segunda-feira, setembro 26, 2011

Incertezas

A conversa, à minha frente, entre dois amigos, ia animada, numa esplanada parisiense. Nesse final de tarde do passado sábado, tinha-lhes dado para a política.

Eu estava a ser um espetador algo distante do diálogo. Para imenso espanto deles (e, vá lá!, até de mim próprio), havia decidido não me imiscuir na conversa, enquanto falassem desses temas. Expliquei, simplesmente, que, como era fim de semana, tentava não me incomodar. 

Sem sucesso, tinha puxado a conversa para o magnífico resultado, na véspera, do Porto-Benfica, para a subida do PSG no campeonato francês e para o "hat-trick" do Ronaldo, acabado de ocorrer. Mas ninguém ia em futebóis. Procurei suscitar a questão da Cesária Évora, do novo CD de Sérgio Godinho e chamei a atenção para que, se não se apressassem, já não haveria bilhetes para verem o Aznavour, no "Olympia". Também não consegui dar música à conversa. Em desespero, apelando já a sentimentos de outra natureza, puxei, pela enésima vez, o tema Strauss-Kahn. E, no mesmo registo, até cheguei a atirar para a mesa conversas privadas transalpinas. Nada, não descolavam do tema.

Um dos amigos, que anda mais cético, dizia já não acreditar em nada. O outro, afirmativo, tinha certas coisas por adquiridas, de "fonte limpa". A certo passo, já nem sei bem a propósito de quê, disse:

- Tenho a certeza absoluta!

Resposta pronta do outro:

- Certezas absolutas?! Tu estás é doido! Hoje só há incertezas absolutas!

De facto.

Fausto

Mais uma boa notícia para a música portuguesa: Fausto concluiu a gravação do duplo álbum que completará a trilogia que inclui "Por este rio acima" e "Crónicas da terra ardente", o qual acompanha as viagens terrestres dos portugueses por África.

Como é que soube, quando esta notícia não foi ainda publicada? Disse-me ontem um velho amigo chamado Carlos Fausto Bordalo Gomes Dias ou, simplesmente, Fausto.

domingo, setembro 25, 2011

Ouf!

Já por aqui confessei, mais de uma vez, que, embora use computadores desde há quase um quarto de século, continuo a ser um completo "nabo" em informática. E, mais do que isso, não tenho a menor intenção de aprofundar os meus conhecimentos neste domínio. Tenho muito mais que fazer, acreditem!

Por essa razão, fico completamente sem soluções em face de incidentes como os que aconteceram nas últimas 24 horas, quando um inesperado "hóspede" criou alertas negativos sobre este blogue na comunidade informática. Lá me esforcei por deitar ao "lixo" tudo quanto me passou pela cabeça que pudesse estar a causar o problema, quando, na realidade, um pouco mais de atenção poderia ter-me conduzido, com grande facilidade, para a origem da questão.

Com tudo resolvido em algumas (longas) horas, com a "Google" a portar-se bem (terá sido porque aqui a elogiei, há dias?), devo dizer que esta experiência me fez refletir um pouco sobre o mundo informático, sobre os nossos interlocutores apenas virtuais nesse mundo e, em especial, sobre a nossa dependência dessa "nuvem" que sobre nós paira e à qual entregamos os nossos arquivos, as nossas relações, as nossas fotografias e os nossos textos. 

Confesso que, nas últimas 24 horas, aprendi uma lição: converti-me às vantagens do "back-up".

Uma nota final para voltar a agradecer a ajuda de quantos - e foram muitos! - se interessaram pelo problema que afetou o blogue. Confirmaram que pode haver uma rede de solidariedade entre quem se conhece menos bem mas é "consócio" nessa tal "nuvem". Bem hajam!

Bancas

Leio no "Público" este título alarmante: "Banca nacional já perdeu 46% do seu valor em bolsa este ano".

Leio no "Journal de Dimanche": "La dégringolade des trois principaux établissements français" - desde 1 de julho, BNP Parisbas perdeu 53% do seu valor em bolsa, Société Générale 61% e Crédit Agricole 58%.

Os amigos e as ocasiões

Há duas atitudes comuns, entre outras possíveis, quando dois amigos nossos se incompatibilizam.

Uma delas é optar abertamente pelas razões de um deles, fazendo-as totalmente nossas e daí retirando as necessárias e radicais consequências no tocante à relação com o outro. Quase sempre, é isso que cada um, expressa ou implicitamente, nos pede.

Outra é procurar preservar ambos os vínculos de amizade, não obstante se poder reconhecer que um desses amigos até pode ter mais razão do que o outro. Nesse caso, emerge o risco simétrico desse amigo, o tal que tem mais razão, poder não entender que continuemos a nossa relação com quem a tem menos. 

Alguns acharão que esta segunda atitude é uma contemporização frágil, quiçá reveladora de pusilanimidade. Não vejo as coisas assim. As amizades criadas na vida são valores "bilaterais" (para usar um termo diplomático), que devem situar-se, tanto quanto possível, acima dos circunstancialismos exteriores. Bem basta aturarmos as razões da nossa consciência, quanto mais "importarmos" as razões dos outros. A menos que estejamos perante a ultrapassagem de fronteiras éticas - onde a nossa própria consideração pessoal por um dos amigos poderia ter tendência a esbater-se.

Mas a que proposito vem isto? De nada, deve ser do belo sol deste domingo de outono em Paris.

Explicação

Alguns leitores estranharão o facto de terem desaparecido, de alguns posts recentes, links que lá existiam, dando acesso a temas musicais. A verdade é que algum desses links comportaria um "conteúdo malicioso", o que fez com que este blogue tivesse estado sob "suspeita" informática durante algumas horas.

Para matar o mal pela raíz, eliminei todos esses links e o blogue parece, para alguns leitores, ter voltado à sua normalidade. Do mesmo modo, eliminei vários "contadores", o mecanismo que nota os blogues que citam o "Duas ou três coisas" e mais algumas coisas mais. Já reportei o assunto à gestão dos blogues e espero que, dentro de algum tempo, tudo fique clarificado.

O meu obrigado a todos os amigos que se têm preocupado com esta situação. 

sábado, setembro 24, 2011

Filipe Pinto-Ribeiro

Para encerrar da melhor forma a onda musical, bem diversificada, que "se abateu" sobre este blogue nos últimos dias, regista-se agora o magnífico espetáculo que ontem teve lugar na Embaixada de Portugal em Paris. 

Filipe Pinto-Ribeiro, um dos grandes pianistas portugueses contemporâneos, apresentou, a uma sala a abarrotar, um conjunto de peças de música europeia, naquela que representou a nossa contribuição para o ciclo anual de eventos organizados pelos centros culturais europeus em Paris.

Foi uma das mais belas jornadas da série de espetáculos musicais "Entre pautas/entre partitions" que, sob a égide do Instituto Camões, temos vindo a organizar na residência portuguesa em Paris. Para quem queira a eles assistir no futuro, sugiro que esteja atento ao que se publica aqui. Uma quota de convites estará disponível para quem se increva pela internet.

E, quem cá não esteve ontem, pode saber algo mais sobre Filipe Pinto-Ribeiro aqui.

Sodade

Cesária Évora sofreu um AVC e está internada aqui em Paris. O "Le Monde" dedica-lhe, na sua edição de hoje, uma merecida página.

A certo ponto do texto, a jornalista autora do texto destaca o papel de José da Silva, o empresário da cantora, que, pela primeira vez, "no final dos anos 80, em viagem a Lisboa, encontrou Cesária num bar", lançando a partir daí a sua carreira internacional. Mas a jornalista não se fica por aqui: ao notar o modo chocado como José da Silva se viu agora obrigado a relatar à imprensa que as condições de saúde de Cesária lhe não permitem continuar a cantar em público, assinala que foi este empresário "quem a fez sair fora das suas fronteiras lusitanas e colonialistas". 

Caramba! "Colonialistas"? No final dos anos 80, quando Cabo Verde é independente desde 1975? Para além da iliteracia político-cultural - outros diriam, simplesmente, estupidez - que esta referência traduz, o lapso é bem revelador da persistência, num certo imaginário cultural europeu, de restos de uma lusofobia que a duração temporal do nosso colonialismo, para além da de outros congéneres europeus, acabou por enraizar. Há um preço que, acreditem!, continuamos ainda a pagar por isso, no "retrato" externo do nosso país. Para a semana, vou também referir esse facto, num seminário em Lisboa onde abordarei o tema bem atual da imagem de Portugal e da sua economia.

Cesária Évora, na sua genialidade, abordou em canção a questão dos caboverdeanos que foram trabalhar para S. Tomé e Príncipe e que por lá ficaram. Esta era uma realidade até então muito pouco conhecida em Portugal.

Eu havia-me defrontado com ela em inícios de 1976. Estava de visita a S. Tomé, enviado por Lisboa, para tentar resolver uma greve dos professores cooperantes que Portugal para aí tinha destacado. Um dia, em conversa com uma empregada da residência do nosso embaixador, a senhora revelou-me que era caboverdeana e que estava há muito tempo em S. Tomé, para onde o marido, já falecido, tinha vindo trabalhar nas roças do cacau. Perguntei-lhe se, entretanto, já tinha voltado à sua terra ou se tinha intenção de fazê-lo definitivamente, agora que o seu país era independente. Nunca esqueci o olhar intensamente triste com que me disse: "Ó doutor? Como? Nunca tive dinheiro nem nunca vou ter para voltar a ver Cabo Verde!". Foi nesse instante que acordei para o drama imenso dessa gente, expatriada dentro do Portugal da ditadura, para quem - para essas pessoas, sim! - o sistema colonial não morreu com o 25 de abril.

Cesária Évora cantou, para sempre, como ninguém, em morna num melódico crioulo, a tragédia dessa sua gente que foi para S. Tomé, no inesquecível "Sodade". 

José Niza (1938-2011)

Que venha o sol o vinho e as flores
Marés, canções de todas as cores
Guerras esquecidas por amores;

Que venham já trazendo abraços

Vistam sorrisos de palhaços
Esqueçam tristezas e cansaços;

Que tragam todos os festejos

E ninguém se esqueça de beijos
Que tragam pendas de alegria
E a festa dure até ser dia;

Que não se privem nas despesas

Afastem todas as tristezas
Pão vinho e rosas sobre as mesas;
Que tragam cobertores ou mantas
E o vinho escorra p'las gargantas
E a festa dure até às tantas;

Que venham todos de vontade

Sem se lembrarem de saudade
Venham os novos e os velhos
Mas que nenhum me dê conselhos!

Que venham todos de vontade

Sem se lembrarem de saudade
Venham os novos e os velhos
Mas que nenhum me dê conselhos! 

Na morte de José Niza, um homem solidário e sonhador, aqui fica, em homenagem, a sua "Festa da vida", a letra que construiu para a canção, com música de José Calvário, com que Carlos Mendes ganhou o Festival RTP da Canção, em 1972.

sexta-feira, setembro 23, 2011

Madeira

Não deve haver português com internet que, nestes últimos dias, não tenha recebido uma anedota, um poster ou outra graça alusiva à Madeira e à respetiva gestão financeira.

Às vezes pergunto-me como é que os estrangeiros olham para esta nossa propensão para aliviar as dores pelo humor. Uma coisa me parece bem clara: não convirá que a "troika" se convença de que, lá porque afivelamos um sorriso amarelo, andamos felizes...

Protocolo

Estive ontem numa palestra proferida pelo antigo chefe do governo espanhol, José Maria Aznar. 

O "presidente del Gobierno" foi uma figura marcante da vida política espanhola, titulando oito anos consecutivos de liderança. A Espanha vivia então os tempos de uma economia de sucesso, com uma forte influência na vida europeia. A isso correspondeu um momento de uma nova afirmação internacional de Madrid, com algumas cambiantes no próprio perfil externo do país, de que a mais notória terá sido o forte alinhamento político com os EUA, a anteceder a respetiva intervenção no Iraque, em 2003.

Uma momentânea hesitação ocorrida na definição do lugar de Aznar, na mesa onde ontem se sentavam os participantes no debate, trouxe-me à memória uma imagem que revela bem como o protocolo pode ter uma importância decisiva na vida política.

Se olharem para a fotografia acima, todos identificarão os quatro chefes de governo que, em 17 de março de 2003, estiveram na chamada "cimeira dos Açores". Não obstante serem quatro, fica claro que a centralidade da imagem está focada em George W. Bush, que tem à sua direita Tony Blair e, à esquerda, José Maria Aznar, sobre cujo ombro Bush colocava uma amigável mão. O chefe do executivo português, embora anfitrião da cimeira, surge num extremo, claramente secundarizado na imagem de grupo.

Curiosamente, as coisas não eram assim... segundos antes desta fotografia. No início da cena, Aznar estava colocado à direita de Durão Barroso, o que conferia ao chefe do executivo português um lugar central, e natural, num ato que decorria em solo português. Porém, quem tiver observado o filme da época terá verificado que o chefe do executivo espanhol, com o instinto de quem percebe que as fotos têm uma relevância histórica forte, abandonou a companhia do seu colega português e foi colocar-se ao lado do titular da Casa Branca. E, na sua perspetiva, teve toda a razão para o fazer. A prova é que grande parte das fotografias que surgiram posteriormente na imprensa internacional excluíram o então chefe do executivo português (basta ir ao "Google images" para testar isso).

As coreografias protocolares são, por vezes, da maior importância política.

quinta-feira, setembro 22, 2011

Carreiras

Há pouco mais de dois anos, publiquei por aqui, num post, uma história verdadeira. Hoje, apetece-me repeti-la:

Um dia, na segunda década* dos anos 70, a Embaixada de Portugal em Londres recebeu a visita de um militar de Abril, membro do Conselho da Revolução, homem muito estimável, que deixou uma rara imagem de educação, elegância e bom-senso na sociedade política de então.

Como se impunha, o embaixador ofereceu-lhe uma refeição. O repasto correu de forma simpática, na magnífica sala de jantar ornada de pinturas, daquela que é, sem sombra de dúvidas, uma das mais belas residências que Portugal tem pelo mundo.

Num determinado momento da conversa, o nosso militar deixou cair uma confissão: "Vou contar-lhe um segredo, senhor embaixador: um dos meus maiores sonhos foi sempre poder vir a ser, um dia, embaixador de Portugal em Londres". Os tempos políticos, à época, não eram já muito propícios a poder garantir, de mão beijada, sinecuras a quem não possuía experiência e qualificações profissionais adequadas à função. Mas nunca fiando...

E, por essa razão, e perante o silêncio protocolar do embaixador, o militar não ficou sem resposta. Um jovem diplomata presente, homem do mundo, cuja inteligência e arte voltariam, no futuro, a colocar Londres no seu destino, não resistiu e retorquiu: "Tem graça, senhor major. No meu caso, é precisamente o contrário: sempre tive como ambição de vida ser comandante da Região Militar Norte"...

O major, inteligente e perspicaz, entendeu o recado. E mudou de conversa. 

* Ver os comentários

RLG

Embora, com toda a certeza, Sérgio Godinho não tenho disso conhecimento, existe, bem no norte do Brasil, um seu clube de fãs, sob a enigmática sigla RLG, que vim a descobrir significar "Rosário loves Godinho".

Durante todo tempo em que vivi naquele país, recebi dessa agremiação, com elevada frequência, insistentes manifestações de apreço pelo trabalho daquele nosso cantor. Isso voltou a acontecer agora, nas últimas horas, com uma comunicação informática de onde ressoa a estranheza pelo facto de não ter aqui sido dada nota da saída de um novo álbum do cantor, com o nome de "Mútuo consentimento".

Aqui fica a minha mea culpa.

PS - E hoje mesmo, PMP, chegou-me o CD

Bandas

Dado o inusitado espanto que provocou na nossa comunidade de comentadores o facto de eu gostar bastante dos REM, e para que não restem dúvidas sobre o ecletismo dos meus gostos musicais, deixo um exemplo de uma outra banda, igualmente clássica para a nossa geração, que também recolhe a minha elevada preferência: conjunto António Mafra!

Palma

Para compensar o post anterior, anuncia-se, para nossa alegria, um novo Jorge Palma, o seu novo álbum "Com todo respeito".

quarta-feira, setembro 21, 2011

O fim dos REM

Há dias tristes na história da música. Hoje é um deles. Foi anunciada a separação do REM.

Júlio Resende (1917-2011)

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A democracia e a Europa

Ontem, um velho e avisado amigo francês comentava comigo o facto de apenas cinco dos 17 membros da zona euro terem, até ao momento, ratificado o programa de ajuda à Grécia aprovado no dia 21 de julho - faz hoje precisamente dois meses! A maioria desses Estados argumenta com a lentidão dos processos decisórios internos, isto é, com a necessidade de serem respeitados os procedimentos democráticos de cada país.

Com um ar irónico, atrás do qual se escondia uma premonição lúgubre, esse meu amigo concluía: "Quem havia de dizer que haveria de ser a democracia a acabar com a Europa". Sem, por ora, partilhar necessariamente a funesta previsão subjacente ao raciocínio, não me contive e acrescentei: "Tendo a democracia nascido na Grécia..."

segunda-feira, setembro 19, 2011

O MES

Acabo de receber uma "convocatória" para um almoço em Lisboa, a 12 de novembro. Nessa data se celebrarão 30 anos passados sobre um jantar com que um partido decidiu encerrar a sua (já então muito escassa) atividade. Comemorar um jantar com um almoço é uma saudável redundância gastronómica.

Assim, e se tudo correr como espero, lá irei de Paris a Lisboa, para estar presente nesse repasto (escolham um sítio de decente amesendação, por favor!) onde muitos nos encontraremos, sem nostalgias nem proclamações, para lembrar essa "improvável aventura" a que, para sempre, ligámos a nossa juventude e a nossa esperança.

É claro que não estaremos todos por lá: alguns já se foram, outros saíram para outros destinos, uns poucos, ainda, deixaram-se tomar pela indiferença. Mas seremos mais do que os suficientes para nos revermos nessa ideia que continua a unir-nos, muito para além das conjunturas e dos percursos que cada um decidiu seguir.

O partido de que acima falei, o MES, o "Movimento da Esquerda Socialista" (ironizava, ao tempo, um amigo de outras ondas políticas: "mas há uma direita socialista?"), juntou muito boa gente nesses tempos pós-abril, pessoas vindas das lutas académicas, do sindicalismo menos alinhado, do catolicismo inquieto. Gente que não se revia noutras linhas então dominantes no mercado das opções políticas. Com o tempo, cada um de nós escolheu o seu caminho, embora a grande maioria quase sempre para o mesmo lado. Alguns revemo-nos de tempos a tempos, outros quase nunca se encontram. Mas, para sempre, somos todos, com imenso orgulho, "do MES".

Um dia, ao tempo do primeiro governo Guterres, o então primeiro-ministro, numa viagem de trabalho ao estrangeiro, em que o Augusto Mateus e eu o acompanhávamos, perguntou: "Neste governo, há uns seis ou sete antigos militantes do MES, não é?". Olhei para o Augusto e respondi, sem ter a certeza exata do que afirmava: "Um pouco mais, julgo que somos aí uns 14". António Guterres olhou para nós, verdadeiramente surpreendido. Nunca se havia dado conta que, em pouco mais de 40 ministros e secretários de Estado havia essa elevada percentagem de antigos membros do MES. Creio que, por um segundo, deve ter pensado que convivia com uma eventual "quinta coluna". O que estaria bem longe da verdade.

A inexorável lógica quantitativa do voto nunca foi o forte do MES. Como alguém diria, mais tarde, o nosso voto era um "voto de qualidade" ou a expressão de uma "imensa minoria". Em 1975, nas primeiras eleições, para a assembleia constituinte, no auge da sua expressão política, as urnas conferiram ao MES uns impressivos 1,02% de votos, o que conduziu um seu dirigente a uma declaração que ficou histórica: "Com esta votação, só temos condições para crescer...". Nesses tempos de façanhudos dirigentes políticos, cheios de pronunciamentos de rotunda gravidade, o MES teve sempre muito poucos votos mas imenso humor.

O rumor dos claustros

O embaixador errava, por aqueles dias, pelos corredores das Necessidades. Pelo vigor da passada, pelo modo confiante como observava à sua volta, era patente que estava ungido da determinação daqueles a quem, ao virar da esquina do futuro próximo, iriam ser atribuídas novas e importantes responsabilidades. Os contínuos já o olhavam de uma forma mais respeitosa, os jovens adidos com os quais se cruzava baixavam a cabeça, num reverencial temor, ficando a segredar murmúrios em torno do seu nome. Ele era, nesses dias de mudança, o objecto privilegiado do chamado "rumor dos claustros" - uma vetusta forma de boataria diplomática que, em casos limite, chega quase a ser constitutiva de direitos.

Forte das bençãos do destino que inexoravelmente se aproximava, faltando apenas o despiciendo detalhe do convite, mas já com a segurança dos putativos eleitos, prenhe de confiança que contactos recentes só tinham adubado, abriu a porta de um determinado gabinete e, não podendo conter a exploração do sucesso que aí vinha, comentou, para uma funcionária, pessoa tida por bem informada, dado o seu lugar na geografia funcional da casa, ciente de a ir ver ecoar as suas expectativas:

- Então!? Fala-se por aí muito no meu nome, não é?!

A senhora, uma distinta servidora da casa, já vira passar muitos mundos, das glórias aos ocasos, testemunhara a chegada e a partida de várias ambições, olhava já para tudo aquilo com uma relativização construída num sereno bom-senso. Pelo que, arvorando um indefinível sorriso, respondeu ao seu interlocutor:

- Falava, senhor embaixador, falava! Agora, esta semana, já se fala noutros nomes...

Feiras & vaidades

Há dois anos, quando publiquei “Antes que me Esqueça”, sugeriram-me que, na feira do livro seguinte, lá estivesse umas horas, num dia a defi...