domingo, 23 de novembro de 2014

O PS e José Sócrates

Contrariamente à esmagadora maioria dos observadores, não tenho a perspetiva de que a detenção e o processo contra José Sócrates acabe necessariamente por vir prejudicar, a médio prazo, as possibilidades eleitorais do Partido Socialista em 2015. Explico porquê.

O político José Sócrates, por muito que isso custe aos seus amigos e apoiantes, terá terminado ontem. Independentemente da evolução do seu processo judicial, e a menos que uma reviravolta inesperada venha a acontecer, as suas hipóteses de regressar à cena política terão ficado definitivamente encerradas. Ninguém conseguiria recuperar politicamente depois do que ontem sucedeu.

Mas é importante recordar que, há algumas semanas, a importância política do antigo primeiro-ministro era ainda considerável. Se acaso o "terramoto" de ontem não tivesse ocorrido, tudo indicava que a imagem de José Sócrates iria permanecer e talvez acentuar a sua presença no centro do debate político que aí vem. Ora isso, em princípio, já não virá a acontecer.

Com efeito, parece-me que a atual maioria vai forçosamente ter de se refrear, a partir de agora, nomeadamente em termos parlamentares, na frequência das referências políticas a José Sócrates, que seriam vistas como uma agressão de desforço face a alguém que está hoje fragilizado por um processo judicial. É que ser-lhe-ia muito difícil jogar na dualidade discursiva entre um Sócrates político e um Sócrates réu, sem que isso afetasse a necessária contenção que lhe compete, em especial como poder, face ao processo em curso na justiça.

Por outro lado, em face da nova situação que envolve José Sócrates e a expectável retração nas menções a seu respeito por parte da atual maioria, mobilizadoras do ambiente anti-Sócrates que pré-existia à sua tragédia pessoal, o novo PS será menos apelado a vir defender publicamente a sua herança política, como o vinha mais recentemente a fazer, numa atitude de grande coerência e ética política, mas que, a prazo, poderia acarretar-lhe algum custo eleitoral. Isto pode parecer um tanto cruel, mas é uma realidade insofismável.

Haveria, porém, um único cenário em que tudo o que deixei dito deixaria de ter qualquer sentido: se acaso se viesse entretanto a densificar a plausibilidade das acusações feitas a José Sócrates terem algo a ver com a sua conduta enquanto primeiro-ministro. Nesse hipotético caso, que francamente não espero e naturalmente não desejo, o PS não deixaria de se ver necessariamente arrastado para uma "partilha" de responsabilidades, com inevitáveis consequências políticas.

14 comentários:

ECD disse...

Ter os pés na terra é, por principio, bom e na gestão de um caso como este, incluindo ao nível das emoções, imprescindível. Um post, sem espinhas, realista e no momento devido. Tiro o chapéu!
Todavia, na minha opinião, tão importante como ter os pés na terra é distinguir a espuma da água do banho. Vivemos desde há umas semanas, embora não pareça, numa situação, que à falta de melhor termo, podemos chamar de “pré-alarme social em crescendo”. Basta, mesmo sem sair do sofá, olhar à nossa volta, ouvir os canais abertos das rádios e televisões e ler o que por aí circula nos blogs e nos comentários feitos nos jornais, Situações como a que actualmente vivemos abrem oportunidades para as raposas se instalarem por largo tempo no galinheiro. Refiro-me, concretamente, ao perigo real da “captura” das policias pelas agendas politicas da direita e da extrema direita e, como a história dos anos 1920 e 1930 nos mostrou, da sua extensão às magistraturas. Uns e outros pensando que comandam as suas agendas e os seus timing ,afinal, alguns sem o quererem, estão por conta. Fazem o papel de idiotas úteis. Nada mais perigoso do que egos desmesurados e à solta!

A história não se repete é certo, mas ensina-nos muita coisa, mesmo muita coisa! Marcaram-me, nesta matéria, umas leituras que fiz no inicio dos anos 1970 sobre os Croix-de-feu do Coronel François de la Rocque.

patricio branco disse...

interessante reflexão. a psicologia do eleitor é imprevisível. o que se passa poderia prejudicar o ps, mas tambem poderia não ter nenhum efeito e não prejudicar nada.
se josé socrates tivesse sido ou fosse sentido como bom pm seria outra coisa. veja-se o caso de isaltino morais, corrupto mas...bom autarca, com obra (dirão os seus eleitoresz). socrates não deixou no entanto particulares simpatias como pm.
pode até acontecer que o ps ganhe, se os seus dirigentes aproveitarem o que se passa para mudar de estratégias, que seja visto a partir de agora como um ps renovado, isento da duvidosa figura tutelar, e com novas lideranças
e a direcção que ensine a ferro rodrigues o que deve falar na ar

Nuvorila disse...

Sêr detido para prestar declarações já é uma tragédia pessoal? Está-se a presumir o quê? Falaremos depois da decisão do Supremo e mesmo aí há votos de vencido!

Anónimo disse...

cassetes, trituração de despachos,etc, etc,.....

ARD disse...

Há um outro cenário que poderia alterar os dados da questão, em sentido contrário, é redundaria não só na sobrevivência política de Sócrates mas também no reforço do seu peso, mas em que não acredito nada: els ser libertado sem medida de coacção e não ser constituído arguido.

Joaquim de Freitas disse...

O caso Socrates , eventualmente acusado dos mesmos delitos, fez-me pensar nos casos Strauss-Kahn, Cahuzac, Copé, Sarkozy e outros mais recentes, de deputados apanhados pela justiça em flagrante delito de evasão fiscal.

Se menciono o caso Strauss-Kahn é unicamente para desenvolver o drama de homens políticos de alto nível, que a um certo momento "descarrilam" e perdem o seu futuro. Neste caso, não foi um problema de dinheiro evadido, mas a queda brutal dum homem , destinado ao mais alto cargo da Nação francesa, e que "impulsos" descontrolados levaram para o abismo. Era um social democrata e , como tal, bem indicado para a alternância no cume do Estado, "negociada" com Sarkozy, que lhe arranjou o conforto "duma sala de espera" no FMI..

O caso Cahuzac , socialista, é diferente porque aqui foi o dinheiro que o perdeu. Vi este homem , competente, dominando perfeitamente os seus dossiers , combativo, dum grande carisma, e grande "debater" , batalhar nas sessões de questões ao governo na Assembleia Nacional. Como Strauss_Kahn no tempo em que era ministro da Economia. A oposição temia afrontá-lo. O homem tinha recursos imensos. Era ministro do Orçamento ( responsável da guerra à evasão fiscal !), o que não o impediu de conservar uma conta num banco suíço!.

Copé, da direita, eleito presidente do partido UMP, mas acusado de ter "viciado" esta eleição. Espera o seu julgamento por crime de fraude das contas da campanha de 2012, de Sarkozy. Falsas facturas, desvio de fundos, etc.

Sarkozy! Dez casos pendentes no tribunal, alguns gravíssimos. Procura agora regressar ao "poleiro" para, graças à imunidade, afastar a espada da Justiça.

Existem muitos outros casos, onde se constata que os homens políticos, não todos, mas alguns , são vitimas dum sistema, no qual a exposição ao dinheiro é permanente. Do dinheiro que vêm passar e que vai para o bolso doutros! Alguns confessam abertamente a sua "dependência" a esta droga , (Sarkozy admitiu muitas vezes, o seu "amor irreprimível pelo dinheiro!) altamente nociva quando se vem do "andar" de baixo . Sobretudo quando pensam que o "momento" pode passar e não voltar! A alternância não é garantida. E como não sê-lo , quando vemos que os do "andar" superior, os donos de bancos, particularmente, apesar de terem já muito, são capazes de defraudar a Nação inteira para conseguir ainda mais desta droga! Este é o drama dos homens políticos no poder.

Conheci um deputado-"maire" , na minha cidade, mais tarde ministro , que me convidava às recepções de individualidades de passagem. Como a firma que dirigia empregava 300 pessoas, na high-tec, eu pensava que era para honrar a importância da empresa que me convidava. Até ao dia em que, o secretário geral me telefonou para me informar que o senhor Ministro, Deputado e Maire da cidade me convidava para um cocktail na Mairie! Durante a simpática reunião, puxando-me para um canto, como fez a outros, entre dois copos de champanhe do melhor, lá me disse que para as próximas eleições precisava da minha ajuda.

Quanto? Uma percentagem em função do volume de negócios! Não do "resultado, isto é do benefício, mas do volume!

Pensei escapar à situação explicando que para um tal "número" devia obter a autorização do Presidente do Grupo, então americano.
Contactei, aquando duma visita aos EUA o meu Presidente, que me respondeu: " Oh, yes! deve ajudà-lo! Os americanos compreendem isso! Notei mais tarde, que o cavalheiro que eu cumprimentava por vezes na imensa fábrica onde trabalhavam 800 pessoas, era o deputado do partido republicano da região, que vinha de vez em quando fazer uma visita, para justificar o salário que recebia do Grupo! Chama-se a isso um "Lobby"!

Os "lobbies" remuneram os seus "conselheiros" . No caso de Cahuzac era um laboratório farmacêutico.

Anónimo disse...

Se, como dizem os jornais a mãe de Sócrates é parte num esquema que por ser tão grave obrigou a prender um ex-1º ministro e outras pessoas, porque será que a senhora não foi também detida nem lhe fizeram buscas na sua casa, não foi inquirida e não há sequer indícios de que ao menos a queiram ouvir?
Ou será que neste caso o que realmente interessa à justiça não é o crime mas a pessoa visada - aliás, de antemão visada como dizem alguns?

Anónimo disse...

Entretanto... a saga do bom aluno continua:

http://economia.elpais.com/economia/2014/11/22/actualidad/1416685793_472130.html

Eduardo

Anónimo disse...

Isto é sempre mau para o PS, Senhor Embaixador, e o processo judicial vai arrastar-se o suficiente para afectar toda a campanha eleitoral. Reagiu bem o Antonio Costa, sim senhor, mas não esteja tão optimista, Senhor Embaixador. O Senhor Alcipe nem deu por nada, coitado, anda a ver quem ganha a ciclopica luta pelo poder no Bloco de Esquerda e diz que ainda não conseguiu perceber... Vê por que razão eu perco a paciência com ele?

a) Feliciano da Mata, filósofo de fora de Paris

Anónimo disse...

Tomar os desejos por realidades!

Anónimo disse...

realmente, poder destruir a vida e a carreira de alguém com base em mero circo mediático com origem, infelizmente, num decrépito e desacreditado sistema de justiça, é obra só possível em países sem cultura, sem direitos e sem dignas instituições. Triste sina, a nossa.

Anónimo disse...

Interessante verificar o cuidado com que os partidos badalados se pronunciaram sobre o modus faciendi da prisão de Sócrates e seu significado político.
Houve um partido que emitiu um vigoroso comunicado no qual critica o rocambolesco da detenção e o profundo antiesquerdismo dos acontecimentos. MRPP.
Guilherme.

JM Ferreira de Almeida disse...

Cristalino.

Anónimo disse...

Já se perfila o futuro desta novela, e vai acabar como muitas outras acabam, no arquivamento, na falta de provas irrefutaveis, etc, etc. ou, ate com base na ilegalidade das buscas efectuadas por quem não tem legitimidade.
è o sistema que temos, não há presos que gozem de tanta liberdade como o JS, que recebam visitas a qualquer hora e dia, que mandem cartas aos jornais, só falta a cronica dominical da rtp ser feita a partir da celula do EPEvora.
Veremos, o que o futuro nos vai reservar.