quinta-feira, 27 de novembro de 2014

"Com amizade"


Há pouco, o Cante Alentejano foi considerado pela UNESCO como "património mundial". Aqui deixo uma história alentejana, e não só.

No auge dos tempos revolucionários de 1975, o Alentejo vivia sob as movimentações da Reforma Agrária, com a ocupação das propriedades rurais e o ataque aos respetivos detentores - os "grandes agrários", tidos como historicamente responsáveis por graves injustiças sociais e económicas, autorizadas e protegidas pela lei e pela repressão policial, durante a recém-abolida ditadura. "A terra a quem a trabalha" era o lema que dava corpo a um movimento tendente a forçar uma reversão de poder, onde o Partido Comunista Português teve grande influência, nele se destacando a criação das UCP's (Unidades Coletivas de Produção), estruturas emblemáticas no novo modelo produtivo em expansão nas grandes propriedades. A realidade agrária alentejana iria ter impactos muito fortes nos equilíbrios da governação do país, podendo considerar-se que, durante vários anos, marcou fortemente a evolução da política interna portuguesa, muito embora o saldo final de toda essa turbulência tenha ficado muito longe dos objetivos revolucionários originais.
 
Com a Reforma Agrária a marcar então, quase quotidianamente, a agenda política nacional, passava-se, na televisão portuguesa, um fenómeno bizarro, quase marginal mas que, visto à distância, não deixa de ter alguma curiosidade. Sobrevindo do tempo anterior ao 25 de abril, mantinha-se na grelha de emissão da RTP o programa "TV Rural", dirigido pelo engº Sousa Veloso, uma figura sorridente e cordial, que anos de presença regular no écran haviam transformado num visitante virtual da casa de todos os portugueses. E de que falavam os programas de Veloso? Da "outra" vida rural, da "lavoura", de experiências agrícolas e de práticas de produção tidas por exemplares. Enquanto no Alentejo arrancavam as campanhas mobilizadoras para a viabilização produtiva das UCP's ou das novas cooperativas, Sousa Veloso mostrava-nos, impávido aos ventos da Revolução, a glória da pêra-rocha do oeste, a safra desse ano dos melões de Almeirim, os resultados do combate ao míldio nas uvas do Dão ou as novas técnicas usadas no azeite da terra quente transmontana. Nem uma palavra sobre o Alentejo!
 
Sousa Veloso morreu hoje, aos 88 anos. Era um homem simpático, sorridente, que se despedia sempre dos espetadores "com amizade". Hoje, despedimo-nos nós dele.

4 comentários:

Francisco Agarez disse...

Faltou acrescentar no fim do seu texto: Com amizade.

Anónimo disse...

De facto despediu-se com a mesma amizade a que nos habituou.

Sousa Velozo não falava do (meu) Alentejo na época em apreço simplesmente porque o Alentejo produtivo quase desapareceu.

A dita 'Reforma Agrária' e em concreto as UCP abriram feridas naquele chão que ainda hoje não estão completamente saradas.
Parece-me relativamente simples de perceber: os latifundios já pouco produtivos antes de 74 continuaram a sê-lo após 74, ninguém lhe pegou; os que eram muito produtivos foram integrados no programa e, rapidamente, deixaram de sê-lo. Com o advento das UCP, os trabalhadores agrícolas passaram, de certo modo, a sentir-se propriétarios e, seguramente, patrões. Ora os patrões não trabalhavam e este foi, sumariamente, o fim das UCP. Para os trabalhadores rurais, a gravidade da situação (efetiva) foi atenuada com mais um êxodo, desta feita em direção a algumas grandes empresas acabadas de nacionalizar e que, por ainda se sentirem um pouco patrões, também ajudaram a enterrar (lembro-me da SETNAVE e da LISNAVE). Agora, a gravidade da situação para aquelas terras alentejanas é que demorou décadas a atenuar. Enfim...

Manuel Mendes

Santiago Macias disse...

Nem uma palavra sobre o Alentejo durante muitos anos! Uma familiar dizia-me "acho que o engenhêro tá garreado com a gente".

Manuel disse...

Recordo o sorriso franco e a simpatia do Agonomo que nos deixou, mas festejo com a alegria o merecido prêmio que os meus conterrâneos conquistaram.
Que belos momentos tenho vivido ao som daquelas modas.