sexta-feira, abril 01, 2011

Crise na maioria

Numa recente reunião das chefias da UMP, o partido da maioria que apoia o presidente francês, o antigo primeiro-ministro Jean-Pierre Raffarin, pertencente à sensibilidade mais centrista, mal chegado à mesa de trabalho, dirigiu-se desta forma ao presidente Nicolas Sarkozy:

- Senhor presidente, estamos divididos e fraturados, estamos em crise, a situação é muito grave, há aqui claramente dois campos!

Conhecidas que são algumas tensões políticas que atualmente parece atravessarem a maioria governamental, os presentes na sala terão ficado algo expectantes. Raffarin esclareceu:

- Há quem aqui tenha já café e há quem ainda o não tenha...

A história vem ontem numa revista.

Nada melhor que o humor para descrispar os ambientes políticos...

quinta-feira, março 31, 2011

Petróleo, mentiras e árabes

Hoje, dia das mentiras, deixo aqui registada uma que ficou na memória da minha geração.

Em fevereiro de 1971, quando o mundo, e Portugal dentro dele, passava por grandes perpexidades no tocante ao abastecimento oretolífero, um rumor chegou, uma tarde, a setores políticos e jornalísticos de Lisboa: um grupo de importantes "sheiks" árabes iria passar pela capital portuguesa, tendo marcado um jantar no "Tavares", o mais emblemático restaurante da cidade. A notícia surgira, através de alguém da TAP, pelo que um membro do governo ter-se-á deslocado apressadamente de Coimbra para tentar um contacto com os visitantes, os quais talvez pudessem ser a chave para a flexibilização das condições altamente restritivas em que Portugal então vivia, no tocante a fornecimentos de petróleo.

No diário "O Século", que havia conseguido, "de muito boa fonte", a informação sobre o repasto árabe nos dourados do "Tavares", o chefe de redação, José Mensurado, decidiu enviar o repórter Roby Amorim para o local, tendo este testemunhado a chegada do Rolls Royce, com batedores, que transportava os nababescos visitantes. Estes, chefiados pelo "príncipe Iben Seddak", relutantes à intrusão jornalística, revelaram-se pouco prolixos, deixando apenas cair, através de um tradutor, escassas e pouco esclarecedoras declarações, as quais, no entanto, serviram de farto objeto, no dia seguinte, a magníficos título, notícia e fotografia, nessa "caixa" em exclusivo obtida pelo jornal da família Pereira da Rosa (de que conservo um precioso exemplar). A cinco colunas "O Século" garantia: "Negoceia-se em Teerão. Mas encontram-se árabes em Lisboa e o tema também é petróleo", referindo-se às negociações em curso sobre o chamado "Acordo de Teerão" no âmbito da OPEC.

Para o que aqui interessa: era tudo falso! Os tais "árabes", vestidos a rigor no "Paiva", eram figuras da vida social lisboeta (o chefe cozinheiro Michel da Costa, Manecas Mocelek, Nicha Cabral, Jorge Correia de Campos e outros), "O Século" foi objeto de um gozo geral (só minorado pela intervenção da censura) e o contacto credibilizador na TAP terá mesmo sofrido represálias, tal como o próprio José Mensurado. No "República", Artur Portela Filho escreveu então, na sua coluna "A Funda", uma crónica deliciosa, intitulada "Os árabes da rua do Século". Pelos cafés de Lisboa, a história (que conto de memória) deu para rir, por semanas.

O estertor da ditadura já era abalado por estas pequenas mentiras. Meses depois, surgiriam por Lisboa boatos de uma revolta militar. O regime não acreditou. Ainda bem. Era verdade.   

Em tempo: leia aqui toda esta história de forma bem mais completa.

Jornalismo

Há dias, já no auge da crise na Líbia, o jornalista da RTP, Paulo Dentinho, fez uma magnífica entrevista a Mouammar Kadhafi, um "furo" jornalístico da maior qualidade. Equilibrada e inquisitiva q.b., a conversa foi crescendo de ritmo e foi marcada pela inteligência e pertinências das perguntas, que permitiu extrair respostas curiosíssimas. 

Vi a entrevista de Paulo Dentinho ser citada, abundantemente, em toda a comunicação social internacional, com extratos a correrem o mundo das grandes televisões. Curiosamente, ou talvez não, esta excelente peça de jornalismo passou quase despercebida em Portugal, pelo menos a avaliar pelo que me chegou.

Será que se tivesse sido produzida por canais privados, com outros meios coadjuvantes de ressonância mediática, o destino português da peça teria sido outro? Deixo a pergunta.

Coincidências

Há dois dias, veio aqui a Paris, em serviço, uma amiga de Lisboa. Ao final desse dia, alguém comentou que essa pessoa era extremamente parecida com uma determinada jornalista portuguesa. 

Era verdade! Eu próprio tinha feito uma "gaffe", uma vez, confundindo as duas. Mas já não via essa jornalista há uns bons 12 anos.

Ontem, chegado ao escritório, recebo um telefonema. De quem? De Portugal, dessa jornalista, a convidar-me, em nome de uma organização onde trabalha, a fazer uma palestra em Lisboa, no início de Maio. 

Com a maior naturalidade, e para grande surpresa dela, disse-lhe: "Ainda ontem aqui falámos de si". Mas quem estava mais surpreendido era eu.

As coincidências cada vez mais me intrigam. Leiam aqui, aqui, aqui e aqui.

quarta-feira, março 30, 2011

Gorbatchev

Há dias, contei aqui uma historieta de Gorbatchev. Dou-me agora conta que o antigo presidente fez ontem 80 anos, recebendo homenagens um pouco por todo o mundo, que o consagram como alguém responsável por um tempo charneira da história contemporânea. Escrevi "todo mundo"? Na Rússia, apenas 14% das pessoas têm uma memória positiva de Mikhaïl Gorbatchev.

Um dia, em Março de 2000, António Guterres convidou o então ministro da Defesa, Júlio Castro Caldas, e eu para um almoço com Gorbatchev, na residência oficial, em S. Bento. Confesso que entrei para esse almoço (a cinco, porque nele estava também o intérprete que sempre acompanhava Gorbatchev) com uma elevada expectativa. Na realidade, tratando-se de uma figura que atravessara um período riquíssimo da vida internacional, que protagonizara o fim do mundo soviético, que vivera a trágica convulsão interna dessa desagregação, que fora interlocutor estratégico privilegiado dos Estados Unidos e de personagens como Thatcher, Kohl ou Mitterrand - por todas essas e por outras razões mais eu esperava ir ter um almoço memorável. Nunca comparei notas com António Guterres e Júlio Castro Caldas sobre esse repasto, mas devo dizer que saí dele um tanto desiludido com a figura que o justificou.

Mikhaïl Gorbatchev não deixa de ser uma personalidade interessante, mas, quando o aprecio à luz daquelas horas em que o ouvi, está muito longe de ser uma figura fascinante. Falou imenso, mas deu-me a sensação de ter criado e ensaiado um discurso feito à medida daquilo que os seus interlocutores dele esperariam, auto-justificativo, muito óbvio, com ideias que, como dizia o outro, quando eram originais não eram boas e que quando eram boas não eram originais. Mais tarde, ao lê-lo, voltei a não encontrar razões para mudar de opinião.

Dito isto, que fique claro!: tenho consciência de que Mikhaïl Gorbatchev é uma das grandes figuras da história contemporânea, a cujo sentido de compromisso e adesão sincera às ideias da mudança a liberdade e paz internacionais muito devem. Por isso, "nazdrovia" pelos seus 80 anos.

BFM

Fui ontem ao canal de televisão BFM, convidado a comentar a situação político-económica em Portugal. A BFM é uma espécie de SIC-Notícias da área económica, com grande penetração nos meios empresariais e dos mercados, que também lhe advém da sua ligação ao diário "La Tribune".

Dir-se-á que, nos dias que correm, a presença de um embaixador de Portugal num debate televisivo pode constituir um exercício de alto risco. Talvez seja. Mas considero que, independentemente da complexidade dos tempos que atravessamos, me compete dar notas explicativas sobre o funcionamento do nosso sistema institucional, colocando, com serenidade e isenção, as posições que definem o debate político em Portugal. E que também pode ser útil, para o espetador e ouvinte (porque a entrevista passou também na BFM rádio) francês, conhecer melhor as razões por detrás de certas decisões que Portugal titula.

O "som" da entrevista aparece neste "podcast", desde que se tenha a paciência de alguns minutos.

A economia e a democracia*

A imprensa europeia tem estado particularmente atenta, nos últimos dias, à situação política portuguesa, com especial destaque para a reprovação pelo parlamento do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC), que desencadeou o pedido de demissão do primeiro-ministro José Sócrates.

Diversos líderes europeus, tal como muitos comentadores internacionais, abordaram a situação criada em Portugal, alguns deles emitindo juízos de valor sobre o sentido da decisão parlamentar portuguesa.

Ninguém terá dúvidas que, mais do que em qualquer outro lugar, esta questão foi e é objeto de uma elevada polémica em Portugal. Governo e oposição têm mantido um forte debate sobre as possíveis consequências do voto que não aprovou o PEC: o executivo diz que o mesmo vai no sentido das recomendações da Comissão e do Banco Central Europeu, que estava autorizado a executar, e a oposição considera que o governo ultrapassou o mandato que tinha para assumir compromissos na ordem externa. Esse debate, que não se encerrou ainda, acaba por ser o pano de fundo em que se projeta a ideia de convocação de eleições antecipadas.

Pelo modo como a opinião pública internacional tem vindo a pronunciar-se sobre este assunto, fica a sensação de que não se terá, porventura, interiorizado devidamente que o sistema europeu assenta, primeiro do que tudo, na afirmação democrática das instituições representativas dos seus Estados.

Poderá dizer-se que, algumas vezes, a racionalidade técnico-económica de algumas decisões poderia, em tese, estar isenta de desacordos de natureza nacional, que acabam por influenciar a eficácia do sistema colectivo.

É um erro pensar assim. No estádio que vivemos da construção europeia, a responsabilidade principal dos governantes continua a ser perante as instituições do seu país, que lhes concede a legitimidade para governar e tomar decisões.

Tal como, no passado, alguns tratados europeus caíram ou tiveram de ser retificados por referendos em alguns Estados, a Europa tem de aprender a viver com a diversidade dos seus modelos institucionais, com a diferente força dos seus governos na sua ordem interna e, por essa via, com os efeitos, paralisantes ou não, que certas posições nacionais possam vir a gerar sobre o processo coletivo. Isto é válido para o voto parlamentar que, em Portugal, estaria na origem da crise política, tal como aceitámos, com naturalidade, a decisão irlandesa de realizar um sufrágio, ou como agora aguardaremos o resultado do voto finlandês, com o seu impacto na aprovação do novo Mecanismo de Estabilidade.

No caso português, aconselho que se olhe menos para a árvore e um pouco mais para a floresta. Assim, devemos notar, em prioridade, que Governo e o principal partido da oposição, tendo estado em lados opostos na questão da aceitação do projeto de PEC, afirmaram, contudo, a sua comum e plena adesão às metas de redução do défice, não apenas para este ano, mas também para os próximos dois anos, sem a mais pequena divergência entre si no tocante àquilo a que Portugal se comprometeu perante as instituições internacionais. 

* Tradução do artigo que hoje publico no diário económico "Les Echos" (30.03.11). Texto original aqui ou link aqui.

Fico muito grato a Vasco Campilho pelo simpático post que publicou, a propósito deste artigo, no Albergue Espanhol.

terça-feira, março 29, 2011

José Alencar (1931-2011)

A morte deve ter andado um tanto desorientada, nestes últimos anos, com José Alencar. O vice-presidente de Lula fintava-a com regularidade, sempre com um sorriso nos lábios, num desafio constante, uma espécie de teimosia irónica. Mas tudo tem o seu fim e estava escrito que, um dia, José Alencar ia perder uma das batalhas. Que iria ser a final.

Quando, em 2003, Lula foi aconselhado a ter Alencar na sua "chapa", dificilmente poderia prever que este industrial mineiro, escolhido para lhe dar credibilidade junto do setor privado, se iria transformar num dos seus mais leais apoios, num sustentáculo valioso, que nunca vacilou, mesmo nos piores momentos dos seus dois mandatos.

Praticamente desde a minha chegada ao Brasil, tive o inestimável privilégio de poder manter com José Alencar uma relação marcada por uma forte estima e simpatia, muito influenciada pela grande amizade que se estabeleceu entre os nossos cônjuges. Fizémos parte do grupo dos amigos que o casal escolheu para uma memorável deslocação ao Rio, comemorando o aniversário do seu casamento. Recordo jantaradas divertidas em nossa casa, com José Alencar a contar-nos, com a graça imensa que tinha, as insuperáveis historietas mineiras, daquela gente que "nunca se zanga mas também nunca se reconcilia". Pena tenho de não saber reproduzir as aventuras do "Fernandinho", cuja saga, acabada num posto consular nos Estados Unidos, era um êxito garantido para as audiências. Mário Soares, Jorge Sampaio e Freitas do Amaral, entre outros visitantes portugueses, foram testemunhas do ambiente aberto e franco que a segunda figura da hierarquia brasileira sabia criar à sua volta.

Há uns meses, recebi uma simpática nota manuscrita de José Alencar, em resposta aos votos de restabelecimento que lhe havia formulado, aquando de uma das suas, cada vez mais frequentes, recaídas. Dela transparecia, para além da sua profunda ligação a Portugal, a sua imensa fé religiosa, que talvez tenha sido uma das fontes onde ia beber a sua admirável coragem.

Lamento não ter hoje comigo a garrafa da "melhor cachaça do mundo", que fez questão de me enviar, depois de eu ter elogiado o néctar, num almoço em casa de outro amigo comum, o ministro da Defesa, Nélson Jobim. Nesse dia, ainda abalado por um internamento recente, José Alencar disse-me, em voz baixa: "Temos de arranjar dois copos daquela cachacinha que ali está, com rótulo verde. Mas não diga à Mariza que um deles é para mim..."

Logo que puder, vou beber um copo dessa cachaça pela memória desse amigo, um homem bom e corajoso, que se chamou José Alencar.


Em tempo: em 31.3.11, publiquei um artigo, baseado neste post, no jornal "Correio da Manhã"

Fado

A UNESCO acabou ontem o dia a ouvir excelente fado. No âmbito da campanha para a promoção do fado a "património imaterial da humanidade", a Câmara Municipal de Lisboa, em articulação com a representação diplomática portuguesa junto da UNESCO, inaugurou em Paris uma belíssima exposição documental sobre a história da canção portuguesa, ilustrada por duas fantásticas vozes do novo fado, que nunca tinha ouvido ao vivo: Carminho e Ricardo Ribeiro.

Ouçam a primeira aqui e o segundo aqui.

segunda-feira, março 28, 2011

Asas diplomáticas

Era (e é) um homem bastante mais velho do que eu, com um ar "grave" mas com uma imensa graça, um diplomata de linguagem franca e certeira. Chefiou postos importantes e, em todos eles, soube manter uma postura que tinha o seu quê de snobe, de aristocrático, sempre bastante irreverente, ao jeito algo britânico que cultivava.

Viajar com ele, pelo mundo, era uma delícia, pelas notas de ironia que, a cada passo, o quotidiano lhe sugeria, pelos qualificativos que colava à figura de colegas. Não se sabe bem porquê, um embaixador britânico, com um "stiff upper lip" exagerado, ficou por ele eternamente crismado de "Serafim", um antigo assessor diplomático de Belém era o "Brzezinski da Reboleira" e, a propósito de um ministro que, em meados de um qualquer Dezembro, estava a tomar-se ares de "grandeza", comentou alto, à mesa de uma reunião de trabalho, para ele ouvir: "é por esta altura do Natal que os 'pinheiros' têm o seu momento de glória"...

Um dia, viajávamos em grupo para uma capital europeia, cujo nome não é para aqui chamado. Ainda no avião, disse-me, algo angustiado como sempre foi pelas coisas da gastronomia:

- O nosso colega, que hoje oferece o almoço, é um dos embaixadores mais forretas da nossa carreira. Desde há décadas que, em casas dele, nunca comi outra coisa que não fosse frango. Você vai ver!.

Não fiquei nada preocupado, apenas curioso em saber se o meu colega tinha ou não razão.  Eu não conhecia o nosso anfitrião, que nos aguardava no aeroporto. Pareceu-me um homem simpático. Ainda antes de nos acomodarmos no hotel, fomos diretamente para o almoço que nos oferecia na residência da embaixada.

Como o grupo era grande, o embaixador tinha previsto mesas redondas. Eu ficava numa mesa distante da do meu companheiro, que o dono da casa, por óbvias razões de antiguidade, tinha levado para junto de si.

O almoço começou. Os convidados mais importantes, à volta do embaixador, foram os primeiros a ser servidos. A certo passo, o meu olhar cruzou-se com o do meu companheiro de viagem, sentado nessa mesa principal. Então, sem denotar qualquer particular expressão facial, esse meu amigo voltou-se ostensivamente para mim e, com os braços em ângulo reto, aproximou e afastou, por várias vezes, os cotovelos do corpo. O gesto não era nada elegante e, para alguns, terá parecido apenas um casual e inopinado exercício de descontração muscular. Só eu percebi: o almoço era, de facto, frango!

"Intelligent life"

A "Intelligent life" é uma revista ligada ao "The Economist", a qual, desde há um ano, tem uma edição portuguesa, da responsabilidade da Impresa. 

Segundo os seus criadores, a revista "é criada para um leitor que valoriza a vida, a cultura e a sofisticação. Das viagens à tecnologia, da moda à filantropia, arte, cinema e teatro, além do desporto, comida, bons vinhos e consumo - tudo se conjuga nesta publicação que faz pensar e suscita ideias".

Convidaram-me para publicar, na edição da primavera de 2011, algumas notas breves sobre sete cidades que me tivessem impressionado. Aqui se podem ler esses textos. E deixo imagem do palácio Livadia, de Ialta (uma das cidades retratadas), onde um dia foi desenhado um mundo que ainda não acabou por completo.

Malta

Almocei hoje com dois amigos malteses, aos quais me desculpei pelo facto de ter tido de cancelar uma conferência que, de há muito, tinha combinado que iria fazer a La Valetta, no dia 18 de abril.

Na conversa, falou-se da situação política no Mediterrâneo e das forças aéreas em presença. Um dos meus amigos malteses comentou:

- Em Malta, temos dois caças.

Eu não sabia. Pensei que Malta não tinha força aérea. O meu amigo esclareceu, com um sorriso:

- São os dois aviões líbios que se acolheram em Malta, fugindo ao regime de Kadhafi...

Economia

John Major, ao tempo em que era primeiro ministro britânico, foi um dia a Moscovo, acompanhado do seu ministro das Finanças. 

Na conversa com Mikhail Gorbatchev, num tempo difícil para uma União Soviética em franco declínio, Major perguntou:

- Senhor presidente, como qualificaria a situação económica no seu país?

Gorbatchev pensou um instante e respondeu: "Numa palavra: 'good' ".

O "Chancellor of the Exchequer" britânico não se contentou com o simplismo da resposta dada ao seu primeiro-ministro, que contradizia uma evidente realidade, e pediu ao presidente se podia elaborar um pouco mais.

Aí, Gorbatchev foi mais prolixo: "Se quer que lhe diga em duas palavras: 'Not good' "

Ouvi esta história contada esta manhã por Jean-Claude Trichet, durante um pequeno almoço de trabalho. O presidente do Banco Central Europeu foi muito explícito ao dizer que a anedota nada tinha a ver com a situação atual da economia europeia.

domingo, março 27, 2011

Mísia

A França é um país atento a quem, sendo originário de uma outra cultura nacional, contribui positivamente para a diversidade que o país integra.

Há cerca de um ano, numa conversa com o então ministro da Cultura português, Pinto Ribeiro, o seu homólogo francês, Frédéric Mitterrand, informou-nos que era sua intenção condecorar a cantora portuguesa Mísia, que disse muito apreciar.

Esta semana, o meu colega francês em Lisboa, Pascal Teixeira da Silva, vai fazer entrega das insígnias de "officier des Arts et des Lettres" a Mísia.

Esta é uma merecida distinção a uma figura que tem mantido, desde há muitos anos, um percurso musical de exigência e rigor, com uma atenção preferencial a um fado servida por poetas de grande qualidade, estilo que muito ajudou a conhecer em França. Ainda há semanas, aqui em Paris, Mísia encheu, em seis espetáculos consecutivos, a sala "Les Bouffes du Nord", para um público essencialmente francês, mas onde uma fiel presença portuguesa era bem evidente.

Mudar a hora

No final dos anos 90, eu vinha do norte de Portugal para Lisboa quando, num noticiário radiofónico, ouvi um "especialista" em assuntos europeus "catastrofar" sobre as supostas consequências de Portugal ter, nesse ano, decidido adotar um calendário diferente do de outros países europeus, para a mudança da sua hora legal. Para o "sábio" de extração universitária, consultado pelo telefone, a suposta (porque era apenas suposta) violação da diretiva comunitária iria acarretar consequências da maior gravidade para o futuro de Portugal na Europa, podendo mesmo vir a refletir-se no corte de "fundos comunitários". Com esta apelativa menção, estava feito o "sound bite": o jornalista mudou logo a peça nos noticiários seguintes, que passaram a abrir com "Portugal pode vir a ter menos fundos europeus, por erro do governo".

Como eu era o membro do governo responsável pelo setor, parei numa área de serviço e telefonei para a rádio, pedindo para dar a minha versão dos factos, que, aliás, era muito simples. Assim foi feito, pelo que a abertura da peça mudou para: "Governo e especialistas estão em desacordo sobre a aplicação da diretiva sobre a mudança da hora". Nada como uma boa polémica! Os "especialistas" continuavam a ser só um, mas agora já havia em cena uma entidade da qual, à partida, sempre se desconfia: o governo! Até que, farto de ouvir os dislates do "especialista", acabou por ir à antena o Francisco Saarsfield Cabral, com a autoridade jornalística de quem conhece bem estes assuntos, e lá pôs um ponto final no debate. Quando eu estava a chegar a Lisboa, já os noticiários tinham feito desaparecer o "escândalo" da hora europeia e davam relevo às filas da acesso a Lisboa, que começavam na 2ª ponte do Feijó (ainda não tínhamos inaugurado a ponte Vasco da Gama) e que já estavam a fazer perder tempo aos lisboetas. Lá se ia, assim, mais uma hora...

Recordo-me que o tema da hora portuguesa, e do seu alinhamento ou não com a hora do resto da Europa ocidental, tinha sido objeto de uma animada discussão em conselho de Ministros, em 1996, com a expressão de alguma divisão de opiniões. Esta é uma questão que tem diversas vertentes, económicas e sociais, as primeiras ligadas aos consumos de energia e à compatibilidade de funcionamento internacional de serviços, as segundas ligadas ao ciclo diário de luz solar e a respetiva compatibilidade com os ritmos biológicos das populações, com os horários de entrada das crianças nas escolas, com as consequências de tráfego com pouca luz, etc. Este não era, nem é ainda hoje, um tema consensual.

Mas sobre isto e outras curiosidades desse tema fascinante que é o tempo, aconselho que consultem o magnífico (e belo) blogue Estação Cronográfica, de Fernando Correia de Oliveira.

Imprensa

Ignácio Ramonet, que dirigiu o "Le Monde Diplomatique", acaba de publicar uma reflexão sobre o mundo da informação, com especial atenção no futuro dos jornais: o livro "L'explosion du journalisme". É o retrato de um mundo em rápida mutação, que nos ajuda a perceber coisas tão importantes como o estilo imediatista da escrita jornalística contemporânea, as exigências colocadas a quem atua na imprensa, o papel das escutas e dos "leaks". etc.

Anoto esta interessante constatação no trabalho: "Em 2008, a audiência do New York Times na sua versão internet era 10 vezes superior à sua edição impressa. Contudo, as suas receitas publicitárias através da internet eram 10 vezes inferiores às da edição em papel. Assim, para que a publicidade na internet se afirme, o número de leitores pelo écran terá de ser 100 vezes mais importante que o da versão em papel".

Dá que pensar...

sábado, março 26, 2011

Geografia política

A deputada "verde" Heloísa Apolónia é uma voz sempre em evidência nos debates televisivos, dado o papel proeminente que desempenha no seu grupo parlamentar na Assembleia da República.

Nem sempre foi assim. Ao tempo em que estive no governo, Isabel Castro era a mais conhecida representante dos "Verdes". 

Um dia, em 1998, num almoço numa cervejaria em Gdansk, numa comitiva que acompanhava o presidente da República à Polónia, um colega meu do executivo, voltou-se para Isabel Castro e exclamou: "Francamente, Isabel, acho que você não devia fazer parte desta delegação".

Ficámos todos siderados. Isabel Castro era uma deputada respeitada, mantinha com todos nós uma relação de grande cordialidade e companheirismo, além de que, da parte do meu colega do governo, homem agradável e delicado, não era de esperar uma atitude tão pouco cavalheiresca.

Antes que alguém reagisse - e eu era um dos que ia fazê-lo, quanto mais não fosse pela grande simpatia que tenho por Isabel Castro - o governante esclareceu: "Então você não acha que devia ter vindo a Heloísa 'à Polónia?!'"

Dois Portugais

Ao olhar para o "Expresso" de hoje, titulado e escrito no tom lúgubre que marca a generalidade da imprensa portuguesa, onde se escreve como tudo é ainda relativamente bom face ao pior que está aí para vir, dou-me conta da existência de um outro Portugal, que já ninguém nota (explicitamente), mas que anda por aí (subliminarmente) na força de uma publicidade (que é muito cara) que só existe porque há, com toda a certeza, um mercado seguro para o que anuncia. Senão vejamos: 

- rodapé na 1ª página: "Procura casa nova? Abra a porta" - Barclays's
- metade da página 7: "Católica Executive Education, Lisbon"
- 1/4 da pag. 9 - "Acredito numa poupança que enche à minha vontade" - Banif
- metade da página 11 - relógios Louis Vouitton
- toda a pag. 13 - Mercedes-Benz
- toda a pag. 15 - Barclays Wealth
- toda a página 17 - moda Sacoor
- toda a pag. 21 - Millenium BCP
- toda a pag. 24 - Banco Espírito Santo. 
- etc, etc.

O que é que isto quer dizer? Sei lá! Isto, bem como nas filas de ontem para o iPad 2, talvez queira apenas significar que há um Portugal bem conhecido que (ainda) espera por nós.

Japão

A propósito da tragédia japonesa, muito se fala, no discurso mediático ocidental, quase como cliché caricatural, da "dignidade" dessa população, uma atitude às vezes erradamente identificada como aceitação do fatalismo. Mas há muito mais do que isso, nessa gente que sofre: há memória, determinação, solidariedade e civismo.

No "Le Monde", Philippe Pons, reproduz frases de um romance antigo, em que uma mãe japonesa informa o professor do seu filho da morte deste: "Mantendo o sorriso no rosto, a mulher chorava com todo o seu corpo..." Isto ajuda a perceber melhor o rictus com que alguns japoneses contam nas televisões as suas perdas humanas e materiais.

sexta-feira, março 25, 2011

"Indignez-vous!"

Alguém se surpreendia ontem pelo facto de eu confessar que, até ter vindo viver para França, nunca tinha ouvido falar de Stéphane Hessel. Mais ainda: só cheguei a esta personalidade no ano passado, através da sua participação em alguns programas de televisão e, em especial, da publicação do seu pequeno livro, "Indignez-vous!", de que agora recebi a edição portuguesa. Em França, em seis meses, o livro já vendeu quase milhão e meio de exemplares. Em Portugal, foram 10 mil e está nos "tops" de venda, como me diz o amigo editor que mo enviou.

Hessel é uma figura interessantíssima. Francês nascido na Alemanha, em 1917, foi preso pelos nazis, foi resistente e diplomata, acompanhou o percurso trágico dessa Europa em convulsão e, talvez por essa razão, decantou em si os valores da paz e do entendimento, uma rara sensibilidade face às situações de injustiça. propiciadoras das tensões.

O "Indignez-vous!" é um belo manifesto contra a indiferença, pela mobilização cívica, por uma sociedade de valores. Vale a pena lê-lo.

A sério

A cada dia, surgem nas redes sociais textos e vídeos falsos e enganadores. O cuidado mais elementar obriga a confirmar sempre a respetiva au...