terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Limites

Eram os primeiros meses de 1976. "Desterrado" pelo MNE no então "Ministério da Cooperação" (de cuja existência poucos se lembrarão), no edifício em que hoje funciona o Ministério da Defesa, tinham vindo almoçar comigo, num restaurante à zona do Restelo, dois colegas das Necessidades, tal como eu recém-entrados na carreira. Acompanhava-nos à mesa um outro amigo com quem eu trabalhava e que lhes havia apresentado na ocasião, oriundo de uma área técnica.

A certo passo, um dos colegas vindos do MNE mencionou que estava colocado na então "Comissão Internacional de Limites com Espanha", estrutura que se ocupava das temáticas de fronteira. Ironizámos em como deveriam ser "fascinantes" alguns temas com que lidava nesse serviço, de que era exemplo notório a escaldante questão do regime de utilização dos mouchões aluviais. Mas o meu amigo técnico, para grande surpresa de todos, deu estranha nota de estar interessadíssimo na temática, fazendo imensas perguntas ao meu colega.

Devo dizer que, a certo ponto, comecei a ficar com a sensação de que, na realidade, ele estava apenas a "fazer a folha" ao jovem diplomata, tais eram as atenções, de uma quase afetividade, que lhe ia dirigindo. Achei divertida a cena e, confesso, acabado que foi o almoço, mais curioso fiquei quando vi os dois a trocar cartões e a combinarem contactos futuros. "Caramba, foi tiro e queda!", pensei, então já surpreendido com a minha naïveté, à qual tinha escapado a aparente propensão mútua para aquele tipo de afinidades eletivas.

Passaram-se umas semanas e, ao cruzar-me no MNE com o meu colega diplomata, não resisti: "Então, voltaste a encontrar aquele amigo que te apresentei há tempos?". Com a maior naturalidade, o meu colega respondeu: "Sim, sim! Almoçámos, há dias. É muito simpático" e, talvez detetando um brilho de discreta ironia no meu olhar, adiantou: "Sabes o que ele queria?". Nem me deixou no embaraço de presumir e, com um largo sorriso, logo esclareceu: "Queria que eu me inscrevesse na Liga dos Amigos de Olivença, de que é diretor. Como eu estou na "Comissão de Limites", achou que, um dia, eu poderia "dar um jeito", sabe-se lá!...". Rimo-nos a bom rir. Afinal, eram apenas essas a afinidades que andavam no ar.

Lembrei-me disto a propósito da encenação da "Guerra das Laranjas", em Olivença, tema que agora deu para mobilizar alguns amigos meus, algo agitados no seu pousio.

17 comentários:

Catinga disse...

Há que admirar quem luta pelas causas que acha justas (e com as quais não ganha nada).

Helena Sacadura Cabral disse...

Pena que não seja a guerra dos limões. Sempre era mais amarga...

Julia Macias-Valet disse...

Quem tem padrinhos é que se casa ; )

Sim, sim porque o Manuel de Godoy se nao tivesse andando "enrolado" com a Maria Luisa de Parma se calhar também nao tinha liderado a Guerra das Laranjas. E como o moço era ali da Estremadura espanhola gostou de fazer um brilharete...empurrando os LIMITES : ))

Mônica disse...

Francisco
Que pena que nao consigo pegar o espirito da coisa.
Mas mesmo assim sorri tambem
com amizade Monica

Anónimo disse...

O Senhor Embaixador vai permitir que lhe dirija um cumprimento muito sincero, pela elegância com que trata o tema (cada vez mais difícil, imagino) das "afinidades electivas" dentro do róseo Palácio das Necessidades. Se era precisa uma lição de grande diplomacia ela aqui ficou patente. "Chapeau"

A. disse...

Quando fala de afinidades electivas está V.Exª a pensar em Goethe ou em cumplicidades eleitorais?

Francisco Seixas da Costa disse...

Eu voto sempre Goethe

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro A: pensando melhor, a minha opção por Goethe tem de ser refletida. Aquela conhecida expressão que utilizou, na hora da morte, "Luz! Luz!" deixou, para sempre, uma imperecível margem de ambiguidade futebolística. Verdade seja que seria pouco plausível que gritasse "Alvalade! Alvalade!"

António P. disse...

Caro Embaixador,
Mais uma bela história e nesses tempos almoçar no Restelo só pode ter sido no "Fateixa" ( que ainda existe) ou no "Cartaxo" ( que existe com um nome diferente).
Inclino-me mais para o "Fateixa"...:)
Cuymprimentos

Anónimo disse...

chapeau, meu caro, re-chapeau! a gripe parece que lhe re(a)fina o estilo e o humor. as melhoras quand même!
e vivó sporting, apesar do sá pinto!
brrr

Teo Dias disse...

apesar de tudo, apesar de todo aqueles kms andados, continuo com brancas em escultura - que os artistas me desculpem.

não sei quem é o autor desta estátua, ou já o esqueci.

mais uma vez, admiro a relação entre o texto e a imagem.

(as similitudes entre o homem do mar e olivença) e se a mensagem tivesse sido publicada em Maio... eu dava pulos na minha cadeira!

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro António P: Que diabo! Já não se consegue privacidade! Era, de facto, o "Fateixa". Mas como raio descobriu?

António P. disse...

Caro Embaixador ou elementar my dear Watson,

Vivia na zona desde 1972 e o meu pai trabalhava no então MInistério do Ultramar quando vinha a Lisboa desde Luanda.
E no bairro na altura só havia esses dois (hoje a situação não é muito diferente) e o Cartaxo não era lá grande espingarda (mais atascado), como tal não o estava a ver na sala do fundo atendido pelo Sr. Joaquim e/ou milher com as filhas a gritarem...:))
Mesmo ainda jovem diplomata iumaginei-o a escolher o Fateixa, sempre tinha outra qualidade (e até não se comia mal).
Cumprimentos

Santiago Macias disse...

A Comissão ainda existe, embora não me recorde se o nome é ainda esse. As autarquias são chamadas a participar. Há pouco mais de um ano tive de percorrer um troço da fronteira para depois, em conjunto com o Ayuntamiento do Rosal de la Frontera, fazer uma ata. Ao menos no Alandroal não têm essa "eletrizante" tarefa...

Santiago Macias disse...

Recomendo uma ida a Olivença no próximo domingo (não ao senhor embaixador, claro, a quem a "fiesta" nada diz): é o regresso de Juan José Padilla.

Anónimo disse...

"Fiesta"? É mais deles do que nossa?

patricio branco disse...

nao sei se existe em espanha (estremadura, olivença) um grupo semelhante ao gao (mesmos objectivos, centrados na cidade)ou se há membros espanhois do gao.
o gao será alguma vez, de vez em quando, excepcionalmente,recebido por governantes portugueses, o mne p ex?
o gao é um movimento de libertação, à semelhança dos mpla e paigc?
Limitam se a conversar e fazer almoços mensais?
O protesto ou comunicado do gao sobre o espectaculo em olivença até esteve bem, talvez aí devesse ser o estado espanhol a dizer ao alcalde melhor não ir à frente, pense bem antes de decidir faer.
De qualquer modo,a estremadura é das regiões autonomas que mais atenção dá ao que é português, desde o ensino de português nas suas escolas até o hospital de badajoz ser a maternidade onde nasce 1 português por dia e onde vão centenas de portugueses p ano a consultas e tratamentos.
Talvez seja uma forma de reparação historica do que se passou 60 km ao sul.