quarta-feira, 16 de março de 2011

Joaquim Vital e as colónias portuguesas

Foi uma mera coincidência.  Mas, às vezes, as coincidências têm o seu significado.

Ontem, foi o dia em que se registou a passagem de meio século sobre o feroz ataque da UPA (União dos Povos de Angola), que, no norte de Angola, vitimou centenas de colonos portugueses e de cidadão angolanos, naquela que foi a primeira grande manifestação de revolta contra a presença colonial portuguesa em Angola - depois dos acontecimentos da Baixa do Cassange e do "4 de Fevereiro", em Luanda, todos ocorridos no início desse ano histórico de 1961. A partir de então, nada iria ser igual nas colónias portuguesas, desde o Estado da Índia (que seria invadido pela então União Indiana, no final do ano), até à independência completa de Timor-Leste, apenas reconhecida pela ONU em 2002, passando pelo reconhecimento português das independências de Cabo Verde, Guiné-Bissau (que a comunidade internacional já consagrara em 1973), S. Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, ao longo de 1975.

Ontem, também, teve lugar na Embaixada de Portugal em Paris um cerimónia durante a qual o Estado português atribuiu ao intelectual e editor Joaquim Vital a comenda da Ordem do Infante Dom Henrique. Em nome do Presidente da República, que aprovou esta distinção proposta pelo governo, sob minha sugestão, a viúva e os filhos de Joaqum Vital receberam esta distinção. que lhe era dirigida, a título póstumo, numa cerimónia privada. Foi uma condecoração dada a alguém que saíu de Portugal para não participar nessa mesma guerra colonial, como gesto ostensivo de recusa da política errada de um regime ditatorial que abafava o país.

Portugal viverá com esta dualidade eterna: com a dignidade da revolta de quantos o seu regime oprimia, bem como com a dignidade dos militares portugueses que, sob a nossa bandeira, procuraram contrariar essa vontade, sob ordens do regime de então. Esta dualidade pode parecer quase esquizofrénica, mas é a sina de um país que tem muita história e que tem sabido vivê-la no caldeirão das contradições que ela encerra. 

Ontem, ainda, a viúva de Joaquim Vital, nas simpáticas palavras com que respondeu às minhas, lembrou ser quase irónico que Joaquim Vital tivesse preparado, a meu pedido, um "curriculum vitae", para instruir a proposta de condecoração, precisamente poucos dias antes da sua súbita morte, em Maio de 2010, numa visita a Lisboa.

4 comentários:

juliomoreno@sapo.pt disse...

No final deste seu post, Senhor Embaixador, um estranho e amargo sabor eu senti na boca e isto enquanto os meus olhos liam o seu último parágrafo!
Procurando interrogar-me sobre tal "porquê", um velho aforismo veio á minha ideia: Não terá sido Deus a escrever direito através de linhas tortas?

Alturense disse...

"Portugal viverá com esta dualidade eterna: com a dignidade da revolta de quantos o seu regime oprimia, bem como com a dignidade da morte dos militares portugueses que, sob a nossa bandeira, procuraram contrariar essa vontade, sob ordens do regime de então"

escreveu o sr. Embaixador.

Devo deduzir, então, que os que, como eu, nem se revoltaram, emigrando para não vestir a farda camuflada, nem morreram (embora ainda hoje possam ter sequelas físicas, como é o meu caso), não terão direito à mesma dignidade?

Carlos Fonseca

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Carlos Fonseca: tem toda a razão! Já alterei o post em conformidade.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caros comentadores: como sempre acontece com temas "fraturantes", alguns comentários surgidos neste blogue derivaram para a confrontação ideológica, muitas vezes personalizada, às vezes com deselegância. Não é esta a vocação deste espaço, que só é visitado por quem quer, mas que não faz nem fará parte da massa do bloguismo político que por aí sobrevive. Por isso, vejo-me obrigado a pôr termo ao debate aqui. Mas, quem assim o entender, pode prossegui-lo noutros locais.