quinta-feira, 6 de maio de 2010

Europa?

A Europa está numa encruzilhada. E nada pior do que estar num cruzamento sem a menor ideia do caminho a seguir. Como agora acontece, com toda a evidência. O que é mais chocante, para quem acredita nas virtualidades do projeto, é verificar que parece não haver sequer linhas de rumo alternativas em estudo, que a Europa claramente "navega à vista". Às vezes, ao observar o comportamento e o discurso lúgubre de certos líderes, quase que dá a sensação que alguns integraram  já no seu pensamento o euroceticismo que pressentem prevalecer nos seus cidadãos, entrincheirando-se na defesa de egoísmos nacionais, porque sabem que assim estão melhor protegidos de críticas. Esses lideres esquecem uma realidade simples: no passado, os grandes passos da Europa, aqueles que consagraram os seus antecessores como figuras da História, fizeram-se com atos de vontade e de ousadia, com propostas que não eram, necessariamente, populares quando foram apresentadas. Liderar não é seguir as sondagens da opinião pública, é ter a coragem de pôr em prática novas políticas para convencer essa mesma opinião pública a mudar.

A grande ilusão europeia, que consistiu em criar instituições e modelos de ambição limitada, que foram o saldo do que, relutantemente, a tibieza de alguns conseguiu consensualizar na gestão mesquinha dos egoísmos nacionais, no pressuposto de que a mera dinâmica viria a consagrá-las como eficazes, mostra estar a chegar ao fim, precisamente às mãos das perversidades e caprichos de um mercado que sempre pensou que conseguiria adaptar às suas regras.

A ironia é ver hoje países poderosos, aliados reticentes de outros com fragilidades que todos sempre conheceram, à  espreita matinal dos mercados, à mercê do imprevisível resultado das negociatas de especuladores, adotando com atraso soluções provisórias para problemas definitivos.

Como ontem disse Jacques Delors, na sua entrevista à revista "Challenges", "a Europa está face ao seu teste mais importante" e, se quer salvar o euro, tem de avançar para a aproximação das políticas económicas nacionais e das legislações fiscais, bem como atuar no âmbito das políticas sociais. Para Delors, as coisas têm de voltar ao que foram: "sentido de ação, cooperação acrescida, pequenos passos, método comunitário (...) e, depois, agir". É uma receita simples, que sempre se mostrou eficaz.

Quando o euro foi criado, recordo-me que uma das grandes preocupações era a assimetria das consequências da introdução da moeda única em economias nacionais de matriz e "performance" tão diversas. O otimismo prevalecente, essa espécie de "bondade" natural que se pensava que o euro acabaria por ter para todos, obnubilou o outro lado da moeda (única): as consequências, a prazo, dessa mesma diversidade na sustentabilidade do euro, sem uma aproximação progressiva de outras políticas complementares, que se mantinham diferentes entre os Estados subscritores. Bastava olhar para a Europa do euro como se olha para um país para perceber isto, mas a verdade é que todos pareceram apostados em não enfrentar as evidências.

Jacques Delors, que foi o estratega dos tempos mais positivo da integração europeia, relembra agora, como o fizeram, sem o afirmarem, Robert Schuman e Jean Monnet, que "o medo pode ser bom conselheiro". Às vezes é, porque, outras vezes, pode apenas paralisar as tropas. À suivre, como se diz na banda desenhada.

8 comentários:

José Barros disse...

Dos recentes debates organizados na televisão com intervenções de iminentes economistas surgem hipóteses diversas e divergentes. Uns afirmam-nos que nem todos os países no interior da Europa do Euro têm condições para continuarem com a moeda única e devem retomar as suas antigas moedas. A exemplo apontam a Grécia, claro, mas logo a seguir a Espanha, Portugal, Itália, e até a França... Estes economistas aproveitam o momento para afirmarem as suas antigas e constantes opiniões do “contra a moeda única”. Os outros que continuam a defender o sistema dizem que será possível perseguir com a moeda única mas que temos de baixar o nível de vida e dá mesmo exemplos: Quem tem dois veículos pode perfeitamente prescindir do segundo; quem tem dois ecrãs plasma no seu salão pode prescindir do segundo; quem tem Treze meses de salário pode prescindir do 13° e assim sucessivamente... Ora esta ideia aparece, aos olhos dos que têm dois veículos, dois ecrãs plasma, treze meses de salário... como é o meu caso, de um autêntico atentado aos direitos adquiridos mas não posso deixar de estar de acordo e até me dou conta que o segundo veiculo e o segundo ecrã plasma de pouco me servem. Já a supressão do 13° mês, essa, no sistema actual, vai-me evitar a possibilidade de adquirir de novo o supérfluo a que estou habituado e levar-me a uma certa reacção contra a economia moderna que vive muito da venda de coisas inúteis...
Mas se estou de acordo é sobretudo porque constatei que a classe politica, e todos os economistas e gerentes das grandes empresas que têm maior nível de vida que os da minha classe já baixaram os seus salários e emolumentos, já prescindiram das suas cumulativas reformas, já prescindiram das chorudas gratificações quando são promovidos de umas empresas para outras, já, como diz Jacques Delors, estão enfim decididos a enveredar por “receitas simples” e, para mim, as receitas simples não são estas “transferências” de milhares de biliões que passam por cima das nossas cabeças de uns países para os outros, com juros ou a fundos perdidos, para sustentar empresas algures e cujos lucros se perdem, de facto, nos bolsos de meia dúzia de indivíduos fazedores de crises...

causa vossa disse...

Para quê falar ou pensar em clusteres países, em polarização, no modelo de causalidade circular cumulativa de Myrdal ou na teoria centro periferia.
Fechei o manual de Economia Regional e olhei para os tratados do processo original integrador, onde solidariedade casava com internalidade...vaidade de alguns ou engano de muitos?

Ana Paula Fitas disse...

Muito obrigado pela partilha desta reflexão, Senhor Embaixador.
Vou fazer link.
Um abraço amigo.

Benjamim Formigo disse...

Meu Caro Francisco, apesar das dificuldades decorrentes da leitura de um texto cumpridor de um tal acordo ortográfico, não pude deixar de ler de um fôlego a sua prosa. Pasme-se estamos inteiramente de acordo.
Numa encruzilhada e sem saber o caminho, arrogantemente ignorante dos avisos de Delors.
Um abraço amigo do
Benjamim
PS - (de Post Scriptum) Agora que descobri o blogue pode contar mais um leitor.

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Caríssimo Embaixador Francisco Seixas da Costa,

Muito obrigado por esta sua lição sobre o estado da União Europeia, porque fala-se muita do estado da nação, mas este balanço comunitário é sempre olvidado. Tem toda a razão de que não tem existido uma estratégia comunitária capaz de alavancar a Europa no mundo. Sem dúvida, que é necessário que se afirmem grandes líderes Europeus que se assumam com uma exemplaridade e uma ousadia que faça a Europa navegar com um rumo certo. Faltam, pois, "timoneiros"...como o foi, efectivamente, Jacques Delors para que se possam concretizar os belos sonhos de Robert Schuman e de Jean Monnet.

Agradeço a lucidez com que nos trouxe esta pertinente reflexão sobre os desafios que a Europa está a enfrentar ( os ataques dos especuladores nos países do sul da Europa, a base instável do "Euro" e o egoísmo nacionalista de alguns países). Concordo inteiramente que falta um líder carismático que seja capaz de delinear uma estratégia integral na Europa para dar continuidade ao esforço de integração comunitária lançado por Jacques Delors. Obrigado pelo seu optimismo Europeísta!

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

Anónimo disse...

Europa?
Não...!...!
Nem a ilustração do Jamor dia 16,... Nem dois flavienses...

Talvez...

Azulão e sombras masculinas

Insónia.
Isabel Seixas

Helena Sacadura Cabral disse...

Confesso que tendo desde o princípio de vida profissional nestas áreas, as diferentes etapas pelas quais passou a UE me deixaram sempre grandes dúvidas. Para usar um chavão conhecido fui e sou ainda bastante euroceptica.
Em contrapartida sou profundamente portuguesa, amo o meu país e a sua gente e ser europeia nunca me provocou grande extase...
Hoje o meu cepticismo é maior e não me surpreenderia se um dia viermos a ter de abandonar a zona euro!
Que me perdoem aqueles que, aqui, tanto acreditam nessa Europa!

Julia Macias-Valet disse...

Eu diria :
"Cenas dos proximos capitulos", como se diz nas telenovelas. ; )