segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A outra "legionella"

Foi há cerca de sete anos. Fui ter com um amigo que me esperava para almoçar num clube privado de Lisboa, daqueles onde só entram homens (É verdade! Ainda hoje há disso!). O ambiente era, como se pode imaginar, bastante conservador - e isto é um eufemismo! Eu conhecia algumas escassas caras que por ali pousavam, a maioria gente já de uma certa idade, parte da qual ligada ao regime de antes do 25 de abril. Sinto-me, de há muito, com uma vocação antropológica ao privar com esses meios, porquanto acho que é sempre importante percebermos que, ao lado do nosso mundo, continuam a existir outros mundos, quiçá parados um pouco no tempo, mas que fazem parte do país plural que hoje somos. Às vezes "malgré eux", como dizem os franceses.

Bebíamos nós um gin tónico introdutório quando, de um círculo de sofás ocupado por um grupo de meia dúzia de cavalheiros, com idades à volta dos 80 anos, se ouviu a pergunta de um deles para outro:

- Diz-me lá! Tu entraste para a Legião antes ou depois de mim? logo adiantando a data da sua filiação nessa prestimosa instituição filo-fascista, que a ditadura manteve entre 1936 e 1974.

Não me recordo da data da resposta, mas troquei sorrisos irónicos com o meu amigo. O diálogo ia muito bem com o ambiente da casa e só a um estranho como eu ele poderia parecer bizarro. Imagino, aliás, que não seria muito popular se, naquele preciso momento, eu me identificasse como antigo e orgulhoso membro, em 1974, da "Comissão de Extinção da Pide/DGS e LP" (Legião Portuguesa)...

O meu amigo, que me conhecia bem, disse então, em voz baixa, uma frase que me ficou na memória, até hoje:

- Ainda há por aqui antigos legionários. Mas "aquilo" não se pega, não é um virus. Não é nenhuma "legionella"...

Tenho-me lembrado deste episódio nos últimos dias, em que aprendi que, tal como as ideias que suportavam a ditadura não contaminavam necessariamente quem nela viveu, a temível "legionella" não se propaga por contágio humano.

4 comentários:

patricio branco disse...

Existem antigos legionários, pois, e esses são inofensivos, são arqueologia, documentos históricos, bem podiam ser aproveitados por um historiador da matéria ou da época.em espanha existem ainda muitos franquistas, em itália fascistas nostálgicos.

será que este surto de legionella nos trará informações sobre praticas importantes que foram desleixadas, pelos directos responsaveis e pelas autoridades fiscalizadoras de saúde? p ex instalações industriais que faziam manutenções reduzidas, e não as recomendadas, dos seus sistemas de ar e refrigeração para poupar? será que vimos a saber tudo? foram pedidos apoios à oms e ue? um acontecimento destes pode revelar grandes desleixos de praticas necessárias para a saúde publica.
e se há em potencia outros locais onde isto poderá suceder? vão tirar-se consequências para todo o país ou só para a zona?
os velhos legionários possivelmente dirão, lá no seu grupinho saudosista, isto no nosso tempo não acontecia...
a propósito de legião portuguesa, foi publicado há 1 ou 2 anos o excelente romance "a mulher do legionário" de carlos matos gomes, revela muito sobre o funcionamento e mentalidade da organização fascista e seus filiados

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

O meu Pai ( qdg ) também foi Comandante de Lança da Legião Portuguesa.
Só o vi fardado na fotografia da carta de condução que era uma carta verde que fazia os policias "bater uma continência" quando o mandavam parar e o mandavam seguir sem o multar.
Deu direito a uma invasão da nossa casa pelo Copcon no 28 de Setembro, mas como o meu Pai, avisado por um amigo dele do PCP, não estava em casa não foi preso.
Esteve proíbido de votar nas 3 primeiras eleições

Anónimo disse...

Sim, a atual legionella é bem menos inofensiva do que aquela!...

Joaquim de Freitas disse...

Organização fascista, comparável à SA nazi, muitos legionários participaram na segunda guerra mundial ao lado dos alemães , integrados na Divisão Azul. Os legionários "trabalharam" estreitamente com a PIDE na defesa dos "valores" da moral cristã e "da" liberdade da terra portuguesa, como estava escrito no "compromisso" do legionário.

Liberdade da terra portuguesa mas não dos Portugueses. Recordo-me dum vizinho que se ia abastecer à "cantina" da legião onde não faltava nada, enquanto os outros deviam utilizar senhas de racionamento, nem sempre... respeitadas!

Era gente de "passe droit" como o Pai do Senhor Breyner, que não era multado e ainda por cima tinha direito à continência da policia... Bons tempos, não é assim, que muitos gostariam de ver de volta.