domingo, 2 de novembro de 2014

Vantagens do Halloween

 
Por algum tempo, vivi num prédio de apartamentos em Nova Iorque. Era um edifício de gente muito rica. Alguma saía de casa para o heliporto, para ir trabalhar. Nos melhores fins de semana, muitos partiam para os Hamptons ou para Martha's Vineyard, destinos de vilegiatura preferidos pela mais afluente burguesia americana, novaiorquina e não só. O meu estatuto de embaixador era uma garantia para ser aceite, embora ser representante diplomático de um país como Portugal não fosse necessariamente um "label" de prestígio. Com a família do meu colega esloveno, creio que éramos os únicos (verdadeiros) estrangeiros naquele prédio do Upper East Side de Manhattan. Aceites, mas sempre estranhos.

O primeiro grande choque que sofri, habituado a um mundo normal e iludido com a ideia da cordialidade natural (e, às vezes, até intrusiva) dos americanos, foi a relutância com que a maioria dos vizinhos respondia a um simples "Good morning!", à entrada da casa ou nos elevadores. As mais das vezes, não se lhes conseguia arrancar mais do que um simples "Hi!" e um esforçado esgar. Com o tempo, lá fomos conquistando uns sorrisos e, aqui ou ali, íamos já trocando algumas palavras, sobre o tempo ou sobre a neve e o tráfico.

Um dia, chegou o Halloween. Pela entrada do prédio, junto ao batalhão rotativo de porteiros que, 24 sobre 24 horas, asseguravam a segurança e permitiam o acesso aos andares (nos elevadores, o botão do nosso andar não funcionava antes de ser desbloqueado pela portaria), andavam crianças mascaradas, numa algazarra que humanizava aquele espaço impessoal. Ao final do dia, creio que pelo telefone, recebemos um pedido da portaria para que essas crianças pudessem ir ao nosso andar, para receberem, como era tradicional, rebuçados, bolos e coisas assim. E lá nos surgiu, arvorando máscaras e trajes do período, um bando alegre de miúdos, regalado com as ofertas que lhes fizemos. Por umas horas, o ambiente do prédio mudou.

Nas semanas seguintes, essa miudagem, quando se cruzava connosco na entrada ou no elevador, enchia-nos de "Hi!' e de "Hello!", abrindo o fácies snobe de alguns dos pais, muitos dos quais passaram a trocar, de modo sorridente, os "Good morning!" e os "How are you today?", dando finalmente um ar da sua graça. Vantagens do Halloween!

7 comentários:

ignatz disse...

gosto mais daquela estória do hallogénio, esfrega-se a lamparina e vai-se direito ao assumpto.

patricio branco disse...

um novo vizinho, ainda desconhecido, vai aos poucos tornando-se familiar e a cordialidade e boa vizinhança começa a instalar-se. e o halloween ajudou a acelerar a estabilização. será isso?
há países onde as pessoas que estão na mesa ao lado no restaurante saudam quando chegamos e nos sentamos ou quando nos vamos ou se vão elas. Noutros os vizinhos de mesa ignoram-se.
e nos predios onde vivemos em portugal? no meu há de tudo.

Anónimo disse...

Não sabia que poderia haver ostracismo a esse nivel elevado!
Mas nos prédios baixinhos do champigny português nem Halloween lá chegava.
José Barros

Joaquim de Freitas disse...

Que diabo ! Há que se distinguir do comum dos mortais, não ? Quando se pertence a uma elite o comportamento deve ser diferente. Senão seriamos todos Portugueses ou ... Eslovenos !

E ainda bem que é só no elevador ou no hall dum edifício, porque se fosse na política, toda forma de desprezo de outrem prepara ou instaura o fascismo. E nos EUA é um passo que se dá facilmente.

Anónimo disse...

"tráfico"? Mas essa gente era traficante de droga?!

Madalena Amaral disse...

Ao menos neste prédio" Xpto" diziam "hi". No meu onde vivo, algures no continente português, não tenho razões de queixa por falta de cordialidade dos meus vizinhos, muito p´lo contrário! Mas sei quem se queixe da vizinhança que encontra nas entradas dos prédios, por exemplo, e nem dão nem ai nem ui para ninguém... Impressionante!...

Pedro disse...

"Com o tempo, lá fomos conquistando uns sorrisos e, aqui ou ali, íamos já trocando algumas palavras, sobre o tempo ou sobre a neve e o tráfico."

Por aí, por essas alturas, como iria o tráfego do tráfico?
Denso? Intenso? Moderado? "Engarrafado"?
:)
Não resisti :)
Interessante que no Dicionário da Priberam, "Tráfego" é definido como "1. Tráfico, negócio, comércio, trato mercantil.", mas já não ocorre o inverso.

Relacionado ou não: em 1988, em Nova Iorque, eu e a minha mulher estamos a ir do hotel para o aeroporto; o hotel coloca-nos num shuttle com outro hóspede; no caminho tento conversar com a pessoa; pergunto o que faz; resposta: "I am a drug dealer"; o resto do caminho fez-se em silêncio; hoje penso que o senhor não gostava de conversar :)