domingo, 27 de março de 2011

Mudar a hora

No final dos anos 90, eu vinha do norte de Portugal para Lisboa quando, num noticiário radiofónico, ouvi um "especialista" em assuntos europeus "catastrofar" sobre as supostas consequências de Portugal ter, nesse ano, decidido adotar um calendário diferente do de outros países europeus, para a mudança da sua hora legal. Para o "sábio" de extração universitária, consultado pelo telefone, a suposta (porque era apenas suposta) violação da diretiva comunitária iria acarretar consequências da maior gravidade para o futuro de Portugal na Europa, podendo mesmo vir a refletir-se no corte de "fundos comunitários". Com esta apelativa menção, estava feito o "sound bite": o jornalista mudou logo a peça nos noticiários seguintes, que passaram a abrir com "Portugal pode vir a ter menos fundos europeus, por erro do governo".

Como eu era o membro do governo responsável pelo setor, parei numa área de serviço e telefonei para a rádio, pedindo para dar a minha versão dos factos, que, aliás, era muito simples. Assim foi feito, pelo que a abertura da peça mudou para: "Governo e especialistas estão em desacordo sobre a aplicação da diretiva sobre a mudança da hora". Nada como uma boa polémica! Os "especialistas" continuavam a ser só um, mas agora já havia em cena uma entidade da qual, à partida, sempre se desconfia: o governo! Até que, farto de ouvir os dislates do "especialista", acabou por ir à antena o Francisco Saarsfield Cabral, com a autoridade jornalística de quem conhece bem estes assuntos, e lá pôs um ponto final no debate. Quando eu estava a chegar a Lisboa, já os noticiários tinham feito desaparecer o "escândalo" da hora europeia e davam relevo às filas da acesso a Lisboa, que começavam na 2ª ponte do Feijó (ainda não tínhamos inaugurado a ponte Vasco da Gama) e que já estavam a fazer perder tempo aos lisboetas. Lá se ia, assim, mais uma hora...

Recordo-me que o tema da hora portuguesa, e do seu alinhamento ou não com a hora do resto da Europa ocidental, tinha sido objeto de uma animada discussão em conselho de Ministros, em 1996, com a expressão de alguma divisão de opiniões. Esta é uma questão que tem diversas vertentes, económicas e sociais, as primeiras ligadas aos consumos de energia e à compatibilidade de funcionamento internacional de serviços, as segundas ligadas ao ciclo diário de luz solar e a respetiva compatibilidade com os ritmos biológicos das populações, com os horários de entrada das crianças nas escolas, com as consequências de tráfego com pouca luz, etc. Este não era, nem é ainda hoje, um tema consensual.

Mas sobre isto e outras curiosidades desse tema fascinante que é o tempo, aconselho que consultem o magnífico (e belo) blogue Estação Cronográfica, de Fernando Correia de Oliveira.

10 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Devo confessar, Senhor Embaixador, que ainda hoje não consigo ter uma opinião formada sobre o assunto. Mas lembro-me do que me custava dar aulas na Faculdade, às oito da manhã, no Porto, porque me levantava quando a noite ainda era uma menina!
Não sei, felizmente, o que é ser membro do governo, mas sei o que são os jornalistas...e a sua "história" é exemplar.

Anónimo disse...

Sempre achei isto da mudança de hora uma coisa patética. Mantenho essa opinião.
P.Rufino

patricio branco disse...

tema que sempre me fez pensar, os fusos horários e a hora legal, que são coisas diferentes e nem sempre coincidem. A madeira tem a mesma hora de londres, porquê? e bruxelas e londres horas diferentes, porquê?
Parto do principio que o assunto está bem estudado e que, a nivel europeu, tecnico, economico e politico, está resolvido do melhor modo possivel (mas já li qualquer coisa sobre a possibilidade do reino unido alinhar a hora com os outros membros da ue)
Tambem me faz confusão outros paises não mudarem a hora, apesar das circunstancias (latitudes) serem semelhantes, embora noutros continentes.
Mas a isto nos habituamos e a mudança de horário é já parte das estações do ano e da aceitação mental dos cambios decorrentes.

patricio branco disse...

há um país que há uns anos, 5 ou 6, decidiu mudar a hora legal adiantando-a 1/2 hora. Nesse dia à 1/2 noite os relogios passaram para as 0,30h. Isto porque o presidente assim decidira fazer, diferenciar o país dos vizinhos ou dos eua, tendo uma hora particular. A vontade de mudar foi justificada com beneficios escolares para as crianças, levantavam-se com mais luz ou algo assim, e economias.
Dias antes, numa explicação directa ao país pela televisão, o presidente, grande falador, acompanhado do ministro competente (relações interiores ou economia, não sei)fez de repente, ao entrar no tema, uma enorme confusão,hesitando entre se era adiantar ou atrasar ("como é, perguntava ao ministro, vamos atrasar? não presidente, tinhamos decidido adiantar,parece-me, ah pois é, então o adianto vai ser assim...")
Estas decisões podem portanto ser politicas e mesmo pessoais e não baseadas em interesses reais, como foi o divertido e caricato caso. Os nacionais desse país sul americano que vivem no estrangeiro (emigrantes) ou no país mas com familiares a viver fora, normalmente têm de ter um 2º relógio para se conseguirem orientar e hoje lá tiveram de adiantar media hora o 2º relogio.

Anónimo disse...

"Catastrofar", gostei. Melhor, só o "Medinacarreirismo"...

Sebastião (Tião) Gomes

Anónimo disse...

Se mudasse o Tempo...
Isabel Seixas

Helena Oneto disse...

Este post chegou em boa hora mas a hora (legal) não chegou ainda aqui...

Anónimo disse...

Só para dizer, que aqui o tal tempo hora incluida acordou com umas trombas de quem todos lhe devem e ninguém lhe paga...

E eu indiferente, muito menos ralada e consumida, vou trabalhar... para mim e não só na sempre e hedónica tarefa de sustentar com orgulho a minha existência e o meu maior luxo o ser mãe ... Hum contra ventos e marés demográficas, contra confortos intelectuais da desfaçatez de nos querer tirar a maternidade em detrimento do vago aéreo e virtual trabalho, como se não fosse ele também...Um grande filho da Mãe...

Estou a trabalhar no maior projecto da minha vida...

Criar Emprego...
Trabalho "A TAL DA MATÉRIA PRIMA JÁ HÁ, SOMOS NÓS"

Cuja conceção não se limita a uma ratisse num periodo de ovulação...

Isabel Seixas

Luís Bonifácio disse...

A hora técnica tem de acompanhar o mais possível a hora solar.
No caso Português a Hora Cavaco foi apenas o resultado da parolice da classe politica em imitar a forma dos paises desenvolvidos, esquecendo-se do conteúdo.
Cavaco Silva pensava que alterando a hora bastava para aumentar o PIB Português. Quem lucrou foram os ladrões que assim às 8 da manhã (E noite cerrada) podiam assaltar as pessoas nas paragens de autocarro.

Na Europa, a França e a Espanha não têm a hora alinhada com a hora do sol apenas porque o meridiano de Greewich foi estabelecido pelos Ingleses e como eram inimigos históricos, não podiam aceitar esse facto (O Meridiano de Greenwich passa por Saragoça)

Fernando Correia de Oliveira disse...

Caro Embaixador: obrigado pela referência ao Estação Cronográfica. De notar que existe na Galiza um movimento que reivindica o mesmo fuso horário que Portugal (http://estacaochronographica.blogspot.com/2010/01/hora-igual-para-peninsula-defende.html). Quanto ao meridiano de Greenwich, existe uma representação dele, numa auto-estrada nos arredores de Zaragoza (http://estacaochronographica.blogspot.com/2009/10/meridiano-de-greenwich-faz-125-anos.html)