quarta-feira, julho 20, 2011

Despedida do trema

Anteontem, falou-se aqui do Acordo ortográfico. Hoje vou falar do trema.

Há muito que, em Portugal, o trema - esses dois pontinhos sobre certos "u", para obrigar a pronunciá-los isoladamente - deixou de existir. Mas, no Brasil, só agora, com a implementação do Acordo Ortográfico (é verdade, no Brasil também mudam algumas coisas...), o trema vai desaparecer. E, nesse país, resolveu despedir-se com uma bela carta, que me chegou e que reproduzo:

Estou indo embora. Não há mais lugar para mim. Eu sou o trema. Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüíferos, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüenta anos. Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente estou fora. Fui expulso para sempre do dicionário. Seus ingratos! Isso é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes!... O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio...  A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima dela. O dois pontos disse que eu sou um preguiçoso que trabalha deitado enquanto ele fica em pé. Até a cedilha foi a favor da minha expulsão, aquele C cara de pau que fica se passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra. E também tem aquele obeso do O e o anoréxico do I. Desesperado, tentei chamar o ponto final para trabalharmos juntos, fazendo um bico de reticências, mas ele negou, sempre encerrando logo todas as discussões.... A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K e o W, "Kkk" pra cá, "www" pra lá. Até o jogo da velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de Twitter, que aliás, deveria se chamar TÜITER. Chega de argüição, mas estejam certos, seus moderninhos: haverá conseqüências! Chega de piadinhas dizendo que estou "tremendo" de medo. Tudo bem, vou-me embora da língua portuguesa. Foi bom enquanto durou. Vou para o alemão, lá eles adoram os tremas.E um dia vocês sentirão saudades. E não vão agüentar!... Nós nos veremos nos livros antigos. Saio da língua para entrar na história. Adeus, 
TREMA

28 comentários:

  1. Belo.
    E, com um sorriso, diga que não lhe faz lembrar a sina de um certo veículo com volante à direita...
    Nas entrelinhas da graça bailam as lágrimas da nostalgia.
    Não existe consolo senão aqui:
    http://www.youtube.com/watch?v=MfDmUk7ie6s&feature=player_embedded

    ResponderEliminar
  2. Anónimo00:32

    Afinal a nostalgia também paira do outro lado do Atlântico!

    Fiquei um pouco mais satisfeita por saber que no português do Brasil também se verificam alterações... há a ideia que são mais significativas para o lado de cá.

    Isabel BP

    ResponderEliminar
  3. Cara Estrela N: Produtos Estrela?

    ResponderEliminar
  4. Maravilhosamente lembrado! (não me havia ocorrido...).
    O mundo é, deveras, pequeno.
    :)

    ResponderEliminar
  5. Anónimo01:00

    Olá,esse texto é de autoria de Lucas Nascimento da Silva saiu na edição n°16 da revista Offline.

    ResponderEliminar
  6. É verdade que esta coisa existiu mesmo durante 450 anos?

    ResponderEliminar
  7. Sou adepto do trema, que tanta falta faz em Portugal para, por exemplo, impedir que os locutores de notícias (a.k.a. jornalistas) digam "sekestro" em vez de "sequestro"...
    Além do mais, já Fernando Pessoa se insurgira contra a reforma ortográfica que eliminou, na altura o Y (que tanta falta lhe fazia para dizer que "o mytho" é o nada que é tudo), mas não tenho a certeza se o trema caiu também nessa altura.

    ResponderEliminar
  8. Parabéns a Lucas Nascimento da Silva!
    Texto formidável.

    ResponderEliminar
  9. Concordo inteiramente com Nuno Santos Silva.
    Na fonia o trema era e é necessário.
    Eu, com o 25 de Abril, perdi um Y e um trema.
    Uma "revolucionária" dos Arquivos de Identificação, logo após a Revolução, decidiu, quando renovei o BI, que o meu apelido Aÿres, espanhol, teria que passar a ser Aires, porque "nós cá não temos no abcedário nem tremas nem esses y"...
    Por mais que lhe explicasse não ser um nome português, a moçoila, empenhada na nacionalização em curso, a nada se demoveu.
    E assim, aindo hoje faço luto por estas duas perdas irreparáveis!

    ResponderEliminar
  10. Não tremas, ó trema:
    não nos fazes falta.
    És como um poema
    na estante mais alta:

    depois de esquecido,
    que fazer de ti?
    És aborrecido
    e eu nunca te vi.

    Já nem uso ponto
    de exclamação:
    tua perda afronto
    sem mais emoção.

    Sem pontuação.

    ResponderEliminar
  11. Em Inglês não há acentos e a ortografia é caótica. E, no entanto, por todo o mundo se aprende a escrever e a falar a língua, sem que as pessoas façam confusões.

    Aparentemente, também nisto nós somos "especiais" e facilmente nos baralhamos...

    ResponderEliminar
  12. Anónimo17:57

    Aqui na húmida terra
    Onde o meu corpo jaz
    Os Ph, os Y, os Z...
    Que falta tudo isso me faz

    Tal é o desgosto da pena
    Que a língua vê trucidada
    Que nem a morte serena
    A alma me deixa descansada

    Oh gentes bizarras
    Que ousam inovar
    Lançando suas garras
    À arte da folha marcar

    Aqui do fundo eu grito
    O diabo que os leve!
    Escritor eu sou bendito
    Mas a minha múmia faz greve!

    Eça de Queiroz

    ResponderEliminar
  13. Anónimo00:02

    Belíssimo texto! E que só vem dar-me mais peso, digo, dar mais peso à defesa que faço do Novo Acordo. Nem tudo o que há no Brasil é oiro.

    ResponderEliminar
  14. Ah, pois não! Também deve haver incenso e mirra!

    ResponderEliminar
  15. Os meus dois primeiros livros, publicados em 1988 e 1992, resultaram de originais escritos com uma máquina de escrever comprada em França, sem os nossos acentos, que eram acrescentados ao texto a lápis.Os dezoito livros seguintes tiveram todos a vida facilitada com recurso a uma modernice que dá pelo nome de computador e esse auxílio foi de tal forma absorvido que hoje não consigo imaginar como foi possível escrever os dois primeiros. E agora, com a perspectiva de Julho passar a julho, acho que vou mesmo é continuar com a grafia actual, talvez até me sentir do tempo em que se escrevia Pharmácia... Caso para dizer que me estou a tornar conservador.

    ResponderEliminar
  16. Provavelmente já não vai ser do nosso tempo a despedida dos pontos nos iiiiis

    Mas que se afigura um bom espaço de debate(...)
    Até porque tem muito que se lhe diga sendo de importância crucial,é melhor não

    ResponderEliminar
  17. Lamentavel o atropelo ao nome aÿres. Conheço um ruy que passou a ser obrigatoriamante rui, embora recentemente tenham de novo aceitado o ruy no novo cc.
    a fobia por certas letras não usadas na nossa ortografia levou ou leva a excessos como o de se banir os k,w,y das matriculas automoveis como se elas fossem textos escritos em português e não combinações.
    os acentos são uma riqueza das linguas, exemplo o nosso ~ sobre o a ou o o. E o ^ curioso acento e bonito simbolo gráfico.

    ResponderEliminar
  18. Anónimo14:21

    Conheço um Travaços que passou a Travassos, e um que um dia foi apresentado a um Mattos, tendo este reforçado os dois tês (Mattos ! Matos com dois tês…), ao que o primeiro retorquiu que era Travassos, (Travassos ! Travassos com dois ésses… ) por obrigação e não por linhagem.

    ResponderEliminar
  19. Alcipe que haveis morto
    O meu bom nome,
    Arrecadando os tremas
    E os ípsilon,
    Nas altas estantes
    Da vida.
    Afrontando sem emoção
    Um pobre ponto de exclamação.
    Sois cruel
    Para quem,
    Como eu,
    Deles se teve de desfazer
    Por imposição revolucionária.
    O meu trema, sabeis, era Identitário,
    E o ípsilon
    Marca de origem.
    De família que se preza
    De gente que se orgulha
    Do que os seus lhe deixaram.
    Será pouco, um nome? Jamais,
    Porque louco é quem nega
    Os seus velhos ancestrais!

    Tenho dito!

    ResponderEliminar
  20. Só pra constar mas por aqui a maior parte das pessoas não vê com bons olhos as mudanças do Acordo. Achei estranho o tom que parecia querer dizer que a mudança seria impulsionada pelo modo brasileiro de escrever.

    A vida é realmente maravilhosa.

    Abraços,

    ResponderEliminar
  21. Anónimo02:44

    Um dia, tinha eu meus 6 anos, minha Avó escrevia uma carta, em que sobrepunha a "saudade" um trema. Durante curta ausência, para tratar de algum drama no fogão, aproveitei para lhe corrigir o trema sobre o u (frequentando colégio de referência na altura, seguia, obedientemente, as regras que começava a aprender). Quando a Avó regressou ao psiché onde escrevia a carta, viu a a correcção
    e logo me admoestou: "Podes saber tudo agora, mas vais ter saudade de escrever saudade com trema". E terminou com um "Ah, Meu Deus, esta criança...". Na altura não percebi se era admoestação ou elogio. Hoje, largos largos e largos anos passados, tenho saudade do trema, mas também de quem me ensinou a re-escrever. Confesso:tenho saudade do trema. Recorro, então, ao alemão, às difíceis declinações da língua, e do verbo. No fim da frase. E a Vasco Graça Moura. E a todos os que se batem contra o novo acordo ortogáfico. Que (k) saudade (tre-a-mada) tenho da Avó! 3> 3> 3> (isto quer dizer Beijo na hodierna linguagem cibernética! E depois queixam-se da(s) nota(s) negativas a Português...)

    ResponderEliminar
  22. Cara Helena, defenderei sempre os direitos de cada um aos seus y, w e k. Pensava, aliás, que nos nomes de família se era livre de seguir a ortografia da tradição de cada um. Cordialmente, Alcipe

    ResponderEliminar
  23. Que lindo, 'anónimo(a)' das 3.44!
    Também sinto muita saüdade de tudo o que me estruturou de pequena.

    ResponderEliminar
  24. ¨ ¨ ! ! ` ` ´ ´ ? ? y ~ ~ ä ÿ
    ô : : ; ; … .

    ResponderEliminar
  25. Caro Alcipe
    Também eu pensava. Mas como vê não era verdade para aquele ícone da revolução.
    Agora deixei de pertencer ao lado espanhol da família e não me reconheço nos Aires de cá...

    ResponderEliminar
  26. ahahahahah!! Bravo Patrício Branco! :)) é o que se pode chamar um comentário "sui generis" e muito bem enquadrado na situação! :))
    Quanto ao Acordo Ortogáfico vale o que custa... saudade ou nostalgia... que seja, pois temos de pensar na força que poderá ter uma união lusófona.

    ResponderEliminar
  27. Anónimo00:15

    Esta velha senhora, que sofreu, ela também, diz-mo agora, a mudança forçada do seu nome de família (de Brÿtto para Brito de C…..) aquando da reforma ortográfica de 1945, quer entrar na brincadeira da versalhice com um 'lamento de ípsilon tremado':

    ó meus velhos ancestrais
    vêde lá se perdoais
    não ter eu nunca jamais
    ípsilon tremado no nome
    mas não fui eu que o perdi
    tramaram-no foi aqui
    ao renovar-me o bi
    não é trama que se dome

    eram trema os meus dois pontos
    mais sensíveis e mais tontos
    ípsilon contava contos
    enquanto a ambos palpava
    cá de baixo todo ereto
    co'as duas pontas no teto
    'ai que as meto ai que as meto'
    eu tremia ele falava

    depois de tudo no fim
    nua assim pobre de mim
    brÿtto não - só brito sim
    que até um t me faltava
    não sei mais que faça á vida
    tão mais curta que comprida
    de tudo desiludida
    mando mas é tudo à fava.

    ResponderEliminar
  28. Ninguém tem saudades do "h" em "proibido"? E do "c" em "produto"? (este anda agora a ser novamente escrito mas acho que é mais por tolice anglófona do que por reação ao AO)

    ResponderEliminar

Histórias da hipocondria

Nunca por aqui contei aqui esta história, mas já a referi a amigos. Ocorreu há exatamente 40 anos. Tinha acabado de chegar do meu posto em A...