quinta-feira, 6 de julho de 2017

Da vaidade alheia como arma

"Quer resolver o problema? Vá falar com ele." 

Eu tinha uma questão complicade entre mãos. Enquanto embaixador português naquele país, havia recebido um apelo de uma empresa nacional que estava a ser vítima de uma flagrante arbitrariedade, contra todas as regras, de um modo perfeitamente discriminatório. Constatei que existia uma manifesta má vontade contra esse investimento nacional, só passível de ser ultrapassado por via judicial, o que demoraria eternidades.

Durante semanas, tinha tentado tudo. Desde o ministério dos Negócios Estrangeiros daquele país até às autoridades locais, bem como o recurso a outros poderes fáticos, nomeadamente na área parlamentar. Sem sucesso. Tudo continuava num impasse, com o nosso pequeno empresário à beira de um ataque de nervos.

Um dia, tendo referido o assunto a alguém, foi-me recomendado que fosse falar com um determinado ministro. "Mas a pasta dele nada tem a ver com o assunto!", argumentei. "Isso não interessa. Mas é ele quem puxa os cordelinhos locais", foi-me respondido. Exauridos outros meios, decidi seguir o conselho.

O homem recebeu-me, muito cordial, interrogando-se seguramente sobre o motivo pelo qual lhe tinha pedido a audiência, que havia "embrulhado" junto do seu secretariado numa justificação muito vaga. Expliquei, com franqueza, o essencial do problema com que me debatia e, no final da minha apresentação, ouvi dele uma resposta compreensiva: "O assunto que me traz parece-me óbvio. A ser verdade o que me diz - e eu não duvido - é inadmissível o modo como a empresa do seu país está a ser tratada. Contudo, o meu ministério não tem nada a ver com essa área, como saberá".

Foi então que joguei a "cartada" que trazia preparada: "O senhor ministro tem toda a razão. O assunto nada tem a ver com o seu ministério. Mas tem tudo a ver com a dignidade e o nível da segurança jurídica, para o investimento estrangeiro, na região de onde o senhor ministro é oriundo e da qual é reconhecido ser, sem a menor dúvida, a mais saliente personalidade, no seio do governo de que faz parte. Ninguém neste país desconhece o seu peso político, a sua capacidade de influência, enfim, para ser muito direto, o seu poder. Se o assunto que aqui me traz lhe oferecer a menor dúvida quanto à legitimidade da pretensão da empresa, peço que o esqueça e não o incomodarei mais. Mas se acaso o senhor ministro concordar comigo na validade da questão que lhe apresentei - e vou deixar-lhe um dossiê com a documentação essencial - estou certo que o seu conhecido sentido de justiça não deixará de o levar a uma possível intervenção que permita ultrapassar o problema".

À medida que falava, fui olhando para homem e notei o crescente prazer com que ia ouvindo as minhas referências à sua força política e às "certezas" que eu tinha da sua sensibilidade às razões da justiça. Verdade seja que, se das primeiras eu não tinha dúvidas, já no tocante às segundas ele passava a partir de então a ser testado.

Para encurtar a história: o assunto resolveu-se, ao fim de um mês, a nosso contento, tendo a influência do ministro sido essencial e aquele (justo) interesse português sido atendido em pleno.

Jogar com a vaidade alheia é um expediente que as boas causas absolvem. Como creio ter sido o caso. Já as razões da justiça são bastante mais complexas, não fora dar-se o caso do nosso homem andar, por estes dias, em sérios embaraços com o sistema judicial do seu país.

4 comentários:

Isabel Seixas disse...

Pois sr. embaixador, bem interessante o seu post dá pano para mangas...

Uma pessoa que eu conheço está a ser vitima de uma arbitrariedade do género, ao abrigo e em cumprimento da lei e do seu conteúdo funcional expôs o horário de trabalho dos funcionários da instituição para informação clara dos utentes, e a pedido dos mesmos e do departamento de informações que se via às aranhas sempre que era equacionado, vai daí está a ser perseguida por alguns elementos de uma das classes profissionais com requintes de terrorismo psicológico pois pelos vistos não é delicado mesmo num pais socialista e no setor público por a nu o horário dos funcionários e claro que nem pensar socorrer-se da isenção do ministério, que inclusive não só aprova a lei como a advoga... Mas ... Outros valores(quer dizer PODERES) se levantam.

Sabe sr. Embaixador eu até prescreveria esta receita à pessoa minha conhecida mas no contexto não teria a menor chance...

De qualquer forma o post, como sempre bem interessante.

E parabéns pela capacidade e inteligência emocional e relacional, decerto herdou-a da genética e ou da Sua Mulher, mas o importante é saber aproveitá-las e colocá-las ao serviço do país e seus apêndices.

um abraço
da prima e amiga
Isabel Seixas

Joaquim de Freitas disse...

Texto muito elucidativo, da maneira como um artista da dialéctica « comercial » pode vender submarinos a ministros de países que não têm um “euro” para mandar cantar um cego…Porque desses ministros vaidosos e, pior ainda, “interessados”, existem em todos os governos democráticos e não democráticos!

Penso neste momento num certo príncipe da Casa de Orange-Nassau que deu a tal “ajuda”, por um “pot de vin” de um milhão de dólares, aos Americanos para venderem os Lockheed ao seu país…
No seu caso só perdeu o direito a vestir os seus uniformes e as suas funções militares. Porque era o príncipe… Mas há tantos noutros países, como a Grécia, por exemplo…

No caso evocado no texto do Senhor Embaixador, aparentemente, a justiça foi mais longe…Mas imaginemos o “programa de trabalho” da Justiça se fosse procurar casos idênticos em Portugal…







Anónimo disse...

Brasil?

Anónimo disse...

Da arma alheia

Nao sei se sera a caça, ou nao. Mas uma pessoa apanhar um tiro quando esta a fazer uma caminhada com uma amiga não é grande imagem para o turismo de Vila Real.

http://www.dn.pt/sociedade/interior/mulher-de-28-anos-ferida-com-gravidade-apos-ter-sido-baleada-em-vila-real-8616236.html

Nao ha quem limpe o pais dos burgessos que tem...