sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O novo ouro

 
A questão dos "vistos gold" foi sempre vista com alguma suspeição pela opinião pública portuguesa. De facto, "comprar" a livre circulação pelo espaço Schengen por uns milhares de euros, quase sempre aplicados em áreas não produtivas, nunca foi uma operação muito popular entre nós. Verdade seja que outros países europeus procedem de forma idêntica e, tratando-se de um modelo que abrange a generalidade da zona europeia de livre circulação, a sua legalidade e até a sua legitimidade político-económica estavam, e continuam a estar, garantidas. Por isso, num tempo em que tentar trazer dinheiro a todo o custo para Portugal tem sido a palavra de ordem, este passou a ser um "negócio" como qualquer outro, apenas coreografado, de forma insólita, por algum "teatro" triunfalista que o envolveu.

Os acontecimentos de ontem enterraram definitivamente, entre nós, a bondade do modelo dos "vistos gold". Por muito que o sistema passe a estar mais blindado - "casa roubada"... - aposto que nunca mais veremos os políticos a incensá-lo, e só em imagens de arquivo veremos o dr. Paulo Portas em agitadas mãozadas com figuras tiradas dos álbuns das "Raças Humanas" - e quem disser que isto é xenofobia pode ir dando uma volta. A continuarem, os "vistos gold" vão rarear, pelo que presumo que os anúncios imobiliários em chinês, em que o meu bairro é fértil, com o tempo, vão perder os acentos.

Resta o processo de corrupção que, a confirmar-se, é da maior gravidade, tanto mais que nele surgem acusadas de envolvimento figuras da alta administração do Estado. Só não desejo que os eventuais culpados sejam "exemplarmente" punidos porque aprendi que a exemplaridade na Justiça é um conceito populista. Quem for culpado deve pagar, plenamente, por aquilo que fez, mas na medida exata que a lei prevê e não magnificada para gáudio mediático ou susto público. Não posso senão crer que aqueles que ontem foram indiciados como corruptos, ou cúmplices de outros crimes conexos, o foram por sólidas e sustentadas razões, isentas de qualquer competição entre corporações, sem o que o opróbrio público a que foram sujeitos seria de uma imperdoável crueldade. A honra das pessoas é o seu bem mais precioso e a nódoa na sua imagem, que a comunicação social sempre potencia, é hoje um labéu praticamente irrecuperável. Por essa razão me chocou muito ver, ontem, um canal de televisão que faz do crime & ofícios correlativos o seu "fond de commerce", anunciar em parangonas "gordas" que um determinado ministro havia sido "detido" para, minutos depois, corrigir para "investigado", como se a diferença dos conceitos fosse um mero detalhe. Isto tem um nome, mas não é jornalismo!

22 comentários:

Anónimo disse...

Este texto tem um parágrafo quanto às mentes iluminadas e "irrevogáveis" dos "vistos gold":

http://www.portugalglobal.pt/PT/PortugalNews/Paginas/NewDetail.aspx?newId=%7B99779AC2-BDF3-458F-A8ED-399B69B3BB32%7D

Zuricher disse...

Se os jornalistas solidariamente com o orgão de comunicação social tivessem que pagar multas demolidoras não duvide que teriam muito mais cuidado com o que noticiam e como noticiam. Nomeadamente teriam muito mais cuidado com beliscar a honra seja de quem for.

Quando falo de multas demolidoras digo, por exemplo, 10 milhões de euros pela primeira infracção, o quintuplo havendo reincidencia. O objectivo não era que a multa fosse paga. Sei que não o seria. O objectivo seria forçar o órgão de comunicação social a abrir falencia bem como o jornalista a solicitar a falencia pessoal com tudo o que isso implica. Talvez se sentissem que ficavam com a vida totalmente rebentada pensassem duas vezes antes de levianamente atirar lama para cima da dos outros.

patricio branco disse...

uma especie de prostituição, isto dos vistos gold, o preço da casinha é tanto, compras e e eu abro-me.
comprar imobiliario por 500 mil euros e ter residencia para o bem e para o mal, nada tem a ver com investimento

Anónimo disse...

Olha, o Zuricher a querer dar cabo do que resta da liberdade de informação. Um fascista, ou pelo menos alguém cuja capacidade de reflexão não o impediria dessa conivência.

Como se os jornalistas já não fossem quem maioritariamente responde pelas notícias tendo os poderes políticos tirado esse ónus ao OCS e directores.

Por algum motivo, a CS portuguesa é tão medíocre. Quem não tem dinheiro para processos e multas, não se mete por caminhos que trazem sempre processos - uma notícia sobre uma autarquia dá quase sempre processo. E mesmo que se tenha razão, há que arcas com essas custas.

Anónimo disse...

Considerar a compra de uma casa no valor de 500 000 euros como um investimento digno de ter como contrapartida a aquisição do direito de residência permanente no espaço Schengen é um negócio verdadeiramente ao preço da uva incontinente urinária...

a) Henrique de Menezes Vasconcellos (Vinhais)

Anónimo disse...

Francamente, Senhor Embaixador, agora que eu já tinha apalavrado vender o meu apartamento de Cascais ao Senhor Lin-Po-Po, dono de um afamado estabelecimento de espectáculos culturais na reputada (é o termo) "zona vermelha" de Xangai, é que havia de vir um escândalo destes estragar-me o negócio... Azar dos Távoras!

a) Feliciano da Mata, perseguido político

Anónimo disse...

O Dr. Paulo Portas é também o introdutor de um certo tipo de jornalismo por estas bandas. Infelizmente, muito cultuado e elogiado, O Independente foi o jornal de Cavaco e de Portas - aparentemente, e então, em campos opostos, os dois políticos há mais tempo influentes em Portugal, com os resultados que se vêem.

Infelizmente, o modelo de perseguição que seguiu fez escola, à medida que se retiraram aos jornalistas a capacidade de riscarem um fósforo na ética e na deontologia das publicações. Despediu-se e tiraram-se direitos, deu-se visibilidade e poder a figuras comissárias e assessoras como José Manuel Fernandes, David Dinis, Paulo Pinto Mascarenhas, António Costa, José Gomes Gerreira, Camilo Lourenço, Pedro Sousa Carvalho, João Vieira Pereira, Paulo Baldaia, Raul Vaz.

O resto, quem trabalha, mal tem tempo para se coçar, repara lá que meteu a pata na trampa, com a lista enorme de cenas que ainda tem para escrever. Ficam os mais fracos, não necessariamente de escrita, mas mais fracos de contestação e capazes de fazer face às figuras promovidas e incensadas. Tenho dúvidas que da parte dos senhores referidos tenha havido uma vez que fosse uma leve crítica aos corruptores vistos Gold, mas já nos venderam tantas vezes, que diferente não seria de esperar.

Joaquim de Freitas disse...

Permita , Senhor Embaixador , que volte ao assunto da fraude fiscal . Estou de acordo que os jornalistas devem respeitar " a presunção de inocência" inerente a cada cidadão. Também sei que o tema se vende muito bem! Mas se o tema da fraude , hoje, faz correr rios de tinta, é porque a fraude é mais que nunca o flagelo da humanidade. A fraude é mais que um delito.

Desde que a palavra é pronunciada, suscita na cabeça do cidadão, mesmo esclarecido, uma série de impressões das quais se pode afirmar, sem me enganar, que elas cobrem um leque intelectual e psicológico, mas que não reflectem nunca uma alegria pura, uma alegria total. Porque o imposto é ao mesmo tempo, no melhor dos casos, compreendido como necessário mas desagradável.

Desta contradição, aparece o sentimento que somos menos orgulhosos de pagar impostos - contrariamente aos EUA onde a riqueza tem prazer em mostrar-se - que de sabermos escapar às nossas obrigações fiscais.

Em França, escapar ao imposto é quase como um desporto nacional.

O que é revoltante e que ofende o civismo, é a má fé e o poder absoluto dos grandes artistas da fraude quando são favorecidos pelo concurso de especialistas fiscalistas,bem retribuidos, que a moral não abafa, num certo numero de empresas, que pela dissimulação e a falsificação fogem aos deveres elementares aos quais os mais pequenos não podem escapar.

Os meus impostos são calculados pelo governo , porque este recebe todas as informações das instituições respectivas sobre as minhas rendas : reforma, essencialmente, ao mesmo tempo que as taxas diversas aplicadas no consumo ninguém lhes escapa (IVA ).

O facto essencial é que destas considerações políticas, sociais e técnicas, não se pode negar a luta imemorial e quase fatal entre aqueles que recebem e o particular ou a empresa que deve pagar.

Mas o combate entre aqueles inspirados por um liberalismo puro e duro, que jogam ao "vale tudo" para combater o imposto, apoiando-se unicamente sobre a liberdade do empresariado, estimando que a "regulação", como para os mercados é automática, e os outros , aos quais me assimilo, que, conscientes das realidades (pesanteurs)sociais e das desigualdades estruturais , crêm que uma sociedade ou uma comunidade tem necessidade de serviços públicos e que deve combater para não deixar ninguém à beira da estrada duma existência digna desse nome.

Por isso quero pagar impostos e exijo que se combatam aqueles que podem mais que eu e fraudam desalmadamente para não os pagar.

Ah, Senhor Embaixador, esses Salgados que levam milhares de milhões para os paraísos fiscais, estão-me na garganta!

Joaquim de Freitas disse...

Zuricher devia reflectir sobre o papel dos jornalistas no combate aos actos fraudulentos dos políticos.
Foi graças a estes jornalistas especializados que Cahuzac , ministro do orçamento socialista, encarregado também da caça aos criminosos da fraude, foi descoberto, e vai ser punido pela lei, por ter omitido a declaração duma conta na Suíça.

Foi ainda graças a estes mesmos jornalistas que um secretário de estado socialista no governo francês actual, dias depois de ter sido nomeado foi descoberto e acusado de não ter pago os seus impostos nos últimos anos. Por esquecimento , segundo disse!

Ontem, três deputados da direita, do partido UMP, acusados de não declaração de contas na Suíça foram igualmente chamados a tribunal.

E segundo fontes fidedignas há ainda 65 outros deputados à espera da sua vez! 12% dos deputados da Assembleia Nacional francesa !

Estes "eleitos" da Nação, utilizam métodos para fazer frutificar o dinheiro dignos do grande banditismo, num fundo de "omerta"... para se encherem os bolsos.

O que é certo, é que uma mão cheia de indivíduos, representam 26 000 biliões de euros dissimulados nos paraísos fiscais, pondo assim a economia mundial num péssimo estado.

Quando se sabe que a metade destes 26 000 biliões de euros são detidos por 91 000 indivíduos, seja 0,001 da população mundial, e que a outra metade é detida por 9 milhões de indivíduos, seja 0,14% da população mundial, pode avaliar-se o grau de revolta potencial na sociedade: - estes ultra ricos ganham num dia o que os trabalhadores levam 6 anos a ganhar!

Nos anos setenta, o ratio não era tão escandaloso : 1 a 25, isto é, os patrões ganhavam num dia o que os trabalhadores ganhavam num mês!

Por isso a liberdade dos media é vital, mais que nunca.

opjj disse...

Cinismo! Os que mais barafustam são aqueles que vivem na pala do Estado com boas pensões pagas pelo dinheiro importado, ou por dívida ou por dinheiro entrado pelos vistos Gold.Há tantos portugueses com casas de 500.000€ pq não vendê-las tb a estrangeiros? Afinal querem desemprego de milhares na construção civil e falência das empresas do sector. Será que mesmo que tenha havido corrupção ela chega aos 1000M€?
Apetece-me chamar-lhes de imbecis.
Cumps.

Zuricher disse...

Joaquim de Freitas, eu nada tenho contra a informação verídica, factual, bem compilada e sustentada, de todo. Aprecio muito o jornalismo de investigação até. Aceito perfeitamente a liberdade de imprensa. Mas abomino a libertinagem de imprensa. Não aceito uma imprensa persecutória.

Nada me move contra aqueles que noticiem devidamente o que quer que seja. Que se documentem devidamente. Em suma, que blindem os seus escritos contra quaisquer ataques fazendo-se essa blindagem precisamente através do trabalho bem feito, bem sustentado, bem comprovado.

Aos que são jornalistas, a minha simpatia. Aos que usam a exposição que têm para destilar ódios e invejas não posso mais que pugnar pelo seu silencio. A bem do rigor informativo e do regresso da confiança dos cidadãos nos media.

Antonio Cristovao disse...

Segundo informação os vistos gold têm ajudado a economia de diversas terras muito mais prospera do que nós(Miami, Londres,Toronto); presumo que expurgados da tendência portuguesa do "facilitanço", que pelos (vistos também deram jeito aos alemães dos submarinos) e o Paulo Portas que tem azar com estas coisas já pode orgulhar-se outra vez - dos vistos, não me refiro aos submarinos!

Anónimo disse...

OPJJ, V.Exa deve ter votado naquele camarada do "roubo, mas faço". Que que tem lá isso agora da corrupção? Apetece-me chamar-lhe corrupto, logo eu que estou desempregado e sem ligações ao Estado.

Joaquim de Freitas disse...

Zuricher : Perfeitamente de acordo que a informação deve ser verídica e verificada. E que o jornalismo de inquérito não deve servir para vinganças ou enxovalhar os cidadãos que, de qualquer maneira devem beneficiar da presunção de inocência. A justiça pronuncia-se no fim.

Mas o que é certo é que assistimos à recrudescência dos escândalos de todos os géneros e que se os cidadãos são mais bem informados e os escândalos políticos e financeiros são descobertos é porque a liberdade dos media existe. Quantos casos teriam passado sob silêncio se esta liberdade não fosse efectiva. Foi o que quis salientar no meu comentário. Mas que esta liberdade apoquente muitos na sociedade actual, permissiva e criminosa como nunca, não é de admirar.

Les lois sont toujours utiles à ceux qui possèdent et nuisibles à ceux qui n'ont rien.
J.-J. Rousseau

Anónimo disse...


o Sr. Embaixador também explica que não foi aqui que o conceito foi inventado
quando leio sobre os vistos gold, parece algo parecido com
o que se escrevia sobre as antigas bulas!
mas também poderiam ajudar o país, visto haver grande número de palacetes portugueses que estão à espera que alguém goste deles e que poderiam ser restaurados com esse investimento.

EGR disse...

Senhor Embaixador : lá voltamos ao problema dos escribas e dos que de "corneto" na mão dizem tudo que lhes vem a cabeça, incapazes,as vezes por má fé- caso dos Ferrzeeira, Lourenço, Fernandes- outros por pura ignorancia, confundem dever de informar com total desrepeito pela preusunção de inocencia a que todos temos intocavel direito; e chega a ser, simultaneamente, revoltante e confrangedor, que os tais,plantados a porta do Tribunal exprimam frustração pelo facto de os advogados não lhe relatarem o que se passou nas inquirições aos seus clientes!
Mas não esqueçamos que senhora Ministra da Justiça,naquele tom de justiceira um pouco estouvada que gosta de exibir já declarou que " a impunidade acabou", ou seja, a governante já antecipou o resultado da investigação, e até dum possível julgamento pelo que com exemplos destes os escribas e portadores de "cornetos" devem sentir-se muito confortados.
Evidentemente que, como cidadão, só desejo que tudo seja devidamente apurado.

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
Ocorreu-me à mente uma história de passaportes, passado no consulado de Bangkok.

Passo transcrever um parágrafo da peça que escrevi:
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Porém o José Ramos, quando percebeu que a judiciária de Macau lhe queria deitar a mão fugiu para Goa.
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Deixo aqui apenas um parágrafo do ofício C04 Proc. 7 de 10 de Janeiro de 1964 - do Encarregado de Negócios Sebastião de Castello-Branco
"Quanto ao José Ramos, pouco sei dele: é rico, tem dois carros,tem cavalos de corrida e aposta forte, vive sozinho, embora proteja uma rapariga tailandesa nova e desenvolta, que por sinal chama papá e dá muito mais atenção ao outro empregado.
.
Menciono estas circunstâncias galantes apenas porque a dita rapariga trabalha para uma agência de viagens e vem aqui constantemente, não sei se somente para o fim de matar as saudades, se para tratar de "documentos de viagem" legais ou ilegais dos seus clientes.
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Dar-se-à o caso de estar o Ramos a fazer fortuna pelo processo que as autoridades de Macau lhe atribuem? Ou sempre foi rico?"
.
Para a peça completa copiar:
http://aquitailandia.blogspot.com/2014/11/passaportes-tentacao-e-banguecoque.html
Seu admirador

Anónimo disse...

Os vistos gold foi a habilidade que o Portas arranjou para vender as casas de luxo que a banca tinha em sua posse, fruto de penhoras e financiamentos para construcão e que as condições normais de mercado não permitiriam a sua venda. Resumindo: um favor ao sector bancário.

Anónimo disse...

Caro Anónimo das 02:15,

Favores à banca e não só... Imobiliárias e contas pessoais de meia-dúzia que se aproveitam para enriquecer à conta do erário público.

Se levarem a investigação a fundo, muitos mais vão sair "chamuscados" quanto à criação dos "vistos gold".

Anónimo disse...

BPP, BPN, BES, agora vistos dourados!... Mas será coincidência, ou mero acaso da malta do PSD/CDS... eheheheheh

Anónimo disse...

O comentário das 02,15 foi por lapso colocado como anónimo. Aqui fica a correcção para que não seja utilizado em memória futura.

Anónimo disse...

Anónimo das 23:28,

Se o comentários das 2:15 foi colocado por lapso como anónimo porque é que a seguir não se identificou.

Quando se quer manter o anonimato, mantém-se para o bem e para o mal o que se disse/escreve. Até porque essa "coisa" do anonimato total não existe porque todos temos um único IP - o que já nos identifica!