domingo, 16 de outubro de 2011

As 24 horas de Vila Real

No aeroporto: relato a um amigo espanhol as palavras certeiras do presidente Cavaco Silva, num discurso em Florença, onde denunciou as derivas institucionais da União Europeia e a "mainmise" intergovernamental. Resposta dele: "Pena é que o teu compatriota Barroso, em lugar de fazer um comício tardio no Parlamento europeu, a tentar absolver-se da clandestinidade da Comissão, não tivesse dito isso mesmo há muito mais tempo". Por mais que tente, não me recordo da expressão exata, em castelhano, com que ele acabou a frase. Mas soou a "É o dizes!".

No jornal: o doentio catastrofismo nacional de António Barreto é objeto de um comentário irónico de Vasco Pulido Valente, a quem, como é sabido, nunca ninguém apanhou uma palavra de dúvida sobre o futuro de Portugal.

Nas ruas: nascem como cogumelos os locais de compra de ouro. E que grande época aguarda as lojas chinesas!

Na universidade: ou foi impressão minha ou o efeito da crise soltou-nos o discurso a todos. Falo por mim. Nunca dirigi um reunião de forma tão caótica. Mas pode ter valido a pena. Toda a gente começa a perceber que já não há tempo para perder tempo.

No quiosque: "Leva quatro jornais e duas revistas?! Caramba! Muito obrigado!"

No restaurante: "O senhor vem lá dos frios de Paris e acha que está calor?! Olhe que por cá tudo sobe: a temperatura, os preços, os impostos... Ah! e também a raiva..."

Um familiar: fez ontem 99 anos! Fui dar-lhe um abraço. Disse-me: "acho que vou chegar aos 100!". Vai, claro! E Portugal está quase a chegar aos 900! Estamos aqui para durar!

Por todo o lado: é impressionante a unanimidade angustiada nas expetativas das pessoas com quem nos cruzamos. Quanto mais não seja por espírito de contradição, vou apostar em como isto ainda vai dar a volta. Não é impunemente que se faz uma vida como sportinguista. 

No avião de regresso: conversa longa e proveitosa, entre o Porto e Paris, com Artur Santos Silva. É bom escutar os que ganharam uma sabedoria serena e tolerante.

Um amigo, triste, a comentar, ao telefone, as manifestações: "Começo a estar menos preocupado com a taxa de desemprego e muito mais com a taxa de desespero".

7 comentários:

Gil disse...

É verdade que VPV pede meças a Barreto no que toca a profecias do finis patriae mas trata-se de uma reacção corporativa: estão a meter-se no seu fonds de commerce.
Afinal, eles e outros medinascarreira vivem uma época empolgante: a catástrofe que, incansavelmente, anunciam há 30 anos para o dia seguinte está aí, a perfilar-se no horizonte.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Chicamigo

Extraordinária análise, multifacetada, correctíssima, da qual discordo apenas de um só ponto. A intervenção do PR é igualmente tardia e fora do seu habitual faz que anda mas não anda.

Tem deixado correr o marfim, apenas com o calino "eu bem avisei" e, obviamente, parece que não foi primeiro-ministro (com maioria absoluta e com tabus), com o que contribuiu e muito para o desequilíbrio das contas públicas.

E, como disse Carlos César ontem mesmo, na SIC, desassombradamente, é o presidente mais partidário desde o 25 de Abril. Se houver quem o desminta, agradeço.

E nesse descalabro financeiro, contou com a ajuda prestimosa da afilhada dilecta Manuela Ferreira Leite, que agora também vem alertar para isto & para aquilo.

Não quero insistir, mas foi com ele em S. Bento que se pagou ("bendita CEE") para arrancar vinhas e afundar pesqueiros. E, agora, vem, pressuroso dizer aos agricultores que... têm de produzir mais. Os homens (e as mulheres) têm memória curta, mas tanto - não.

No resto, subscrevo ou mais popularmente assino por baixo.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Henrique Antunes Ferreira: eu não falei do tempo, falei do modo. O presidente Cavaco Silva fez uma análise muito precisa e rigorosa das práticas nefastas que estão a prejudicar a confiança dentro da União Europeis. Concorda ou não?

Anónimo disse...

Com relutância penso que estaremos proximo de viver uma espécie de fim de regime. Na minha vida já é o segundo. Não é simpático.

Anónimo disse...

Gosto do preciosismo diplomático "do tempo e do modo". O problema é esse os dois vivem juntos.

Isabel Seixas disse...

Gostei imenso do seu olhar RX...
permita-me enfatizar o que gostei mais...

"o efeito da crise soltou-nos o discurso a todos"
"e também a raiva..."
"Não é impunemente que se faz uma vida como sportinguista..."
" a taxa de desespero..."

"acho que vou chegar aos 100!". Vai, claro! E Portugal está quase a chegar aos 900!"
In FSC

EGR disse...

Senhor Embaixador:como estamos todos necessitados desse espirito de resistencia e esperança que o tem animado enquanto sportinguista
E,permita-me que deixe aqui uma nota sobre algo que,nestes ultimos dias me tem irritado profundamente:diariamente a RTP1 e a RTP Informação socorrendo-se de dados estatitiscos da "Prodata"-António Barreto-anda a tentar convercer-nos que o Estado gasta demasiado com os serviços que nos presta.Até já recorreram a prestimosa colaboração de Medina Carreira.
È a tese de que "vivemos acima das nossas possibilidades" a qual me parece uma versão moderna da ideia segundo a qual devemos ser "pobrezinhos mas honrados" e viver na "casa portuguesa onde havia sempre pão e vinho sobre a mesa"