terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Sempre, os livros


Tenho uma vida à volta dos livros e com livros à volta. Nasci e cresci em casas cheias deles, em férias familiares de Verão dormi por anos numa biblioteca. Contudo, li sempre muito menos do que aquilo que desejava porque faço parte de um género de leitor saltitante que, com facilidade, deixa a meio o que está a ler para passar, de seguida, a outro livro, ao qual vai acontecer provavelmente a mesma coisa. O facto de ler, preferencialmente, não-ficção ajuda a essa instabilidade e o não ter pretensões académicas auto-desculpabiliza-me. Tempos houve em que isso me angustiava, em que quase me envergonhava intimamente ao encontrar, pelas minhas estantes, alguns livros não apenas por ler mas igualmente por folhear. Coisas compradas sob um entusiasmo de momento, que "faziam falta", que alguém me dizia "imperdíveis" e que eu, descuidado, acabaria por perder. Hoje vivo lindamente com isso. Sou assim e não dou o menor passo para corrigir-me. E a prova provada de que fui inoculado com um eterno e viciante vírus dessa natureza é o facto de persistir pelo mesmo caminho, de continuar a seguir o velho lema de que só há uma coisa melhor do que ler um livro, que é comprá-lo!

Mas, há pouco, preocupei-me. Andando por ruelas de Campolide, depois de cumprimentar, numa esquina, o melhor estofador do mundo (não digo o nome, porque ele não precisa de clientela e eu preciso que ele acabe umas coisas que por lá tenho), entrei num alfarrabista que não conhecia (posso publicitar: "Ferreira & Manteigas"). Um imensidão de oferta. Há uns anos, teria saído ajoujado de coisas boas que por lá encontrei (será fácil, em Paris, comprar uma 1ª edição da "Anthologie de l'Humour Noire", de Breton?), com imensa poesia, muito apreciável na História e uma Ultramarina sem raridades mas com livros importantes. E não comprei nada! A começar por um busto da República que estava na montra e que, confesso!, funcionou como um jacobino "driver" (para utilizar um termo da "minha" indústria de retalho) para me atrair. Mas nem a nossa "Marianne" (recente demais para o meu gosto) me mobilizou! E só não saí da loja de mãos a abanar... porque levava uma pasta!

5 comentários:

Anónimo disse...

Sofro do mesmo mal, apesar de nunca ter dormido numa biblioteca.
Confesso, resguardado pelo anonimato (pronto, é assim), que levei várias vezes (demasiadas) de férias um certo livro do kant, convencido que o descanso me permitiria fruir das suas delícias, graças ao meu intelecto superior. Nunca passei da página 11 de 680 (Edição Gulbenkian).
(o estofador interessa-me)

Anónimo disse...

veja

archive.org

onde por exemplo pode encontrar todos os tomos do vocabulario portuguez latino do bluteau

https://archive.org/search.php?query=bluteau

ou quase qualquer outro livro ja publicado

... não é bem o mesmo que um alfarrabista, onde ha o acaso...

cumrpimentos





Francisco Baptista disse...

Bom dia,

Por "motivos de agenda" da vida tomei, há já muitos anos, a resolução de, nos romances e outra ficção, ler sobretudo autores mortos e o resultado tem sido excelente a nível de aproveitamento do tempo e riqueza das leituras. Confesso que, de vez em quando e por curiosidade, leio "novidades" (mas cada vez menos).

Boas leituras!

Anónimo disse...

Falando em livros, por estes dias ando a ler "Zoo Humano" de Desmond Morris, Um livro de 1969.

iseixas disse...

Claro! Mas o Sr. Embaixador não se pode esquecer que também já é um livro per si.