sábado, agosto 08, 2015

Corregedor ou Poulidor?

Durante anos, a APU e depois a CDU - compostas pelo PCP, pelos Verdes e pela Intervenção Democrática - concorreram às eleições legislativas em listas conjuntas. Nesse tempo, nunca a ninguém passou pela cabeça que Corregedor da Fonseca, um simpático cidadão de que a maioria dos leitores nunca ouviu falar e que era o líder aparente da Intervenção Democrática, tivesse um tratamento televisivo próprio, isto é, que fosse chamado aos debates em pé de igualdade com António Guterres ou Marcelo Rebelo de Sousa.

Esse é o preço das coligações pré-eleitorais: quem procura ganhar sinergia com listas conjuntas, colocando-se sob a tutela de uma "chapa" única, concede à liderança dessa mesma coligação a titularidade para a representar. E isso começa logo pelos debates televisivos.

O dr. Paulo Portas, não obstante as qualidades mediáticas que o convertem num "must" televisivo, como mestre de "soundbites", onde quer que vá falar da "lavoura" e de outros temas magnos de interesse pátrio, converteu-se hoje, goste ou não, numa espécie de novo Corregedor da Fonseca. 

Por isso, não se queixe. Foi o dr. Portas quem atribuiu a si mesmo - e isso começou no dia em que abandonou a JSD e deixou de ser o diretor dessa esplêndida folha informativa que dava pelo nome de "Pelo Socialismo" - o destino eterno de Poulidor da política portuguesa. 

"Poupou" também era muito popular entre os franceses, que lhe achavam imensa graça, durante a Volta à França. Só que nunca ganhou nenhuma! Ficou várias vezes em segundo, lugar que, numa competição, acaba por ser o mais parecido com o último. E Paulo Portas já terá entendido que ser o "second best" da direita é, para todo o sempre, a sua triste sina.

sexta-feira, agosto 07, 2015

Neocolonialismo

Habituámo-nos e já nem nos apercebemos deste tropismo vulgar que é o facto de nos permitirmos, com regularidade, dar opiniões sobre a vida política interna das colónias que já foram portuguesas. Não há partido político nacional que, de quando em vez, contra ou a favor, se não permita dar “bitaites” sobre eleições ou conflitos políticos nos Palop. Há figuras nacionais que têm o hábito de tomar partido sobre o que se passa nas “nossas” Áfricas ou em Timor-Leste, com uma naturalidade que se torna chocante, sendo legítimo perguntar por que diabo o não fazem, com a mesma regularidade, sobre as eleições no Vanuatu ou na Gâmbia. Por cá tivemos, por muito tempo, apoiantes da Unita contra do MPLA, da Renamo conta a Frelimo, e vice - versa. Já assistimos mesmo ao espetáculo triste de ver parlamentares nacionais presentes num escrutínio num desses países, ao lado de candidatos. 

Aqueles territórios foram colónias portuguesas, autodeterminaram-se, tornaram-se independentes. Desde logo, de nós. Se têm problemas e, às vezes, pedem a nossa ajuda, isso não nos dá o menor direito de nos imiscuirmos na sua vida política, tomando partido entre uns e outros. Os políticos portugueses, que têm tantas e importantes questões internas que não conseguem resolver, fariam bem melhor se se dedicassem mais à sua “paróquia” e deixassem de se meter na vida política dos outros. Particularmente dos Estados que foram suas colónias. Isso tem um nome. Neocolonialismo.

Conversas no Pereira (4)

- Caramba! Que tom crítico perante a campanha do PS! Só no dia de hoje, vi um artigo assinado por ti num jornal e um texto no blogue. Já há dias te tinhas "atirado" contra o Edson Athayde.

- Acho que o tom da mensagem do PS está errado. E é mesmo um tanto esquizofrénico: tanto põe nuvenzinhas com ar de harmonia e paz celestial como, de seguida, caras de gente carrancuda a lembrar desgraças. O que as pessoas querem é conhecer as soluções concretas que o PS vai pôr no terreno para resolver os problemas que hoje têm. Em mensagens simples e curtas, facilmente percetíveis. Só isso!

- Mas não achas que, ao criticar abertamente a campanha, podes estar a "fazer o jogo" do adversário? 

- Estaria a fazer esse "jogo" se fingisse que achava a campanha eficaz, quando acho que ela não o é. Creio mesmo que é contraproducente! Na minha opinião, quem, involuntariamente, acaba por "fazer o jogo" do adversário e prejudicar o trabalho de António Costa é quem lhe prepara aquelas coisas.

Genialidade ou cretinice?

Com a idade, tornamo-nos mais sábios? Não tenho essa certeza. Comigo, a idade teve como efeito interrogar-me cada vez mais sobre as opções que tomo na vida, tentar evitar que a precipitação, num juízo ou numa atitude, constitua um erro desnecessário. É claro que essa hesitação pode ser lida por alguns como calculista, como derivada de uma "agenda" ou da necessidade de nos preservarmos para poder vir a tê-la. Num outro registo, esta pausa deliberada para reflexão pode ser interpretada como alguma angústia na decisão, aquele estado de incapacidade de escolha, típico de quem se baralha nos prós-e-contras das coisas, num reflexo da idade. Como, felizmente, o primeiro caso (já) não se me aplica, só posso caber na segunda e frágil opção. Constato-a com pena, mas sou suficientemente lúcido para não me inquietar demasiado com o assunto.

Ontem, ao olhar para o cartaz em que o PS coloca uma senhora a dizer que está desempregada desde há cinco anos, isto é, desde o tempo do governo Sócrates, dei comigo a pensar: este cartaz ou é uma imensa genialidade ou é uma enorme cretinice. Mas porque não acredito que, no seio de uma campanha que imagino deva ser altamente pensada, profissional e responsável, se façam cretinices com tal ligeireza, sou conduzido à conclusão de que o cartaz, na sua (só) aparente irracionalidade, corresponde afinal a uma estratégia profundamente estudada, testada e "straight to the point". O cartaz tem, assim, de ser genial. Apenas em teoria me atrevo a admitir outra opção, sem sequer ousar expressar o que pensaria dos responsáveis da campanha, se acaso assim não fosse. 

Chover no molhado


Foram anos terríveis. A vida correu-lhe mal. A empresa onde trabalhava fechou, o novo emprego é precário, a pensão dos velhotes foi cortada, a mulher caiu doente. O filho, sem ocupação, emigrou. Vendeu a casa, prescindiu de ter férias. A certo passo, sentiu-se como que impotente perante os desafios da vida. Mas aguentou. Com a passagem do tempo, adaptou-se (que remédio!), diminuiu ambições, baixou as expetativas, resignou-se. Agora só quer esquecer os anos em que quase desesperou.

Um destes dias, cruzou-se na rua com um amigo que já não via há muito. No meio daquela conversa do "como estás?", ao amigo deu para perguntar-lhe pelo passado recente, inquirir das maleitas, físicas e materiais, da família (que continuavam), se a nova ocupação já era mais estável (não era), se o filho afinal tinha uma atividade compatível com os seus estudos (não tinha).

Sentiu-se incomodado. Que diabo! Logo agora, quando ele só queria olhar em frente, o amigo falava-lhe do que o atormentava, trazia-lhe à ideia a fragilidade da vida que conseguira. As coisas não iam bem, era evidente. Mas ele olhava à volta e via outros em situação ainda pior. Na desgraça coletiva, comparava-se e sentia-se menos mal. E logo vinha aquele amigo “chover no molhado”…

Às vezes, ao ouvir algumas mensagens da campanha eleitoral socialista, dou comigo a pensar se os portugueses, num tempo em que querem ver-se livres de fantasmas, em que desesperadamente pretendem encontrar razões para sorrir, desejam ser confrontados com um discurso onde prevaleça a crítica do passado e a denúncia do que lhe fantasiam como melhorias no presente.

Muitos sabemos que o “oásis” que o governo nos vende é rotundamente falso, que os índices de desemprego são manipulados, que o regresso aos mercados vive da firmeza do BCE, que a retoma é débil, que as empresas estiolam por falta de crédito. Já percebemos os truques oficiais que, em época pré-eleitoral, alambicam algumas facilidades fiscais, colocando nos NIB mais alguns euros.

O português - você e eu – é um ser desencantado que, ao olhar hoje o futuro, tem de ter razões concretas para mudar o que está, no novo ciclo que aí vem. Não chega desconfiar deste pessoal que nos enganou no último quadriénio, porque a lógica do “the devil you know…” pode acabar por impor-se.

O cidadão eleitor tem de sentir que as novas propostas que são colocadas à sua frente são credíveis e que o seu futuro pode mudar para melhor se forem postas em prática, tituladas por gente capaz e de bem. Ser alternativa é isso: transmitir confiança e configurar a esperança. 

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

quinta-feira, agosto 06, 2015

Luis Roseira


Com 91 anos, morreu Luis Roseira. Um grande homem do Douro, uma notável figura de cidadão.

Uma opinião

"A economia portuguesa está a beneficiar de fatores externos positivos. Finalmente conseguiu travar o pânico do verão de 2012. Além disso, as políticas de quantitative easing do BCE têm feito baixar os custos dos empréstimos portugueses para mínimos históricos. A descida do preço do petróleo e um euro mais fraco também têm ajudado. Internamente, a extrema austeridade de 2011-12 foi aliviada: o aperto fiscal é muito menor neste ano. Como resultado a economia está a crescer outra vez, lentamente. Mas Portugal ainda está num buraco fundo. A economia está ainda 7,5% mais pequena do que no seu pico no início de 2008 - na verdade está mais pequena do que em 2002 - e ao nível atual de crescimento de 1,5% não vai voltar aos níveis de 2008 antes de 2020: mais de uma década perdida. As dívidas globais - das famílias e das empresas - são insuportavelmente grandes. Os bancos ainda estão numa confusão, com o escândalo do BES à cabeça. Os salários caíram. A pobreza aumentou. O desemprego continua altíssimo. Muitos portugueses emigraram. Ajustando para a população ativa que não tem trabalho e o subemprego, o FMI calcula uma redução do mercado de trabalho de 20%. O FMI também diz que as reformas portuguesas foram inadequadas e que ainda têm de produzir benefícios. Portugal é um país europeu relativamente pobre. Devia estar a aproximar-se dos mais ricos através de mais investimento e aumentando a produtividade. Em vez disso, está a posicionar-se para ser ultrapassado pela Polónia e outros. É trágico."

Phillippe Legrain, economista britânico, consultor da Comissão Europeia

Jon Stewart


Somos todos, um pouco, americanos. Cada um à nossa maneira. Por muito que alguns o não queiram assumir, todos temos "a nossa América" em que nos revemos, todos "votamos" nas eleições por lá. Às vezes, cansados do Chile ou do Iraque, fingimos que nada temos a ver com "aquilo", mas, logo que nos aparece um ET pateta a defender a Sarah Palin, temos logo um Obama para lhe mandar à cara. Quando os "neocons" da paróquia destilam Chicago, lançamos mão de um Stiglitz ou um Krugman para lhes retorquir. Por cada Reagan ou Wayne que saia do baralho mccarthista, emergirá sempre um Woody Allen ou um Sean Penn para nos reconciliar com o Novo Mundo. Para cada "Washington Times" há sempre um "The New York Times". 

Há uma América para todos os gostos. A minha tem lá dentro Jon Stewart e hoje, dia em que vai para o ar o seu último "Daily Show", não consigo conter a minha nostalgia.

Conversas no Pereira (3)

- Então o Duarte Lima tinha dois Brueghel? Aquilo deve valer uma fortuna...

- Sim, parece que ele tinha uma bela coleção de quadros. Todos com o mesmo tema.

- Ah! Sim? Que tema?

- Naturezas mortas.

quarta-feira, agosto 05, 2015

Conversas no Pereira (2)

- Neste início de época, o teu Benfica parece esquisito. Bom, sem Jesus, não há milagres...

- Está bem, está bem! No domingo, logo veremos!

- De qualquer forma, uma coisa é certa: no final do jogo, têm Vitória no papo...

- Também não estou assim tão seguro...

- Eu referia-me ao treinador. Ter um treinador chamado Rui Vitória sempre vos amacia as derrotas...

Entre portas


Ontem, o "Diário de Notícias", no seu "folhetim" de Verão, ficcionava um encontro secreto no largo do Rato, entre António Costa e Paulo Portas, a pedido deste último. Dizem-me que, por algum tempo, a Santana à Lapa tremeu, antes de perceber que, pelo menos por ora, se tratava de uma invenção. É que o PSD não confia, mesmo nada, em ... António Costa. Ao ler esse segundo episódio do anónimo escriba que vai fazer tremer o país político nas semanas que se seguem, recordei uma cena que, de certo modo, dá alguma verosimilhança ao episódio ficcionado.

Não sei a data do que vou relatar. Ou melhor, sei, mas não vou dizer, apenas posso revelar que o facto se passou entre 1995 e 2001.

O governo socialista, chefiado por António Guterres, governava então com maioria relativa. Necessitava, por isso, de compromissos permanentes com os partidos situados à sua esquerda e à sua direita, para fazer passar os seus orçamentos e legislação. Foi uma sina diária de negociações, "peça-a-peça", que obrigava a desgastantes negociações, mobilizava bastidores e obrigava a entendimentos que, para todos os atores políticos, eram sempre complicados de gerir. E, as mais das vezes, difíceis de explicar abertamente, perante as opiniões públicas e partidárias.

Num desses tempos, o processo político no seio do governo estava a revelar-se mais complicado. Como sempre sucede nestas coisas, seguia-se a regra clássica da "intelligence": o clássico "need to know" aplicava-se ao nosso dia-a-dia de membros do governo. Sabíamos apenas o que devíamos saber, nada mais. Presumíamos que, à nossa revelia, se passavam muitas "conversas", mas não éramos mantidos, e bem, no "segredo dos deuses". E raramente perguntávamos, não fora termos como resposta o também britânico "mind your business!".

Num sábado de manhã, fui chamado a S. Bento. Era necessário preparar uma qualquer mensagem a transmitir a Bruxelas, já não me recordo a propósito de que assunto. Eram tempos ansiosos, em que não tínhamos a certeza de que os nossos propósitos pudessem fazer vencimento. Não ter maioria fragilizava muito a nossa posição. A nossa capacidade de garantir determinados objetivos na Assembleia da República era limitada, e isso afetava a governabilidade.

A reunião da meia dúzia de membros do governo que Guterres convocara acabara entretanto. Por algumas horas, havíamos estado naquela sala que, ao tempo de Cavaco Silva, fora criada na cave de S. Bento, com o objetivo de ser uma espécie de "gabinete de crise". Numa decisão que ainda hoje reputo de infeliz, Guterres tinha decidido transferir para aí as reuniões do governo em S. Bento (outras tinham lugar no edifício da Presidência do Conselho de Ministros, na rua Gomes Teixeira, em Campo de Ourique). Foi assim que se acabou com uma bela sala, ornada por uma estupenda tapeçaria de Portalegre, que Marcelo Caetano decidira transformar em sala do Conselho de Ministros, no 1º andar da residência oficial. Seria depois um gabinete que, se bem me recordo, foi ocupado por António Vitorino, Guilherme Oliveira Martins e José Sócrates, entre outros que se por ali se seguiram.

A reunião caíra sobre a hora do almoço. Saí apressado pela pequena escada que leva ao hall rés-do-chão, em direção à porta exterior. À passagem, não pude deixar de olhar, por um instante, para a porta entreaberta da sala de espera. Esse é, muitas vezes, o espaço para encontros ou entrevistas, a zona mais ampla que os primeiros-ministros têm ao seu dispor, para receber, naquele edifício.

Por entre portas, vi-o então, de modo fugaz. Era um dos líderes da oposição. Nas semanas anteriores, no areópago a cem metros de distância, durante os debates parlamentares, ele zurzira, sem dó nem piedade, o primeiro-ministro, a quem acusara das maiores malfeitorias feitas à pátria, das abdicações mais ignominiosas perante Bruxelas. Por humilde tabela, como responsável direto por essa frente europeia, eu próprio fora atingido por essa catilinária oposicionista. Imagino que, na bancada do governo, com a bonomia que lhe era própria, olhando o meu nervosismo de neófito político, Guterres me possa ter dito: "Não se preocupe, meu caro, é a vida!".

Agora, ali estava ele. Vinha, com toda a certeza, para uma conversa (senão mesmo para um almoço!) com o primeiro-ministro, num daqueles encontros que se não podem contar, mas que o compromisso nacional justificava. Com uma curiosidade insanável, ou com uma impaciência legítima, espreitara quando ouviu passos e, desprevenido, acabou por revelar-se a quem passava. Que era eu. 

Não hesitei. Escancarei a porta. Ele sorriu-me, tentando não se mostrar embaraçado, fingindo à-vontade, procurando ser mestre da cena.

- Então por aqui?!, lancei-lhe, com um sorriso do tamanho da minha supresa.

Ele não se deu por achado. Fingindo, sem fingir, uma seriedade que o momento justificava, lançou-me esta frase que, ainda hoje, não esqueci:

- Você não me viu, Francisco! Eu não estive aqui...

Procurando estar à altura da tragicomédia, retorqui:

- Era o que mais faltava! Você nunca aqui viria!

Ontem, ao ler o relato da "ida" de Portas ao Rato, lembrei-me deste episódio. Às vezes, a realidade é mais imaginativa do que a ficção.

terça-feira, agosto 04, 2015

"Os Verdes"



Fotografia de pormenor de um recente comício do Partido Ecológico "Os Verdes".

Quem descobrir onde foi o comício, tem direito a um volume de 600 páginas onde se elencam as divergências entre Os Verdes e o PCP.

Os dias da Europa

Nos dias que correm, por esta Europa, abalada pela crise grega e pela tragédia migratória, todos temos mais interrogações do que respostas. Mas é na forma inteligente como as questões certas são colocadas, mesmo se de forma desencantada e com chocante realismo, que sempre reside a chave das soluções do futuro.

Hoje, respetivamente no "Público" e no "Diário de Notícias", Fernando Neves e Bernardo Pires de Lima escrevem "Racismo e muros, voltem, estão perdoados" e "Batemos no fundo". 

São dois textos que põem o dedo na ferida. Leiam-nos.

Dirceu


Se há alguém a quem Lula deva muito na sua ascensão ao poder essa pessoa chama-se José Dirceu. Líder estudantil durante a ditadura brasileira, foi preso, esteve exilado em Cuba, regressou clandestinamente ao Brasil e viria a ser um dos grandes organizadores do Partido dos Trabalhadores, a frente ideológica que teve Lula da Silva como figura de proa.

Com a chegada de Lula à Presidência, Dirceu foi, clara e naturalmente, o número dois da nova administração. Sem surpresas, Lula confiou-lhe a poderosa chefia da Casa Civil, um lugar que, numa certa medida, pode ser equiparado ao de primeiro-ministro. 

No Brasil, o governo, sendo dirigido formalmente pelo presidente, é uma entidade cuja dimensão (são bem mais de trinta ministérios) não permite reuniões coletivas regulares. Durante os cerca de quatro anos em que fui embaixador em Brasília, recordo-me de ter havido uma meia dúzia de reuniões completas do governo. Por esse modo peculiar de funcionamento, o papel do chefe da Casa Civil torna-se vital. É ele quem cria e coordena grupos sectoriais de trabalho que, de certo modo, e no seu somatório, substituem as reuniões plenárias dos ministros.

José Dirceu foi um chefe da Casa Civil com força e visibilidade. Hoje, parece provado que, em paralelo, esteve no centro do chamado "mensalão", um esquema de financiamento de deputados que permitia ao governo assegurar a aprovação das suas medidas. As verbas para esse mecanismo provinham, ao que ficou provado, da sobrefaturação de certos contratos. Dirceu acabou por ser um dos condenados nesse famoso processo, que abalou fortemente o prestígio de Lula. Teve de abandonar a Casa Civil, sendo substituído por Dilma Rousseff.

Conheci José Dirceu em 2005, poucos dias após a minha chegada a Brasília, num jantar que me foi oferecido em casa de um amigo comum, onde também estavam figuras como o antigo presidente José Sarney, o presidente do Supremo Tribunal, Nelson Jobim, ou o então como agora de novo presidente do Senado, Renan Calheiros. Dirceu era então um homem confiante, que emanava poder, bastante cordial e simpático para comigo e para Portugal, embora projetasse sempre uma aura de mistério, talvez fruto do facto de o olharmos conhecendo o seu complexo passado político.

Dirceu volta agora a ser detido, curiosamente quando cumpria uma pena em prisão domiciliária. Em escassos anos, de figura hiper-poderosa e temida, tornou-se numa das personalidades mais detestadas do Brasil. Ainda antes da sua condenação, sabia-se que tinha dificuldade em viajar de avião, porque era regularmente insultado nas salas de espera dos aeroportos. Com o seu alegado envolvimento na nova operação que investiga a corrupção na Petrobras, Dirceu entra agora num outro calvário. 

Na leitura de muitos brasileiros, esta nova detenção de José Dirceu faz aproximar cada vez mais o atual processo judicial de Lula da Silva. Embora quem conheça a situação no seio do PT, e as relações internas que a estruturam, não deva ter dúvidas que o entendimento entre Dirceu e Lula já há muitos anos que estava bem longe desse dia longínquo de início de 2003, em que ambos entraram no Palácio do Planalto, com uma agenda em que os brasileiros colocaram então uma forte esperança.

segunda-feira, agosto 03, 2015

Despedida de um amigo

O corpo pesado estende-se pela cadeira, por detrás da secretária. A custo, insiste em levantar-se. Para me abraçar, para agradecer a visita. O seu olhar perde-se naquela sala tão cheia de recordações, de histórias, de História. As palavras saem-lhe com alguma dificuldade, quase automáticas, sempre amáveis. Suscita os temas que o mobilizam, as emoções e as certezas últimas que lhe dão alento à vida, mas também as tristezas que o abatem. Escolho as palavras, mas não sei se são as certas. Relembro tempos comuns, mas não tenho a certeza de me estar a seguir. Procuro assuntos que o façam reagir, agarra alguns, deixa passar outros em silêncio. Os nomes fogem-lhe, vive já com essa realidade, organiza o discurso em torno desses espaços vazios. Pergunta-me pela vida, mais para se orientar do que por real interesse. Dou-lhe novidades que, há pouco tempo, seriam para ele banalidades. Instalam-se entre nós as pausas, cada vez mais longas. Fico muito triste, sem saber o que dizer. Despeço-me com a quase certeza de ser aquele o nosso adeus. 

domingo, agosto 02, 2015

Pérolas de Belém

Américo de Deus Rodrigues Tomaz foi "eleito", em 1958, Presidente da República, cargo em que permaneceu até ao dia 25 de abril.
Ao longo dos seus mandatos, algumas frases dos seus improvisos tornaram-se um "must" do anedotário nacional e chegaram a ser objeto de cortes dos serviços de censura. Vejamos algumas dessas pérolas (hoje recordadas por um excelente blogue, mas que não admite partilha):
  • Comemora-se em todo o país uma promulgação do despacho número Cem da Marinha Mercante Portuguesa, a que foi dado esse número não por acaso mas porque ele vem na sequência de outros noventa e nove anteriores promulgados..."
  • “A minha boa vontade não tem felizmente limites. Só uma coisa não poderei fazer: o impossível. E tenho verdadeiramente pena de ele não estar ao meu alcance.” 
  • “É uma terra [Manteigas] bem interessante, porque estando numa cova está a mais de 700 metros de altitude...”
  • "O Senhor Professor Oliveira Salazar, ao longo de mais de trinta anos, é uma vida inteiramente sacrificada em proveito do país, e desconhecendo completamente todos os prazeres da vida, é um homem excepcional que não aparece, infelizmente, ao menos, uma vez em cada século, mas aparece raramente ao longo de todos os séculos."
  • "Eu prolongo no tempo esse anseio de V.Ex.ª e permito-me dizer que o meu anseio é maior ainda. Ele consiste em que, mesmo para além da morte, nós possamos viver eternamente na terra portuguesa, porque se nós, para além da morte vivermos sempre sobre a terra portuguesa, isso significa que Portugal será eterno, como eterno é o sono da morte."
  • "Neste almoço ouvi vários discursos, que o Governador Civil intitulou de simples brindes. Peço desculpa, mas foram autênticos discursos."
  • "Pedi desculpa ao Senhor Engenheiro Machado Vaz por fazer essa rectificação. Mas não havia razão para o fazer porque, na realidade, o Senhor Engenheiro Machado Vaz referiu-se à altura do início do funcionamento dessa barragem e eu referi-me, afinal, à data da inauguração oficial. Ambas as datas estavam certas. E eu peço, agora, desculpa de ter pedido desculpa da outra vez ao Senhor Engenheiro Machado Vaz."
  • "É a primeira vez que cá estou depois da última vez que cá estive."
  • "Hoje visitei todos os pavilhões se não contar com os que não visitei".

Função pública

Em 1979, o governo chefiado por Maria de Lourdes Pintasilgo publicou uma legislação, idêntica à que era já aplicada por muitos outros países, que permitia que os funcionários públicos que fossem cônjuges de pessoal português destacado para missões oficiais internacionais pudessem acompanhá-los, mantendo o vínculo profissional, continuando a descontar para a Caixa Geral de Aposentações, tendo como valor de referência o último salário auferido. Assim se evitava terem de optar por uma simples licença sem vencimento, para poderem acompanhar o marido ou a mulher. Não obstante suspender qualquer progressão na carreira, com perda de promoções e cargos de chefia, o que tinha natural impacto no montante da pensão no momento da aposentação, o mecanismo legal permitia manter o vínculo básico, não prejudicando nem onerando minimamente a globalidade do sistema. Quando o destacamento era suspenso ou terminava, o cônjuge funcionário regressava ao seu serviço de origem ou, de acordo com o interesse do Estado, era reafetado a outras funções.

O dispositivo funcionou sem problemas por mais de 35 anos. Evitou a separação de casais, facilitou a educação dos filhos num ambiente normal, contribuiu para a estabilidade e harmonia familiar. Foi aplicado a centenas de pessoas, não só aos diplomatas como a muitas outras profissões. Não prejudicava ninguém, não concedia nenhum privilégio indevido, garantia um mínimo de direitos.

Dizem-me agora que, há dias, os funcionários no ativo que estão nesta situação foram informados que, por uma subreptícia mudança na legislação introduzida em 2014, o decreto-lei de 1979 fora revogado. Muitos haviam entretanto descontado debalde durante cerca de um ano. No caso do Ministério dos Negócios Estrangeiros, está por conhecer-se o que eventualmente terá feito para tentar evitar este arbítrio ou estará a fazer para o remediar.

A garagem da Varina


Cada vez mais, a facilidade de estacionamento é um fator de valorização de um restaurante, quando pensamos em escolher um local para comer. A densificação do tráfego tornou algumas zonas de Lisboa locais "iníveis", isto é, onde verdadeiramente se não pode ir de carro.

(Já estou a ver os críticos: "Este tipo é um burguês, quer parar o carro à porta dos restaurantes!" Ao que respondo: "Claro que quero! Se puder!". Faço parte de quantos, com todo o orgulho, cuidam em preservar, com todo o gosto, a sua "zona de conforto").

Os parques e o estacionamento de rua estão caríssimos e já tenho visto a "fatura" do parqueamento corresponder a bem mais de 10% do custo de uma refeição. Essa é uma das razões (a outra é o desagradável mas indispensável controlo etílico) pelas quais muita gente usa hoje taxi (ou Uber, que é bem mais agradável) para ir comer fora. Esse é também o preço do comodismo.

Os bairros históricos são, neste particular, um bom exemplo do que afirmo. Recordo-me dos tempos em que se conseguia um lugar para estacionar no Bairro Alto, ou até em Alfama ou no Castelo.

A historieta que passo a contar tem a ver com a Madragoa, um bairro onde hoje também é muito difícil estacionar. Por anos, ali pelo Quelhas ou pela velha Emissora, em baixo na Esperança ou pelas Trinas, conseguia-se sempre um lugar. Hoje, nem o meu Smart tem sorte!

Por ali fica um dos meus restaurantes de culto, a "Varina da Madragoa". Criado após o regresso de África do celebrado Francisco Queirós, figura inesquecível que viria a marcar uma época de Lisboa com o seu "Sua Excelência", a "Varina" passou depois, durante muitos anos, para as mãos do meu amigo António Oliveira.

As décadas de 70 e 80 foram o período dourado do restaurante. Meia Lisboa parava então por ali. Dada a proximidade do parlamento, os políticos eram imensos aos almoços. (A saudável concorrência era a antiga "Travessa", chamada "as belgas" pelos "habitués", o que tinha a ver com a nacionalidade da Vivianne, mas nada com a da Sofia). José Saramago e Isabel da Nóbrega eram clientes fiéis aos almoços de domingo (a "Varina" ainda hoje tem a inestimável qualidade de abrir todo o domingo). Até Cavaco por lá passou, levado por Eurico de Melo, como as paredes atestam. O êxito levou então o Oliveira - que hoje vive placidamente a sua reforma num simpático lugar da "outra banda" - a abrir, quase ao lado, a "Mercearia" e, mais tarde, a "Carvoaria". Na "Varina" me despedi dos amigos quando fui para Oslo, em 1979, e para Nova Iorque, em 2001. Aí comemorei o meu meio século e fiz muitas jantaradas de amigos e família, às vezes "fechando" mesmo a casa. Na vizinha "Mercearia" disse adeus aos próximos antes de partir para Londres, em 1990.

A "Carvoaria" desapareceu cedo. A "Mercearia" durou mais. Mudou entretanto de dono e de nome, chama-se hoje "Osteria", é um "conceito" (esta moda terminológica diverte-me) diferente, com uns petiscos italianos bem simpáticos e basta gente nova a dar alegria ao espaço e ao bairro.

A "Varina" lá continua, com a eterna simpatia do meu amigo Veiga no serviço às mesas, às vezes com clara dificuldade para, sozinho, aguentar as salas, noutras (vou ser sincero) para justificar algum evidente declínio de uma cozinha que, sem nunca ter sido soberba, chegou a ser bastante recomendável e agora, com frequência, tem falhas. A relação qualidade/preço continua, no entanto, aceitável.

Uma noite, já há muitos anos, andei bastante tempo até conseguir um local para estacionar perto da "Varina". Abri o guarda-vento do restaurante, que estava praticamente cheio. O Oliveira recebeu-me com um sorriso, lá do fundo. Fui avançando por entre as mesas e, à distância, lancei-lhe: "Foi um inferno para conseguir estacionar! Tem de pedir aos seus clientes para apertarem melhor os carros na vossa garagem". E, discretamente, pisquei-lhe o olho! O Oliveira não se "descoseu". E respondeu: "Aquilo é sempre difícil. Também são só oito lugares..." Recordo os olhares surpreendidos de vários dos presentes, entre os quais o meu saudoso amigo Eduardo Azevedo Soares. Afinal, a "Varina" tinha garagem e eles não sabiam! Prolongámos a graça por uns minutos mais, até tudo se desfazer em risos.

Até hoje, ainda tenho "saudades" da garagem da "Varina"! 

sábado, agosto 01, 2015

Propaganda


Edson Athayde, na senda de um grupo de brasileiros que fizeram muito bem ao mercado publicitário português nos anos 90, desenhou, com grande êxito, a campanha do PS de Guterres para as eleições legislativas. Mas isso foi há 20 anos.

Athayde é um criativo inteligente (deduzo eu, que nunca falei com ele) e culto. O seu livro "A publicidade segundo o meu tio Olavo" é muito divertido pelo que trouxe para férias (como faz parte de algumas dezenas de volumes, não sei se o chegarei a reler). 

O DN relata hoje que, para os lados do Rato, andam em polvorosa com a ineficácia da campanha de "outdoors" inventada por Athayde. Já tinha notado a mediocridade desses cartazes. Há um, em que uma jovem surge a tirar a cortina a um horizonte onde desponta um sol, que parece copiado do céu dos livros de Religião & Moral do meu tempo de liceu. Como mensagem, é mais que pífio.

Mas posso imaginar que a campanha de Athayde se confronte também com um problema doutrinário. Que mensagem quer o PS fazer passar? Conclamar a ira das "massas" contra as safadezas do governo, passando a ideia de que, chegado a S. Bento, "vai tudo raso"? Ou transmitir uma mensagem de alternativa tranquila, a qual, por seu turno, pode "ajudar à festa" de esquecimento das patifarias cometidas nos últimos quatro anos?

Não está fácil a vida para António Costa. Mas Athayde não está a ajudar.

sexta-feira, julho 31, 2015

Para fechar o assunto

Roberto Martinez saiu de selecionador. Nada mais natural, perante a derrota — ou, mais rigorosamente, a não-vitória — num Mundial que ele pr...