Seguidores

Se quiser ser informado sobre os novos textos publicados no blogue, coloque o seu email

domingo, fevereiro 22, 2026

Nuremberga


Ontem, apeteceu-me ver, na televisão, o filme "Nuremberga". Os atores eram de qualidade, o tema era apelativo. O saldo, contudo, não foi muito satisfatório. A combinação dos vários registos fílmicos, sob uma trama centrada na relação entre um psiquiatra militar americano e Goering, não me pareceu ter resultado. Mas pode ser dos meus "olhos".

O aspeto curioso do filme começava por ser o ineditismo do tribunal internacional "ad hoc" que, em 1945-46, foi criado em Nuremberga, a cidade alemã onde o regime de Hitler tinha encenado alguns dos seus grandes momentos coreográficos e propagandísticos. Os aliados decidiram sentar ali, no banco dos réus, vinte e tal facínoras nazis, em lugar de os liquidar de imediato, pelos hediondos crimes cometidos. Alguns foram depois enforcados, outros tiveram penas menos capitais.

Nuremberga inaugurou a justiça internacional para crimes de guerra, crimes contra a humanidade e crimes contra a paz. Décadas mais tarde, outros tribunais “ad hoc” de idêntica natureza foram criados, como os tribunais para a ex-Jugoslávia, em 1993, e para o Ruanda, em 1994. 

Dando corpo formal a uma justiça internacional, permanente e mais estruturada, para esse tipo de crimes, veio a ser instituído, a partir de 2002, o Tribunal Penal Internacional (TPI), com sede na Haia, de que alguns importantes Estados se recusaram a ser membros - entre eles os EUA, a Rússia e a China. 

A razão dessa sintomática ausência parece-me óbvia, a menos que inventem outra mais plausível: esses Estados não conseguem garantir que, na sua ação externa, os seus cidadãos não venham a estar envolvidos em crimes de guerra e crimes contra a humanidade, procurando assim subtrair-se à responsabilidade internacional daí decorrente. 

Figuras do calibre ético de Putin - indiciado em 2023 pela deportação ilegal de crianças ucranianas - ou de Netanyahu - indiciado em 2024 por crimes de guerra em Gaza - estão com mandados de captura emitidos pelo TPI, e seria muito interessante, embora pouco plausível, vê-los por ali no banco dos réus.​​​​​​​​​​​​​​​​

Mas voltemos a Nuremberga, cidade que, por causa desse tribunal, tive curiosidade de ir visitar, numa das primeiras deslocações que fiz à Alemanha, logo no início dos anos 70. O episódio do julgamento fascinou-me sempre. 

A Segunda Guerra mundial estava muito representada nas estantes com livros que existiam na minha casa em Vila Real, onde eu e os meus pais vivíamos com os meus avós maternos. A "História Secreta da Guerra" e romances de Hans Hellmut Kirst e Erik Maria Remarque, entre outras obras, que só vim a ler anos mais tarde, faziam parte do cenário da sala de estar lá de casa. Um tio que vivia em Lisboa municiava literariamente aquela casa, onde as conversas sobre a guerra europeia eram frequentes, com as Seleções do Reader's Digest a ajudar a prolongar, nas décadas que se seguiram ao conflito, as memórias desse tempo trágico. Toda a minha família era aliadófila, admiradora da resistência britânica, com algum fascínio pelos americanos, ambivalente na apreciação dos alemães e com uma admiração pela resistência militar soviética que se foi esfumando com a invasão da Hungria e que quase desapareceu com o Muro de Berlim.

Embora tenha muito boa memória, nunca consegui estabelecer com rigor o meu percurso de leituras, em especial da infância para a juventude. Apenas recordo bem que, no verão de 1963, com 15 anos, fui de férias uma semana para casa de umas tias, nas Pedras Salgadas, para onde levei e devorei livro "O Julgamento de Nuremberga", cuja edição portuguesa era bastante recente. Lembro-me que o livro estava recheado de fotografias e que eu acompanhava a leitura do texto com frequentes idas a essas imagens, como se, com a observação repetida das caras, pudesse ir desenhando melhor os retratos psicológicos de todas aquelas figuras - cujos nomes passei a saber de cor. Não faço ideia se o livro era bom ou mau. Para mim, nessa altura foi uma leitura fascinante. Há tempos, doei-o ao fundo bibliográfico que, com o meu nome, existe na Biblioteca Municipal de Vila Real. Mas não ouso relê-lo, para não correr o risco de poder ter uma desilusão retrospetiva.


sábado, fevereiro 21, 2026

O novo esperanto


Anda por aí uma polémica sobre o lugar da língua inglesa nas universidades portuguesas. Não vou entrar nela - em especial no que toca à questão da designação das escolas de economia e gestão. Neste debate, sinto que há, por vezes, um certo deslumbre provinciano, travestido de elitismo snobe. Mas existe também uma realidade incontornável, da qual me fui apercebendo ao longo dos anos: as universidades portuguesas não conseguem atrair alunos estrangeiros - que em alguns casos são essenciais à sua própria sobrevivência - se não ministrarem grande parte dos cursos em inglês. Tão simples como isto. Tem inconvenientes? Claro. Mas é a vida.

O inglês “ganhou a guerra”, como os orgulhosos franceses acabaram por aprender melhor do que ninguém. Tornou-se o esperanto das relações internacionais, além de ser a verdadeira língua dos negócios. Há por aí tanta coisa escrita sobre o assunto que me dispenso de sublinhar o óbvio. Prefiro contar uma história pessoal.

Desde que me aposentei, em 2013, tenho colaborado com empresas portuguesas que operam no mercado internacional. Com exceção de uma delas - e apenas por alguns anos -, em todas as restantes os documentos de trabalho são redigidos exclusivamente em inglês. É essa a língua comum aos administradores de diversas nacionalidades, e é também essa a língua do léxico técnico partilhado pelas consultoras internacionais com que as empresas inevitavelmente trabalham. 

Há termos e expressões da gestão de que naturalmente se conhecem os equivalentes em língua portuguesa, mas que simplesmente deixaram de se usar. Por isso, para um ouvinte exterior, uma conversa empresarial, mesmo entre portugueses, pode muitas vezes estar recheada de expressões britânicas: "Para entregarmos o Ebitda e o Ebit em linha com o guidance ao mercado, temos de manter o Capex disciplinado, assegurar um cash flow robusto, atingir o break-even nos novos projetos, proteger a margem e garantir que o Roic acompanha o crescimento do top line". Construí esta frase com algum excesso de linguagem "cifrada", mas muitas vezes este é registo normal de gente que cruzamos em reuniões de empresas. Embora ande a trabalhar nisto há mais de 13 anos, confesso, aqui entre nós que ninguém nos ouve, que ainda há coisas que às vezes me escapam...

A história que quero aqui deixar é ainda sobre o uso do inglês em ambiente empresarial e passou-se numa reunião da administração de uma das maiores multinacionais portuguesas.

À volta da mesa, em Lisboa, estavam reunidas pouco mais de uma dezena de pessoas. Num videowall, participavam, à distância, alguns em outros continentes, cidadãos de várias nacionalidades estrangeiras - um ou outro seria administrador da empresa, mas eram sobretudo diretores regionais que iam sendo chamados ao debate, conforme os pontos da agenda. Os documentos e gráficos que todos tínhamos nos nossos iPad eram exclusivamente em inglês. As intervenções, sem exceção, também.

A certa altura, por uma rara coincidência, todos os participantes estrangeiros tinham deixado de participar na reunião, mesmo aqueles que estavam à distância. Só ficámos portugueses. Eu era então um dos membros mais recentes e estava ainda com um olhar algo exterior aos hábitos da casa. Talvez por isso, terei sido o único a aperceber-me de que todos continuámos - creio que por mais de uma hora - a intervir exclusivamente em inglês. Podíamos ter mudado para português? Sim, mas iria ser uma imensa e insensata confusão referirmo-nos, em português, a assuntos que estavam em textos escritos apenas em inglês. A menos que todos passássemos àquele linguagem mesclada que caricaturei atrás.

Lembro-me bem do momento em que a pessoa que presidia à reunião quebrou o fluxo da conversa em inglês e disse, em bom português: “Bom, parece que concluímos a nossa agenda. Até à nossa próxima reunião!” 

E lá saímos, à conversa, comigo a contar a alguém, imagino, alguma anedota ou historieta divertida no elevador. Daquelas que só têm graça ditas em português.

The Doctrine of Preemptive Subordination

Donald Trump once brought into existence something he called the Board of Peace, initially centred on his proposal for a final solution for the Palestinian question. To that end, he assembled a handful of partners, each of whom wrote a generous cheque to purchase his goodwill — and promptly announced to the world yet another “peace” of his making, another step toward a future Nobel Prize. The group featured some profoundly dubious figures, though that alone would hardly distinguish it from the ethical standard set by its own architect.

The project envisioned transforming a deliberately razed territory into a Riviera of warm waters on the eastern Mediterranean. As a tourist venture, it was not without a certain vision. It had, however, one irritant — as the euphemism now goes: the land happened to be inhabited by a population that had lived there for centuries. The area’s population density ranked among the highest on earth. It should be noted, in fairness, that Israel’s meticulous policy of intensive Palestinian liquidation — in Gaza and the West Bank alike — pursued as a disproportionate response to the terrorist attack it suffered, had been doing its part to ease that demographic inconvenience.

The arrival of Trump 2.0 left the world disoriented, and Europe most of all — a continent whose posture toward the Israeli-Palestinian conflict had long been a showcase of impotence and moral cowardice. Having assumed collective guilt for the extreme-right Nazi genocide, Europeans adopted a studied timidity, unwilling to challenge Israel for fear of being branded antisemitic — a label wielded as a cudgel against anyone who dares question the exceptionalism of the Jewish state. With successive American administrations of every political stripe held captive by domestic lobby pressure, Europe chose early on to simply defer to Washington.

The Board of Peace has since evolved, in keeping with Washington’s rhetorical momentum, into an institution ostensibly dedicated to performing the miracle of global peace under the self-appointed leadership of Donald Trump himself — whose else? On the margins of Davos, the American president staged a diplomatic show, casting about for the most accommodating partners he could find.

For once, Europe hesitated. Stung by the tariff offensive and the brazen claims over Greenland, the European Union initially kept its distance from Trump’s project. But necessity has a way of bending the will, and in the end, with the classical logic that accommodates power over principle, ethics was quietly filed away. The Union discreetly let it be known that it would participate as an “observer” of the Peace Council.

For anyone possessing even a rudimentary literacy in international relations, the Board of Peace is nothing more or less than a body plainly designed to supplant the United Nations in practice, if not yet in name. Trump intends to impose his own architecture on the world order and delegitimise a global organisation that, without imperial supervision, has served as a meaningful platform of representation for 193 countries. It’s true that the UN is facing a stalemate—especially when the permanent members of its Security Council, notably the United States and Russia, treat it à la carte. But it is what we have, and it bears remembering that there is far more to the United Nations than its Security Council.

In all of this, where is Portugal? A familiar pattern repeats itself. Our country—whatever America may be—remains bound to a simple posture: never to take a stance that might risk displeasing Washington. It’s not even about confronting the United States; it’s about trying to guess how America might react—if it even noticed our existence—should we dare to think for ourselves, in any way even mildly dissonant with the “American friend.” One could call it the doctrine of preventive subordination. 

It is not new. In 2003, Portugal hosted at Lajes the summit that sealed the invasion of Iraq — a press conference that entered history as an infamous monument to Western servility. The host was the Portuguese government of the day. The UN had been bypassed; international law ignored. And Portugal proudly provided the stage for that violation, in the illusion that diplomatic visibility might compensate for the abandonment of principle. History has not been generous in its verdict.

More than twenty years on, Portugal has now announced that it too — alongside a handful of European states — will serve as an “observer” of Trump’s Peace Council. For a moment, I harboured the naïve hope that Lisbon might, out of some minimal sense of dignity, have recalled that the Secretary-General of the United Nations — the organisation Trump so openly demonises — is himself Portuguese. But no. The neck bent once more. Following the embarrassment of Portugal’s conduct in the Venezuela affair, Portuguese foreign policy has revealed, under this government, what it truly is — or rather, that it does not exist at all, and amounts to nothing more than an art of evasion and a servile deference to Washington.

At Lajes, there was at least the excuse of naivety. Today, there is none.​​​​​​​​​​​​​​​​

Francisco Seixas da Costa
Portuguese ambassador

(The original version of this text was published in the Portuguese daily newspaper "Publico", 21.02.2006, https://www.publico.pt/2026/02/21/mundo/opiniao/doutrina-subordinacao-preventiva-2165444 )

A doutrina da subordinação preventiva


Donald Trump inventou um dia aquilo a que chamou o Conselho da Paz, inicialmente centrado na sua proposta para uma solução final da questão palestina. Para tal, juntou uns quantos parceiros, cada um dos quais passou um gordo cheque para ganhar a sua boa vontade. E logo anunciou ao mundo ter feito mais uma "paz", a caminho de um futuro Nobel. O grupo tinha gente pouco recomendável, mas não seria isso que o iria distinguir do nível ético do seu promotor.

O projeto era transformar uma área deliberadamente arrasada numa Riviera de águas tépidas, a leste do Mediterrâneo. Como projeto turístico, era uma excelente ideia. Tinha, porém, um irritante, como agora se diz: havia por lá uma população que habitava aquela terra, desde há séculos. A densidade populacional da área era mesmo das maiores do mundo. Verdade seja que Israel, com uma meticulosa política de liquidação intensiva dos palestinos, por ali e na Cisjordânia, como retribuição desproporcionada pelo ataque terrorista que sofrera, vinha ajudando a atenuar o tarefa. 

A chegada de Trump 2.0 atordoou o mundo, desde logo a Europa, cuja atitude face ao conflito israelo-palestino era, desde há muito, uma montra de impotência e cobardia. Assumindo como se fosse sua a culpa da genocida extrema-direita nazi, os europeus haviam adotado a tibieza de não ousar enfrentar Israel, temerosos do labéu do anti-semitismo, ferrete usado contra quem questiona a excecionalidade do Estado judaico. Com as administrações americanas, de qualquer cor política, de mãos atadas face à pressão do seu lóbi interno, a Europa cedo optou por se subordinar a Washington. 

O Conselho da Paz evoluiu entretanto, na dinâmica retórica de Washington, para uma instituição vocacionada para operar o milagre da paz pelo mundo, sob a liderança auto-nomeada do próprio Donald Trump - de quem havia de ser? À margem do encontro de Davos, o presidente americano montou um show diplomático para o qual procurou carrear os parceiros mais complacentes. 

Por uma vez, a Europa hesitou. Com a agressão das taxas alfandegárias e o desplante das ambições sobre a Gronelândia, a União Europeia, um tanto ofendida, distanciou-se inicialmente do projeto de Trump. Mas o que tem de ser tem muita força e, com o tempo, num lógica clássica da flexibilidade da vontade perante os poderes fáticos, a ética foi colocada na gaveta. Discretamente, a União informou ir ser "observadora" do Conselho da Paz. 

O Conselho da Paz, para quem tenha um mínimo de literacia em relações internacionais, é nada mais nada menos do que um órgão com a intenção óbvia de vir a substituir-se, no plano dos factos, às Nações Unidas. Trump pretende impor a sua estrutura ao mundo e desqualificar uma organização global que, sem tutelas imperiais, tem servido de plataforma de representação útil para 193 países. A ONU atravessa um impasse, é certo, desde logo quando os membros permanentes do seu Conselho de Segurança, a começar pelos Estados Unidos e a Rússia, a utilizam à la carte. Mas é o que temos e importa notar que há muito mais Nações Unidas para além do seu Conselho de Segurança. 

Em tudo isto, por onde anda Portugal? Há um padrão que se repete. O nosso país, seja a América o que ela for, vive subordinado a uma postura simples: nunca se colocar numa posição que suspeite poder desagradar a Washington. Não é sequer afrontar os EUA; é tentar adivinhar como reagiria a América, se acaso suspeitasse que existimos, caso ousássemos pensar pela nossa própria cabeça, de forma minimamente dissonante com o “amigo americano”. É o que se pode chamar a doutrina da subordinação preventiva. 

Não é de hoje. Em 2003, Portugal acolheu nas Lajes a cimeira que selou a invasão do Iraque, numa conferência de imprensa que ficou para a história infamous da subserviência ocidental. O anfitrião era o governo português de então. A ONU tinha sido ultrapassada, o direito internacional ignorado. E Portugal, orgulhosamente, ofereceu palco a esse atropelo, na ilusão de que a visibilidade diplomática compensaria a abdicação de princípios. A História não foi generosa nessa apreciação. 

Passados mais de vinte anos, Portugal anunciou agora que, tal como alguns escassos países europeus, vai ser "observador" do Conselho da Paz de Trump. Por um segundo, tinha tido a ingénua esperança de que, por um mínimo de dignidade, Lisboa se tivesse lembrado de que é português o secretário-geral da ONU - a organização que Trump abertamente diaboliza. Mas não. A cerviz dobrou de novo e, depois do vexame que foi a atitude portuguesa no caso da Venezuela, a política externa portuguesa revelou, com este governo, o que é - ou melhor, que não existe, que se resume a um fugir por entre as pingas e a um seguidismo subserviente face a Washington. 

Nas Lajes, pelo menos, havia a desculpa da ingenuidade. Hoje, não há.

Finalmente!

Uma bela escolha para a Administração Interna. Até que enfim que sinto vontade de elogiar uma escolha de Luís Montenegro.

"A doutrina da subordinação preventiva"


A propósito da anunciada intenção do governo de vir a colocar Portugal como "observador" do Conselho para a Paz, de Donald Trump, escrevo no Público deste sábado um artigo intitulado "A doutrina da subordinação preventiva".  

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Embaixadores políticos


A propósito da anunciada nomeação de Rui Moreira para embaixador junto da OCDE, deixo aqui este estudo de 2019, que fiz para a revista JANUS.

O algoritmo humano


Passei umas horas a ouvir falar de algoritmos, pela boca de quem sabe do assunto, em especial da sua utilização pela Inteligência Artificial e do que daí pode decorrer. É um mundo fascinante, que já aí está a marcar-nos todos os instantes, com o qual temos de aprender a viver. 

Um dos efeitos mais vulgares dos algoritmos é a experiência que todos já tivemos de nos ser sugerida a aquisição de produtos ou serviços, à luz daquilo que adquirimos no passado. Tenho essa prática, com regularidade, nas compras de livros que faço na Amazon, onde "eles" já sabem das minhas tendências e procuram mostrar-me aquilo em que presumem que eu possa estar interessado. E algumas vezes estou.

Mas há "algoritmos humanos". Eu explico. Um dia, no Brasil, entrei numa livraria Saraiva, um cadeia que desapareceu já há uns anos. Como acontece no comércio naquele país, quando entramos numa loja "cola-se-nos" frequentemente um empregado, que procura saber o nosso nome e tenta ser útil, embora em regra só consiga ser chato. A ideia parece ser de que uma eventual compra da nossa parte lhe possa vir a ser atribuída, para seu crédito profissional. Nada de novo. No meu caso, por regra, enxoto-os com a possível delicadeza.

Nesse dia, como é meu hábito, cirandei por todo o espaço da loja, até que me fixei numa mesa ou numa estante, da qual fui avaliando alguns livros. A certo passo, o meu "seguidor" aproximou-se com um livro na mão e perguntou: "Já viu este livro?" Já não sei que obra era, mas disse-lhe que não estava interessado. Minutos depois, apareceu-me com outro livro, que também não me despertava a atenção. Comecei a ficar intrigado e perguntei: "Por que é que me está a mostrar esses livros?" 

Aquele homem, recordo bem, era uma pessoa muito simples, que manifestamente não fazia a menor ideia do conteúdo dos livros que por ali estavam. O belo tempo dos livreiros conhecedores, que nos ajudam a descobrir obras que nos interessam, já não abençoava aquelas lojas de massificação de papel. 

E foi então que me explicou, em voz baixa, que fora instruído a seguir o cliente, a observar as mesas em que este mais se concentrava e, a partir daí, a propor-lhe os últimos livros dessas áreas temáticas que tivessem chegado à livraria. 

Eu imagino que devia andar pelos "current issues", pelas memórias, pela política e pela história - é esse o meu habitual "fond de commerce" - e o homem tinha tentado impingir-me coisas que achava deverem corresponder ao meu perfil de comprador. Não teve sorte. 

O algoritmo da Amazon é bom, bem melhor do que aquele empregado da Saraiva, mas eu continuo a preferir os bons livreiros.

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Júlio Isidro


Não sou íntimo de Júlio Isidro, longe disso!, mas conheço-o desde sempre. Da televisão pré-Abril, claro, onde me recordo de o ver fardado e em programas de aeromodelismo, até ao Rádio Clube Português, na Sampaio e Pina, onde conversámos nas noites "sem sono" de 1974. Bebemos depois copos com amigos comuns num bar da Infante Santo e estivemos na primeira Festa do Avante, na FIL, também nesses outros belos tempos. E, pelos anos adiante, fomo-nos cruzando, pelos acasos da sorte, aqui e ali, como aconteceu na Avenida da Liberdade, no dia em que, ambos de cravo ao peito, comemorávamos os 50 anos dela.

Júlio Isidro acompanhou, do outro lado do écran, toda a minha vida. Um pouco como acontece com Sérgio Godinho e, com uns anos de diferença, com Herman José. Tudo gente que mal conheço mas que conheço muito bem, "de toda a vida", como dizem na Linha ou na minha vizinhança da Lapa. O sorriso de Júlio Isidro, a sua simpatia e facilidade de comunicação transformaram-no num "compagnon de route" da minha geração. Ele esteve sempre ali.

Leio que Júlio Isidro vai deixar a RTP. Não sei o que será uma RTP sem ele. Embora Júlio Isidro pareça ser alguém que nunca se cansa, a verdade é que ele também tem direito ao descanso.

Por tudo, obrigado, Júlio Isidro! Até sempre!

Bom nome?

Acho lindamente que os dirigentes dos clubes de futebol se insultem entre si, que "cortem relações" com a imprensa e coisas assim. Contudo, podiam evitar uma expressão que roça sempre o ridículo: dizerem que foi atacado o seu "bom nome". Bom nome?!

terça-feira, fevereiro 17, 2026

À mesa no Alentejo

Começo por um "disclaimer": o que vão ler está longe de ser uma crónica gastronómica. Trata-se apenas de notas despretensiosas sobre algumas "escassas" refeições, em restaurantes, num fim de semana alargado no Alentejo, aproveitando o Carnaval e a "aberta" climática.


A jornada começou por aquela que se converteu numa das grandes mesas de Estremoz: a Mercearia do Gadanha. Prémio "Maria de Lurdes Modesto" 2024, de cozinha tradicional portuguesa, da Academia Portuguesa de Gastronomia, esta casa mantem, há vários anos, uma notável constância de qualidade. A sua lista é soberba. A relação satisfação/preço é excelente. Volto lá sempre que posso.


Um almoço menos exigente, com simpatia no atendimento e a oferta sempre muito honesta para o preço praticado, foi-nos proporcionada na Cadeia Quinhentista, ao lado da Pousada Rainha Santa Isabel.  Sejamos justos: o bacalhau dourado da Cadeia, que tem a tradição da Pousada de Elvas por detrás, estava muito bom. E do resto também nos não queixamos. À saída, foi com pena que olhei as portas e janelas fechadas do saudoso restaurante São Rosas


A marca Gadanha expandiu-se para outro espaço da cidade, a Casa Gadanha, num modelo diferente da casa mãe, mais "produzido", com opções de degustação na lógica da moda dos "momentos", com ou sem "harmonização" etílica. O serviço tem a "secura" tradicional do modelo escolhido, embora sem chegar ao "casual arrogant" de alguns espaços lisboetas (e não só) análogos. Comeu-se muito bem, com pratos excelentemente apresentados (deixo acima uma imagem). O ambiente é um pouco frio, "clean". O meu teste habitual é este: volto? Volto.

Para chegar ao Tintos e Petiscos, indo de Estremoz, são trinta e tal quilómetros até Vaiamonte. Comecei por conhecer a casa num outro espaço, já num outro tempo. A qualidade da oferta, numa lista 100% alentejana, foi sempre boa. Vale a pena ir à arrecadação para escolher os vinhos, embora em regra nada baratos. Fui por um Douro, ainda a preço razoável. Saímos satisfeitos, como sempre por ali tem acontecido.


De regresso a Estremoz, a noite estava animada no magnífico espaço do Howard's Folly, no sábado de Carnaval e "Valentine's day". Além de restaurante num espaço ao lado, é também um local para um copo, em ambiente simpático, com música ambiente. Casa conhecida por vinhos próprios muito bons, a decoração do seu espaço é muito interessante. A comida, sem ser um espanto, também o é.

Deixámos Estremoz sem rever o restaurante da Pousada (só dá jantares), bem como o surpreendente Larau e, uma vez mais, sem testar como se comporta a velha Adega do Isaías, desde há uns tempos com nova gerência. E sem repetir o Alecrim, uma aposta de difícil afirmação numa terra com tão boa oferta. As obras no Águias de Ouro continuam.


Vila Fernando não fica à mão de semear, mas raramente passo por aquela zona do Alentejo sem dar uma saltada à Taberna do Adro. As mesas são muito poucas no espaço da dona Maria José, mas a sua simpatia "vaut le détour", para utilizar o termo clássico do Michelin "vert". Os petiscos, anunciados na carta forrada a pano, fazem o resto, que é muito. Preço sempre em conta. Volto sempre.

Embora Estremoz seja, cada vez mais, "um caso sério" da gastronomia no Alentejo, Évora é a grande "Meca". 


Na imensidão da oferta eborense, andava há uns tempos com curiosidade de ir à Enoteca Cartuxa, junto ao Templo de Diana e à Pousada local. A experiência, sem ser esmagadora, foi bem simpática. Fez-se várias partilhas e estava tudo bastante bom. O serviço era muito agradável. É uma bela opção, quando se não pretende fazer uma refeição pesada.


Idêntica fórmula se seguiu, no almoço seguinte, no clássico Café Arcada, na Praça do Giraldo, agora renovado com uma estética quiçá discutível. As empadas estavam magníficas.


Fechou-se Évora com um sólido jantar no Luar de Janeiro: sempre muito bom, consistente, quase sem falhas. O serviço foi eficaz e bem divertido. Este espaço do Luar é bem melhor do que o que anteriormente ocupava, na mesma rua "larga".

Quando estou em Évora, arrependo-me sempre de não regressar à Tasquinha do Oliveira, ao Dom Joaquim, ao Moinho do Cu Torto, ao Origens, ao Tua Madre, ao Quarta-Feira - e sei lá a quantos outros excelentes lugares que por lá há, para além dos que se criaram fama e se deitaram na cama. 


Fechámos hoje a expedição carnavalesca com uma casa simples, já a caminho de Lisboa, em Santiago do Escoural. "Foste o Manuel Azinheirinha?", perguntará um expert das mesas alentejanas. Não. Foi uma alternativa mais singela, o Rabino's, onde a jornada terminou de forma simpática, com o dono da casa diligentemente a guiar-nos pela lista que mostro acima, num espaço que ganharia em ser um pouco "confortabilizado". Mas valeu a pena! 

De regresso a Lisboa, há agora que fazer uma semana mais espartana, para compensar os exageros de um belo tempo de Carnaval alentejano. E vou passar esta minha renovada lista de restaurantes ao meu médico de clínica geral, que tem gostos similares aos meus (se não fosse assim eu não o tinha escolhido).

"Olhe que não, olhe que



No "Olhe que não, olhe que não" desta semana, o podcast do jornal "24 Horas", converso com Jaime Nogueira Pinto sobre dom João VI, o conflito entre absolutistas e liberais e outros temas que vieram à baila. 

Pode ver aqui.

Dúvida


Será que esta santa, cuja imagem ontem encontrei na Sé de Évora, é a padroeira da Brigada de Trânsito da GNR?

Eles é que têm razão!


Isto é um país em ruinas.

segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Duvall


Tinha 95 anos e morreu agora. Robert Duvall era um magnífico ator. A maioria recorda-o nos Padrinhos, eu fiquei com o Apocalipse Now  - onde crismou a histórica linha "Eu gosto do cheiro a napalm de manhã". Era um "character", o que talvez lhe tenha condicionado a carreira. 

domingo, fevereiro 15, 2026

Por que será?

Dado que este blogue deixou de admitir comentários, esta é uma questão puramente retórica: por que diabo nas localidades alentejanas de Évora e Estremoz há uma tão grande concentração de excelentes restaurantes?

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Na " Visão"


A coluna semanal de José Carlos de Vasconcelos é dos textos que raramente falho na leitura da "Visão". O Zé Carlos escreve um "português de lei", culto e despretensioso, não se pretende "difícil", tem um bom-senso à flor da pele e uma lucidez que levo sempre à conta do facto de ele já ter visto muito. São textos sem floreados nem arrebiques, sob uma lógica óbvia e poderosa, não pretendendo agradar a ninguém em particular e com uma elegância desarmante face àqueles que critica.

Há pouco, ia eu lançado pelo texto abaixo quando dei por mim pespegado numa linha. Saltou-me à vista o meu nome, ligado à menção ao blogue que o leitor está agora a ler. Um espaço que eu sabia que José Carlos de Vasconcelos acompanhava, sendo esta a única "rede social" que ele segue com regularidade. O que o leva sempre a dizer que eu e o Guilherme Oliveira Martins temos uma capacidade de produção de escrita que pede meças a muita gente. 

O prazer de nos vermos citados por alguém que é um príncipe da escrita e do jornalismo vai de par com um acrescido sentimento de responsabilidade. Afinal, quando por aqui escrevo, não me posso nunca esquecer que, do outro lado do ecrã, está a atenção, que sei também exigente, do meu amigo José Carlos de Vasconcelos. 

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

"A Arte da Guerra"


Os estilhaços da bomba Epstein, o novo quadro comercial internacional e o reforço da viragem à direita no Japão. Veja em "A Arte da Guerra" aqui.

O Estado e a arte

Este governo, não obstante projetar uma inescapável imagem de incompetência, ainda terá um módico de lucidez para perceber que a atual situação é "areia demasiada" para a sua carroça". Contudo, olhando-lhes as caras e as atitudes, vê-se que não querem aprender com a realidade.

Se assim não fosse, procurava já um entendimento como PS, para superar as consequências da atual crise, com vista a um alargado acordo sobre o modo de intervir no tecido infraestrutural do país, em aliança com os municípios. E sem criação de "comissões" ou "gabinetes", por favor!

Com a ajuda do novo presidente, que por algum tempo poderá gozar de um efetivo estado de graça, atenta a diversidade dos votos que o colocaram em Belém, Montenegro e a sua gente, se a arrogância lhes não lhe atasse as mãos, teriam a hipótese de pilotar uma gestão hábil da crise.

Mas, como antigamente se dizia, "não estamos com gente disso!". Este pessoal governamental não está à altura do desafio que tem perante si. E vai arrastar-se por aí, a fingir que governa. O que teria sido se o azar da história os tivesse encontrado em S. Bento durante a pandemia!

A1

É grave para o país a A1 ficar interrompida por bastante tempo. Mas digo isto apenas como "observador". Viajo com frequência entre Lisboa e Porto e há muito que não me passa pela cabeça ir pela A1. A ligação A8 seguida da A17 é, desde há anos, o único caminho que utilizo.

Colombo: o ovo ou a vontade?

Vejo por aí com frequência críticas ao facto da lei não ser imperativa - ou podendo ser interpretada como o não sendo - no tocante aos prazos que devem ser observados pela justiça. Se assim é, senhores legisladores, porque não fazer uma lei interpretativa? São só dois parágrafos.

Guterres

António Guterres felicitou o Estado iraniano no seu dia nacional. Caiu o Carmo e a Trindade! 

O secretário-geral das Nações Unidas, organização de que o Irão é membro pleno, saúda ritualmente os dias que o país indica como sendo suas datas nacionais. 

Recordo que as Nações Unidas acolhem regimes de toda a natureza - desde sólidas democracias a sinistras ditaduras. Nas Nações Unidas, como em qualquer organização internacional, uma ditadura não tem menos direitos do que uma democracia, como é sabido por quem sabe um mínimo destas coisas. 

Era só o que faltava que o SGNU, nestes seus gestos protocolares, tivesse a liberdade pessoal de escolher entre regimes. 

Brasil


Quando um poeta se junta com um musicólogo, em torno da poesia e da música de um país cuja cultura ambos admiram, o resultado só podia ser muito interessante, como ontem, tal como na passada semana, pôde constatar quem esteve no Grémio Literário a ouvir Luís Castro Mendes e Rui Vieira Nery.

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

A ministra


Maria Lúcia Amaral deixou de ser ministra da Administração Interna. Jurista de primeira água, foi arrastada pela enxurrada mediática da intempérie. O seu estilo de comunicação estava em óbvio contraciclo com o ritmo dos dias políticos de hoje.

Conhecemo-nos num tempo sereno, há uma década, na organização de uma conferência, a que ela presidia e de cujo Conselho Científico eu fazia parte. Pude constatar que era senhora com um grande humor e imensa inteligência. 

Nos seus primeiros dias como ministra, cruzámo-nos casualmente, numa circunstância social. Recordo, em algo que então me disse, a consciência plena que tinha da aventura política em que se tinha envolvido. Só que os factos são sempre muito mais imaginativos dos que os homens. E do que as mulheres. 

Aqui fica o meu abraço solidário.

Japão vira (ainda mais) à direita


Com o resultado das eleições legislativas do passado fim de semana, o Japão entrou claramente numa nova fase política. O histórico Partido Liberal Democrata, agora liderado por Sanae Takaichi, conseguiu garantir uma maioria de dois terços no parlamento. Não foi apenas expressivo em termos numéricos, mas veio consagrar una reorientação para a direita do centro de gravidade político japonês, conferindo ao novo governo um mandato robusto. 

Takaichi, que tinha sido a primeira mulher a chefiar um executivo no seu país, assume esta liderança reforçada após aquele que foi um período de erosão eleitoral do LDP, marcado por derrotas mas também pela paralela fragmentação da oposição. A decisão de convocar eleições antecipadas revelou-se um cálculo certo: a oposição colapsou, a nova aliança centrista perdeu relevância parlamentar e o eleitorado aceitou uma liderança claramente de direita, sem ambiguidades ideológicas. Nunca o Japão político girou tanto à direita.

A agenda anunciada pelo governo combina estímulos fiscais com o reforço das capacidades militares, uma mais eficaz "intelligence" e uma política externa que se pretende mais assertiva, sobretudo perante a China, mantendo simultaneamente a tradicional aliança estratégica com os Estados Unidos. Isto ocorre num contexto regional tenso e num momento em que Washington dá sinais de "selecionar" parceiros previsíveis e muito alinhados em matéria de segurança. Tóquio promete sê-lo cada vez mais.

Este reforço do LDP, e da sua capacidade parlamentar, pode vir a abrir espaço para reformas e revisões constitucionais sensíveis. O Japão tem, contudo, alguns constrangimentos: um crescimento anémico, um custo de vida elevado e o envelhecimento acelerado da sua população. 

Resposta a perguntas da 24 Notícias

A vitória de António José Seguro é também uma vitória do PS? Porquê?

A vitória de AJS é, no essencial, uma vitória pessoal. Avançou sozinho e resistiu às pressões de setores de dentro do PS para aceitar desistir em favor de António Vitorino. Este trajeto solitário confere-lhe uma autonomia única. Entra em Belém com as mãos completamente livres. De certo modo, repete Marcelo há dez anos, embora este não tivesse encontrado as resistências com que Seguro se confrontou, no seu próprio campo político. Esta é uma vitória do PS? Também acaba por ser. Seguro teve ao seu lado, a partir de um certo momento, a máquina do partido. Fica a dever isso ao PS mas este fica a dever-lhe bastante mais: ter um dos seus em Belém é muito simbólico para os socialistas, em especial num tempo muito sombrio na sua prestação nas legislativas. A "chama" da esperança dos socialistas, para um seu futuro regresso ao poder, fica agora acesa. Não creio, contudo, que Seguro venha a ser um instrumento que o PS venha a poder utilizar para apressar o seu retorno ao poder. 

Quais os principais desafios de António José Seguro?

Seguro vai confrontar-se, desde muito cedo, com um Montenegro arrogante, como se revelou logo na noite eleitoral, que vai querer blindar o terreno próprio do governo e evitar que o novo presidente, utilizando a sua pressão e influência, seja uma espécie de "provedor do povo ", junto de um executivo ineficaz e incapaz de produzir resultados. Montenegro já percebeu que o governo que conseguiu "produzir" está sem capacidade para apresentar resultados concretos, nas áreas mais sensíveis das políticas públicas. Vai tentar usar o novo presidente para pressionar o PS para o deixar governar. Seguro tem de saber resistir à chantagem de ter de ser ele a pedir ao PS para salvar Montenegro e adiar a crise que uma eleição antecipada provocaria. Não vão ser nada fáceis os dias de Seguro em Belém.

3 - Qual a probabilidade de, daqui a três anos, António José Seguro estar a dar posse ao primeiro-ministro André Ventura? O que pode evitar este cenário?

Acho que a probabilidade de AJS ter de dar posse a Ventura como primeiro-ministro é elevada - e antes de decorridos três anos.

Cruzadismo


Ontem, este blogue teve 11.137 visitantes. Hoje, ao comentar isto com um amigo, ouvi: "Com esses números, já ultrapassa largamente alguns jornais em papel. Já pensou em colocar palavras cruzadas no blogue?" Não, ainda não pensei. Mas, aqui há uns tempos, outro amigo ironizava: "Com tantas notas necrológicas que ali publicas, o teu blogue quase parece um semanário que eu cá sei..."

Ganhar a derrota

Há dois derrotados nas presidenciais que, pelos vistos, querem continuar a cavalgar a popularidade colhida na primeira volta e teimam em não sair de cena: um passou a comentador televisivo, outro puxou subliminarmente dos galões de organizador logístico para atacar uma ministra.

terça-feira, fevereiro 10, 2026

As eleições presidenciais e as direitas


Veja aqui o 'Olhe que não, olhe que não" desta semana, onde debato com Jaime Nogueira Pinto as eleições presidenciais e as direitas.

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Sapucaí saloio

Este ano, a intempérie deu cabo dos nossos cortejos carnavalescos. O Carnaval é uma tradição europeia que foi levada para terras quentes. Dali regressou com as coreografias próprias do clima desses países. É de um imenso e sádico ridículo ver jovens despidas a tiritar de frio.

Os focados

Há dias, Montenegro disse que estava "focado" na governação para se pronunciar sobre as presidenciais. Na noite eleitoral, contudo, "desfocou" a atenção e fez uma comunicação ao país, seguida de uma mais do que despropositada conferência de imprensa.

Há minutos, o primeiro-ministro britânico, que tem o seu futuro entre a espada e Epstein, disse estar "focado" no trabalho e não querer falar das trapalhadas em que Mandelson o meteu.

Percebe-se que alguém que está na corda bamba tenha de estar muito "focado".

O servidor da moeda

O governador do Banco de França decidiu sair e disse isto:  "Mes près de onze années à la tête de la Banque de France et au service de l’euro sont et resteront l’honneur de mon parcours public". Releva de uma lógica de serviço público que me é estranha este "au service de l’euro".

A noite (4)

Com a voz semanal de Cotrim, da sua nova tribuna televisiva, a "dar a linha" aos que nele votaram, tentando fazer-se lembrado para o quinquénio seguinte, a liderança da IL vai saber o que é o peso de um "backseat driver".

A noite (3)

Houve uma vitória da qual, na noite de hoje, pouco se falou: com a eleição de António José Seguro venceu também a Constituição da República Portuguesa.

A noite (2)

Acho que não tem o menor sentido, salvo como mera curiosidade estatística, estar a comparar percentagens das vitórias em anteriores eleições presidenciais. Só quem não conheceu os diferentes contextos é que pode tomar a sério este tipo de análise.

A noite (1)

Ventura venceu no círculo eleitoral de Caracas. Esta é mais uma prova de que o trumpismo - ia acrescentar, "de modo seguro", mas travei a tempo - está a fazer o seu caminho de afirmação na vida política venezuelana.

domingo, fevereiro 08, 2026

A ter em atenção

Os votos que Ventura vier a ter no final desta segunda volta serão muito significativos: trata-se de gente que foi capaz de o escolher mesmo tendo, do outro lado, um opositor com um perfil tão moderado como o de Seguro. Esse é um Portugal a que há que estar muito atento no futuro.

É bonita a festa, António!

Re - "Visão"


Ontem, na estação de serviço, a empregada a quem mostrei os quatro exemplares da revista "Visão" que ia comprar perguntou, curiosa: "Vai oferecer a alguém?" Respondi: "Talvez, mas compro para apoiar a revista". 

Nem imaginam a cara dela!

"Más allá del Caia"

Ainda estou por entender o ódio assanhado ao presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, que persiste na direita portuguesa, aqui pelas redes sociais. A esquerda lusa, tanto quanto me parece, está-se "borrifando" para Feijóo e Abascal, achando mesmo alguma graça estética a Ayuso.

Dificuldades

O próximo presidente da República vai ter uma tarefa muito difícil. Releio a frase, ouvida agora, e pergunto-me se houve algum seu antecessor, desde Manuel de Arriaga, para quem a expressão não tivesse sido utilizada. Até ao Américo Tomás!

O bi-voto


Outono de 1969. Era uma senhora muito conservadora (na altura, eu dizia "facha") até dizer chega - e, nesse tempo, alguma coisa parecida com o sonho político último do Chega estava no poder em Portugal. Tinha uma quinta numa aldeia perto de Vila Real. Estava lá inscrita para votar, nas "eleições" para a Assembleia Nacional. E também estava nas "listas" da cidade de Vila Real. Era o bi-voto. Não o escondia, dizia com orgulho: "Se tenho duas casas, se pago impostos por elas nos dois sítios, tenho direito a ter dois votos, não é?". Era.

sábado, fevereiro 07, 2026

Humor castanho

 


Amanhã não vou votar

Amanhã não vou votar. Ficarei em casa, a ver futebol e a ler. Amanhã, deixo aos meus compatriotas a decisão de escolherem o nosso presidente para os próximos cinco anos. Que fique bem claro: não contem comigo para o sufrágio de amanhã. Porquê? Porque já votei na passada semana.

Uma tarde em Alfragide


Nesta tarde de chuva errática, estive num bem participada conversa em Alfragide, a falar da diplomacia, do mundo que por aí anda e da minha própria experiência profissional. Gostei bastante.

Agradeço o convite de Inácio Ludgero e o acolhimento de António Paulo, presidente da Junta de Freguesia.

A apólice garantida

No domingo, os portugueses podem vir a obter um Seguro contra todos os riscos, bastando para tal escolherem um Seguro contra terceiros.

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

Coincidências (2)

Trump divulgou uma imagem em que os Obama são equiparados a um casal de símios, no mesmo dia em que um tribunal português decidiu libertar o "Macaco", essa grande figura do desporto nortenho. Ah! Pois é! E ainda dizem que não há coincidências! 

Coincidências

O primeiro-ministro dizia esta manhã estar a fazer uma visita surpresa a locais vítimas da intempérie, sem avisar ninguém. É curioso estas declarações terem sido reportadas por jornalistas que, por uma incrível coincidência, estavam no local. Há um jornalismo feliz, não é?

Poetas com taxímetro

Dizia-me ontem um taxista, descontente com o clima: "Já reparou que desapareceram as estações?! A mim, faz-me muita falta o outono!" Achei curioso. "E a primavera, não lhe faz falta?" Gargalhada. "Fazia, noutra idade!" Nova gargalhada. A poesia já chegou aos táxis.

Não têm que agradecer...

Espero que o PSD já tenha percebido de que deve rezar a todos os santinhos para que a vitória de Seguro seja esmagadora - e, por consequência, que a derrota de Ventura seja grande. Toda a força acrescida que Ventura vier a obter nesta eleição ameaça o futuro do PSD. De nada...

quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Joana Lopes


Desaparece agora uma mulher de armas, em vários sentidos da expressão. Soube que morreu Joana Lopes, aos 88 anos. 

Uma mulher solidamente de esquerda, que deixa um legado importante na luta contra a ditadura e que soube manter-se, com coerência e determinação, no lado da História que sempre teve como seu. 

O seu blogue "Entre as Brumas da Memória", onde surgia um seu avatar divertido, seguia escassas páginas. Poucas mas boas. 

O meu sentido pesar à família de Joana Lopes.

Não se iludam!

A discussão sobre o adiamento das eleições é um óbvio pretexto para fragilizar a legitimidade dos resultados. As eleições devem realizar-se na data marcada, salvo em contextos locais onde tal impossibilidade seja declarada pelas autoridades autárquicas.

"A esquerda e as empresas"

Há mais de uma década, escrevi um artigo com este título numa coluna semanal que tinha no "Jornal de Notícias". 

No dia de hoje, por razões que compreenderão algumas pessoas que hoje comigo partilharam um evento, apetece-me repetir o texto de 2015:

"Não vale a pena alimentar o menor equívoco: existe uma desconfiança entre uma parte significativa do empresariado português e a esquerda. Convém assumir isto sem dramas e com realismo. 

Do lado de muitos empresários, são recordados os traumas pós-revolucionários, razão por que alimentam uma forte desconfiança do PCP e do BE, em cujos programas vislumbram uma linguagem agressiva para com os detentores de capital, sendo apenas travados, nos seus amanhãs revolucionários, pelas limitações do voto.

Com o PS a relação é muito diferente. Anos de convívio deram aos empresários a certeza de que os governos socialistas sabem respeitar plenamente as virtualidades da economia de mercado. Porém, os empresários detetam ainda nos socialistas um dualismo pouco confortável: aqueles que reconhecem as suas qualidades como promotores de crescimento, de emprego e do bem-estar económico-social, lado a lado com outros que, aqui ou ali, deixam cair comentários hostis, de onde emerge, no mínimo, a regular ameaça da mão fiscal, agora que os mitos estatizantes desapareceram de cena. 

Por essa razão, um número significativo de empresários portugueses, não obstante poderem ter algumas queixas da coligação que agora saiu, teria preferido mil vezes vê-la continuar no poder. Isso é claramente agravado pelo facto do atual PS surgir apoiado pelos seus inimigos mais jurados.

Assim, este novo governo do PS, mais do que qualquer outro anterior, tem de saber lançar as bases de uma relação de confiança com o empresariado, das PME às grandes empresas, onde assenta o essencial do investimento produtivo e a criação de emprego. A grande questão está em saber como vai ser possível estruturar essa agenda de confiança quando, à sua esquerda, se irá com toda a certeza manter a hostilidade do discurso anti-capitalista. 

Mas uma agenda “business-friendly” quer dizer o quê? Desde logo, menos burocracia, menos e melhor legislação, acusada hoje de abafar o trabalho das empresas e de aumentar os seus custos. Depois, é evidente, significaria (e não é por acaso que coloco o verbo no condicional) garantias de estabilidade fiscal, por forma a permitir planear, com menos riscos, os investimentos. Finalmente, os empresários gostariam de ter por muito claro se os socialistas vão ou não mexer nas atuais regras laborais.

Nos últimos anos, há uma coisa que aprendi sobre os empresários portugueses: eles estão dispostos a operar, cá dentro ou lá fora, em cenários políticos difíceis, mas detestam a instabilidade, a imprevisibilidade, o não saberem se, no dia seguinte, as regras vão mudar, se o enquadramento legal que gere a sua vida irá subitamente variar.

No fundo, se pensarmos bem, os empresários portugueses temem que lhes possa vir a acontecer o que ocorreu, nos últimos quatro anos, a milhões de portugueses, mal governados pela coligação que tão simpática era aos olhos de alguns deles."

Post


O "The Washington Post" está a dar mostras de crise. Jeff Bezos estará a fazer de propósito?

The file


Um grande "cartoon" no "Le Monde" de hoje.

Britannia


Epstein está a abalar as instituições britânicas. Além das aventuras do já ex-príncipe André, a revelação hoje feita nos Comuns pelo PM Starmer, de que sabia das ligações de Mandelson ao milionário pedófilo e proxeneta, quando o nomeou embaixador nos EUA, caiu como uma bomba.

Não se admirem se, nas próximas horas, houver um desafio à liderança de Keir Starmer no Reino Unido. Por ora, Farage vai-se rindo e fica à espera.

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Eliseu


Marine Le Pen vai, muito provavelmente, ser impedida de se candidatar à presidência da República francesa, nas eleições de 2027, em que era favorita. A colocação fictícia de funcionários do Rassemblement National no "payroll" do Parlamento Europeu pode mesmo levá-la à prisão.

Na "pole position", surgirá Jordan Bardella, o qual, surpreendentemente, parece herdar o favoritismo, se tiver de substituir Le Pen. Bardella tem menos de 30 anos, dá mostras de uma grande impreparação, mas ... parece que pode acabar no Eliseu.

No extremo político oposto, o líder de "Le France Insoumise", Jean-Luc Mélenchon, teima em reeditar uma candidatura, esperançado na bipolarização numa segunda volta, contra Le Pen ou Bardella. Contudo, a sua imagem tribunícia e algo radical não o converte num "Seguro" francês.

A restante esquerda, que esteve unida com LFI nas legislativas de 2024 mas se afastou entretanto, irá decidir um candidato próprio em eleições primárias. Os nomes potenciais desse setor são tão pouco entusiasmantes que já se fala num possível regresso de François Hollande.

A direita clássica, onde as origens gaullistas se diluiram há muito, parte da qual já migrou para os braços da extrema-direita, decidiu-se por Bruno Retailleau, que ganhou esporas no ministério do Interior. As suas hipóteses de êxito não parecem elevadas.

Resta o "macronismo", onde quase todos parece quererem começar a esquecer o impopular Macron. Édouard Philippe, o primeiro chefe do governo de Macron, está já no terreno, mas pode ter de concorrer com Gabriel Attal, um jovem ambicioso que foi um efémero primeiro-ministro.

À distância de mais de um ano, todas as sondagens apontam para uma vitória de um dos candidatos da extrema-direita. Mas a embaixada francesa em Lisboa deve ter contado a Paris a triste sina do favorito almirante e do esforçado corredor de longo curso Marques Mendes.

Epstein

No caso Epstein, há uma data a reter: 2005. Foi nesse ano que Epstein foi pela primeira vez acusado. Assim, quem privou com ele a partir desse ano tinha obrigação de saber com quem lidava. Para enquadrar a imensa correspondência dele que por aí anda, é importante saber isso.

Capa


Reconheço que este ministro é uma figura irritante mas, a menos que haja provas de que favorece ilegitimamente o cunhado, com que direito lhe fazem uma capa destas?

Os novos "gillet jaunes"

Nestas crises, irrita-me a imagem de gente que anda pelos locais afetados vestida com coletes, "a armar" a operacional, quando são tudo menos isso e, muitas vezes, só lá vão para aparecer.

Silêncio

Há muitos anos, foi nomeado um qualificado quadro de um banco para a chefe do órgão de cobrança de impostos. Caiu o Carmo e a Trindade pelo imenso salário atribuído: como é natural, a pessoa não quis ganhar menos do que antes ganhava. A escolha foi um êxito. Seguiu-se silêncio.

E estamos nisto!

O governo nomeou um antigo autarca, ao que parece alguém que sabe levar as coisas à prática, para os trabalhos de reconstrução, depois da intempérie. Na imprensa, a notícia é o salário que vai receber. A inveja e a mesquinhez, que alimentam o populismo, estão sempre bem servidas.

Jaime Nogueira Pinto


Jaime Nogueira Pinto completa hoje mais uma década de vida. Há mais de cinquenta anos que somos amigos. Na política, como sabem aqueles a quem interessa saber, andámos sempre - e continuamos a andar - por margens bem diferentes. Isso nunca impediu que nos “frequentássemos” em todas as conjunturas, e algumas não foram nada fáceis, cultivando muitos gostos comuns, rindo e ironizando sobre tantas coisas em que convergimos merecer essa atitude partilhada.

Um dia, atravessei o Atlântico para vir apresentar um livro seu. Há pouco mais de dois anos, ele falou no lançamento de um volume que publiquei. O Jaime e eu, que um dia nos conhecemos vestidos de verde, no tempo militar pré-Abril, nunca tivemos uma discussão, por mais ligeira que fosse. Nos dias que correm, partilhamos até um podcast semanal, onde nos divertimos a conversar sobre o quotidiano e tudo o que nos vem à ideia.

Por essas infelizes coincidências que a vida social nos traz, não poderei estar hoje nesta sua festa. Prometo que daqui a dez anos não faltarei. E ele fica desde já publicamente convidado para o meu centenário — antes que me esqueça.

A desgraça de Mandelson


Peter Mandelson foi uma das figuras políticas mais talentosas do Reino Unido. Membro dos governos de Tony Blair e Gordon Brown, exerceu forte influência durante essa era trabalhista antes de entrar para a Câmara dos Lordes em 2008. Durante quatro anos, ocupou o exigente cargo de Comissário Europeu do Comércio.

Em fevereiro de 2025, foi nomeado embaixador britânico nos Estados Unidos pelo primeiro-ministro Keir Starmer. Porém, apenas sete meses depois, em setembro, foi demitido quando se comprovou a sua embaraçosa proximidade com Jeffrey Epstein, o pedófilo americano encontrado morto na prisão e cujas ligações continuam a comprometer diversas personalidades.

Recentemente, surgiram revelações ainda mais graves envolvendo Mandelson. Alegadas fugas de informação económica sensível, ocorridas durante o seu tempo em Downing Street, podem ter sérias consequências judiciais. Num curto espaço de tempo, Mandelson viu-se forçado a abandonar o Partido Trabalhista e a renunciar ao seu lugar na Câmara dos Lordes. Embora mantenha o título de Lord Mandelson, nos dias que correm o Reino Unido refere-se a ele com nomes bem menos lisonjeiros.

terça-feira, fevereiro 03, 2026

Paris homenageou Mário Soares



Colocar o nome de Mário Soares na toponímia de Paris foi uma decisão bela e justa. Paris era uma das cidades da vida de Soares. Viveu lá grande parte do seu exílio, cultivou ali grandes amizades e visitava a capital francesa sempre que podia. Em Paris, sentia-se em casa.

Apreciava o Hotel Lutèce, as livrarias, os jantares no Lipp. “Nunca me convenci com essa teoria do meu amigo de que se deve dizer ‘le Lipp’ e não ‘la Lipp’”, repetia-me sempre.

Nuremberga

Ontem, apeteceu-me ver, na televisão, o filme "Nuremberga". Os atores eram de qualidade, o tema era apelativo. O saldo, contudo, n...