sexta-feira, 4 de março de 2011

Os livros e as vidas

Há dias, Pacheco Pereira, num artigo no “Público”, falava de um tema em que partilhamos um interesse em comum: livros. E perguntava-se, já não sei bem porquê, sobre o número de livros que cada um de nós pode vir a ler na vida – número que contrasta com a imensidão de algumas bibliotecas pessoais, impossíveis de serem "consumidas" pelo proprietário (como será, com certeza, o caso da famosa e gigantesca biblioteca do próprio Pacheco Pereira, na Marmeleira).

Esta é uma questão que já coloquei muitas vezes a mim mesmo, tendo chegado a conclusões similares às de Pacheco Pereira.

Há um raciocínio simples: se alguém, entre os 15 e os 75 anos (as idades são flexíveis, mas trata-se de uma média de 60 anos de leitura), tiver lido, com regularidade, dois livros por semana, sabem quantos livros leria no final? 6.240 livros! Pacheco Pereira chegava a uma cifra similar, concluindo, com equilíbrio, que o número máximo real não pode mesmo passar dos cinco mil livros lidos, em toda uma  vida. E, para isso, teria de ser um excelente e regular leitor. Não deixava, porém, de notar que, quando falamos de um “livro”, tanto podemos estar a referir-nos a um pequeno volume de dezenas de páginas como a um calhamaço hermético que se aproxima dos milhares de folhas.

Então, por que diabo, eu, que, em regra, não chego a ler dois livros por semana (quem me dera!) e que ainda tenho mais de uma década antes de atingir a tal idade, possuo já cerca de uma dezena de milhar de livros, na minha biblioteca?

Por razões muito simples e que, sem dificuldade, assumo: porque tenho imensos livros que comprei, na expectativa de vir a ler e que não li (e, dentre eles, muitos que nunca lerei); porque há outros que deixei a meio (por cansaço ou porque outros se tornaram mais urgentes); porque me ofereceram livros que não faziam parte das minhas prioridades de leitura (e que, por isso, não li); porque não consigo arranjar coragem para “desfazer-me” dos livros que tenho; porque, apesar de isso ir contra o mínimo de bom-senso, guardo aquilo a que Jaime Gama chama os “não-livros” (catálogos das coisas mais bizarras, obras de propaganda sobre países, livros turísticos, coletâneas oficiosas de discursos, etc). Também porque tenho muitas obras de referência - enciclopédias, dicionários, prontuários, guias e outras obras para mera consulta, que não justificam leitura completa. E porque sou um masoquista que se dedica compulsivamente à “etnologia” política, desde já previno que também tenho, lá por casa(s), coisas como todos os quatro volumes de “Últimas décadas de Portugal”, de Américo Tomás, o “Livro Verde”, do coronel Muhamar Khadafhi e outras pérolas de qualidade similar, que a injustiça fez escapar ao Nobel.

Os livros e as bibliotecas são, assim, uma perdição que merece toda a minha indulgência.

Deixo-os com uma historieta a propósito de livros. Um dia, um grande amigo meu, leitor compulsivo mas com certa moderação no que adquire e guarda, visitou a imensa biblioteca de uma conhecida figura portuguesa, que, orgulhosamente, lhe mostrava as dezenas de milhares de volumes de que era possuidor. A certo passo desse “tour du propriétaire”, o dono da biblioteca perguntou ao meu amigo: “E você? Tem muitos livros?”. Ele respondeu-lhe, com uma ponta de ironia: “Aí uns seis mil. Não mais. Mas li-os todos…”  

24 comentários:

jmira disse...

Senhor Embaixador, o seu post foi-me direitinho ao coração... tenho tantos livros na minha biblioteca que não li. E, por vezes, penso no "final count down", "compte à rebours", no que me resta a viver, consciente da frustração de saber que deixarei este mundo com muita ignorância. Obrigado por ser aquilo que eu admiro.

Anónimo disse...

E As vidas?!... os livros!

Isabel Seixas

Anónimo disse...

Todos os livros são vidas
mesmo mortos(as)...

Todas as vidas são livros

umas vezes sofridas
folhas presas

outras livres sopros perigos
folhas soltas...

E falam caladas indefesas
gemem no pó sós, de absortas

São gula são bulimia
de ideias vivas, pura alquimia

Da sua pele
capas das folhas das páginas

pedaços de história
com ou sem glória assomam intactas

Em sorrisos ou em lágrimas
destinos leves sofridos...Sentidos


Isabel Seixas

Só para dizer que achei o post divino

assim!::: efeito Bielorrussa.
Gostava que para os bielorrussos pelo menos fosse ... já nem digo transmontana, Portuguesa.

Claro a Edição... Em que estava a pensar?!

Anónimo disse...

Juro que me surpreende

pensei que o comentário ao post não passasse ...

Vá lá...
Isabel

Anónimo disse...

Sempre gostei de telhados de quatro águas.

são o meu imaginário, um trampolim para o salto qualitativo ao paraíso, na viagem só viável a quem o défice de atenção permite sonhar acordada, São Martinho incorpora o espaço terreno, fui lá ver os meus talismãs, hoje precisamente, e depois de arrumar as flores desalinhadas das brincadeiras com o vento, dei o beijinho ao Tio Fernando, acenei a todos e fui vê-los... Os Cedros gémeos depois de subir a clareira da cruz embutida num tufo de rocha cifoescoliótica, e continuam a ostentar a suavidade do veludo como uma caricia de olhar apaixonado, a casinha do outro lado está lá, assim numa espécie de coma induzido...

In Isabel Seixas
Espólio...ABraço ADeus

(c) P.A.S. disse...

Moral da história. O seu amigo mentiu. Não se pode ler mais 5000 livros numa vida. Moral da história II: coragem para nos desfazermos dos livros ou desprendimento?

patricio branco disse...

Admito que se possa ter uma biblioteca por puro gosto aos livros, sem ter a intenção de os ler todos e sabendo que isso é impossível. Comprar e juntar livros pode ser uma bela paixão que partilha do coleccionismo.
Temos livros para ver; outros para tirar da estante, folhear e voltar a pôr; outros para ler de esguelha, em diagonal ou de frente; outros pela lombada; outros apenas para consultar; outros porque são como obras de arte, belos e valiosos; outros para ler do princípio ao fim e até reler.
É do dinheiro mais bem gasto o utilizado para comprar livros bons. Os livros que compramos contêm todos um segredo, bom ou decepcionante, logo se verá.

O problema do espaço que muitos temos pode talvez ser melhorado fazendo selecções de livros que não nos interessam (começamos a ler e vimos que não nos interessavam) e oferecendo-os a instituições que têm bibliotecas ou então a familiares e amigos a quem podem interessar.

A média de leitura duma vida pode ser superior e conheço uma pessoa que lê 3 livros por semana o que dá umas mil ou mil e 200 pp. Ao fim dos 60 anos seriam uns 10 mil volumes lidos. Tenho inveja!Conheci outra, já falecida, que só lia o d. quixote, anos e anos com o livro, rindo sempre das partes que mais a divertiam ou entusiasmavam. Outras parece que só lêem a bíblia. Outra que conheço, ofereceu toda a sua biblioteca, e não era pequena, ficando só com 2 dicionários e 6 livros de que não se podia separar por tanto gostar.

Quantas bibliotecas se perdem também por várias circunstâncias, divorcio, morte, venda por necessidade de dinheiro, desinteresse dos herdeiros, e os livros andam depois por aí, em alfarrabistas ou feiras de livros usados (cada vez há mais). Quantas histórias pessoais temos ligadas aos livros que possuimos!

Talvez volte a comentar este interessante tema que FSC oportunamente nos ofereceu neste carnaval.

Bons feriados.

Anónimo disse...

Os livros são uma das minhas paixões, tenho uma biblioteca também considerável à minha escala... mas distante da dezena de milhar.

Ainda compro livros a pensar que os hei-de ler um dia!!! Será?

Isabel BP

Anónimo disse...

O PP é fertil em livros, (também tenho alguns) como em residências. Não sei se vota na Marmeleira, no Porto, em Lisboa ou em Santarém.

Uma delas é concerteza, ou nos 4 locais de residência?

De facto, os livros ensina-nos numa óptica tridimensional

Lourdes Fonseca

Margarida disse...

Termos mais livros do que tempo é mais uma forma de iludirmos a nossa finitude.
Olhá-los dá-nos esperança: se lá estão e nós também, quem sabe, ainda, um dia?...

jose albergaria disse...

As conversas são como os livros, quando começam não se sabe, nunca, como acabam.
Contou-me, pessoa amiga do escritor, que, José Cardoso Pires, porventura o nosso maior escritor da segunda metade do século XX...não tinha mais que 500 livros na sua, dele, biblioteca.
Falou-se, em tempos (creio que num dos obituários do Professor Sousa Franco...) que ele lia, por dia, um calhamaço de 600 páginas e devorava "tabletes" de chocolocate...noite dentro.
O Professor Marcelo Rebelo de Sousa afirmou, sem lhe estremecerem nem lábios, menos ainda os olhos, que, para a sua Tese de Doutoramento leu, pasme-se, 3 000 livros (se se admitir que uma tese daquele quilate se fez em 3 anos...façam as contas).
Este fenómeno, MRS, ainda hoje, comenta, por semana, às vezes, mais de 30 livros...novos.
Tive uma namorada, leitora numa agência de recortes de imprensa, em Bruxelles que, durante anos a fio, lia "milhares" de páginas de revistas, jornais e outras publicações por dia e, em casa, lia, em cada noite, pelo menos, um romance, um livro de poemas, ensaios, raramente.
Creio, que, quando se fala de livros, importa definir que tipo de livros se trata...
JPP, faz dias, escreveu um texto,a pretexto de um citação indevida de um livro de Sartre, que Passos Coelho terá lido aos 18 anos... 'L'Être et le neant', mas deformando-lhe o titulo.
Dizia JPP, que, um operário amigo dele lhe contou :- Numa noite de insónias li, de um trago, o I Livro do Das Kapital; uma aluna sua, noutra ocasião, ter-lhe-á relatado:-Ontem, durante a noite, devorei a Critica da Razão Prática do Kant.
Como se pode aceitar..."a chacun sa verité" e, sobre livros, há histórias para todos os gostos.
José Albergaria

ana disse...

Francisco,
A propósito de Lusofonia, estou para lhe mandar a morada do meu site há uns tempos - espero que vá ver e diga qq coisa.
bjs da
Ana (Hudson)
www.poemsfromtheportuguese.org

الرجل ذبح بعضهم البعض ولكن الخيول باهظة الثمن disse...

pois mas medra no erro do tempo e da voracidade de ler

ele diz ter lido os 100 volumes da Argonauta em anos

houve quem os lesse num verão

ou ler o Bobo num dia
um livro lê-se muitas vezes sem reflexão

lê-se pelo prazer de ler

há quem leia Rilke ou Ruben Braga

com a velocidade como quem lê
os cachimbos do simenon

sinceramente não aprecio policiais

mas tinha um tio que lia dúzias de vampiros por semana
quando chegava do Brasil comprava
os anos que lhe faltavam 10 anos
120 números e em duas ou três semanas papava 6 a 10 livros por dia durante 10 a 12 horas
lia ouvindo a televisão
lia ao almoço ao jantar
nunca tomava pequeno almoço sem livro não

lia em latim francês em árabe
lia tudo
leu mais de 50mil livros dos 6 aos 79...
ou pelo menos assim reza a lenda

الرجل ذبح بعضهم البعض ولكن الخيول باهظة الثمن disse...

obviamente mesmo a 10 livros por dia
e 3650 livros por ano
seriam um ritmo absurdo

mas muitos livros não são lidos de fio a pavio

passam-se as partes mortas
saltam-se as gorduras literárias e sacia-se a fome na carne

ou então vê-se o filme

há uns tempos quase 10 meses quando me iniciei neste vício de ler
blogues
indiquei como livro favorito

as vinhas da ira

e alguém vendo o dito cujo
comprou o livro e disse ser uma estopada

e a bem dizer é...mas tem frases que valem por quase toda a experiência humana

assi um livro pode-se ler a muitas velocidades

que direi de infinitos que, a títulos de pobres, se fazem ricos?

a arte de furtar
lê-se por pulsos
não se lê como um romance
abre-se como uma bíblia

por isso sim é possível ler muito mais de 6mil livros numa vida

mas mesmo muito mais

há quem leia 3 jornais por dia durante 50 anos

têm menos palavras que um livro médio?

certamente

depois as bibliotecas vão para o lixo
ou são doadas e vão para o lixo

com o seu correlegionário
Ário Lobo de Azevedo não sei se foi essa a sorte
Mas a do mentor deste...foi para os bichos

os livros são coisas perecíveis

assi como os leitores

logo o tal de Pereira labora em erro

pois cada um lê por prazer e não por obrigação e muitos livram-se dos livros lidos por mais que custe

الرجل ذبح بعضهم البعض ولكن الخيول باهظة الثمن disse...

havia um velhote que ficava com os restos das bibliotecas do trindade e do Burnay que se sentava a vender livros no Prinz Real ou na Feira da Ladra e lia uns 2 ou 3 livrinhos por dia folheava largava pegava de novo

por isso...
com que direito nós, adultos e "sábios", ousaremos privar uma criança da satisfação de largar um livro e pegar noutro a seguir sem ter acabado o primeiro
J.Dias Agudo
Março de 1942
foram mais os livros que deixei por ler do que aqueles que li

uma destas frases repetiu-a ele em três livros que escreveu

pelo menos

الرجل ذبح بعضهم البعض ولكن الخيول باهظة الثمن disse...

quem quer analisar a crítica da falta de razão pura ou impura que analise

quem a queira chutar em 30 minutos
folheando páginas cheias de vermes mentais
o fenómeno primordial que rege todos os outros é o fenómeno visual

ou seja dito de outro modo

há quem consiga captar páginas de uma lista telefónica

ou que recite trechos de um livro que só visualizou durante alguns
minutos

fixação e reprodução
o número de palavras que a vista permite fixar na memória é de facto prodigioso

se ensinado desde a infância como os meninos de 6 anos que se tornaram nos homens memória dos circos dos anos 20

entendeu o ponto?
não?
também não faz mal

Anónimo disse...

Porque é que certas pessoas, sabendo tanto de tudo e escrevendo com tanta facilidade, não criam seus próprios blogs e se limitam sucintar um comentário por post nos blogs dos outros?

Era muito mais intessante.

Eu fico saturada de ver alguns frequentadores que pensando ser anônimos, postam desalmadamente comentários sobre comentários, poluindo literalmente temas que até são intessantes e enriquecedores.

Desculpem opinar desta forma, mas é minha opinião.

Anna R.

Anónimo disse...

Não me impressiona tanto o número de livros que se possui na dita biblioteca caseira, mas sobretudo a sua qualidade. 3 mil, 6 mil, 10 mil podem representar por vezes um bom número de inutilidades, quem sabe. E depois, há muito livre cujo interesse cultural é subjectivo. Pode ser de interesse para uns e nenhuma para outros. Mas do ponto de vista da Cultura Geral, fica a pergunta: qual o seu valor acrescentado? Um exemplo deste caso poderia ser uma biografia política, escrita pelo ex-político, em tom justificativo, como já tem sucedido.
Enfim, quem gosta de livros, quem gosta de os ler, quem os lê, quem os lê quase compulsivamente, quem gosta de se cultivar, de se informar, etc, lê esses livros no silêncio das paredes de sua casa. E se calhar nem sabe quantos já leu e quantos tem lá por casa. Por tal ser irrelevante. O importante é poder continuar a ler, poder continuar a comprar e, nesse sentido, a cultivar-se. E tudo isto, na intimidade da sua privacidade. Sem alardes.
P.Rufino

Anónimo disse...

Caro الرجل ذبح بعضهم البعض ولكن الخيول باهظة الثمن, ao ler os seus comentários sinto como se tivesse lido 5 ou 6 livros por dia...

É simplesmente fascinante, embora reconheça que tenho dificuldade em assimilar tanta informação!!!

Isabel BP

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador feneci, face à intensidade dos comentários de Fernandel!

Anónimo disse...

Ó Fernandel:
وإذا كنت على رد الجميل لمجموعة كبيرة؟
Tradução: "e se você fosse dar uma volta ao bilhar grande?"

one hundred trillion dollars disse...

Agradecido pela gigantesca atoarda

Resumindo todos os livros e até os comentários nos blogues

indicam alguma coisa sobre os tempos e os mores do mundo

e os morons em que eu também me incluo

one hundred trillion dollars disse...

Anônimo disse...

Ó Fernandel:
وإذا كنت على رد الجميل لمجموعة كبيرة؟
Tradução mal feita "e se você fosse dar uma volta ao bilhar grande?"

e obviamente isto é dar a volta a um grande grupo

ou a uma multidão

como diria o Adel Sidarus

pessoa que apesar de tudo era um professor semi-razoável
apesar de ser assim como o anónimo
dizia coisas sem sentido nenhum

Anónimo disse...

No meu caso é fácil ir aumentando a biblioteca pessoal, pois vão sempre surgindo livros novos que me interessam e tenho a secreta esperança de os poder vir a ler no futuro.Vou estabelecendo prioridades de leitura que se desintegram quando vejo um outro livro recém publicado que me chega pelo distribuidor da Amazon, ou quando os adquiro numa livraria em Lisboa, Londres ou Bruxelas. A confirmarem-se os números sugeridos por JPP e FSC, não me parece que eu possa vir a ler tudo o que já possuo, mas não creio que vá parar de comprar outros que me interessam. Os livros são uma coisa fascinante, só espero conseguir vir a motivar a minha filha, que tem agora cinco anos, a gostar de ler, pois dar os meus livros a uma biblioteca não me atrai, endo em conta o que já vi, doações a acumularem-se em salas,a ganhar pó sem qualquer utilidade e oslivros nem sequer são catalogados, pois não há espaço ou vontade de os aproveitar.

LBA