terça-feira, 11 de novembro de 2014

Guiné-Bissau

O especialista daquele programa televisivo parecia saber do que falava. As explicações dadas sobre o surto do ébola e os seus riscos eram elucidativas e convincentes. Várias vezes se referiu aos países onde a epidemia tivera maior expressão e, durante mais de uma hora, também focou os casos “surgidos na Guiné-Bissau”. Mas há ébola na Guiné-Bissau? Não, não há. O tal especialista “apenas” confundira a Guiné-Bissau com a República da Guiné. É um detalhe? Não é. Trata-se de um lapso que, nem pelo facto de ser involuntário, deixa de ter um impacto negativo na perceção subliminar que muitos milhares de pessoas passam a ter da situação na antiga colónia portuguesa, deitando assim por terra o considerável esforço de prevenção feito pelas novas autoridades daquele país, em estreita ligação com Portugal, no tocante ao surto de ébola naquela subregião.

Simultaneamente, foi divulgado que a TAP anunciou que, por “razões de segurança”, continuavam suspensos os voos de Portugal para Bissau. Na memória de todos nós está a atitude arbitrária que, há meses, as então autoridades guineenses tomaram, ao forçarem o embarque para Portugal de refugiados sírios. Portugal suspendeu então esses voos – e fez bem. Só que há um pormenor: ao contrário do tempo em que esse incidente ocorreu, as condições essenciais de segurança para as operações de transporte aéreo estão hoje asseguradas. Por que não confessar que é a recusa do pessoal da TAP, num capricho que tem muito a ver com o boato do ébola, que impede que uma linha essencial para a ligação internacional da Guiné-Bissau ao mundo exterior permaneça encerrada?

A Guiné-Bissau é um Estado historicamente frágil. O mundo associa-lhe um tropismo para a instabilidade político-militar e a ligação do território a redes de narcotráfico. Porém, é importante que saiba que aquela que foi a primeira colónia portuguesa a tornar-se independente, depois do Brasil, está atualmente a atravessar um momento de retoma do funcionamento das suas estruturas democráticas, sob uma liderança que oferece, pela primeira vez desde há muitos anos, uma janela histórica de oportunidade para a sua estabilização política. À frente do seu governo está uma personalidade que os portugueses se habituaram a respeitar, ao tempo em que foi Secretário-geral da CPLP, Domingos Simões Pereira. O executivo por ele formado é uma coligação de vários partidos e de independentes, com uma componente técnica muito forte.

Desde 1974, Portugal tem sido um dos mais fiéis amigos da Guiné-Bissau, independentemente dos ciclos políticos em que o país mergulhou. E tem de continuar a sê-lo. É absolutamente vital que o nosso país expresse uma solidariedade ativa às novas autoridades. E isso passa muito pelo modo como possamos ajudar a dar relevo aos respetivos esforços para a plena retoma da normalidade no país. Contribuir para a desinformação em torno da situação na Guiné-Bissau é um ato de grande irresponsabilidade.
 
Artigo que hoje publico no "Diário Económico"

4 comentários:

Portugalredecouvertes disse...


Portugal tem tido "vergonha" de mostrar que presta atenção às antigas colonias, e para não parecer "colonialista" deixa o espaço para outros e para a desinformação
mas pode ser só impressão minha?!
bom dia para todos

patricio branco disse...

desconhecia que a situação na gb estava a estabilizar, há tempos era considerado um estado falhado, esperemmos que recupere e mostre estabilidade, com o apoio de portugal e doutros países, a frança tambem estava bastante metida no país (que queria associar à áfrica francófona, dizia-se). tambem a china, na agricultura e outras áreas.
a gb como plataforma de narcotrafico era 8é?) uma realidade, aviões da venezuela, parece,ali estacionavam com as suas cargas.
enfim, há que ser responsavel numa entrevista e não confundir as 3 guinés

Anónimo disse...

Ó Portugal derecoubertes, Portugal não tem é vergonha de ser colonizado há mais de 500 anos e continuará assim até ao fim dos séculos.

Mais do que por Merkel, foram sempre as colónias a mandar nesta porra.

Madeira, Angola e Caboverde e Brasil e Índia é que disseram sempre o que devia ser o imperio e o seu futuro..

Manuel Leonardo disse...

Um bom artigo que deveria ser bem divulgado
Agradecido
Manuel Joaquim Leonardo
Peniche Vancouver
12-05-29 11-11-14
fielamigodepeniche.blogspot.com