Portugal é um país do oito e do oitenta. Durante anos, por cá, atravessar uma passadeira de rua era uma aventura. Nos guias internacionais sobre Portugal, os turistas eram advertidos para os riscos em que incorriam, caso partissem inocentemente do princípio de que os automóveis parariam à sua passagem. Ainda me recordo da admiração com que, na minha juventude, se falava das "zebra crossing" das cidades britânicas, com o respeito pelos peões como marca civilizacional.
O nosso país mudou. Embora alguns energúmenos ao volante (mas também os ciclistas, que agora estão em odor urbano de santidade, que os autoriza a incomodar-nos sem consequências pelos passeios) continuem a não respeitar as passadeiras, parece cada vez mais interiorizado o salto de civilização que representa o respeito por quem atravessa, no devido lugar, as nossas ruas.
Mas, em Portugal, com facilidade se passa de um extremo ao outro. Na generalidade dos países desenvolvidos, quando um peão pretende atravessar uma passadeira, há um anúncio físico dessa pretensão, seja por um assomar cuidado à rua, seja mesmo por um sinal de mão. E há, em geral, alguma delicadeza perante o facto do automobilista ter de abrandar ou parar, sendo vulgar que a travessia pedonal se faça tendo em atenção o facto do movimento das viaturas ser mais difícil de suspender do que o estacar, por um ou dois segundos, por parte do peão.
Entre nós, não senhor! Qualquer pessoa acha que o simples assomar, em passo sereno, mesmo sem olhar para quem vem, deve obrigar ao estacar imediato dos automóveis. E vemos cidadãos em conversa ao telemóvel, descuidados, outros arrastando-se com visível pesporrência, olhando, sobranceiros, os automobilistas. Outros ainda, à conversa mole, às vezes parando a meio para sublinhar um argumento. E cada vez se veem mais jovens a proceder assim.
Volto ao que disse no início: entre nós é o oito ou o oitenta. Ou melhor, pouca gente compreende que há sempre deveres, pelo menos cívicos, a respeitar por parte daqueles que têm direitos.
