domingo, 27 de agosto de 2017

Vila Real - um outro Verão quente


Corria o Verão Quente de 1975. Ao final de um desses dias, uma manifestação católica, creio que em favor da liberdade religiosa, organizada por grupos de cidadãos, mas com apoio aberto de partidos como o CDS e o PPD, iria ter lugar nas ruas de Vila Real. Noutras cidades nortenhas, este tipo de iniciativas, que se sabia estarem infiltradas pelo ELP e pelo MDLP, tinham acabado por dar origem à destruição das sedes do PCP e do MDP-CDE, nalguns casos provocando feridos e até mortos. A cidade estava, assim, sob alguma tensão.

Passei pela livraria "Setentrião" e Otílio de Figueiredo, médico prestigiado e figura grada da antiga oposição democrática à ditadura, agora próximo do MDP-CDE, revelou-me a sua preocupação: "O meu amigo, que é militar, é que poderia tentar alguma coisa junto do Regimento de Infantaria 13". Eu estava de férias em Vila Real, prestes a ser desmobilizado e a entrar para o MNE, em cujo concurso de admissão tinha sido aprovado. Na "tropa", trabalhava então ainda no SDCI, uma estrutura "esquerdista" que tratava da "intelligence" do Conselho da Revolução. A minha legitimidade institucional para intervir era nula, mas a irresponsabilidade foi superior à prudência.

Comecei por visitar os três partidos da esquerda. No PS, encontrei uma grande serenidade. Estando na linha da frente do combate anti-comunista, os socialistas, embora não formalmente envolvidos na manifestação, nada temiam do seu desenrolar. O MDP-CDE, que ocupava a casa que fora da União Nacional, perto da avenida central da cidade, era uma estrutura muito vulnerável. Detetei essa fragilidade na conversa com seus responsáveis. Fria serenidade dominava o ambiente no "centro de trabalho" do PCP, na estreita rua da Misericórdia. As pessoas com quem por lá falei, caras novas para mim, revelavam determinação e vontade de resistir a qualquer assalto. À saída, numa confissão cúmplice ou de bravata, um deles disse-me: "Temos por aí umas caçadeiras de canos cortados, para o que der e vier!"

À tarde, desloquei-me ao quartel. Falei com o tenente-coronel Barros Adão, creio que então segundo-comandante, mas que chefiava a unidade. Conhecia-o da cidade, tinha uma boa relação com os meus pais, mas foi um pouco relutante em conceder-me o encontro. De facto, eu não me "enxergava": ali estava eu, apenas alferes, a querer ser interlocutor de um oficial superior e a tentar "forçar-lhe a mão". Mas eu devia pensar que, para grandes males, grandes remédios. 

Adão não participara no 25 de abril, mas tinha sido "cooptado", pertencendo agora à ala militar conservadora. Era um homem de bem, com uma missão complicada. Fiz-lhe ver, dizendo ter sobre isso informações "seguras" de Lisboa (o que era falso!), que a probabilidade de virmos a ter atos de violência nessa noite era muito elevada, pelo que se justificava, na minha opinião, que fossem colocadas algumas forças militares nas ruas, pelo menos para proteger as sedes do PCP e do MDP-CDS. Não foi nada aberto à minha ideia, dizendo que era à PSP que competia essa segurança e que, não tendo recebido instruções superiores, nada faria no sentido daquilo que eu propunha. Sugeri-lhe então, em alternativa, que, à hora da manifestação, reforçasse os piquetes da Polícia Militar que, regularmente, se passeavam pela cidade, o que sempre funcionaria como um subliminar fator de dissuasão. Sem entusiasmo, disse que ia pensar nisso. A certo ponto, para seu visível desagrado, conclui dizendo-lhe que, depois daquela minha diligência, se acaso viessem a ocorrer incidentes graves, que uma presença militar nas ruas seguramente evitaria, ele seria, de certo modo, co-responsabilizado pelo que eventualmente viesse a acontecer.  E, num ambiente gélido, despedi-me dele e de um capitão que, silencioso, o acompanhava. Chegado a casa  dos meus pais, telefonei a um quadro superior do MFA, em Lisboa, recomendando um telefonema imediato ao tenente-coronel Adão. Nunca soube se foi feito.

Para o que importa, a manifestação realizou-se sem incidentes (lembro-me da figura de Jorge Sá Borges, e talvez Vasco Graça Moura, nas primeiras linhas), a Polícia Militar foi visível pela cidade, as sedes dos partidos não foram atacadas e as tais caçadeiras do PCP, a existirem de facto, permaneceram guardadas. Quando os manifestantes entraram na avenida Carvalho Araújo, eu estava encostado à parede do antigo Hotel Tocaio e ouvi de alguns acusações de "seu comuna!" e outras "meiguices" assim. Eu não era "comuna", mas hoje percebo melhor o sentimento de quem me dirigia o epíteto. Tudo acabou em bem.

4 comentários:

Anónimo disse...

Ora, ora, grande ingenuidade ir falar com o PS. Como se fosse preciso ter lido o recente livro de Miguel Carvalho para perceber as cumplicidades entre o PS, o ELP e o MDLP. Por essa altura, Portugal ardia por conta do PS e seus aliados da extrema-direita bombista. E como dizia alguém mais abaixo por causa de Pedro IV, depois os maus eram os outros. Nada de novo, apenas modos de constituir uma lenda negra.

Anónimo disse...

Não era mas aceitava.....

Anónimo disse...


Acho curioso não se referir que tinha havido eleições na altura e qual o seu resultado... Aonde é que se voltou a ver recentemente tal ?

Anónimo disse...

29 de agosto de 2017 às 08:47,



É curioso pq? qual é exactamente a relevância para a história aqui contada ter ou não ter havido havido eleições na altura? Consegue explicar? Onde é que alterava o contado? Em quê? Em que sentido?