segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Diz-que-diz-que

Às vezes é compulsivo, para se mostrar no centro da atualidade, outras é por vocação para a intriga, outras ainda é por distração irrefletida, que raia a falta de sentido de responsabilidade. É assim que alguns se tornam em promotores de indiscrições.

A França está a ser abalada por uma "crisette" provocada por uma entrevista dada ao "Le Monde" pelo Secretário-Geral da Presidência da República, Jean-Pierre Jouyet, na qual este terá revelado extratos de uma conversa com o antigo primeiro-ministro François Fillon. Segundo Jouyet, que foi secretário de Estado dos Assuntos europeus do governo Fillon em 2007, este último terá insistido, nessa conversa, em que os processos judiciais contra Sarkozy fossem acelerados, a fim de se evitar o regresso do antigo presidente aos palcos políticos - algo que seria vantajoso para François Hollande e para figuras emergentes na direita, como ele próprio, François Fillon. Não evitaram, como se viu. Fillon, que está numa guerrilha virtual com Sarkozy pelo poder, nega ter abordado o assunto e Jouyet mete um pouco os pés pelas mãos, sem se desmentir face a uma gravação da entrevista que, a ser revelada, pode ser comprometedora. Certa direita francesa exulta: "enterra" Jouyet, que sempre considerou um "traidor" (passou do governo Sarkozy a chefe político-administrativo do Eliseu, com Hollande), pretende abater Fillon pela denúncia das suas "intrigas", credibiliza as teses do "complot" contra Sarkozy e, como cereja no bolo, vê criado um imenso embaraço para François Hollande... como se ele necessitasse de mais um!

Em França, porém, este tipo de " leaks" é vulgar, embora as mais das vezes em registos temáticos muito menos polémicos. Coisas ditas em conversas telefónicas "a dois" surgem publicadas, regulamente, no "Canard Enchainé" e na "Marianne"´e aquele país já vive com isso com certa naturalidade. O que não deixa, contudo, de provocar pequenas crises.

Não é muito comum, no seio da classe política portuguesa, a propensão para provocar o surgimento na imprensa deste tipo de indiscrições. Mas já aconteceu e todos conhecemos alguns nomes que, com regularidade, ajudam a essa "festa", embora tenha desaparecido a maioria dos órgãos de imprensa onde esse vício se revelou. Não deixa de ser saudável que, pelo menos até ver, tenhamos escapado a essa cultura de indiscrição.

Em tempo: a França é também o país do humor subtil. Leia-se uma deliciosa "carta póstuma de Michel Vaillant", o volante da ficção de banda desenhada, dirigida a François Fillon, que é conhecido como um empenhado piloto amador de competições automobilística. Nesta "carta" que o "Le Figaro" hoje traz, é recordado o conselho do grande piloto que foi Juan Manuel Fangio: "A que velocidade se deve conduzir para ganhar uma corrida? O mais lentamente possível. Basta chegar antes do segundo..." Leia aqui.

6 comentários:

Anónimo disse...

Delicioso!

Anónimo disse...

Já tínhamos saudade de uma vichysoisse. Jouyet é um trânsfuga como tinham sido no passado Michel Jobert e outros quejandos. Mas os franceses revelam nisto aquilo que tenho vivido na pele: que são profundamente latinos e propensos à intriga.

Portugalredecouvertes disse...


sobre os franceses serem latinos e propensos à intriga:

parece mais uma definição de Macbeth!

Anónimo disse...

E como Dupont et Dipont ainda diria mais: e também com um forte sentido de "oportunidade"...

Alcipe disse...

Os ingleses não intrigam. Desde a Rainha Vitória. Nunca houve qualquer pulhice nas Ilhas Britânicas. Olhe a transparência do Anglo-Irish Bank! Nos Estados Unidos só há intrigas no Sul, onde há muitos latinos. Os alemães são avessos totalmente à intriga, o Helmut Kohl que o diga. Já na Lapónia não sei, caro comentador anónimo das 19,40, mas parece que o Pai Natal anda agora a fazer umas negociatas…

Anónimo disse...

Os ingleses apoiaram a entrada dos países do leste na UE para agora combaterem o princípio do mercado único e se queixarem de demasiados romenos e búlgaros no seu solo.
A França será sempre uma grande cultura mas a idiossincrasia dos franceses está-lhes na massa do sangue. Não se podem mudá-los.
A polémica entre Jouyet, Fillon e uma terceira testemunha não é certamente emblemática do que há de melhor em França.