terça-feira, 11 de outubro de 2011

Postos

Viviam-se os tempos do PREC, naquela grande embaixada portuguesa na Europa. O ministro-conselheiro, o nº 2 da casa, alimentava uma legítima expectativa de poder vir a obter uma chefia de missão, na onda de novas representações diplomáticas que Portugal estava a criar pelo mundo. Essa ânsia não passou desapercebida aos colegas. Assim, um certo dia, estes resolveram elaborar um falso "telegrama", como se se tratasse de uma comunicação chegada de Lisboa, através do qual era perguntado se o ministro-conselheiro estaria disponível para assumir funções como chefe da missão em Budapeste.

O método de consulta era um tanto bizarro. Por regra, este tipo de sondagens não se faz por escrito para... que nada fique escrito. Para os postos mais importantes e apetecíveis, é vulgar ser o ministro a convidar os embaixadores, por haver a quase certeza de que eles não recusarão. Para os restantes postos, encarrega-se dessa tarefa, por via telefónica, o secretário-geral do Ministério, muitas vezes condenado a frustrar expectativas e a receber reações menos simpáticas. Mas nesses tempos, de governos mais do que provisórios, tudo era plausível, mesmo um "telegrama" a formalizar uma sondagem.

Ao ler o "telegrama", que tomou por verdadeiro, o ministro-conselheiro ficou muito hesitante. E desapontado. Embora conhecedor do lema clássico de que "uma embaixada é sempre uma embaixada", que seria, no seu caso, a primeira, a Hungria não era o seu mais desejado destino de vida para os próximos três ou quatro anos. Algumas capitais à época bem mais simpáticas e mais a ocidente, na geografia e na qualidade de vida, estariam em vias de ser preenchidas e ele ambicionava poder obter uma dentre elas. Durante algumas horas, cheio de dúvidas, partilhou o seu desencanto com os colegas, que, com alguma perfídia, alimentaram a graça até aos limites da crueldade. Ao fim do dia, porém, revelaram-lhe, para seu grande sossego, que tudo não tinha passado de uma grande "partida".

Decorreram uns dias e um novo "telegrama", muito similar ao anterior, emergiu nos corredores da embaixada e foi, de novo, pousar na secretário do ministro-conselheiro. Agora, em vez de Budapeste, o destino era Bissau. O ministro-conselheiro entendeu que a coisa começava já a não ter graça e, com alguma secura, disse-o aos colegas que já tinham criado a "invenção" de Budapeste. Mas estes juraram, a pés juntos, que nada tinham a ver com a segunda comunicação. Foi então que o nosso homem irrompeu pelo gabinete do embaixador, para tentar perceber o que é que aquilo realmente significava. O embaixador, com serenidade, disse-lhe a verdade: o Ministério queria saber se ele aceitava ser o primeiro embaixador português em Bissau.

O diplomata estava aturdido. Bissau? Era uma cidade que se sabia difícil para viver, as relações de Portugal com uma antiga colónia com a qual tinha disputado uma década de guerra eram ainda tensas, estávamos muito longe do ambiente de fraterno entendimento que hoje se vive entre os países que falam português pelo mundo. Claro que abrir a primeira embaixada portuguesa na Guiné-Bissau era um forte desafio profissional, em especial para um primeiro posto como embaixador, mas o ministro-conselheiro mantinha-se ainda um pouco hesitante.

Saiu do gabinete do embaixador e foi falar com os seus colegas, partilhando com eles a proposta, sublinhando as dúvidas que o assaltavam e, de certo modo, lamentando não ter hipóteses de escolha. Foi então que um deles, irónico, lhe lançou:

- Que queres? A culpa é tua. Não quiseste ir para Budapeste...

O embaixador João de Sá Coutinho, uma das grandes figuras da carreira diplomática portuguesa, foi o primeiro embaixador na Guiné-Bissau, onde veio a fazer um excelente posto. A história foi-me contada por um dos "conspiradores de Budapeste".

4 comentários:

patricio branco disse...

bem mais importante bissau que bucareste nesses historicos tempos do pos 25 de abril, com a descolonizaçao ainda fresquinha, descolonizaçao que foi a possivel, minha opiniao, depois da traumatica guerra colonial.
Apontamentos ao acaso: um postal com uma vista de bucareste sobre uma mesa; um velho mercedes 200; vinho verde; ceausescu; luis cabral; spinola; costa gomes; mosquitos, grilos e baratas (quase um tratado de entomologia); helena ceausescu; depois do 25a e antes da queda do muro; ocidente, leste e no meio a guine bissau.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Patrício Branco: como terá reparado, "Bucareste" evoluiu para "Budapeste". É que um dos "conspiradores" apressou-se a retificar o meu erro "capital".

patricio branco disse...

muita a diferença, a favor de budapeste, entre as 2 cidades do leste. Sentar se no cafe gerbaud, mesmo nesses anos, era algo que impressionava. Ou no new york. Mas bissau era mais desafiante, claro, e o convite agora era real, nao uma brincadeira de colegas.

Anónimo disse...

Por este post podemos ver que isto dos diplomatas tem que se lhes diga.