sexta-feira, março 25, 2011

Património

A diretora-geral da UNESCO, Irina Bukova, teve a excelente ideia de dirigir um apelo à "coligação" que efetua ações militares da Líbia, solicitando cuidados na proteção do importante património histórico da país. O objetivo é evitar incúrias como as que levaram à pilhagem do museu de Bagdade, aquando da invasão do Iraque, em 2003, bem como outras ações que então afetaram alguns monumentos do país. Esperemos que o facto da "coligação" incorporar países com uma forte tradição na preservação dos valores culturais possa contribuir para o êxito desta iniciativa.

As riquezas históricas líbias são pouco conhecidas. Mas recomendo, francamente, uma visita às fabulosas ruínas de Sabratha (na foto) e Leptis Magna, ambas na bela costa mediterrânica. Mas, já agora!, talvez convenha esperar mais algum tempo...

As doenças e as guerras

Com apoio da Fundação Gulbenkian - já repararam que a Gulbenkian está um pouco por todo o lado? - o antigo presidente Jorge Sampaio* esteve ontem em Paris, na sua qualidade de representante do secretário-geral da ONU para a questão da tuberculose, para uma jornada de sensibilização da comunidade internacional. Ontem era o dia mundial daquela que ainda é uma das doenças que mais vítimas fez no mundo, não obstante já não estar na "moda" mediática.

Há uns anos, numa reunião técnica em Nova Iorque, ouvi, de especialistas, o valor em dólares (de que já me não lembro) que seria necessário para erradicar, quase definitivamente, a tuberculose no mundo. O montante era significativo mas, como leigo, interiorizei a pergunta sobre se não seria possível juntar vontades para fazer esse derradeiro esforço financeiro. Dias depois, ao visitar um porta-aviões americano, foi-nos apresentado um modelo ultra-sofisticado de helicóptero. O valor de quatro desses helicópteros seria suficiente para pôr fim à tuberculose à face da terra. Eu sei que é ingénuo pensar as coisas desta forma, mas achei curioso ligá-las.

* No jantar em que reuni, na embaixada, o antigo chefe de Estado português com diplomatas de países envolvidos na luta contra a tuberculose, não resisti a fazer um brinde por "outro" dia 24 de março: o "dia do estudante", cuja tentativa de comemoração, há precisamente 49 anos, levou a uma vaga repressiva da ditadura sobre os estudantes portugueses, liderados então por um jovem chamado Jorge Sampaio...

quinta-feira, março 24, 2011

José de Guimarães

Um amigo que tem um "fétiche" pelo nº 3 perguntava ontem ao pintor português José de Guimarães a razão do aparecimento deste algarismo em muitas das suas obras. O pintor não esclareceu, talvez porque as coisas da arte, sendo embora coisas da vida, não têm necessariamente de corresponder a evidências objetivas.

Numa prestigiada galeria de Paris (Galerie Matignon, 18 avenue de Matignon, metro Franklin D. Roosevelt), José de Guimarães expõe um conjunto de novas obras, que vão da suas conhecidas séries com cores fortes até estas incursões a preto-e-branco, onde, contudo, sobrevivem os seus motivos tradicionais.

... e, claro, Elizabeth Taylor

Às vezes, no mundo da cinefilia especializada, sinto haver um preconceito contra as mulheres excecionalmente bonitas. Em certas áreas críticas, há como que a noção de que o "valor acrescentado" que essa beleza constitui pode funcionar como um subliminar fator positivo na avaliação das suas "performances" artísticas. Isso conduz a uma exigência crítica maior, como que a procurar descontar sempre esse "atout". Acho essas reticências bastante perversas e injustas, porque elas podem, algumas vezes, voltar-se contra mulheres que, não tendo "culpa" de serem muito bonitas, nem por isso deixam de ser grandes atrizes.

Lembrei-me disto a propósito de Elizabeth Taylor, agora que a sua morte convoca todas as loas, com os seus olhos de cor azul ("azul até demais", como diz a canção brasileira) no centro dessas evocações. Nunca fui um fã muito fervoroso da atriz, embora reconheça que a sua prestação em "Quem tem medo de Virgínia Woolf?" foi magnífica e que, em outros filmes - recordo "Gata em telhado de zinco quente", "Bruscamente, no verão passado" e "Gigante" - ela teve momentos notáveis. Já a "Cleópatra"... Mas é defeito meu, que detesto filmes históricos.

Elizabeth Taylor teve uma vida que foi muito para além do alimentar do "gossip" hollywoodiano, que a imprensa sempre dela recortava. Soube ligar-se a algumas causas nobres e de cidadania, que lhe grangearam admiração.

Deixo o retrato que Andy Warhol dela fez e que, há um ano, esteve aqui exposto no Grand Palais. Hoje, acho que posso cometer a heresia de o colocar a preto-e-branco.

Dias

Paris é uma cidade privilegiada em matéria de informação.

Ontem, durante um pequeno almoço de trabalho - uma prática que aqui é uma forma regular de encontrar certas personalidades -, tive o ensejo de ouvir Jacques de la Rosière, antigo diretor-geral do FMI, falar da crise financeira e de algumas receitas possíveis para lhe fazer face. Foi muito curiosa, na ocasião, a afirmação de Guéorguy Matiukhine, antigo governador do banco central russo, segundo  qual, a certo passo da implosão da URSS, "a atitude mais realista para superar a crise parecia ser acreditar num milagre"...

Mais tarde, num almoço organizado por um ativo "think tank" francês, participei numa discussão sobre a Líbia e outros temas internacionais, com o general James Jones, até há pouco National Security Advisor do presidente Obama. É nestes momentos, em que as mesmas temáticas convocam a atenção de diferentes atores internacionais, que nos damos melhor conta de como os EUA têm uma leitura estratégica autónoma, que contrasta com a muito mais interdependente visão dos países europeus.

Finalmente, ao final da tarde, numa nota mais leve, mas nem por isso menos atual, estive a ouvir Gilles Lipovetsky, um filósofo francês convidado pela Fundação Gulbenkian e apresentado por Manuel Maria Carrilho. Foi extremamente refrescante ver Lipovetsky explanar sobre os novos paradigmas do individualismo, sobre a sociedade de hiperconsumo e sobre a preeminência absoluta do mercado no nosso quotidiano.

Nestes tempos da crise, os mercados abrem e fecham os nossos dias, com algumas guerras pelo meio.

quarta-feira, março 23, 2011

A crise

O que se espera do blogue de um embaixador de um país que entra numa crise política? Não tive tempo para ver o que os meus colegas britânicos, que têm os seus vários blogues alojados no "site" do "Foreign Office", escreveram no momento em que, no ano passado, o Reino Unido entrou em eleições. Não sei sequer se falaram nisso, nem tal interessa muito. 

Os diplomatas portugueses, tal como os britânicos, representam um país que tem uma política externa que, salvo em alguns pontos de conjuntural pormenor, afirma um largo consenso interno. A nossa cultura profissional é orientada, ao longo dos anos em democracia, por uma linha de grande solidez, na defesa dos interesses nacionais na ordem externa, que nos é fácil representar e em que o mundo nos reconhece, sem dificuldade. Com ou sem crise.

Por essa razão, este blogue, de um embaixador português, será amanhã, muito simplesmente, o que tem sido até hoje. Nem mais, nem menos.

terça-feira, março 22, 2011

Pintura

Permitam-me que, em todo o dia de hoje, lhes deixe apenas este quadro de Paula Rego.

segunda-feira, março 21, 2011

Lugares vagos

Éramos quatro portugueses, em visita de trabalho a um país daquilo a que, à época, se chamava o "terceiro mundo".

Ao segundo dia de uma missão que devia demorar três, fomos confrontados com atrasos pelos quais não tínhamos a menor culpa, exclusivamente devidos à desorganização das autoridades locais.

Explicámos a dificuldade da nossa situação, tanto mais que as saídas internacionais do país eram muito limitadas, os aviões para Roma, de onde tínhamos vindo, andavam quase sempre a abarrotar e, estando próxima uma época de festas, seria muito difícil encontrar lugar nos voos que saíam dessa capital.

Os nossos interlocutores mostravam-se muito calmos: "partem depois de amanhã, não se preocupem". Mas nós preocupávamo-nos. E se tudo se atrasasse mais? O dinheiro que tínhamos era limitado, à época não se usavam ainda cartões de crédito no país. Pior: nem sequer havia uma embaixada portuguesa no local. Mas que se podia fazer?

Na véspera da nossa nova data de partida, os nossos anfitriões perguntam-nos: "Não se importam de ir pela Suíça? Arranjámos-lhes lugares na nossa linha área."

Olhámos uns para os outros, num instante de coordenação visual, que traduzia uma ânsia de sair dali, cruzada com a desconfiança sobre a fiabilidade dos aviões locais. De Genebra ou de Zurique, lá arranjaríamos maneira de regressar a Lisboa. E, claro, aceitámos. Nem eles estavam à espera de outra coisa.

No dia seguinte, ao chegarmos ao aeroporto, fomos surpreendidos pelo facto da viatura que nos transportava entrar na própria pista, indo-se colocar ao fundo da escada de acesso ao avião. Alguém se havia encarregado já dos nossos passaportes e da troca dos bilhetes. Mas não tínhamos ainda os cartões de embarque. Pela movimentação logística, percebemos que os passageiros do nosso voo já estavam a bordo. Nós continuávamos dentro da carrinha que nos tinha transportado.

De repente, vemos subirem para o avião, em passo apressado, uma meia dúzia de polícias. Passou pouco mais de um minuto, até se ouvirem, no alto da escada, algumas vozes mais exaltadas. Olhámos e vimos os polícias descerem a empurrar quatro cidadãos, em trajes locais, que protestavam contra aquilo que era, manifestamente, a sua retirada forçada do avião. Passaram por nós e foram levados para o edifício do aeroporto.

- Caros amigos, podem embarcar, estão quatro lugares à vossa espera, lá em cima. Têm é de levar as vossas malas na cabine... Desejamos-lhes uma boa viagem! Voltem sempre!

Nem queiram saber a cara com que entrámos no avião, o modo como os restantes passageiros nos olharam, bem como o insuperável embaraço que tudo aquilo representou. Nunca mais me esqueci disto!

* Por razões que julgo óbvias, só agora (Agosto 2011) acho prudente revelar que isto se passou na Líbia

Poesia*

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neill (1965)

*no dia internacional da poesia, ainda

Vinha & vinho

A "Organização Internacional da Vinha e do Vinho", com sede em França ("et pour cause"...), vai organizar no Porto, no próximo mês de Junho, o seu congresso anual.

Na passada sexta-feira, aproveitámos a presença em Paris de mais de uma centena de delegados da organização para lhes oferecer, na Embaixada, um modesto "preview" do acolhimento de que irão ser objeto em Portugal, com vinhos e comidas portuguesas. Para além do imparável êxito que hoje constitui o vinho do Porto no mercado francês (que é o primeiro importador mundial de vinho do Porto, para quem o não saiba ou seja do tempo em que "os ingleses é que bebem Porto"), cada vez fica mais evidente que os nossos vinhos de mesa, quando de qualidade, podem e devem aparecer a terreiro comercial neste país, sem temor de comparações. Contrariamente ao que muita gente pensa, não se trata de mandar "bananas para a Madeira". Aliás, dentro de meses, iremos provar isso mesmo na Vinexpo, em Bordéus.

Pelo entusiasmo que detetei nos presentes ao convívio, onde procurámos limitar ao mínimo os discursos, fiquei com a sensação de que iremos ter no Porto uma muito luzida representação do mundo vinícola internacional, por essa época do S. João. Isso não deixará de ter as necessárias consequências na consolidação do prestígio dos nossos vinhos no mercado internacional, com todos os efeitos que daí advêm para a nossa economia.

Jardin d'Hiver

Hoje, dia em que acaba mais um inverno, lembrei-me deste fantástico "Jardin d'Hiver", uma belíssima canção de Henri Salvador.

Ouça aqui.

domingo, março 20, 2011

"Off"

Dois jornalistas franceses, ligados à revista "Marianne", decidiram publicar em livro algumas revelações, fruto da sua proximidade pessoal com o presidente Nicolas Sarkozy, ao longo de vários anos.  Chama-se "Off - o que Nicolas Sarkozy nunca nos deveria ter dito".

Interessa aqui pouco o conteúdo do livro, aliás bastante menos importante do que se poderia supor, escrito por profissionais que, manifestamente, nunca estiveram próximos da linha política do presidente francês, como este, aliás, sempre soube. O mais relevante, a meu ver, é a circunstância desses jornalistas se terem sentido agora tentados a revelar factos e opiniões que, no entendimento do presidente e naquele que até agora era o deles próprios, eram considerados "off" - isto é, como fazendo parte daquilo que ambas as partes haviam convencionado, explícita ou implicitamente, não tornar público.

No ano passado, li vários livros, aqui em França, que se baseavam nesse mesmo procedimento, de que o mais sugestivo, a começar pelo título, era o "Si vous répetez, je démentirai...". A diferença é que nenhum desses livros afirmava, de forma clara, a legitimidade de ser quebrado o "off", procedendo apenas a algumas indiscrições, parte das quais desculpabilizadas pelo tempo.

Ora este novo livro coloca em debate, de forma declarada, o problema das relações entre a imprensa e as pessoas que com ela lidam, a preservação no tempo de códigos de honra e de respeito mútuo, que hajam sido estabelecidos no passado. O trabalho fá-lo logo na sua introdução, ao propor-se "quebrar, de uma vez por todas, esta regra de bronze que, desde há tantos anos, desde que os jornalistas modelam parcialmente a opinião pública, governa a relação entre os jornalistas e os responsáveis políticos: a conivência, a cumplicidade, a compreensão mútua".

Todos os que passaram pela vida pública - políticos, diplomatas ou outros - tiveram, seguramente, experiências de relacionamento com profissionais da comunicação social, aos quais, algumas vezes, confidenciaram factos ou ideias, na certeza (ou na convicção) de que esses jornalistas as não utilizariam ou, outras vezes, que utilizariam sem os citar. 

No que me toca, tive e tenho na comunicação social pessoas em cuja discrição confio, embora sempre de forma razoável. E digo "de forma razoável" porque há tentações a que a maioria dos jornalistas não consegue resistir, se a notícia revelada fôr demasiado apelativa, se configurar uma "caixa" irresistível. Noutras funções, consegui sempre fazer uma gestão muito prudente do que pode ou não ser dito; mas também já cometi alguns erros de avaliação. No essencial, essa é apenas uma questão de bom-senso, que depende mais do "informador" do que do próprio jornalista.

Devo confessar que, para além da curiosidade de consumidor da "coisa política", que me fez mergulhar no livro, bastante pelo ineditismo do procedimento dos seus autores, não deixo de ficar preocupado por esta quebra de códigos comportamentais revelar - vamos chamar as coisas pelos seus nomes - um triste abandalhamento das regras de convivência no cenário público.   

Três notas líbias

1. Ontem, ao final da noite, quando a aviação da coligação já bombardeava alvos militares na Líbia, passei pela ponte Bir Hakeim, sobre o Sena, e lembrei-me que o seu nome comemora a batalha onde o exército francês combateu com sucesso, no deserto líbio, as tropas do "eixo" italo-alemão.

2. Por que será que, mesmo aceitando eu como boas e razoáveis as razões de base que justificam a ação militar em curso, não deixo de sentir um certo mal-estar com esta guerra? Será apenas por ser uma guerra? Será, egoisticamente, por ter lugar tão perto da Europa? Será pela ideia de que se sabe sempre como uma guerra começa, mas nunca se sabe como e quando ela acaba? Ou será pela certeza de que os "colateral effects", isto é, as vítimas civis, são particularmente difíceis de medir numa operação militar com as caraterística da que está em curso? Não sei.

3. Um dia, na Líbia, nos anos 70, olhei em volta e dei-me conta que tudo estava escrito em árabe. Com uma exceção: as tampas de ferro do saneamento do centro de Tripoli tinham os seus dizeres em italiano, a língua da colonização, desde 1912 até à independência, em 1951.

Warren Christopher (1925-2011)

Há cerca de 10 anos, por ocasião da saída do seu livro "Chances of a Lifetime", ouvi uma palestra proferida em Nova Iorque por Warren Christopher, que agora desapareceu. Recordo bem a sua imagem, com os longos colarinhos subidos e uma voz rouca muito típica, nessa tarde em que apresentou, no Council on Foreign Relations, a sua leitura da situação internacional, naqueles que eram os primeiros meses da administração George W. Bush, que ele já criticava com muita lucidez.

Não sendo considerado um génio na condução da política externa americana, no período em que serviu como chefe da diplomacia no primeiro mandato de Bill Clinton, Christopher era tido por aquilo a que anglo-saxónicos chamam "a safe pair of hands", de que já tinha dado mostras aquando da condução das negociações para a libertação dos reféns americanos no Irão, no consulado Carter. 

Em 2000, chefiou a equipa de advogados de Al Gore na disputa pelos decisivos votos da Flórida, no que viria a ser derrotado por outro "peso pesado" da política externa americana, James Baker, que defendia as cores republicanas de Bush. Dois anos depois, tive o privilégio de ouvir, da boca do meu amigo Stephan Minikes, embaixador americano junto da OSCE e antigo membro da equipa de advogados chefiada por Baker, algumas histórias curiosas dessa batalha, que todos seguimos pela televisão e que seria ganha por Bush e perdida por Gore - e, na minha opinião pessoal, pelo mundo.

sábado, março 19, 2011

BHL

Ainda a Líbia. O filósofo Bernard-Henri Lévy é uma conhecida figura do panorama intelectual francês, onde a sua postura e tomadas de posição não deixam, às vezes, de suscitar alguma polémica.

Na crise recente da Líbia, BHL (com DSK - Dominique Strauss-Kahn -, Lévy está entre as escassas personalidades francesas que podem ser identificadas apenas pela sigla do seu nome) acabou por ter um papel marcante, ao ter sido a pessoa que convenceu o presidente Nicolas Sarkozy a receber e aceitar a legitimidade do "Conselho Nacional de Transição", representativo da oposição ao coronel Mouammar Kadhafi .

Porque este golpe de "diplomacia paralela" tem algumas curiosidades a notar, sugiro que leiam isto.

Brecht

Às vezes, faz muito bem ler os génios. 

Hoje, o "Tim Tim no Tibet" traz-nos um magnífico poema de Bertolt Brecht. Leiam este extrato:

Cheguei às cidades num tempo de desordem
Quando a fome imperava.
Cheguei entre os homens num tempo de levante
E com eles revoltei-me.
E assim passou-se o tempo
Que me foi dado sobre a terra.

... para terem vontade de ler o poema todo.

E, em matéria de poesia, também temos esta boa notícia para Portugal. Alegrem-se! Felizmente há luar!

"Um taxi para Tobruk"

Hoje, ao ver na televisão a coluna de viaturas que procuram sair do cerco de Benghazi para a cidade de Tobruk, a importante cidade líbia próxima da fronteira com o Egito, não pude deixar de lembrar-me de um filme de guerra que vi na minha adolescência: "Um taxi para Tobruk". Charles Aznavour e Lino Ventura eram atores desse filme.

Ainda haverá táxis para Tobruk, em Benghazi?

sexta-feira, março 18, 2011

Futurista

As opções para um programa lúdico eram algo escassas, naquela pequena capital europeia. O embaixador português e o seu secretário bem se tinham esforçado por encher a agenda do jovem secretário de Estado, oriundo de um ministério técnico, na tarde que lhe restava na cidade. 

À proposta de visita a uma livraria inglesa, o político comentou que tinha estado em Londres, há poucas semanas, embora, através de outros comentários, não desse mostras de ser pessoa altamente interessada pela leitura. O passeio pelos arredores, a visita ao porto e ao famoso parque da cidade não o entusiasmaram, da mesma maneira que estava a manifestar um visível enfado pela explicações arquitetónicas que o embaixador fazia, à passagem por certas artérias.

A certo ponto, o embaixador teve uma ideia:

- O senhor secretário de Estado não estará interessado em visitar o museu nacional? Tem peças lindíssimas...

O jovem político olhou para o diplomata, com um sorriso indefinível mas "blasé", e comentou:

- Sabe, senhor embaixador, a mim o passado diz-me pouco e os museus só nos mostram o passado.

Aí, o secretário de embaixada não resistiu e lançou, "fininho":

- É verdade que os museus "têm a mania" do passado. Não há muito a fazer...

O nóvel governante fez uns instantes de silêncio, mas não "se ficou":

- Não é bem assim, sempre há os futuristas...

De facto. O secretário ainda pensou falar-lhe em Marinetti, mas recuou, temendo, seriamente, que ele pensasse que era um médio ala da Juventus.

China (e o Mónaco)

Num almoço ontem, no Institut Français des Rélations Internationales, alguém perguntava ao embaixador da China, com uma legítima preocupação, como é que ele avaliava o impacto negativo sobre o mercado internacional de produtos alimentares de fenómenos como as inundações na Austrália, os fogos do ano passado na Rússia ou as secas que assolam muitas zonas de produção no mundo.

A resposta do meu colega chinês foi esclarecedora: dado que a China tem cerca de 1,3 biliões de habitantes, a preocupação central dos seus governos, nos últimos 60 anos, tem sido garantir a segurança e a autonomia alimentar dessa mesma população. Porque a China sabe bem que, em caso de crise alimentar mundial, "ninguém tem capacidade de a ajudar", o país tem, essencialmente, que se preocupar com as suas própria crises.

Uma resposta como esta ajuda-nos a medir, com mais acuidade, a escala quantitativa de um Estado como a China, fundamental para se entenderem algumas das suas opções, seja em matéria de políticas públicas, seja no campo internacional. 

Numa nota mais ligeira, o meu colega chinês deu conta, aos presentes nessa refeição, de uma frase magnífica do príncipe Alberto II do Mónaco, por ocasião de um recente encontro entre autoridades chinesas e monegascas: "a importância da relação sino-monegasca é testemunhada por esta importante realidade: quase um em cada quatro cidadãos do planeta pertencem à soma conjugada das populações do Mónaco e da China"...

Conselho de Segurança

Ontem, no Conselho de Segurança da ONU, a propósito da resolução sobre uma zona de exclusão aérea na Líbia, a França e o Reino Unido (e Portugal) votaram a favor, tendo a Alemanha seguido uma linha diferente, abstendo-se.

Não está em causa a substância da resolução, mas ver países centrais do projeto europeu seguirem linhas diferenciadas sobre um tema de política externa e segurança tão próximo dos interesses do continente, bem como do cerne das suas políticas de vizinhança, leva a perguntar se ainda haverá razões para manter uma ilusão sobre a univocidade futura da vontade europeia no quadro internacional.

Lembrar

Seria importante que os parceiros do G7 aproveitassem para lembrar publicamente a Trump que os palestinos de Gaza e da Cisjordânia não podem...