terça-feira, 4 de novembro de 2014

Invernias

A algumas pessoas deprime. A outras só aborrece. Quando é demais, também cansa. Mas uma boa chuvada, puxada a ventania, com algum frio, induz na vida um desafio, é uma estimulante e saudável contrariedade. Saem as gabardines, os sobretudos, os cachecóis, notamos a vareta estragada no guarda-chuva. Descem dos armários as camisolas, os pullovers, as meias de inverno. Com frio, dá mais vontade ficar em casa, já não sentimos remorsos pelo facto de estar sol lá fora e termos um trabalho para acabar. É claro que há o "downside": as constipações, as gripes, os engarrafamentos, a condução difícil, as humidades em casa. Mas já era demais, o calor morno que aí andava. O Verão não foi lá grande coisa, mas foi longo e estentido até ao fim de outubro. Começava a não ter graça comprar castanhas sem frio. Além disso, há um tempo para tudo. E, em Novembro, tem de haver frio. A mim, desconcertam-me muito os caprichos do tempo. E ele tem-nos cada vez mais.

5 comentários:

Anónimo disse...

Muito se queixa o tuguinha com o tempo, quando tem um dos climas mais moderados do Mundo. Apanhasse frio como na Rússia, calor como no Sudão ou chuva como em Bergen, o que seria do tuguinha.....

Mas pior, pior, só a inutilidade de radialistas que temos que só estão contentes com mais de 40 C ...à sombra.

Joaquim de Freitas disse...

Oui, un temps de chien ! A neve está de regresso e os longos passeios em "raquette" no planalto serão a recompensa! Pois que temos o privilégio de ter quatro estações, o Inverno é bem-vindo.

Recordo-me dum poema, do qual esqueci o autor, que começava assim :

" Batem leve, levemente, como quem chama por mim.
Será chuva ? Será gente ?
Gente não é , certamente
E a chuva não bate assim "

Esqueci o resto. E lamento bem.

Isabel Seixas disse...

A imagem é o máximo.

Concordo na integra que há coisas que só atingem o verdadeiro e genuíno sabor com o frio.

Portugalredecouvertes disse...

BALADA DA NEVE


Batem leve, levemente,
Como quem chama por mim...
Será chuva? Será gente?
Gente não é certamente
E a chuva não bate assim...

É talvez a ventania
Mas há pouco, há poucochinho,
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho...


Quem bate assim levemente,
Com tão estranha leveza
Que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
Nem é vento, com certeza.

Fui ver. A neve caía
Do azul cinzento do céu,
Branca e leve, branca e fria...
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
Os passos imprime e traça
Na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
Da pobre gente que avança
E noto, por entre os mais,
Os traços miniaturais
Duns pezitos de criança..

E descalcinhos, doridos...
A neve deixa inda vê-los
Primeiro bem definidos,
– Depois em sulcos compridos,
Porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
Sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
Porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza..
E cai no meu coração.



AUGUSTO GIL (Luar de Janeiro)

Joaquim de Freitas disse...

Muito Obrigado a "Portugal Découvertes" pelo poema. Exactamente isso. Muito mais belo ainda que ontem, há umas largas dezenas de anos ....