domingo, 9 de novembro de 2014

Os órfãos do muro


É tão bom revisitar o passado através da consabida finura da leitura histórica do Partido Comunista Português! Apreciem esta peça-modelo do "Avante!" Com total sinceridade, devo dizer que sinto mesmo uma certa ternura por estes saudosos do "Trabant" e das glórias da URSS e dos seus "compagnons de route", a que Ialta forçou a existência. O PCP é hoje um museu de si próprio, que deve ser conservado com todo o cuidado que sempre deve ser concedido às espécies em extinção.

Custa-me ter de concluir que um partido a quem tenho, como muitos portugueses, uma eterna dívida de gratidão pela sua inigualável e sacrificada luta para derrubar a ditadura, não entenda o ridículo a que se expõe ao ficar preso a estes clichés caricaturais, que não dignificam a esperança que muitos ainda põem na sua ação política. Ao ler textos como estes, dou-me bem conta do que poderá ser o futuro da ideia da "maioria de esquerda" em Portugal. Ao auto-excluir-se do "mainstream" do bom senso, pela assunção deste género de posições, o atual PCP revela-se, uma vez mais, o grande e principal aliado (objetivo, como a doutrina marxista classifica) da direita portuguesa, ao lado de quem esteve no derrube do último governo socialista, na sua lógica imutável do "quanto pior, melhor".
 
Tenho pena, pelos bons amigos que por lá tenho e pelo respeito que conservo pelo velho PCP.

12 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Jovem estudante, fiz parte daqueles que distribuíam o "Avante" à saída das fábricas , nos anos do pós guerra. Tem razão: nesses tempos "heróicos" o PCP era a única organização, ilegal, que dava a cara no combate ao fascismo. O resto do povo, a maioria, anestesiado pela Igreja, não mexia. A PIDE velava.

Depois houve a Revolução. Se no início as forças da esquerda pareciam unidas , não havia, por um lado, a necessária clareza política sobre os objectivos a longo prazo; e por outro, a descolonização e a maneira como foi realizada, criou pontos de fricção que ainda hoje persistem.

Com o tempo, o socialismo virou social democracia, como noutros países europeus. Viu-se bem, aquando das eleições municipais, que o PCP nunca se demarcou do espírito de esquerda, mas certas escolhas sociais propostas pelos comunistas não enquadram hoje na política a longo prazo dos socialistas, que escorregam lentamente para o social liberalismo.

Mas a esquerda , para ganhar a confiança da maioria dos Portugueses, não pode privar-se de qualquer força que seja , qualquer que seja a postura conjuntural de tal ou tal destas forças. Esta fragilidade das forças de esquerda é tanto mais perigosa, que as sirenes populistas da extrema direita conseguem desviar muitos trabalhadores , entre os mais frágeis, para sonhos de eldorados que todos sabemos sem saída. A direita aproveitou sempre a desunião das forças da esquerda.

A política do "pior", estalinista, praticada pelo PCP, que levou à queda do governo socialista, foi a reacção dum partido que se sentiu na função de "carro-vassoura" do partido socialista na Volta a Portugal! Mas é verdade que foi toda a população que pagou e continua a pagar "les pots cassés"! Mas para recuperar a confiança dos eleitores comunistas e talvez de muitos outros de esquerda, o partido socialista não pode continuar a mesma cozinha dos partidos da direita.

Perpetuar o sistema que esmaga os humildes desde há tanto tempo, numa alternância sem ambições mais elevadas, pode levar o povo a pensar que é a corrida aos postos de poder e de renome oferecidos pelo sistema que motiva os ambiciosos, em vez de se atacarem à oligarquia.

O povo Português está desesperado, não somente pela pressão insuportável que pesa sobre o mundo do trabalho, mas , para os mais conscientes, pelo abaixamento nacional sem precedente de Portugal, que perde a sua soberania no interior e a sua capacidade de acção no internacional. Tudo isso poderia ter um resultado positivo se acabasse noutra revolução, mas, desta vez, regeneradora!

Isabel Seixas disse...

Bem visto sr. Embaixador.

A condenação à ambivalência, ó sim mas não também e ao se, é terrível...

Pior ainda quando a demagogia se quer perpetuar ao direito individual à liberdade...

gostei do titulo.

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Embaixador: Quis separar este comentário sobre a RDA , do tema do PCP., no mesmo "post". Se considerar que abuso do espaço, compreenderia que o suprima.

Estive em Berlim nessa noite da queda do muro. Conheço bem a Alemanha. Fui director duma filial durante três anos em Darmstadt.

Tenho outra leitura sobre o fim da RDA e das realizações da RDA. Os media , hoje, passam horas a comentar a queda do muro há 25 anos. Foi um acontecimento que alegrou os capitalistas ocidentais e os seus lacaios. E uma parte da população alemã. Para os herdeiros dos Wendel, Prouvost, Schneider, Krupp, que nos anos 30 tinham escolhido Hitler, a queda do muro é um recordação grata, mais grata que a vitória do exército Vermelho contra o nazismo em 1945.
A queda do muro queria dizer a todos aqueles que contestavam o capitalismo, que " não há mais socialismo, o comunismo morreu"!
O mesmo medo do "social" que tinha motivado Krupp e Thyssen indo procurar Hitler e fabricando o partido nazi ; Reagan esmagando o regime popular da Grenada; os "Contras" na Nicarágua; Pinochet assassinando Allende no Chile, etc.

Ouve-se muito falar nestes últimos tempos da palavra "ostalgia". Alemães, que vivem no paraíso capitalista da RFA e lamentam os tempos da RDA. Eu vi-os e falei com alguns. Muitos pensam que perderam muito na troca. Trocaram uma sociedade sem desemprego, na qual as necessidades essenciais eram satisfeitas, contra uma liberdade de consumir ilusória, porque os meios de comprar faltam. Uma sociedade onde o trabalho é uma espécie rara, ou muito mal paga.

A RDA , era a 7° potência económica do mundo , com o nível de vida mais elevado de todos os países socialistas e comparável ao nosso. Em 1989, era um pais industrial moderno, agricultura competitiva e um sistema social quase sem exemplo no mundo. A siderúrgica de Eisenhüttenstadt, que visitei, era a mais moderna da Europa.

A palavra "desemprego" era um termo exótico. Tudo isso num pais, que não possuía nenhuma matéria prima estratégica e devia tudo importar.

O Estado socialista abriu a Universidade aos filhos dos trabalhadores e agricultores. As mulheres beneficiavam de salário igual aos homens, reforma, contracepção e divorcio. Sistema de educação de 10 classes, ensino moderno, nivelava o caminho da vida .

Em 1945 não haviam quadros para dirigir a Zeiss ou a Buna. A formação levou 10 anos a realizar.
Os criadores da RDA eram todos Resistentes, ferozmente anti-nazis, mais que os seus compatriotas do oeste!

Apesar de tudo isto, o Estado socialista alemão caiu, como todos os outros na Europa. A URSS, empurrada por Reagan para a corrida aos armamentos, como os seus satélites, foram para a falência. Os mísseis Pershing na sua fronteira, a NATO à porta, a economia não podia sobreviver contra a riqueza dos EUA, único pais que saiu rico da guerra. Ao contrário da URSS, com os seus 27 milhões de mortos e o pais devastado.

A "Radio Free - Europe" e a "Voice of América", a vitrina de Berlim Oeste e a RFA, forte dos investimentos dos EUA , ganharam a batalha. O capitalismo era mais forte que o socialismo.

Anónimo disse...

Quando se lê memórias de antigos militantes comunistas dá-se bem conta do determinismo fanático dos militantes activos. Pode-se ter consideração por exageros e fanatismos que desrespeitam a condição humana?
O antigo regime não caíu por acção do PCP mas por esgotamento total e falta de fé nas suas possibilidades. Isto é: suicidou-se durante todo os longos e inúteis anos do Marcelismo: que falta fez um Suarez!
João Vieira

São disse...

Sem deixar de concordar com a sua análise, considero que o texto do "Avante" tem dois pontos correctos: a hipocrisia que permite sem alardes o muro com que Israel encerrou os palestinianos no gueto de Gaza , os da Irlanda do Norte a separar bairros católicos de bairros protestantes, os que impedem a entrada de pessoas muitas vezes desesperadas em países mais desenvolvidos.

Claro que seria bom o PCP abrir horizontes e dar o seu contributo na luta contra a Direita,não ficando só pelas intervenções discursivas.

Desejo bom domingo.

São disse...

Regresso para completar o comentário .

O segundo ponto com que concordo no artigo do "Avante" é sobre a responsabilidade da União Europeia(leia-se Alemanha e subserviência de Durão) no actual conflito armado ucraniano.

Joaquim de Freitas disse...

Quando o Senhor João Vieira fala de fanatismo, é pena que não possa dar a definição. O dicionário diz: "Estado de espírito duma pessoa ou dum grupo de pessoas que manifestam por uma doutrina ou por uma causa, com um zelo excessivo conduzindo à intolerância e frequentemente à violência".

O regime comunista foi um bom exemplo. O regime nazi idem. O regime fascista de Salazar, enviando os seus oponentes para o Tarrafal, a PIDE atirando sobre o povo na praça do Carmo, a GNR atirando e assassinando Catarina Eufémia , mulher do povo, as prisões abarrotadas de patriotas eram outros exemplos de fanatismo político, como os Autos da Fé e a Santa Inquisição eram a prova do fanatismo religioso, hoje tão frequente, como por exemplo, quando os ortodoxos extremistas, fanáticos , judeus, fazem erigir um muro na própria terra dos Palestinos.

Na política, na moral, na sociologia, na religião, na filosofia, o conservador da doutrina antiga e o revolucionário mais encarniçado a destruir as verdades presentes confundem-se na identidade duma mesma fé. O seu fanatismo é da mesma ordem, porque crêem um e outro que existe uma verdade objectiva, própria à exclusão de toda outra concepção, capaz de assegurar a felicidade humana. Trata-se depois de separar o joio do trigo.

Crer que o regime de Salazar caiu porque estava esgotado é fazer pouco caso daqueles que lutaram durante anos para o fazer cair. E daqueles que ultimamente estavam prontos a dar a vida para o derrubar pela força das armas. Mesmo se de facto era o regime que estava intrinsecamente podre de tanta incompetência, de tanta intolerância e de tanto fanatismo.

Anónimo disse...

O texto do PCP é lámentável e rídiculo. O PCP continua a viver num estado de negação e não consegue aceitar que o comunismo foi definitivamente derrotado. Quando se afirma que o muro de Berlim era defensivo é não crer ver que ele foi contruído para privar todo um povo de liberdade e para impedir que sáissem da Alemanha dita Democrática.
O comunicado do PCP vai na mesma lógica das declarações de Walter Ulbricht (então líder da RDA), que Junho de 1961 desmentia que o muro ia ser construído.
Se os dirigentes comunistas estivessem esta noite em Berlim, como eu estou, viam um povo que batia palmas e celebrava enquanto se erguiam no cėu os balōes que marcavam onde estava o muro de Berlim, mostrando o derrube desse malfadado símbolo da opressão comunista.

Adelino Ferreira disse...

Sr Joaquim de Freitas, no seu primeiro comentário faz parte o seguinte:


"A política do "pior", estalinista, praticada pelo PCP, que levou à queda do governo socialista"


Ao PEC 1,2 e 3 o PC votou contra; o PSD, deixou-os passar todos. No PEC 4 o PC volta a votar contra, o PSD neste último altera o seu sentido de voto e vota contra, e o PC é que derruba o governo? Já li essa teoria vezes sem conta, ainda hoje e aqui não a consigo entender. Quem mudou o sentido de voto foi o PSD.Para o efeito não estou a levar em conta o CDS nem BE.

Anónimo disse...

Nem li que n'O Avante há muitas vezes ideias parvas.

Mas o PCP é bem mais que isso e já faltou bem mais para termos de pôr em acção as ideias do PCP para escapar à crise.

Uns andaram a brincar com os PEC e outros com a tróica, mas havia um partido que lia e analisava bem e que tarde de mais (há sempre estes argumentos antidemocracia à la último parágrafo de Seixas da Costa) já vai vendo os argumentos defendidos por Freitas do Amaral e por Bagão Félix.

O pior dos mundos portugueses foi-nos entregue pelas políticas do PS, do PSD e do CDS-PP, mas a culpa é dos que sempre se opuseram a essas políticas.

Ide bugiar com a corrupção da inteligências e da honestidade intelectual e com o amor ao pragmatismo e realismo de chancelaria.

Anónimo disse...

Se prezassem e respeitassem os portugueses e o país, o que tinha acontecido era o PS votar ao lado do PCP e do BE os vários Priogramas de Empobrecimento em Curso que apresentaram.

Ao longo dos últimos três anos, a realidade - por muito que custe a adeptos socialista e a seus antigos secretários de Estado - só tem dado é razão a PCP e BE.

Anónimo disse...

Gostava que explicassem aos ignorantes do PCP e do BE com que miraculosa receita prevê o mainstream (melhor dizer a oligarquia possidente publicada, que é o que é) em perclara manifestação de bom-senso atingir os 4 por cento de crescimento consolidado ao longo dos próximos 20 anos para evitar a transformação do país num Sudão social.