Gosto muito do Vidago Palace Hotel.
Para quem não saiba, aquela unidade hoteleira estava para ser inaugurado no dia 5 de outubro de 1910, pelo rei dom Manuel, mas a República trocou as voltas à sua e à nossa História. O proprietário do novo hotel era o presidente do conselho (ainda não se usava por cá a expressão primeiro-ministro), Teixeira de Sousa. Outros tempos! Imaginem, nos dias de hoje, um presidente da República ir inaugurar um empreendimento de um primeiro-ministro...
Sempre que posso, passo por lá, por aquele que, na minha família, em tempos antigos, se designava pelo Palace e a que, nos dias de hoje, chamamos o "hotel do Vidago" (quem é da região diz "do Vidago" e não "de Vidago"). Vou ali nem que seja para beber apenas um chá, como ontem me aconteceu, no cumprimento de uma tradição já antiga, que se repete no primeiro dia de cada ano, sempre com os mesmos amigos (a fotografia é de há horas). Mas, ao longo do ano, cuido em visitar várias vezes aquela que é, a uma longa distância, a melhor unidade hoteleira de Trás-os-Montes.
Nem sempre foi "pacífica" a minha relação com os proprietários do hotel. Há uns anos, quando a "Vidago, Melgaço e Pedras Salgadas" era propriedade da Unicer, esta empresa optou por beneficiar o hotel e o parque de Vidago, em detrimento das Pedras Salgadas. Sei que o assunto não tem uma leitura unívoca, mas para mim foi tudo muito claro: dando prioridade ao negócio das águas, a Unicer desprezou os interesses das Pedras Salgadas e privilegiou o Vidago, tendo como "montra" a modernização feita ao seu hotel. As Pedras Salgadas ficaram, desde então, sem nenhuma unidade hoteleira decente, muito embora houvesse promessas formais num outro sentido.
O assunto foi muito polémico, originou manifestações nas Pedras Salgadas, eu saí a terreiro com artigos na imprensa e fiz queixa da Unicer à AICEP, por aquilo que entendi ser uma utilização de recursos públicos que tinha seguido uma via pouco transparente. E também pelo facto, incontroverso, de haver compromissos que a Unicer incumpriu. Houve então - repito, no meu entender - uma cumplicidade objetiva do governo (PS) com as opções da Unicer e, em todo o lado, chamei os bois pelos nomes, para desagrado de alguns correligionários políticos, lado para o qual durmo melhor, como sabe quem me conhece.
Uma coisa, para mim, tive sempre muito clara: nada tinha contra o Vidago e contra a renovação do seu magnífico hotel, obra que achei excelente e que sempre aplaudi. Mas ainda guardo elucidativa correspondência que troquei com o arquiteto Siza Vieira sobre o polémico assunto, de onde se percebe que a história foi muito mal contada pela Unicer. Mas o que lá vai lá vai e não quero fazer chover no molhado...
Toda essa polémica acabou por ter uma irónica síntese, anos depois. Em 2011, ainda ao tempo que estava embaixador em Paris, tive o gosto de receber, numa cerimónia em Lisboa, um prémio especial que me foi atribuído pelo Turismo de Portugal, pelo que foi considerado o papel positivo que terei desempenhado ao longo dos anos, enquanto embaixador, como promotor da gastronomia portuguesa no estrangeiro. Foi uma distinção que muito me agradou e que então recebi na FIL, das mãos de José Bento dos Santos, presidente da Academia Portuguesa de Gastronomia.
Curiosamente, nessa mesma cerimónia, o Turismo de Portugal atribuiu simultaneamente à Unicer um prémio pelo trabalho de requalificação do Vidago Palace Hotel Palace. E ali estive eu, no palco, ao lado de António Pires de Lima, então CEO da Unicer, a empresa que eu tanto tinha zurzido publicamente, a receber um galardão idêntico. Nas diversas vezes em que, nos últimos anos, António Pires de Lima e eu nos cruzamos, sempre com grande cordialidade, evitámos evocar esse conflito do passado...
Repito o que disse: o hotel de Vidago está excelente - e ainda bem. As Pedras Salgadas, terra da minha família, foi a "collateral casualty" de todo esse estranho processo, para utilizar uma expressão do jargão militar. Mas eu já encerrei o "machado de guerra", uma "guerra" que, infelizmente, tal como as Pedras Salgadas, perdi.

2 comentários:
Só boas recordações do "antigo".
Noitadas durante as corridas de Vila Real com histórias incontáveis.
Memórias de ter sempre um magnífico presunto.
Estive no Vidago Palace Hotel em finais de Setembro passado, ido de Alijó (onde vou com regularidade por ter lá raízes), que se mantém encantador. Como estava um tempo agradável, optei por comer no terraço em frente ao bar, num ambiente bucólico inesquecível e repousante. Sou fã da sopa, que só ali, nesse bar, servem, “creme de alho francês com camarão salteado” (como gosto de cozinhar, já tentei reproduzir aquele creme, mas sem sucesso. O alho francês deve ter sido preparado num qualquer aparelho de cozinha muito especial, para chegar aquele ponto de creme, que não possuo cá por casa). Naturalmente, antes de lá chegar lá passei pelas Pedras Salgadas, terra simpática. E depois fui revisitar Chaves, onde não ia há mais de 2 décadas. Gostei do que vi, por ali passeei, sobretudo no centro histórico, tão agradável e bonito de se visitar. E estava cheio de turistas, o que é bom para o negócio e comércio local. Voltarei lá, ao Hotel Vidago e repetirei esse magnífico creme de alho francês com camarão salteado! Naturalmente, acompanhado de uma bela taça de um Branco fresquinho.
a) P. Rufino
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