quinta-feira, julho 28, 2011

Pélvico

Fora simpática a iniciativa daquele embaixador português, numa certa capital europeia, de oferecer um cocktail de despedida ao colega que estava acreditado junto de uma organização internacional, na mesma cidade, e que ia regressar a Lisboa. Algumas dezenas de amigos tinham sido convidados para a ocasião, que tinha muito de genuína, porque os dois diplomatas tinham, de facto, uma saudável e boa relação entre si.

Chegada a hora dos discursos, o dono da casa foi pródigo em elogios ao colega que partia, sublinhando, com ênfase, a ligação de amizade e grande simpatia que mantinham. O que ninguém estava à espera é que, no entusiasmo das palavras, lhe tivesse saído, a certo passo, a afirmação: "Nós os dois temos uma proximidade pélvica!".

A sala estacou de surpresa. Que diabo?! "Uma proximidade pélvica"? O homenageado cofiou a barba e manteve o sorriso, nesse momento já um pouco mais amarelo, evitando olhar para os circunstantes, muitos dos quais abafavam risadas e trocavam divertidos e surpreendidos olhares. Com o prosseguimento do discurso, o efeito da expressão foi-se diluindo e, fixada que fora a estranheza pela frase, a maioria dos presentes como que esqueceu o episódio.

No dia seguinte, porém, um dos diplomatas da casa, mais ousado e próximo do embaixador, não resistiu a perguntar-lhe: "O senhor embaixador desculpará, mas ontem, na receção, não percebi bem o que quis significar, ao dizer que tinha uma "proximidade pélvica" com o seu homenageado".

O embaixador olhou-o do alto dos seus óculos grossos, com a cara grave habitual, que não significava zanga mas era apenas um estilo, e esclareceu: "Não percebeste? Essa agora?! Quis dizer que nós tínhamos uma grande ligação, que sentíamos as coisas na pele da mesma forma, uma proximidade "pélvica", de pele...

Realmente, a língua portuguesa é muito traiçoeira. 

6 comentários:

  1. «"Pélvica", de pele», tenhamos que convir ser, pelo menos, original...
    Vá lá podia ser pior, se tivesse utilizado "púbica", que também não anda longe!
    São os actos falhados, Senhor Embaixador. Acontece a todos...

    ResponderEliminar
  2. Será que a lingua é traiçoira?

    Atualmente tudo é possivel, vai saber.

    Abraço

    ResponderEliminar
  3. Anónimo08:15

    Por outro lado, há de facto quem rompa protocolos espontaneamente não só nas cadências do léxico como nas variantes de proximidade...

    Mas permita-me senhor Embaixador, eu gostei imenso da perspetiva anatmofisiológica do Senhor(...)Aliás a primeira impressão foi de dar à luz...
    IsabelSeixas

    ResponderEliminar
  4. Pensando bem, dizer que se tratava de uma proximidade epidérmica seria um tanto superficial...

    ResponderEliminar
  5. Não há outra casa como esta. Absolutamente deliciosa!

    ResponderEliminar
  6. Anónimo23:26

    Cara Helena,

    Ri-me com o seu primeiro comentário e subscrevo o segundo.

    Isabel BP

    ResponderEliminar

Nervos de protocolo

   O jantar era de Estado, com todo o cerimonial que daí decorria, segundo o protocolo local. Eu acompanhava o presidente Jorge Sampaio naqu...