sexta-feira, 17 de março de 2017

A cobardia democrática


O resultado das eleições legislativas na Holanda foi visto com alívio por quantos vivem preocupados com o ascenso de uma agenda extremista em alguns países. Somos quase os mesmos que, há meses, nos congratulámos com o facto de, nas eleições presidenciais austríacas, o candidato ligado à extrema-direita ter sido derrotado. Agora, nesta corrida de obstáculos contra o radicalismo, vamos “fazer figas” contra Marine Le Pen e, depois, estaremos muito atentos às eleições na Alemanha e na Itália. 

Há, contudo, qualquer coisa de ingénuo nesta atitude. O Brexit e Trump fizeram soar alguns alarmes, por terem reforçado a ideia de que há consideráveis setores, em algumas opiniões públicas, sensíveis a alguns estímulos primários, às vezes assentes em inverdades, que levam a derivas extremadas do eleitorado.

Mas que resultado prático tem este nosso alarmismo, perante uma realidade que inexoravelmente vai avançando? É verdade que os extremistas da Áustria e da Holanda foram travados, da mesma forma que parece evidente que Le Pen não vai conseguir entrar no Eliseu e que a extrema-direita alemã dificilmente terá uma expressão significativa no Bundestag. Mas até quando?

Há algo de que poucos falam e que, a meu ver, tem uma imensa gravidade: é que algumas das forças que se vão mantendo no poder, numa conjuntural e saudada não-vitória do extremismo, fizeram entretanto uma “evolução” ideológica, com vista a capturar eleitorado potencial à extrema-direita, que se traduziu na mimetização, quiçá em termos apenas mais democráticos e aceitáveis, de aspetos da agenda extremista. Olhe-se, em França, para o discurso do partido de Sarkozy ou para algumas posições da CSU, a ala bávara da CDU alemã de Angela Merkel, para se perceber que, aparentemente sob o mesmo rótulo partidário, estamos já a falar de formações ideologicamente mutantes, ainda que de forma subliminar.

O que fazer? Desde logo, assumir abertamente que o eleitor não tem sempre razão. O revoltado preconceituoso, que assume atitudes racistas, xenófobas ou religiosamente discriminatórias, bem como discursos de extremado nacionalismo e de intolerância cultural, deve ser ouvido, mas não tem razão e não deve ser “servido” por políticas que confortem essas repugnantes ideias. Se não assumirmos isto, estaremos a dizer adeus à ética da democracia. Os líderes politicos não existem para serem apenas meras correias de transmissão dos sentimentos do eleitorado, sejam eles quais forem. Só os populistas atuam assim. Quem se preocupa com o bem-estar das sociedades e com a paz social tem a obrigação de tentar reconduzir essa revolta, através de pedagogia cívica, para a adoção de políticas de razoabilidade e de bom senso. Tentar compreender as razões que levam ao extremismo não é a mesma coisa do que ser seguidista em relação a ele. A isso chama-se cobardia democrática.

Para a semana, falaremos mais sobre isto.   

11 comentários:

dor em baixa disse...

A crença nas ideias médias não pode ser. A política dos blocos centrais não pode ser. Os extremistas não seguem essa via, basta-lhes duas ou três propostas básicas mas não médias e recolhem apoios.
Desde que a política passou a ser o arranjo e a negociação entre os que estão no poder para se manterem lá, sendo a busca do voto uma espécie de difusão e espetáculo das ideias médias, de fraco ou nulo conteúdo, a capacidade mobilizadora irá sempre decrescer. Os que estão instalados não irão ceder, ninguém labora contra si mesmo.
Esta atmosfera dos contentinhos que como tal se manifestam porque a extrema direita não ganhou é o retrato perfeito da situação.

Anónimo disse...

Ascenso emparelha porventura com recesso. Não chega porém aos pés de procedimento concursal...

Luís Lavoura disse...

Olhe-se, em França, para o discurso do partido de Sarkozy

Não é somente uma questão de discurso, nem somente do partido de Sarkozy. A França vive há quase um ano em estado de emergência, com as ruas pejadas de soldados de metralhadora em punho e dedo no gatilho (foi a descrição que tive de uma colega que vive em França). É assustador, sinistro, revoltante e medonho.

Luís Lavoura disse...

O Francisco fala do discurso de partidos, mas omite questões muito mais concretas, como a atuação recente dos governos holandês, alemão, suíço e austríaco, ao proibirem a presença de governantes turcos em reuniões políticas no seu território. Proibições que contradizem frontalmente a democracia que se deveria praticar nesses países, e que têm tudo de xenófobo. É que não se trata somente de questõe de discurso, nem somente de partidos, trata-se de atuações concretas de governos no poder.

Joaquim de Freitas disse...


Senhor Embaixador : Mas desde há muito que os políticos, quase todos os políticos, “não existem para serem correias de transmissão dos sentimentos do eleitorado, sejam eles quais forem”! Os políticos há muito que servem os altos interesses da finança internacional, das grandes empresas multinacionais, pelas leis que promulgam, leis influenciadas pelos lobbies, pela corrupção à qual sucumbem, e pelo assalto sem vergonha dos lugares no privado a partir das funções publicas.

A crise mundial, a mais grave desde os anos que precederam os fascismos na Europa, seria um resultado da mundialização, pois que o mercado é virtuoso, cíclico e livre de todo controlo do Estado, ele regular-se-ia ele mesmo após a tempestade bancária. Que grande “naiveté” …

Tentaram vender-nos esta explicação, mas na verdade, e o Senhor sabe bem disso, a concupiscência pela acumulação de bens materiais é tal no comportamento da classe politica e dos actores sociais, quaisquer que eles sejam, que ela é um leitmotiv, uma norma de conduta onde o anti-social se transforma em social.
O pobre adula o seu mestre burguês, sobre consome, aspira a viver como ele e arruína-se para isso.
A classe média precária, ela, denigra os pobres e faz fumegar a sua conta no banco.

A classe média superior é aquela que investe as suas economias nos mercados financeiros, e lustra os sapatos da classe possuidora acima dela.

Desde 2008, o crescimento económico dos países ocidentais é mole, mesmo negativa, e é em despeito duma crise incontrolável que deveríamos apertar o cinto, e aceitar de fazer ainda mais esforços para acabar com a recessão, indo procurar o crescimento com os dentes, como dizia o Sarkozy?

O reino bancário e a influência que a finança tomou sobre as instituições públicas, e sobre o mundo político, não datam de 2008. Mas é a partir desta data que impõe a sua lei aos Estados, afama, tiraniza e tetaniza o planeta.

Planeta no qual agências constituídas de homens de negócios “bien placés”, muitos sendo trânsfugas políticos dos partidos , Durão Barroso sendo um bom exemplo, se concedem o direito de decidir da solvência ou não dum país, e o degradam quando não corresponde aos seus critérios, isto é, quando o Estado não é bastante neoliberal
Os ricos contribuintes transferiram as suas rendas para os paraísos fiscais, as grandes empresas multinacionais não pagam os seus impostos ao nível devido no pais onde deviam ter a sua sede social.
E assim, pouco a pouco, o imposto proporcional repousa unicamente sobre os proletários das classes médias, enquanto que as classes abastadas pagam os gabinetes de advogados para se exonerarem.
A Humanidade encontra-se no meio do “Y” que divide a estrada em dois. Mas uma das estradas é aquela na qual marcha uma direita radical, extrema, perigosa. Esta estrada agrada aos totalitarismos, porque é aquela que permite às oligarquias benefícios exponenciais, como a supressão dos sindicatos, supressão da liberdade de expressão, ruptura dos direitos do trabalho, repressão, culto enfeudado do chefe carismático, que no fim se transforma em ditador.

A ideologia neoliberal só repousa sobre uma coisa: a propaganda da minoria que escraviza a maioria. As pessoas são cada vez mais conscientes, resistentes, por vezes militantes autodidactas face a tantas desigualdades de tratamento, cumulam a cólera silenciosa, como os pequenos brancos americanos da “Rust Belt”, vitimas das subprimes e das deslocalizações selvagens dos seus empregos par a China, o que nos deu Trump.

As pessoas não saíram das grandes escolas, mas sabem bem que se as suas facturas aumentaram, foi porque certos accionistas o decidiram arbitrariamente na sua torre de vidro.

O problema, Senhor Embaixador, é que pedir às elites de tomar em consideração a raiva das minorias que rosnam, é como explicar a um surdo que é preciso que ele ouça.

Peço desculpa pelo texto longo.

carlos cardoso disse...

Inteiramente de acordo que o eleitor não tem sempre razão e que os líderes políticos não existem para serem apenas meras correias de transmissão dos sentimentos do eleitorado.
Uma das principais razões para a subida dos políticos extremistas e populistas deve ser procurada nas atitudes dos políticos “moderados” (de esquerda ou de direita). Desde há bastantes anos que os populistas extremistas vêm dizendo, por exemplo, que a imigração traz problemas e que a solução é expulsar os imigrantes. O discurso, politicamente correcto, dos políticos “moderados” foi, durante muitos anos, o de negar que a imigração trouxesse problemas, em vez de admitir que esses problemas existiam e que eram as soluções propostas pelos populistas que eram erradas. Como os eleitores não são estúpidos viram bem quem lhes estava a mentir e passaram a votar nos que lhes diziam a “verdade”. E hoje os políticos “moderados” mimetizam aspectos da agenda extremista para tentar recuperar votos aos populistas. Não sei se se pode falar de formações ideologicamente mutantes ou se é simplesmente uma questão de táctica.
A deriva populista extremista é, em parte, uma consequência do politicamente correcto.

Anónimo disse...

A cobardia democrática acoita-se na esquerda multiculturalista que aceita na sociedade a integração (imediata) diria impossível a curto prazo,indivíduos que são governados a partir de líderes de países onde a religião é a própria instituição que governa.

É portanto natural, a indignação das pessoas, por muito esclarecidas sobre a liberdade de opinião, ver entrar pela porta dentro e pelos que lá vivem, assistir a situações provocadas por quem lhes foi dada oportunidade para serem iguais nos países onde vivem, virem morder "a mão que lhe deu trabalho e liberdade".

A Europa, foi empurrando com a barriga para a frente o problema. O petróleo dá muito jeito......

O principio da liberdade religiosa devia ser igual em todos os paises; uma mesquita, um templo hindu, templo budista,etc...

Anónimo disse...

Nunca pensei, depois de 1975, que a população teria de seguir os partidos. Será assim que se um dia um partido com muitos seguidores, numa certa época, não se adaptar ao pensamento dos seus votantes, e se não obtiver os votos necessários para ocupar lugares no parlamento tem que se conformar. A exemplo podemos indicar o PCP o qual tem muito pouca expressão real na vida politica portuguesa mas tem ainda os sindicatos como força de persuasão.
Penso que em Democracia são os votantes que decidem quem os governa. Se houver maus votantes haverá maus governos.
Isto está tudo a ser demais para a minha camionette.

Anónimo disse...

Confesso que me preocupa mais o possível ascenso de M5 ao poder em Itália e o filo russo De Martino nos Estrangeiros. Sobre isto ninguém fala e toda a gente anda a dormir.

Ana Vasconcelos disse...

Ainda hoje, no Guardian, Randeep Ramesh lembrou que a vitória de Mark Rutte foi à custa da apropriação de alguma da retórica populista de Geert Wilders. O resultado das políticas neo liberais tem gerado populismos extremistas e tem sido à custa da apropriação da retórica extremista que os responsáveis por estas políticas se têm mantido no poder. Mas há uma esquerda que se tem abstido de intervir contra esta retórica, e por isso é conivente, e outra esquerda que vai enveredando pelo mesmo populismo, e por isso é sua seguidora - por puro oportunismo eleitoral. Veja-se o caso britânico. Antes do referendo, não houve um verdadeiro debate. Os a favor do Brexit acenaram com o ódio ao não nacional, ao não cristão, ao não branco, ao 'outro', de que o alvo fácil foram os emigrantes e os refugiados, e os do lado contra acenaram com o perigo económico. Depois do Brexit, os conservadores apropriaram-se rápidamente da retórica do UKIP e os trabalhistas foram atrás. Têm havido muito poucas vozes contra a esta retórica xenófoba e discriminatória. Nick Clegg, o antigo deputy prime minister e actual membro do parlamento britânico pelo circulo de Sheffield Hallam é um deles. Mas talvez o exemplo melhor tenha sido o do partido dos verdes de esquerda na Holanda, que com a sua mensagem clara de oposição à retórica populista, xenófoba e discriminatória, foi o grande vencedor destas eleições.

Anónimo disse...

Cobardia democrática, resultados:

"Paris. Homem abatido no aeroporto de Orly depois de tentar tirar arma a militar"