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sábado, janeiro 31, 2026

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quinta-feira, janeiro 29, 2026

Entrevista ao "Público"


Seixas da Costa: Portugal teve posição “lamentável” e “submissa” em relação aos EUA

Embaixador e ex-governante critica Governo português no caso da Venezuela e acusa União Europeia de falta de coragem

Francisco Seixas da Costa foi embaixador de Portugal junto das Nações Unidas e secretário de Estado dos Assuntos Europeus nos dois governos de António Guterres. Perante a actuação da actual Administração norte-americana, lamenta, em entrevista ao PÚBLICO/Renascença, a "tibieza" da União Europeia perante as ameaças a um mundo multilateral e sublinha que "nada travará Trump a não ser os americanos". Por isso, defende, o que está a acontecer no Minnesota deve ser seguido com atenção.

Nos últimos dias, caíram mal algumas declarações do Presidente norte-americano em relação ao esforço que alguns aliados fizeram, por exemplo, no Afeganistão. Trump chegou a dizer que os americanos é que tinham estado na linha da frente. Portugal perdeu dois militares nesta operação. O Governo português deveria ter dado uma resposta pública ao Presidente norte-americano sobre esta matéria?

O Governo português deveria ter tido uma atitude de desagrado relativamente ao modo como o esforço de solidariedade português foi tratado nessa altura. É, de facto, da parte do Presidente Trump, uma ligeireza de linguagem ter feito aquele comentário, que ofendeu os vários países europeus que tiveram mortos nessa operação. Não sabemos se foi feita alguma diligência de natureza bilateral de forma mais discreta [por parte do Governo português]. Se não foi, é pena.

No caso da Venezuela, a posição de Portugal podia ter sido mais afirmativa em relação ao direito internacional?

Claro que sim. A posição que Portugal tomou relativamente à agressão que os Estados Unidos na Venezuela e à não-consideração dos elementos essenciais do direito internacional que estiveram subjacentes a essa atitude foi uma posição lamentável. Não vale a pena sobre isso ter a mais pequena dúvida. O único país da União Europeia que se portou relativamente bem nessa matéria foi a Espanha, ao fazer uma declaração com democracias da América Latina no sentido de considerar que, independentemente da questão do afastamento de Maduro, a grande questão é a ruptura com o direito internacional que uma intervenção desta natureza significa.

Os EUA consideram ter uma espécie de direito a intervir quando os seus interesses estão a ser postos em causa. No passado, os EUA utilizavam os seus interesses como representativos dos interesses do mundo. A linguagem e a narrativa da nova Administração americana são muito mais egoístas, muito mais ostensivamente egoístas, isto é dizer: estes são os nossos interesses e nós temos de os levar a cabo.

Estamos no caminho para uma espécie de nova ordem internacional bipolar, em que, por um lado, há a ameaça da China e, por outro lado, há os Estados Unidos. E há quem pense — e os Estados Unidos pensam isso de forma muito clara — que, perante aquilo que é uma ameaça da China à globalidade do mundo ocidental, devem ser dados aos Estados Unidos todos os instrumentos para poder fazer face a essa ameaça. Mesmo que a utilização desses instrumentos signifique, em primeiro lugar, o desrespeito pela lei internacional e o desrespeito pelas soberanias. E que os Estados ocidentais devem, como na Segunda Guerra e durante a Guerra Fria, dar aos Estados Unidos tudo o que eles queiram. E, portanto, isto é uma espécie de nova subordinação e é uma doutrina que curiosamente já começa a ter alguns seguidores, mesmo em Portugal.

Portugal está submisso face aos Estados Unidos? No caso da Venezuela, por exemplo, nós vimos o ministro dos Negócios Estrangeiros dizer que as intenções de Trump tinham sido benignas.

Achei imprudentes, para utilizar uma expressão simples, as declarações do ministro. Imprudentes porque me pareceram demasiado submissas face àquilo que era uma perfeita ruptura com o direito internacional que os Estados Unidos estavam a ter. E eram submissas numa lógica de subordinação àquilo que era o interesse maior que, pelos vistos, existia de o mundo se ver livre da ditadura de Maduro. Se vamos pelo princípio de fazer acções perante ditaduras, então o mundo nunca mais acaba em termos de conflitualidade. Os Estados Unidos, nessa matéria, não podem dar lições a ninguém quando recebem o herdeiro da coroa da Arábia Saudita com cavalos em frente à Casa Branca. Os Estados Unidos provam que, para eles, existem ditaduras do bem e ditaduras do mal.

Nessa nova ordem mundial, como é que viu este Conselho para a Paz criado na semana passada? É uma ameaça às Nações Unidas?

Claramente. O Conselho da Paz foi criado como uma iniciativa americana, no sentido de tentar encontrar um mecanismo para a resolução do problema de Gaza e da relação palestiniano-israelita, e foi, de certo modo, abençoado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. Trump utiliza este Conselho para a Paz num sentido claramente desafiador daquilo que é o papel das Nações Unidas na ordem internacional. Está claramente a tentar colocar este Conselho no centro de uma nova ordem internacional e, curiosamente, é ele quem decide quem entra ou não entra. É extraordinário. E, sejamos claros, aquele grupo de países que ali estão não é necessariamente uma coisa muito prestigiante.

Portugal foi convidado e não respondeu. Ainda está a ponderar.

Está a ponderar, como está a ponderar toda a União Europeia, no fundo. Portugal quer, de certa maneira, proteger-se com a globalidade dos países like-minded. Portugal tem uma política externa de um país frágil. Não vale a pena sobre isso ter a mais pequena dúvida. E, por isso mesmo, é compreensível que, em várias circunstâncias, Portugal procure o conforto daqueles que possam estar mais ou menos na mesma linha. Isso dá-lhe alguma garantia de não ficar sozinho. Devo confessar que compreendo isso, mas excepto nas questões que tocam a dignidade. O que se passou na Venezuela toca essa dignidade. Portugal não devia ter dito o que disse naquele momento.

Devemos articular a nossa posição com a União Europeia nessa matéria. A União Europeia tem tido, ao longo dos últimos anos, e em particular nos anos de Trump, uma atitude de alguma tibieza no sentido de proteger o mundo multilateral. As Nações Unidas não estão hoje na primeira linha de preocupações da União Europeia. Ora, a União Europeia é precisamente a entidade internacional que teria mais obrigação de proteger as Nações Unidas neste período.

Muita gente comentou e colocou o seu like, como agora se diz, no discurso de Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, em Davos. Para além da retórica, que efeitos terão aquelas palavras? 

É um discurso muito bem feito, é um discurso corajoso e de grande dignidade, porque o Canadá não é um país qualquer relativamente aos Estados Unidos. Mas é um discurso sem consequência prática, isto é, Carney pode ir tão longe quanto a circunstância da sua conjuntura de envolvimento pelos Estados Unidos o deixar. E a prova provada foi que, depois de um encontro com Xi Jinping, Carney disse aquilo que é óbvio, que nenhum acordo que o Canadá pudesse fazer podia contrariar o acordo que tem no âmbito da antiga NAFTA na relação com o México e com os Estados Unidos. 

Na política interna, a recente intervenção musculada do ICE no Minnesota pode ser o início de uma revolta contra Trump?

Esta acção musculada, nomeadamente, e as mortes pontuais são coisas muito importantes porque têm um impacto brutal e deram a Trump um sinal de alerta. Aquilo que aconteceu relativamente à titularidade da liderança do processo do ICE dentro do Minnesota é qualquer coisa. Tendo em atenção aquilo que era o discurso avassalador que Trump estava a ter e que todos os seus colaboradores ecoavam, de repente, há um recuo. O que prova uma coisa que sempre pensei desde o início em relação a esta Administração de Trump. Nada travará Trump a não ser os americanos. Não vale a pena pensar que são os europeus, ou que é o mundo, ou que é a Gronelândia, ou que é a NATO, ou que é a Ucrânia, ou que é a China. Os Estados Unidos determinarão o fim de Trump.

E talvez por isso é que assistimos nos últimos tempos, para mim com imenso espanto, ao silêncio ensurdecedor das grandes lideranças democráticas do passado relativamente aos impactos externos da acção de Trump. Não se ouviu uma palavra de Obama, não se ouviu uma palavra de Bill Clinton, não se ouviu uma palavra de Hillary Clinton, não se ouviu uma palavra de Al Gore, não se ouviu uma palavra de Kamala Harris relativamente à questão da Gronelândia. Já se começou a ouvir esses mesmos líderes a pronunciarem-se sobre esta questão do Minnesota e sobre o ataque àquilo que é a ordem interna americana. Eles querem gastar as suas munições no plano interno, naquilo que é o choque no plano interno. E aí está. Já se viram declarações de Clinton, já se viram declarações de Obama, etc. Trump também começa a medir a questão interna, e vamos ver se essa medição ainda vem a tempo de ter algum efeito nas mid-term elections de Novembro. E se isso tem consequências.

Se os Estados Unidos garantirem essa no-fly zone — e podem fazê-lo, se assim quiserem —, isso para a Ucrânia seria extraordinário. 

Em relação à questão da Ucrânia, foi muito comentado o discurso de Zelensky em Davos, queixando-se, nomeadamente, da Europa. Como é que o interpretou?

É muito bem feito, é uma bela peça retórica. É um discurso que parece de falta de gratidão face a uma Europa que tanto o apoiou, mas é um discurso que tem a ver com a circunstância de Zelensky estar no fim da linha e perceber que vai ter de aceitar algo que vai muito para além daquilo que, no início, estaria disposto a aceitar.

Zelensky percebeu que vai ter de ceder território, e a questão que se coloca é como é que protege o resto da Ucrânia. Há uma questão-chave que passa pelas garantias de segurança. Há uma pequenina frase no discurso de Zelensky que deixa perceber que o que a Ucrânia quer é garantias de segurança por parte dos Estados Unidos, nomeadamente a no-fly zone. Se houver um acordo de que ninguém pode andar por cima da Ucrânia, isto é, mísseis, aviões, etc., isso priva a Rússia de qualquer capacidade de actuar sobre a Ucrânia por cima. E, se os Estados Unidos garantirem essa no-fly zone — e podem fazê-lo, se assim quiserem —, isso para a Ucrânia seria extraordinário. Diria que é mesmo melhor do que ter tropas da NATO no terreno, cujas regras de engajamento seriam muito difíceis de definir.

Fala-se muito sobre o eventual envio de tropas para a Ucrânia. No passado, houve um Presidente da República português que se opôs ao envio de tropas para o Iraque. Acha que esse tipo de cenários poderá replicar-se nos próximos anos, tendo em conta o contexto que vivemos?

A atitude do Presidente Sampaio relativamente à mobilização de tropas para o Iraque teve a ver com algo que é identitário da posição portuguesa, que é: nós funcionamos no quadro de acções de natureza internacional legitimadas por órgãos internacionais. A acção no Iraque foi uma aventura americana a que alguns países europeus deram de forma irresponsável o seu aval, com as consequências que isso teve na destruição do Iraque, na destruição do equilíbrio Iraque-Irão, na criação de um vazio dentro do Iraque que deu origem à criação do Estado Islâmico, na criação do ISIS e no aumento imenso do ISIS e a sua saída posterior, quer para a Síria, quer para o Sahel.

Outra coisa será se amanhã, perante uma situação de um mecanismo de paz que implique um acordo internacional alargado, não no âmbito do Conselho da Paz, mas no âmbito, por exemplo, das Nações Unidas e no âmbito, por exemplo, da NATO e com elevado consenso, houver a possibilidade de ter forças portuguesas presentes num contexto de peacekeeping...

Na Ucrânia?

Na Ucrânia ou em qualquer outro sítio. Se forem envolvidos os países NATO, Portugal teria alguma dificuldade em se isentar de uma colaboração nesse sentido. Portugal já esteve envolvido em acções de natureza NATO que não estavam cobertas por uma resolução do Conselho de Segurança. Foi, por exemplo, a acção no Kosovo.

Uma solução que fosse consensualmente vista como uma solução positiva para o caso ucraniano, com acordo russo, com acordo americano, com acordo europeu, dificilmente Portugal se poderia isentar de colaborar à sua medida naquilo que seria a sua contribuição.

Como viu a escolha de Durão Barroso, pelo Governo, para presidente da FLAD?

É uma escolha lógica, no quadro de uma relação entre os Estados Unidos, que se pretende sólida. Durão Barroso é uma pessoa que, em 2003, nas Lajes, mostrou aquilo que era a leitura do seu Governo de então face aos Estados Unidos, ultrapassando e rompendo até com algum consenso que existia dentro da sociedade portuguesa em matéria de política externa. Mas Durão Barroso é aquilo que se dizia no passado, a man for all seasons. Poucos meses depois, Durão Barroso é nomeado presidente da Comissão Europeia, com a bênção de Jacques Chirac e de Schroeder, que tinham sido os dois líderes europeus que mais se tinham oposto não só à Cimeira das Lajes, como também à aventura americana em 2003 no Iraque. Acho que está perfeitamente adequado, em função daquilo que é a filosofia do actual Governo, no sentido de procurar ser uma ponte com os Estados Unidos, sejam os Estados Unidos o que forem.

Sobretudo com Trump?

Sobretudo com Trump, mas eu não sei se Trump sabe quem é Durão Barroso.

Europa no "Sharing Knowledge"


Ontem, estive à conversa com Henrique Burnay, sobre a égide do "Sharing Knowledge", para abordar od desafios atuais da Europa.

Pode ver aqui.

"Liberdade e Democracia em desordem"


No dia 17 de abril, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal Álvaro de Campos, em Tavira, terei um debate com Eduardo Campos Martins, em volta do tema "Liberdade e Democracia em desordem", numa sessão que encerrará um ciclo de dois anos no âmbito das comemorações dos 50 anos da Revolução de Abril.

Entrevista ao "Público" e à Rádio Renascença

 



ou 

quarta-feira, janeiro 28, 2026

É a vida!


Pode ser que seja apenas "wishful thinking", mas fiquei ontem com a sensação de que André Ventura já se está a ver, daqui a semanas, a atravessar a Sala das Bicas, seguidoda corte do costume, a caminho do sofá, no gabinete do presidente Seguro.

terça-feira, janeiro 27, 2026

Toda a futurologia é empírica

Num debate destes, começa-se por medir se os candidatos fixaram o eleitorado que traziam: claramente, isso aconteceu, em absoluto. Depois, avaliar quem terá sido mais eficaz em captar quem votou nos derrotados da 1ª volta: Nisso, Seguro pareceu-me marcar mais pontos. Digo eu...

O candidato do empadão

"Política do empadão" é uma bela fórmula criada por António José Seguro para caraterizar a habitual mistura e confusão de temas, quase sempre de forma imprecisa e caricatural, que é a tática de André Ventura para, na réplica, tornar difícil uma resposta a uma questão concreta.

Há um novo mundo com Trump?

 




Conversa no podcast da Fundação Res Publica.

Pode ver aqui.



segunda-feira, janeiro 26, 2026

Startupismo

Constato que o limoeiro do meu quintal tem 21 limões. Vou dar uma saltada à Unicorn Factory. Acho que já tenho ali massa crítica para abrir uma start-up.

Como é?

Pessoa "honesta e educada" é como Cavaco Silva qualifica António José Seguro. Quanto se anuncia o voto num candidato e se sublinham as suas qualidades, isso representa, a contrario, a óbvia qualificação da alternativa que está no terreno?

Questão simples

Pessoa "honesta e educada" é como Cavaco Silva qualifica António José Seguro. Quanto se anuncia o voto num candidato e se sublinham as suas qualidades, isso representa, a contrario, uma óbvia qualificação da alternativa que está no terreno?

Um cheirinho de goibada


Ficará para a ciência política, com a distância do tempo, refletir um dia sobre as razões pelas quais um eleitorado que tinha dado uma maioria absoluta ao Partido Socialista alterou, num prazo que foi curto, o sentido do seu voto e veio a entregar o poder a uma direita sem um especial carisma. 

Pelo meio, claro, ficaram algumas trapalhadas, bastantes erros e o dedo não inocente de certas instituições. Mas isso não justifica tudo e são contas de outro rosário. 

Para o que aqui nos interessa, a reversão radical da vontade popular foi profunda. E foi assim que, embora sem uma força expressiva, a direita chegou a S. Bento. 

O Partido Socialista ficou isolado, tanto mais que as forças à sua esquerda acentuaram a sua própria irrelevância. Também a nova liderança do PSD logo cuidou em marcar distância, entendendo qualquer aproximação ao PS como tóxica para a nova correlação de forças. Com a extrema-direita e a direita radical-liberal a ajudarem à festa, os socialistas perceberam que estavam em pousio político. E, claro, vão confiando, como Camões dizia, que "atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir". 

Entretanto, o país virou à direita. Para esse hemisfério político, ajudado por alguma comunicação social complacente, que cavalga as audiências, as perceções e o culto do escândalo, a culpa do estado das coisas é, claro, o "socialismo". 

O "socialismo" é tudo: é Sócrates e os cifrões, é Costa e o lugar europeu, é Pedro Nuno Santos e as viúvas da Geringonça, até chegar a José Luís Carneiro, sobre o qual o dossiê de culpas ainda é magro, mas, com tempo, lá iremos. Pelo meio, surge ainda a memória de Mário Soares, o tal que "entregou o Ultramar", e de Sampaio, culpado por ter enviado Santana Lopes a banhos para o areal da Figueira. E outros, vivos ou mortos, porque "se não foste tu foi o teu pai". 

Acuados pelo crescente horror público ao conceito, alguns socialistas logo se refugiaram no rótulo de sociais-democratas, último abrigo semântico até que a tempestade passe. (É o equivalente ao centro-direita, do outro lado do espetro). Mas isso não os livra de continuarem encharcados pela tempestade diabolizante. Hoje existe mesmo um grande país contra o "socialismo", não vale a pena esconder - e só o facto de eu ter usado aspas é a prova de que muita coisa mudou. 


O caminho para Belém 

Estas presidenciais vão ser um belo barómetro. 

Perante o óbvio "embarras du choix" dentro do Partido Socialista, António José Seguro avançou. Muitos socialistas de carteirinha franziram o sobrolho. Outros suspiraram de alívio: graças a Seguro, e só a ele, o PS, sem precisar de avançar com ninguém, tinha na liça um seu nome. 

Curiosamente, era alguém que nada tinha ver com a liderança da última década, muito menos com o socratismo, cujo grupo parlamentar, que herdara em 2011, quando lhe caiu nos braços um partido em frangalhos, lhe infernizara a chefia. Seguro foi acusado, por alguns setores do PS, de ter sido complacente com a direita que se tinha coligado com a Troika. Como se acaso tivesse sido ele quem assinou o "memorando de entendimento", que recebera como presente envenenado. (Não, não me venham com o PEC IV!). 

No mundo dos socialistas sem aspas, Seguro é um social-democrata. Muita direita decente percebeu isso, no instante após a primeira volta presidencial, não hesitando em nele recomendar o voto. Só uma direita trauliteira e mentirosa, que parte do princípio de que vivemos num país de imbecis, é que tem o desplante e a falta de decoro de o acusar de radicalismo, de estar preso a rabos de palha ideológicos, de ser uma espécie de "cavalo de Tróia" dos "socialistas" - e aqui voltam as aspas. 


E o Brasil? 

Por esta altura, o leitor deve estar a estranhar o título que dei a este texto. A explicação é simples. 

No Brasil de hoje, o ministro das Finanças chama-se Fernando Haddad. Tinha sido um excelente ministro da Educação de Lula, depois de uma carreira académica prestigiada. Em 2018, Haddad foi escolhido pelo PT para seu candidato presidencial. Lula estava preso, o Brasil vivia em polarização política extrema. 

A direita brasileira não tinha conseguido produzir um candidato que, simultaneamente, tivesse uma "ficha limpa" no plano ético e fosse mobilizador. E foi então que, das catacumbas dos saudosos da sinistra ditadura militar, surgiu uma figura primária, com um discurso populista, uma caricatura do pior que a direita brasileira conseguira decantar. 

E, de um dia para o outro, mais de metade do Brasil se entregou nas mãos de um demagogo incompetente, negacionista face à pandemia, que se aliou a setores militares para um golpe que lhe assegurasse o poder, depois de Lula o ter recuperado nas urnas. O mundo riu-se do ridículo da escolha do Brasil, mas foram os brasileiros quem a teve de suportar. 

Nem Ventura é Bolsonaro, nem Seguro é Haddad. Contudo, e uma vez mais, com alguns a colocarem-se numa "neutralidade colaborante", a acusar o "socialismo" (voltam as aspas) e o perigo do seu regresso montado nessa perigosa figura que é Seguro, subsiste o risco da insanidade poder levar o país a uma tragédia. 

Em tempos de chumbo, Chico Buarque pedia "um cheirinho de alecrim", levado de Portugal. O dias de hoje são menos sombrios, mas nunca fiando. Por isso, do Brasil que, pelo voto, conseguiu esconjurar a ameaça da extrema-direita, apetece-me receber um cheirinho de goiabada.

(Artigo hoje publicado na edição on-line do jornal "Expresso")

domingo, janeiro 25, 2026

Ambiguidade

Corre por aí um modelo para ninguém perder a face na questão da Gronelândia. 

Os EUA obteriam a propriedade das bases no território, o qual manteria o seu estatuto perante a Dinamarca. 

Trump diria que "adquiriu" território, Copenhague preservaria o essencial do "status quo". 

Chama-se a isto ambiguidade diplomática. Será possível?

Seguro, Rushdie e eu


Um dia de julho de 1993, na embaixada de Portugal em Londres, recebi um telefonema de António José Seguro. Não o conhecia pessoalmente, apenas sabia que era o líder da Juventude Socialista.

Seguro queria falar com o embaixador António Vaz Pereira. Expliquei-lhe que, estando ele em férias, era eu, como ministro conselheiro, quem chefiava a embaixada.

Explicou-me estava a organizar a vinda a Portugal de Salmon Rushdie, o escritor que, ao publicar o livro "Versos Satânicos", provocara, anos antes, a ira do fundamentalismo religioso iraniano, que sobre ele decretara uma "fatwa", uma decisão que estimulava os muçulmanos shiitas radicais a ajudarem à sua liquidação, onde quer que ele estivesse. Vivia sob ameaças constantes de morte, sob proteção policial, viajando frequentemente sob nome falso.

Seguro disse-me que a Juventude Socialista estava a organizar, no Porto, um congresso mundial das Juventudes Socialistas, sendo Rushdie o seu convidado principal. A temática da liberdade de expressão e criação estaria no centro do congresso. O próprio presidente da República, Mário Soares, ir-se-ia encontrar aí com Rushdie.

O acolhimento e a segurança de Rushdie em Portugal estavam totalmente assegurados. Ele próprio estava a articular o assunto com o comandante-geral da PSP, general Monteiro Pereira. Era uma operação com alguma delicadeza, atendendo às ameaças que impendiam sobre o escritor. O futuro veio a provar o bom fundamento dessas preocupações.

Por que me estava a telefonar? Porque a viagem de Rushdie, que viajaria sob um outro nome, como era sabido pelas autoridades britânicas que o protegiam, estava a encontrar algumas dificuldades no balcão da TAP, em Londres, como lhe fora comunicado por parte das pessoas que ajudavam o escritor. A organização pretendia assim obter um contacto com alguém responsável no escritório da companhia, com quem pudessem tratar diretamente o assunto, de forma personalizada e discreta. Seria possível obter-lhes esse contacto?

Claro que era. Falei com o delegado da TAP em Londres, expliquei em linhas gerais o assunto e perguntei se podia dar o seu contacto a Seguro. Não meti nenhuma "cunha", nem pedi que fizessem nada de especial. Nem eu sabia se aquilo que os amigos de Rushdie pretendiam da TAP era possível ou não. A companhia que ajuizasse, depois da conversa. E, com a anuência deste, passei o número de telefone do delegado da TAP ao líder da JS. 

E esqueci o assunto. Pelos jornais, dias depois, vi que Rushdie tinha ido ao tal encontro no Porto, de cuja notícia encontrei agora esta curiosa imagem.

Pensava eu que o assunto estava encerrado até que, dias depois, de Lisboa, sou informado que tinha sido ordenado, contra mim, a pedido do gabinete do primeiro-ministro, um inquérito por alegada "pressão" feita junto da TAP, num caso que tinha contornos de afetar a "segurança nacional". Liguei de imediato ao homem da TAP, que me deu a sua palavra de honra de que nada nesse sentido tinha dito a Lisboa. Aliás, como é sabido, as embaixadas não têm a menor autoridade sobre as delegações da companhia, com as quais apenas o bom senso manda que haja as melhores relações.

O tom de Lisboa era "grave e sério", como o Rui Veloso cantava no "Porto Sentido". E o MNE da época, numa subserviência face àquilo que emanasse de S. Bento, ali estava, a "tirar-me satisfações". Que devo ter dado, ao meu estilo, que costumava ser algo irónico e não muito suave, como pelas Necessidades era sabido. E o assunto terá morrido, no vazio da sua óbvia irrelevância. Ah! "For the record": o primeiro-ministro de então chamava-se Cavaco Silva.

Menos de dois anos e meio depois, vim finalmente a conhecer, em pessoa, António José Seguro. Foi na nossa comum tomada de posse como secretários de Estado do governo de António Guterres.

Já passaram mais de vinte anos e não me lembro se alguma vez, nas muitas conversas que tive entretanto com António José Seguro, lhe referi este incidente. Agora, esse ensejo é cada vez mais improvável. É que se o país tiver um módico de senso, ele vai ter mais que fazer nos próximos anos. Com Cavaco Silva e eu a votar nele, claro.

EUA

A informação nos EUA está tão polarizada que é difícil obter dados independentes sobre o caso que ocorreu no Minnesota. Menos sobre os factos, mais sobre o seu real impacto na opinião pública e eventuais consequências políticas. A CNN diz uma coisa, a Fox diz outra. Como olharão os americanos estas informações contraditórias? Qual é o "saldo" disto? Ficam ao lado de Trump, ficam contra ou a vida continua?

sábado, janeiro 24, 2026

Alain

Nunca li nada de Émile-Auguste Chartier, que usava o pseudónimo de Alain, salvo citações. Gosto desta: "Quand quelqu'un me dit qu'il n'est ni de droite ni de gauche, je sais que c'est un homme de droite". Isso é dos anos 30, dirão alguns. Ao que eu respondo: estão aí a chegar...

Ai! Leão

Como sportinguista, PSG e quejandos não me preocupam nada, "comemo-los a todos". Já o Arouca ou o Cascalheira põem-me nervoso. E, como se viu, eu tinha razão...

Ai! América


Pelo modo como andam as coisas nos EUA, não nos admiremos se, um destes dias, um governador de Estado receber voz de prisão. Pode ser uma teoria da conspiração, mas há quem diga que a indução de um crescente ambiente de tensão seria pretexto para Trump impor um estado de exceção.

Kultura

Dizem-me que há uma lista dos nomes da cultura que apoiam o candidato que se opõe a Seguro. Mas que está em segredo, porque os próprios não querem aparecer a público, porque assim a família iria saber...

América

Como é natural, damos maior atenção aos impactos externos da administração Trump. 

Contudo, há dias, um amigo americano anti-Trump só me falava, muito preocupado, da clivagem violenta que a América atravessa, como em Minneapolis, da rutura dos "checks and balances". 

Para ele, a Gronelândia é um "fait divers".

Cada um vê o mundo do lugar onde está.

Um mínimo

Não apelo a uma política de canhoneira, nem sequer a um ato de grande visibilidade pública, mas há um mínimo de reação que Portugal deveria ter (sem se esconder atrás de posições coletivas) junto dos EUA, em face do insulto à memória os nossos soldados mortos no Afeganistão.

A mesma luta

Um grupo de proeminentes cidadãos "não-socialistas" declara apoio a António José Seguro. 

Não o apoiaram na primeira volta, mas, perante a alternativa, escolhem-no para o exercício da função presidencial. 

Quero deixar claro que, se acaso tivesse sido Marques Mendes a passar à segunda volta, este socialista estaria a assinar uma lista semelhante.

Gaza 2030

Peter de Wit

Afinal...

“That's OK, that's what you should be doing, it's a good thing for him to sign a trade deal. If you can get a deal with China, you should do that, right?”, disse Trump há pouco mais de uma semana, aquando da ida do PM do Canadá à China. 

Hoje, ameaçou o Canadá com direitos de 100% se assinar qualquer acordo com a China.

Este blogue


Visitas desde fevereiro de 2009. Não parece mau, num tempo em que se diz que os blogues estão a desaparecer...

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Comentários

Depois de três semanas de uma nova experiência, fui levado a concluir que a re-admissão de comentários no blogue não foi uma ideia brilhante. Poder-se-á dizer que os momentos de tensão política não são os mais adequados ao uso daquele espaço. Seja como for, a partir de hoje, e em definitivo, este blogue deixa de admitir comentários. Quem quiser comunicar pode sempre fazê-lo através de fseixasdacosta@gmail.com.

Déjà vu

Cotrim não escapou à tentação do "clube político". O almirante também deve estar a pensar nisso. É um clássico das ambições frustradas. Agora só falta um tempo numa TV. Alguém devia contar-lhes que a História prova que, tal como o PRD, tudo acaba na Travessa do Fala Só.

Not so special

Estamos a assistir a um momento único na relações entre os EUA e o RU. Nunca, que me recorde, a "special relationship", prezada em Londres à esquerda e à direita, esteve tão tremida. Trump, ao desvalorizar as centenas de mortos britânicos no Afeganistão pisou uma linha vermelha. 

Com toda a probabilidade, Carlos III vai ter de cancelar a sua deslocação aos EUA. Ao tocar no sacrifício dos militares britânicos, Trump fez um gesto insuportável para o RU. E ninguém ainda falou do apetite de Trump sobre o petróleo do mar do Norte, bem patente em Davos.

"Porque morreram os blogues"


Há pouco, dei conta de uma conversa, entre quatro pessoas, na Rádio Observador, sobre tema em epígrafe. Foram 40 minutos de diálogo, um tanto a reboque de a Sapo ter anunciado que vai acabar com a plataforma em que hospedava blogues. Quem tiver paciência, pode ouvir aqui.

Achei graça à troca de opiniões e à avaliação feita ao papel que os blogues desempenharam no início deste século. Foi curiosa a observação de que o Bloco de Esquerda terá sido potenciado pela blogosfera, mas igualmente a nota de que os blogues foram relevantes na discussão pública sobre a questão do aborto. 

A conclusão a que a conversa chegou foi a de que os blogues de opinião passaram definitivamente de moda. Falou-se da transferência do debate para o Facebook, da explosão das redes sociais como lugar de confronto - do Twitter/X, do Threads, do peso da imagem com o Instagram, etc. Mas, curiosamente, ninguém falou do Mastodon ou do Bluesky.

A conversa assentou muito nos blogues coletivos e menos nos "lobos solitários", como é o caso deste "Duas ou Três Coisas". Com razão: os primeiros tiveram muito mais importância e influência. O modelo que utilizo, assinando textos com o nome por baixo, acaba por ser uma espécie de coluna de opinião, muito presa à permanência do autor no espaço público e àqueles que têm paciência de irem lendo o que escreve. 

Os blogues morreram? Nem todos, como aqui se prova, mas a sua popularidade decaiu imenso. Resistirão?

A farsa

Sabemos que Trump é poderoso. Ele também sabe. Há uma coisa, contudo, que ele não consegue: evitar cair no ridículo aos olhos do mundo. O pequeno e medíocre grupo de líderes que juntou no "Conselho da Paz" revelou quem esteve aberto a ser ator daquela triste farsa.

O cansaço

Zelensky cometeu um erro de palmatória ao ler ontem em Davos o excelente texto que um seu cultivado assessor lhe preparou. Foi uma provocação injusta para os europeus, arriscada para a sensibilidade de Trump. Posso estar enganado, mas vai pagar essa ousadia.

quinta-feira, janeiro 22, 2026

O tempo é meu

"Ouviste o discurso do Zelensky? Que achaste?" Não achei nada, não ouvi. Vou ouvir, claro, e com atenção, mas só daqui a umas horas, quando tiver tempo. Essa coisa de estar "ligado" à informação 24 horas por dia é bom para reformados, desculpem lá. Ora eu sou ex-reformado.

Retrato de um presidente enquanto fala

O discurso de Trump em Davos pretendeu ser uma afirmação de poder. E foi. Só que, através dele, o mundo pôde ver, de uma forma indiscutível, que a potência que "calls the shots" pelo mundo é dirigida por um megalómano mentalmente instável e com um problema crónico com a verdade.

Whataboutism

"Nenhuma nação ou grupo de nações está em condições de defender a Gronelândia, sem ser os EUA". Pois, também os Açores...

Whataboutism (1)

Trump diz que nenhum país pode proteger melhor a Gronelândia do que os Estados Unidos. A esta hora, Zelensky deve estar a pensar: "Nenhum país pode proteger melhor a Ucrânia do que os Estados Unidos".

Escuta

Esta ideia dos Estados Unidos quererem salvar o ocidente, mesmo que esse ocidente não queira "ser salvo", lembra a clássica anedota do escuteiro que arrasta a velhinha, para atravessar a rua, embora a senhora não queira passar para o outro lado ...

Ei-los que saltam

Figuras que andam por aí, há anos, a dar-se ares de democratas e que, colocadas perante a escolha entre um homem moderado e razoável como Seguro e o seu opositor, decidem optar por este último, ficarão desmascaradas para sempre. Mas têm todo o direito a serem assim, note-se!

O tempo e o degelo

No discurso americano sobre o Ártico, "falta" explicar a razão da súbita importância da região no quadro estratégico. É simples: o aquecimento global está, ano após ano, a facilitar a navegabilidade do Ártico. Mas não faz parte da doutrina dos EUA o reconhecimento dessa realidade

Lugar aos novos

É justo que o candidato do Chega esteja a ser entrevistado por tudo o que é televisão. É um nome novo, pouco conhecido. Seguro não precisa nada disso: foi líder da JS, deputado, secretário de Estado, ministro, deputado europeu. Lugar aos novos, ora bem!

Escutas

Esta ideia dos Estados Unidos quererem salvar o ocidente, mesmo que esse ocidente não queira "ser salvo", lembra a clássica anedota do escuteiro que arrasta a velhinha, para atravessar a rua, embora a senhora não queira passar para o outro lado ...

Lembrar

Perante o anúncio de um "deal" sobre a Gronelândia, feito com a provável mediação do secretário-geral da NATO, e sem ter pretensões a parecer bruxo, atrevo-me a lembrar o que escrevi por aqui no dia 7 de janeiro.


quarta-feira, janeiro 21, 2026

"A Arte da Guerra"


Esta semana, o jornalista António Freitas de Sousa e eu falamos (surprise!) de Trump, depois também de Trump, mas igualmente da política em Espanha.

Ainda regressam às Lajes

Eles já aí andam: os que justificam a reivindicação da Gronelândia pelo facto dos EUA serem a única força capaz de travar a China (e a Rússia, pronto!) no Ártico e que, tal como ocorreu na Guerra Fria, a América deve tutelar o hemisfério e ser o salvador do ocidente. Amen!

A sério?

Quem será o inimigo de Ventura que o aconselhou a seguir a estratégia de tentar colar a imagem de Seguro à de Sócrates ou de Costa? Não parece ir funcionar com quem viveu neste país nas últimas duas décadas, estando minimanente atento à vida política. Mas eu sei lá...

O sinaleiro da Jamba


Dizem-me que esta carta (verdadeira, não é "fake news") de Trump é dirigida ao primeiro-ministro da Noruega. Pode ser, mas eu continuo a acreditar que ele (ainda) se corresponde com o Savimbi.

CD quê?

Dizem-me que já só nos alfarrabistas é possível obter a extensa declaração do CDS sobre a derrota do seu candidato oficial na noite de domingo. Outros, bem maldosos, afirmam que o candidato do coração dos "centristas" (não levem a mal o nome...) até nem ficou nada mal colocado.

Essa é que é essa!

Está tudo muito calado mas a verdade é que, com o resultado de domingo, o país perdeu a oportunidade de vir a ter vinho canalizado. Só o pessoal da EPAL é que anda satisfeito.

Notícias do Telhal

Uma coisa que deixaria Trump furioso e os americanos a pensar seria uma tomada de posição de um conjunto de psiquiatras de topo, afirmando a existência empírica de sinais de que a América é liderada por alguém afetado por uma demência que pode comprometer a segurança do país.

terça-feira, janeiro 20, 2026

Canadá

Recomendo muito que se ouça e medite naquilo que primeiro-ministro do Canadá disse em Davos. Não "descobriu a pólvora", não tem uma solução mágica para o acosso que o seu país e outros estão a sofrer, mas trouxe um banho de realismo e de pragmatismo, sem concessões nos princípios.

O passamento político de Ventura?

Se há nome que Ventura teme, esse nome é Passos Coelho. Se, numa implosão de Montenegro, o dom Sebastião de Massamá se dispusesse a avançar, muito do capital político de Ventura se esvairia - mas não todo! Passos Coelho será dos mais atentos ao peso de Ventura em 8 de fevereiro.

Gente decente

Tem imensa graça ver hoje, pelas solícitas penas de algumas figuras injustamente acusadas de serem jornalistas, os recados do PSD a Seguro, já a fazerem contas ao possível apoio ... para a sua reeleição! Como se o futuro presidente não soubesse ao que vem! Habituem-se!

A reeleição, já!

Tem imensa graça ver hoje, pelas solícitas penas de algumas figuras injustamente acusadas de serem jornalistas, os recados do PSD a Seguro, já a fazerem contas ao possível apoio ... para a sua reeleição! Como se o futuro presidente não soubesse ao que vem! Habituem-se!

Ai aguenta?

Dizem-me que dentro do PSD há um grande mal-estar. A maioria percebe a atitude de Montenegro, ao não assinalar preferência de voto: aquilo já está tão mal que qualquer decisão partia o resto. Mas sentem que Montenegro navega à vista, sem outra estratégia que não seja aguentar-se.

A perda da graça

Os socialistas moderados são o ai-jesus da direita enquanto dão jeito para desgastar lideranças do PS mais à esquerda. A sua heterodoxia pelas televisões é adorada. Mas, se se aproximam do poder, perdem a graça, pelo temor de que possam abrir caminho ao regresso do PS ao governo.

segunda-feira, janeiro 19, 2026

A noite (15)

António José Seguro pode ser a última barreira para travar um crescimento de Ventura que o coloque à porta do poder. No futuro, nesta tarefa de proteção de uma política decente, dava jeito ter a direita democrática. Mas, para tal, é necessário que ela não se porte como Pilatos.

Os amigos e as ocasiões (take three)

 


O João, a propósito do Valentino


O João era o mais velho de três irmãos, três primos que já partiram deste mundo. Pertencia ao ramo de Chaves da família da minha avó materna. Uns anos mais velho do que eu, a geografia das nossas vidas acabou por nos privar de convívio regular depois da infância, pelo que só nos encontrávamos de quando em vez. 

Era de uma simpatia extrema, caloroso, com um modo de falar muito tributário dos tempos flavienses, tique que lhe ficou para toda a vida. Belo e loiro, dizia-se ser um sortudo junto do sexo a que, equivocamente, alguns chamam oposto. E, ao que constava, ele soube aproveitar bem essa condição.

Da sua vida, e de algumas das voltas que ela dava, eu ia tendo notícias quando, em Chaves, passávamos de visita à sua avó, a tia Tininha, que fazia sempre questão de nos dar relatos grandiloquentes do percurso do neto. Alguma instabilidade nas relações sentimentais e o carácter um pouco errático dos seus sucessivos empregos - creio que ligados à hotelaria num certo período - criou em mim uma ideia de inconstância na vida do João, que eu um dia soube estar a tentar fazer futuro no Brasil.

E, um dia, o Brasil saiu-me na rifa diplomática. Como é natural, procurei saber de quem, da família, por ali andava. O João era uma dessas pessoas e acabou por ser ele a procurar-me. O destino tinha-lhe trazido algumas más surpresas e a situação profissional em que se encontrava não era brilhante. Alguma coisa foi possível fazer para melhorar o que não ia bem.

Num fim de semana passado no Rio, decidi convidar o João para almoçar. Pensei que acharia graça em ir ao Copacabana Palace, um lugar luxuoso e sempre na moda. Eu tinha o ensejo de lho proporcionar; ele teria assim a oportunidade de viver essa experiência. Constatei que o João nunca lá tinha entrado.

Foram duas ou três horas muito bem passadas, em que “demos a volta” à nossa família comum, relembrámos os tempos de infância nas Pedras Salgadas, a “casa das tias”, com historietas cruzadas. Fez-me muito bem ter estado com o João, nesse que viria a ser o nosso último encontro. Saí meses depois do Brasil e a saúde não tardaria a pregar ao João uma derradeira partida, como mais tarde vim a saber.

A razão por que hoje me lembrei do João foi ter acabado de ver a notícia da morte do estilista Valentino.

Nesse final de manhã no Copacabana Palace, na sala de refeições do Pérgula, o João disse-me, a certa altura:

- Olha lá! Aquele não é o Valentino?

Olhei e, de facto, numa mesa não muito distante, lá estava o costureiro italiano, que ambos só conhecíamos das revistas sociais. Aquela cara e aquele cabelo eram inconfundíveis. Estava numa mesa de quatro pessoas, com o ar grave de sempre e uma camisa que recordo escura.

O João olhou e reolhou e deixou cair, para minha surpresa:

- Sabes, no fundo, tenho pena dele.

Que estranho! Perguntei-lhe porquê. A resposta desarmou-me:

- Um tipo como ele, que passou uma vida rodeado de mulheres lindas, e é “viado”. Não achas que é de ter pena?

Não sei se o Valentino ouviu a minha gargalhada. Era o João, politicamente incorreto como era vulgar na nossa geração, ele, o “conquistador” da família - como o meu pai carinhosamente sempre lhe chamou -, no seu melhor.

A morte de Valentino fez-me hoje ter saudades do meu primo João.

A noite (14)

O futuro dos partidos à esquerda do PS dependerá muito, como é sabido, do modo como o próprio PS se comportar. Ontem, foram vítimas óbvias do voto útil. O partidos não são donos dos votos de ninguém e o espetro de ter Ventura em Belém foi um respeitável susto.

A noite (13)

Catarina Martins e António Filipe foram vítimas da polarização dos dias e da (vamos pelo eufemismo económico) "inadequação da oferta à procura" política. Rui Tavares mediu muito mal o ar do tempo. O espaço está cada vez mais estreito para quem quer passar por ali.

A noite (12)

Sempre afirmei que o 25 de Abril também se fez para que a direita democrática tivesse o seu lugar no regime e que a chegada ao poder da direita, com Sá Carneiro, foi a consagração da nossa democracia. Mas essa direita precisa de provar que sabe defender o regime. Hoje não soube.

A noite (11)

Marques Mendes e Gouveia e Melo perderam um ensejo de ouro de se afirmarem do lado da decência, na escolha de 8 de fevereiro. Assim, saem ambos colados a uma neutralidade colaborante com o populismo. Em especial, tenho pena por Marques Mendes.

A noite (10)

Olhando em perspetiva e ponderado tudo o que se passou, o facto de António José Seguro ter sido o candidato que emergiu como contraponto a André Ventura é uma circunstância muito feliz para a democracia portuguesa. Tem o perfil certo para colocar a extrema-direita fora de jogo.

Os amigos e as ocasiões (take two)

 


A noite (9)

No momento em que Cotrim, depois de qualificar Seguro de indesejável "presidente socialista", disse não tomar posição contra Ventura, notei que, no meio da sala, um amigo meu não aplaudiu e se manteve de braços cruzados. Não estou a estimular o seu "outing", mas gostei do gesto.

A noite (8)

Fiquei surpreendido com a quantidade de gente amiga e conhecida que embarcou na candidatura do almirante. Nunca percebi o "appeal" daquela aventura, mas imagino que deva ser defeito meu.

A noite (7)

Dizia-me há minutos um amigo: "Se o Ventura ganhar, emigro!" Para logo acrescentar: "Não sei é se tenho dinheiro para isso". 

É interessante este novo modelo de emigração, não para ganhar dinheiro mas a necessitar de tê-lo para tal. 

Sinal dos tempos!

Os amigos e as ocasiões (take one)


Ter o líder da extrema-direita francesa a apoiá-lo é mesmo um belo cartão de visita. Só faltam o Bannon e o Miller, já que não deve conseguir o Milei - cujo candidato preferido foi derrotado. 

O primeiro cartaz de Ventura para a segunda volta.

 


A noite (6)

Aos meus amigos (e tenho muitos) do PSD, faço esta simples pergunta: têm alguma dúvida de que o evidente objetivo de Ventura é dar cabo do PSD? Já pensaram o que seria ter Ventura em Belém, a grelhar diariamente em lume brando o PSD? Então?! 

domingo, janeiro 18, 2026

A noite (5)

Alguém pensaria que Cotrim se demarcaria da extrema-direita? Bastou ouvir o significativo rugido de apoio na sua gente quando ele disse que não recomendava o voto. E sublinhar o que antes disse sobre ter um (presume-se que perigoso) socialista em Belém.

A noite (4)

O PSD está numa situação muito complicada. Ou melhor, o PSD de Montenegro. Como estará a ser a noite em Massamá?

A noite (3)

Não sei se o slogan "líder da direita", adotado por Ventura, cai bem nos ouvidos da maioria do PSD. 

A noite (2)

"Não é não" a Ventura, por parte de Montenegro, são águas passadas...

A noite (1)

Luís Montenegro não passou no teste da decência. É pena. Sou obrigado a dizer que não estou surpreendido.

"Osteria"


Há já bastantes anos que a antiga "Mercearia" perdeu esse nome (que permanece num azulejo) e se chama "Osteria", com uma ementa italiana acompanhada da indicação irritante de que é "para partilhar" - uma cultura de estar à mesa que, definitivamente, nunca será a minha. 

A qualidade é satisfatória, com o preço condizente. A comodidade não é muita, o serviço é atencioso mas, atenção!, não há Multibanco.

Vai para 36 anos, "fechei" a antiga "Mercearia" para convidar amigos, na minha despedida antes de ir para Londres. 

Neste almoço, em dia de eleições, não pude deixar de lembrar-me do meu amigo António Oliveira, criador da "Mercearia", da efémera "Carvoaria" e, essencialmente, da clássica "Varina da Madragoa" - que hoje estava de férias. Por algum tempo, foi o "triângulo do Oliveira", então desafiado, um pouco mais acima, pelas "belgas" Vivianne e Sofia, na magnífica "Travessa". 

Naquele outro tempo dos anos 70 e 80, em que a cidade era muito diferente, passava por essa Madragoa uma certa Lisboa política, intelectual e jovem - quando os jovens éramos nós... 

Às vezes apareciam por ali, despernados, uns estrangeiros com um guia na mão, a achar que tinham descoberto uma raridade só para iniciados. E lá tínhamos que lhes explicar, em "franciú", o que eram os "grenadinos de vitela" do Oliveira, servidos pelo amigo Veiga.

Embora me fique a "walking distance", embora com algum esforço, em regra vou pouco por ali. Contudo, na noite de Santo António, continuo a "alugar" a rua das Madres, em frente à "Varina", para uma grande mesa de amigos, com sardinhas e febras, tudo bem regado.

Olhar adiante

Deveremos olhar com atenção para os votos que Ventura vier a obter na segunda volta, acima do seu resultado de hoje. Esses votos representarão votantes que, não sendo fiéis do Chega, se sentiram motivados a escolhê-lo, embora em face de um opositor moderado como Seguro. 

sábado, janeiro 17, 2026

Reflexão

Este blogue hoje não publica nada para respeitar o período de reflexão eleitoral? Não, não publicou nada (a não ser este não-post) porque o "dono" do blogue teve mais que fazer. Era só o que faltava estar a obedecer a uma das leis mais estúpidas da democracia!

sexta-feira, janeiro 16, 2026

Assimetrias

Segundo o "Expresso", se acaso Marques Mendes passar à segunda volta com Ventura, os socialistas optarão por votar Mendes. Por que será que não tenho a mesma certeza de que, no caso de ser Seguro e não Mendes a passar, as coisas se passarão de forma simétrica?

Democracia

O mundo não é a preto e branco. A Venezuela de Maduro era, sempre foi, uma ditadura. Contudo, ao contrário do que muitos pensam, uma parte da oposição a ele e a Chávez nunca foi "flor que se cheire". Ser contra aquele regime não significa ter credenciais democráticas.

Bater no fundo

O triste espetáculo de Corina Machado a oferecer a medalha do seu Prémio Nobel da Paz a Trump quase se equipara ao miserável email do secretário-geral da NATO enviado ao presidente americano. Ambos competem em sabujice, para agradar ao ego de Trump.

Medalha

É uma pena que o Comité Nobel de Oslo não venha a terreiro lamentar que o seu gesto face a Corina Machado tenha por esta sido desvirtuado com a oferta da medalha a Trump. Bastava lembrar-lhe que a escolha dos distinguidos não é da competência dos próprios.

Ah! Lisboa! Que luz!


 

O voto

O voto é secreto, mas não é proibido revelar em quem se vota. Vou votar Seguro, claro. Se não chegar à 2ª volta, votarei contra Ventura, exceto se o adversário for Cotrim, caso em que votarei em branco (mas não me abstenho). Contra Ventura, votarei sem problemas em Mendes e contrariado no almirante.

Últimos dias


É um clássico. Chegou-me ontem, com o "Expresso", um folheto sobre uma "liquidação total" de tapetes. Uma venda de coisas quase ao desbarato deve ser ainda apelativa para muita gente, que logo ali imagina preços baixos, verdadeiras pechinchas, uma ocasião a não desperdiçar. O mais das vezes é uma mera ilusão, como quem tem alguma experiência de vida bem sabe. Mas o que seria da vida sem este tipo de ilusões?

Há não muitas semanas, numa noite hiper-neonizada da Times Square, em Nova Iorque, olhei a montra de uma loja que vendia já não sei o quê e em que o esquema era o mesmo: "últimos dias", "liquidação total", "everything must go" ou coisas assim. Ainda ironizei intimamente que talvez fosse uma metáfora sobre os tempos de Trump. Mas não, eram umas bugigangas quaisquer, provavelmente eletrónicas.

E foi então que, naquele que, para muitos, é o centro do mundo em que o mercado é o rei e senhor, onde os números iluminados do Nasdaq há muito substituiram o cowboy fumegante do Camel, me veio à memória um outro dia, exatamente naquele cruzamento de ruas, em dezembro de 1972. 

Eu tinha ido de Lisboa, num viagem de grupo. A guia americana, uma mulher de idade (este conceito é mutante: a senhora devia ser bem mais nova do que eu sou hoje...), que falava um português macarrónico, antes de abrir a porta do autocarro que nos despejaria em Times Square, disse então uma coisa que nunca mais esqueci: "Não se deixem impressionar pelos anúncios em casas que estão em "liquidação total", em "últimos dias" de atividade. Algumas dessas casas já as conheço em "últimos dias" há mais de 20 anos..."

quinta-feira, janeiro 15, 2026

A alma dos moedeiros


Não esperava emocionar-me numa sessão sobre cunhagem de moedas. Mas foi exactamente isso que aconteceu.

No final da tarde de hoje, estive na biblioteca da Imprensa Nacional - Casa da Moeda, movido pela curiosidade da apresentação de um número de uma revista da casa. O que poderia ter sido apenas mais uma sessão institucional transformou-se numa coisa completamente diferente.

Parte importante da apresentação foi dedicada a recordar o lançamento das moedas do euro, a partir de 2002. 

E foi então que algo aconteceu. Dois especialistas das oficinas da casa — um deles já aposentado — tomaram a palavra. Com simplicidade, rigor e um entusiasmo genuíno, eles transformaram aquilo que ameaçava ser uma burocrática evocação de rotinas de trabalho numa verdadeira jornada sentimental. Para eles, aquele projeto não tinha sido apenas um trabalho: tinha sido uma aventura que lhes marcou as vidas. Ali, perante todos nós, fizeram um “filme” fascinante desses dias únicos.

A certo ponto, um dos “moedeiros” — conceito que só então conheci — comoveu-se visivelmente ao evocar a sua gente, as suas equipas, aqueles que com ele trabalharam. A necessidade de treinar gente para o futuro dessas tarefas. 

Não foi apenas uma demonstração de profundo profissionalismo. Foi a revelação de uma ligação emocional à casa a que orgulhosamente pertencia, às pessoas com quem tinha partilhado anos intensos, ao verdadeiro sentido de missão que a sua tarefa constituía. Acho que todos ficámos tocados por esse momento de verdade.

Foi um final de tarde que, apesar da chuva persistente lá fora, me ajudou a ganhar um belo dia.​​​​​​​​​​​​​​​​

quarta-feira, janeiro 14, 2026

Nada como a coerência

O mesmo candidato que, há três dias, deixava em aberto a possibilidade de vir a optar por Ventura no caso de não conseguir chegar à segunda volta, apela agora a Montenegro para o apoiar, a fim de evitar uma possível vitória do candidato do Chega.

Alguém sabe?

É uma sensação muito estranha constatar, mais de meio século depois do 25 de Abril, que um em cada quatro portugueses considera que o país ficaria bem servido se André Ventura fosse eleito presidente da República. Porque a culpa não é deles, pergunto-me onde é que falhámos.

segunda-feira, janeiro 12, 2026

América. Afinal havia outra?


(Artigo com o título em epígrafe publicado a convite do "Diário de Notícias", na sua edição de hoje)


Entre nós, tem algum eco uma velha escola de anti-americanismo primário, que se alimenta da tese básica de que, na América, “eles” são todos iguais.

Republicanos e democratas, dependendo da conjuntura externa que condiciona o momento, representarão os interesses por trás da mesma moeda, o dólar, com faces apenas aparentemente diversas. São sempre os mesmos powers that be que ditam as regras, que mandam fazer ou desfazer as guerras. Os protagonistas alternam, mas a peça é basicamente idêntica. No fundo, na ocupação da Casa Branca, quase sempre, venha o diabo e escolha.

Com os anos, de forma racional, fui sendo levado, a pensar que, ao contrário dessa escola, nem tudo era assim tão bonnet blanc, blanc bonnet. Houve a tradição do New Deal de Roosevelt, emergiram ondas relevantes de políticas sociais. Nos direitos cívicos - chegando embora tarde ao que era evidente - os democratas estiveram quase sempre na linha da frente, muitas vezes com grande coragem.

É certo que, em momentos decisivos, em especial na obnubilação da Guerra Fria, a Administrações democratas fugiu o pé para os seus Vietnames, para o excecionalismo, para um multilateralismo à la carte. Ainda assim, ia eu concluindo, não era bem a mesma coisa. Longe de ter sido entusiasta de Clinton ou de Obama, sempre me senti mais próximo dessa tradição do que da alternativa republicana, permanecendo um saudoso viúvo de Adlai Stevenson e de George McGovern - esse grupo dos the best presidents we never had.

Com a chegada de Trump à boca de cena, o contraste foi brutal. Tudo o que lhe era oposto passou a parecer melhor. De um dia para o outro, nos “meus”, esqueci os bombardeamentos de Clinton para mudar as notícias de Lewinsky, quase perdoei a cobardia de Obama na manutenção de Guantánamo, tentei apagar da memória a irresponsabilidade de Hillary Clinton na Líbia e, no limite, até desejei ter Kamala Harris na Casa Branca. O desespero induz estas fraquezas.

Trump anunciava-se muito mau. A realidade revelou-se ainda mais impiedosa. A deriva fez-se em catadupa, tanto na ordem interna como no plano internacional. Sanders e Ocasio-Cortez levantavam a voz, mas ela foi submersa na irracionalidade feita política.

Foi então que me lembrei deles: de Bill Clinton, de Al Gore, de Obama, de Hillary Clinton e até, enfim, de Kamala Harris. E esperei que falassem. Em vão.

Quando Trump ameaça usar força militar contra a Gronelândia - território de um aliado NATO - ou quando desmonta, com desdém, o sistema das Nações Unidas que os próprios Estados Unidos ajudaram a construir, o silêncio daquelas que foram lideranças democratas de peso é perturbador. Os promotores históricos do multilateralismo, de uma ordem internacional com algumas regras ou da agenda climática permanecem ausentes do espaço público, enquanto décadas de diplomacia são desfeitas com uma penada arrogante.

Este silêncio não é neutro. É uma escolha. Quando uma potência se arroga direitos de natureza imperial sem oposição interna credível, cria precedentes. E os precedentes, como bem sabemos, raramente ficam confinados a quem os inaugura. O silêncio de hoje prepara a capitulação de amanhã.

Será então que, afinal, a tese do “eles são todos iguais” tem alguma razão de ser? No final de contas, neste momento decisivo, que é feito da outra América?

domingo, janeiro 11, 2026

"A Arte da Guerra"


Mais uma semana em que a figura de Donald Trump se projeta sobre vários cenários geopolíticos.

Pode ver aqui.

sábado, janeiro 10, 2026

"Fear or values - we must choose"

(This text was published in the Portuguese weekly magazine Visão)

Fear or Values – You Must Choose

The flood of information around us brings a constant stream of unsettling themes. From wars to climate disruption, from the impact of Artificial Intelligence to the global collapse of trust in political leaders, from young people’s anxiety about the future to the toxic debate over migration — our societies increasingly seem unable to find effective answers to the many problems that overwhelm them.

Understandably, this fuels insecurity. More and more people are drawn to radical alternatives, even if that means abandoning values and principles that not long ago felt unshakable within democratic life.

There isn’t one simple explanation for this shift, but if I had to choose a single word, it would be fear.

Fear, as a political force, is anything but passive. It’s an active fuel — refined and injected into public debate by algorithms that reward outrage and by a media ecosystem that profits from anger.

This attention economy creates a vicious circle: the sense of chaos drives people to seek easy, often authoritarian solutions, which then erode democracy’s complex decision-making processes even further. Our biggest crisis is not only the number of problems we face, but our collective inability to handle them without falling into panic. And populism, of course, pretends to be the cure — but it’s only a symptom.

Fear is natural, but intelligence can always overcome it. People want predictability in their lives, even if some risk comes with it. We all know danger exists — yet we like to believe we can manage it by the choices we make. What nobody wants, though, is the unexpected threat around the corner, the confrontation with an unknown danger to ourselves or those we care about.

Perhaps it’s just an illusion, but ordinary citizens have come to see public authorities as a kind of police against social disorder. Politicians in a democracy are expected to provide reassurance — to show there’s a plan for the next day. The trouble is that these figures have lost much of their credibility, and that loss weakens their ability to make people feel safe. Today, it’s simply common to assume that every politician might be using their position for personal gain.

Whether this suspicion is rooted in real guilt or in campaigns to discredit public servants is another question. The point is that doubt now hangs over politics itself.

In modern democracies, political life is becoming shorter. Leaders have less and less time to succeed before public patience runs out. Meanwhile, the decline of the big “catch-all” parties has led to fragmentation — small ideological movements rise, fragile coalitions form, and governments fall into recurring cycles of instability.

A Divided World

The same insecurity that corrodes democracies from within has also spread internationally.

After the Cold War — which shook but didn’t destroy the post-1945 order — the world seemed relatively calm. Many believed the defeated side had accepted its place, and that the global divide was gone for good. That illusion ended with the war in Ukraine.

The multilateral system, with the United Nations and international law at its core, has largely collapsed. Collective trust is gone — and ironically, today’s United States helped dismantle the very mechanisms of cooperation they once built. The moral cowardice the West showed in Gaza, and Europe’s ongoing cynicism in dealing with power politics, have completed the picture. Ordinary citizens, already disillusioned with national institutions, now face the collapse of the global framework that once gave a sense of order.

What Can We Do?

This is not a comforting message; uncertainty is part of it. But if we ask what truly matters for the near future, the answer is simple: our values.

Whatever doubts we may have, the only responsible way to face uncertain times is to stand firm on the basics that define us. In politics, that means defending democracy and rejecting exceptionalism. In society, it means rejecting sectarian and discriminatory ideologies. It means standing up for truth — exposing lies, disinformation, and fear-mongering.

But holding firm to values is not just about words; it’s about daily practice. It means valuing slow, investigative journalism over viral gossip. It means demanding transparency, even from the politicians we support. It means recognising that the world’s problems are complex — and refusing to blame easy scapegoats. These are the real foundations of a healthy civic life: an independent, transparent justice system; education that teaches critical thinking; and a public space where reasoned debate isn’t drowned out by shouting.

Fighting and educating against the populism of fear is the only struggle that truly matters — against the fear of what is different, diverse, or contradictory.

2026 will bring “challenges,” as people like to say. But let’s drop the euphemisms. It will be a year like any other — full of uncertainty about the future. The difference will lie in how we face it. Some will choose to defend their values. Others will give in, abandoning principles in the name of fear.

The choice is yours.

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