quarta-feira, 26 de maio de 2010

Coreias

A comunidade internacional habituou-se, de há muito, à permanência da tensão entre as duas Coreias. O profundo trauma da guerra e a ideia de que prevalece um laço afetivo indelével entre ambos os países criaram, entretanto, a perceção de que, não sendo impossível, o conflito se torna improvável. As notícias dos últimos dias não são, contudo, muito animadoras.

O mundo também se acostumou a olhar, com curiosidade, para o registo ciclotímico das reações de Pyongyang, quer em relação aos seus vizinhos do sul, quer, principalmente, face aos Estados Unidos, país com o qual, formalmente, o regime do norte teima em considerar-se em guerra.

Para alguns observadores, a chave para a atenuação das posições da Coreia do Norte reside em Moscovo ou em Pequim. Há alguns anos, dois dias de debate intenso em Seul, a convite da autoridades da Coreia do Sul, num seminário sobre "confidence and security building measures", que envolvia russos e chineses, ao tempo em que os "six parties talks" prometiam resultados, deixaram-me algumas dúvidas sobre se algum desses grandes vizinhos da Coreia do Norte tinha um "leverage" suficiente para contrariar certas da suas derivas potenciais. Há que convir, no entanto, que são os únicos que mantêm um canal de comunicação permanentemente aberto com o regime norte-coreano, descontando, por óbvias razões, alguns outros atores caricaturais da cena internacional.

De modo homólogo, não deixa de ser interessante notar que o conselheiro diplomático do então presidente da Coreia do Sul, um amigo que conhecia de Nova Iorque e que teve então a gentileza de me convidar para um almoço a dois, deixou-me evidente que havia um mundo de ambiguidades e de importantes diferenças entre as percepções de Washington e de Seul, quanto à relação desejável com a Coreia do Norte. Por curiosidade, esse amigo chama-se Ban Ki-moon e é hoje secretário-geral da ONU.

É neste quadro de influências limitadas, que não mudou muito desde então, que a tensão voltou a subir entre os dois lados do paralelo 38. Neste cenário, projetam-se agora o que parece serem novos problemas internos na liderança em Pyongyang e, naturalmente, também novas e preocupantes dimensões militares, agora já com facetas nucleares.

O prosseguimento de uma situação de "acossamento" como o que a Coreia do Norte atualmente vive, se bem que autoprovocada e inevitável pelas regras do Direito Internacional, não deixa, contudo, de constituir um enorme risco para a estabilidade e para a paz internacionais. É das regras da política que, muitas vezes, algumas aventuras externas são a forma de procurar "dar a volta" a crises internas. E, neste caso, o mundo está a lidar com um regime em que o processo decisório passa por caminhos insondáveis.

Por essa razão, porque o que está em causa na região é muito sério, tudo deve ser tentado para baixar o nível de tensão existente, quanto mais não seja para se ganhar algum tempo. Assim, qualquer que seja a sua real capacidade de influência, compete em especial à Rússia e à China esgotarem todas as cartas de que possam dispor. Porquê? Porque têm responsabilidades particulares à escala global, porque são vizinhos e porque a nenhum deles seria conveniente o desencadear de um conflito em grande escala numa área estratégica próxima, o qual se se sabe como pode começar, mas não se tem ideia de como poderá acabar.

7 comentários:

C.M. disse...

Li o ano passado "Os Aquários de Pyongyang - Dez Anos no Gulag Norte-Coreano, da Editora Hesperia.

Esse livro (que relata eventos sofridos pelo protagonista nos anos 70) persegue-me desde então, tal o rol de horrores infligidos às pessoas, o sofrimento que lhes é sadicamente imposto nos campos de concentração.

Não compreendo como um regime tão cruel e louco pode subsistir nos dias de hoje, e entendo mal que a comunidade internacional não tenha força (ou interesse) para acabar com aquele sistema. Os USA não invadiram o Iraque?! Ah, o petróleo, pois...ah e a China, claro, que "mete medo"...

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Caríssimo Embaixador Francisco Seixas Costa,

Compreendo perfeitamente a ênfase que dá a este resquício do mundo bipolar. É bom, de facto, que não se inicie uma guerra civil Coreana entre as duas partes da nação desavinda, porque realmente teria catastróficas consequências pelo potencial militar e pelos respectivos aliados de ambas as partes.

É necessário ultrapassar o critério da política de blocos e desenhar uma concepção geoestratégica que permita apaziguar os ânimos para que não "se lancem novas "achas" para a fogueira.

Sem a sensatez, a boa-fé. o diaólogo, o compromisso e a generosidade estará sempre em risco uma luta fraticida entre Coreanos e seus Aliados. É preciso que a comunidade internacional esteja atenta para que este dilema possa ser ultrapassado.

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

Margarida disse...

C.M., uma palavra: Realpolitik.

Anónimo disse...

É é...
Um lusco fusco
Subscrevo os comentadores...
Enfatizo o último paragrafo de C.M.
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Não consigo detetar se a porta da esquerda tem vidros...
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Excelente Post!
P.Rufino
PS: a vida de diplomata tem coisas interessantes. Essa do amigo e hoje SG das UN!

Guilherme Sanches disse...

"Magister dixit"

Uns falam, outros sabem o que dizem.