidadã a trazer pendurado ao pescoço um "badge" com o nome, estado civil e condição preferencial de trato.
Disse pendurado ao pescoço e não pregado na roupa com alfinete porque penso nos nudistas a quem a lei deve também aplicar-se!
José Barros 

jose albergaria disse...

E a variante masculina, que tanto aprecio, "damoiseaux", deve manter-se? Sim ou não?
Vai um referendo?
Ces gaulois...
Cumprimentos.

Anónimo disse...

na Universidade , nos meus tempos, pelo menos na FML, os Prfoessores tratavam as estudantes por Senhora., mesmo as quase adolescentes do 1º ano de 17-18 anos...

JTP